Talvez nenhum versículo da Bíblia seja tão conhecido — e ao mesmo tempo tão frequentemente transformado em slogan — quanto João 3:16:
Em muitos ambientes cristãos, o texto acaba sendo resumido de uma maneira que diz mais do que o próprio versículo afirma: Deus amaria todas as pessoas exatamente da mesma forma, manteria com todas a mesma relação e desejaria para cada indivíduo exatamente aquilo que deseja para qualquer outro. Em formas ainda mais diluídas dessa ideia, a frase “Deus é amor” passa a significar que Deus necessariamente deve aprovar, validar ou tolerar indefinidamente aquilo que suas criaturas escolhem fazer.
A Escritura apresenta uma realidade muito mais rica. Deus é verdadeiramente bondoso até para com pessoas que o rejeitam. Sustenta-lhes a vida, concede-lhes alimento, inteligência, amizades, alegrias e inúmeros outros bens; restringe parte dos efeitos do pecado e suporta pecadores durante períodos que eles não poderiam exigir. Ao mesmo tempo, a mesma Bíblia fala de ira, juízo, rejeição, endurecimento e de um amor redentor particular por aqueles que estão unidos a Cristo.
Essas afirmações não precisam ser colocadas umas contra as outras. O problema aparece somente quando utilizamos uma delas para apagar as demais.
Deus é verdadeiramente bom e misericordioso para com suas criaturas, inclusive com pecadores impenitentes. Isso, porém, não significa que mantenha com todos a mesma relação. Sua bondade providencial não é idêntica ao amor redentor pelo qual salva e une seu povo a Cristo.
Antes de perguntar quem Deus ama, precisamos perguntar o que é amor
Grande parte da dificuldade contemporânea começa na própria definição de amor. Em nossa cultura, amar frequentemente é tratado como sinônimo de aprovar. Se alguém ama outra pessoa, supõe-se que não deveria julgar negativamente suas escolhas, confrontar seus desejos ou afirmar que determinado comportamento é moralmente errado.
A Bíblia utiliza uma lógica diferente. Paulo escreve:
Essa relação entre amor e lei é fundamental. Se o amor cumpre aquilo que a lei moral de Deus exige, então o amor verdadeiro não pode ser separado do bem, da justiça e da santidade. Um Deus que chamasse assassinato, opressão, abuso, mentira ou idolatria de coisas moralmente indiferentes não seria mais amoroso por isso. Seria menos justo.
Deus, portanto, não precisa abandonar sua santidade para amar. Deus ama santamente. Sua misericórdia não é cumplicidade com o pecado; sua paciência não transforma o mal em bem; sua compaixão não cancela sua justiça.
Deus realmente é bom para os ingratos e maus
Reconhecer essa santidade não significa reduzir a relação de Deus com os pecadores a uma sequência ininterrupta de punições. Jesus ensina exatamente o contrário:
Em Lucas, Cristo utiliza linguagem ainda mais direta:
A afirmação deve ser recebida em toda a sua força: Deus é benigno até para com os ingratos e maus. Isso significa que uma pessoa não precisa estar reconciliada com Deus para experimentar inúmeros efeitos de sua bondade providencial.
Paulo aplica essa realidade até mesmo a pagãos que ainda estavam envolvidos com idolatria. Em Listra, ao impedir que a multidão sacrificasse a ele e Barnabé, declarou que Deus não havia deixado as nações sem testemunho de sua bondade:
Paulo não diz simplesmente que Deus permitiu a existência daqueles homens. Diz que lhes fez bem. A chuva, as colheitas, o alimento e a alegria aparecem como dádivas provenientes de Deus.
Isso significa que até o homem que não adora corretamente seu Criador vive cercado por benefícios que não produziu autonomamente. Respira, pensa, aprende, constitui relações, desfruta beleza, desenvolve capacidades intelectuais e artísticas e participa de uma ordem criada que continua funcionando apesar da queda.
Essa bondade é real. Não precisamos negá-la para defender eleição ou juízo.
A teologia reformada chama grande parte disso de graça comum
A expressão graça comum foi utilizada na tradição reformada para descrever determinadas operações e benefícios divinos que não possuem caráter salvador, mas são experimentados também por pessoas que permanecem fora da comunhão redentora com Cristo.
Louis Berkhof explica que a doutrina procura responder a uma questão evidente: se toda humanidade está caída, como ainda encontramos no mundo ordem social, conhecimento, realizações artísticas, relações familiares, virtudes civis e diversos reflexos do verdadeiro, do bom e do belo?1
Berkhof inclui nessa discussão tanto a restrição de determinados efeitos do pecado quanto bênçãos como chuva, alimento, abrigo e outros benefícios concedidos indiscriminadamente em diferentes medidas.2
“Comum”, nesse uso, não significa vulgar ou sem importância. Significa que tais benefícios não pertencem exclusivamente aos regenerados.
| Ação ou benefício | Pode alcançar não convertidos? | É salvação? |
|---|---|---|
| Preservação da vida | Sim | Não |
| Sol, chuva, alimento e prosperidade temporal | Sim | Não |
| Capacidades intelectuais e artísticas | Sim | Não |
| Contenção parcial do pecado | Sim | Não |
| Ordem civil e relações sociais | Sim | Não |
| Regeneração | Não universalmente | Sim |
| Justificação | Não | Sim |
| Adoção em Cristo | Não | Sim |
| União salvadora com Cristo | Não | Sim |
| Perseverança até a glória | Não | Sim |
A distinção não significa que Deus seja bom apenas de maneira aparente para alguns e realmente bom para outros. A bondade providencial é verdadeira. O que ela não é, por si mesma, é reconciliação.
Bondade não é a mesma coisa que reconciliação
Romanos 2 apresenta as duas realidades lado a lado. Paulo pergunta ao pecador:
As palavras são importantes: bondade, tolerância e longanimidade. O destinatário ainda não é descrito como uma pessoa reconciliada. Trata-se justamente de alguém que está abusando da paciência de Deus.
Por isso, Paulo imediatamente acrescenta:
A mesma pessoa pode, portanto, receber benefícios reais de Deus e permanecer sob condenação. A paciência divina oferece tempo, contém o julgamento imediato e deveria conduzir ao arrependimento; quando é desprezada, porém, não se transforma retroativamente em aprovação.
Bondade não é necessariamente reconciliação. Paciência não é aprovação. Benefício temporal não é justificação. A graça comum não deve ser confundida com a graça salvadora.
A ira de Deus não contradiz seu amor
É justamente aqui que alguns textos bíblicos costumam desaparecer de apresentações sentimentais sobre Deus. A Escritura não fala somente de Deus odiando abstratamente o conceito de pecado. Em diversos lugares, sua oposição é descrita em relação às próprias pessoas enquanto permanecem identificadas com sua iniquidade.
O Salmo 11 acrescenta que a alma do Senhor abomina aquele que ama a violência, enquanto o Salmo 34 afirma que o rosto do Senhor está contra os que praticam o mal.
Esses textos não descrevem em Deus as paixões pecaminosas que caracterizam o ódio humano. Deus não sente inveja, não possui orgulho ferido, não perde o domínio de si e não deseja vingança por ressentimento. Sua oposição ao mal é perfeitamente santa, racional e justa.
Por isso, a ira divina não é uma falha no amor de Deus. Um Deus que permanecesse moralmente indiferente diante de abuso, crueldade, idolatria, mentira e assassinato não seria mais amoroso. Seria injusto.
João 3:16 deve ser lido dentro de João 3
É nesse ponto que podemos voltar ao texto principal sem fazê-lo dizer menos — ou mais — do que realmente diz.
Não há necessidade de reduzir a palavra mundo a uma referência simples aos eleitos. Sinclair Ferguson observa que o termo pode ser entendido justamente como este mundo caído que se levantou contra Deus, além de destacar a ampliação da salvação para além das fronteiras de Israel.3
John Tweeddale, recorrendo também à conhecida exposição de B.B. Warfield, chama atenção para outro aspecto importante: o espanto de João 3:16 não está em um mundo tão valioso que obrigasse Deus a amá-lo, mas em um mundo tão caído que torna extraordinária a manifestação do amor divino.4
Assim, a leitura reformada não precisa reescrever o versículo como “Deus amou apenas os eleitos”. O texto diz mundo, e há razão teológica para preservar essa força.
O mundo é precisamente a humanidade caída, hostil e indigna de exigir salvação. Deus demonstrou amor ao enviar seu Filho para esse mundo.
Mas João 3:16 não diz que todos possuem exatamente a mesma relação com Deus
Ao mesmo tempo, não podemos transformar o amor pelo mundo em uma afirmação de que toda pessoa individual possui exatamente a mesma relação com Deus.
O próprio capítulo impede essa leitura.
João 3 contém amor e ira. O mesmo evangelista que apresenta a dádiva extraordinária do Filho encerra o capítulo distinguindo aquele que possui vida daquele sobre quem permanece a ira.
Portanto, seja qual for nossa interpretação detalhada de “mundo”, uma conclusão é impossível: João 3:16 não ensina que Deus se relaciona salvificamente com todos de maneira idêntica.
R.C. Sproul expressa essa distinção dizendo que há um sentido de benevolência divina que alcança o mundo, sem que isso signifique que Deus ame todas as pessoas exatamente da mesma maneira ou que todos desfrutem de seu amor redentor.5
O amor pelo mundo também destrói uma leitura étnica estreita da salvação
Há outro aspecto decisivo em João. A vinda de Cristo não estabelece uma salvação restrita a Israel segundo a carne.
O Filho veio ao mundo, e sua obra reúne pessoas de diferentes povos. João mais tarde fala de Jesus morrendo para reunir “em um só corpo os filhos de Deus, que andam dispersos” (João 11:52). A expansão missionária do evangelho deixa claro que a salvação não pertence a uma única etnia.
Por isso, podemos dizer que Deus ama o mundo sem concluir que cada indivíduo recebe o mesmo amor redentor. A amplitude da missão e a particularidade da salvação não são contraditórias.
O evangelho é anunciado a todos.
Todo aquele que crê será salvo.
Mas nem todos permanecem na mesma relação com Deus.
A eleição não significa que Deus encontrou pessoas melhores
Quando a Escritura passa da bondade geral para a eleição salvadora, uma nova distinção precisa ser feita. A escolha de Deus não ocorre porque determinadas pessoas sejam naturalmente superiores às demais.
Paulo utiliza Jacó e Esaú precisamente para excluir esse raciocínio:
Alguns versículos depois, Paulo conclui:
A eleição incondicional não afirma que Deus escolheu os indivíduos mais nobres, mais inteligentes, mais piedosos ou mais capazes de produzir fé por conta própria. Afirma exatamente o contrário: a razão decisiva da escolha não está numa superioridade previamente encontrada no escolhido.
Os Cânones de Dort resumem essa doutrina afirmando que os eleitos não eram melhores nem mais merecedores do que os demais, mas pertenciam à mesma humanidade caída.6
Por isso, eleição não deve produzir orgulho. Se a diferença final está na graça, toda vanglória é excluída.
“Amei Jacó e aborreci Esaú”
É dentro dessa argumentação que Paulo cita Malaquias:
Esse contraste não significa que Esaú jamais recebeu qualquer benefício de Deus. O próprio relato de Gênesis mostra que ele recebeu vida, descendência, posses e território. A questão em Romanos 9 envolve o propósito eletivo de Deus.
Jacó recebeu uma relação pactual e uma posição dentro da linha da promessa que Esaú não recebeu. E Paulo deliberadamente exclui a hipótese de que a diferença se devesse a um mérito anterior.
A eleição, portanto, não é Deus recompensando os melhores. É Deus exercendo misericórdia.
Em Cristo, a relação realmente é diferente
A Bíblia utiliza linguagem específica quando descreve o relacionamento de Cristo com seu povo.
Jesus declara:
E promete a essas ovelhas:
Aqui já não estamos falando apenas de chuva, alimento, preservação social ou paciência temporal. Estamos diante de uma relação salvadora: Cristo redime, concede vida eterna e preserva os seus.
Essa é uma diferença qualitativa.
Deus concede verdadeira bondade a pessoas que permanecem fora de Cristo. Aos que estão em Cristo, porém, concede aquilo que nenhum benefício temporal pode substituir: redenção, justificação, adoção, santificação e vida eterna.
Graça comum não se transforma gradualmente em graça salvadora
Essa distinção também impede outro erro. A graça comum não é uma primeira parcela de salvação que, se utilizada suficientemente bem, obriga Deus a conceder regeneração.
Os Cânones de Dort rejeitam explicitamente a ideia de que o homem natural possa utilizar corretamente a chamada graça comum para gradualmente conquistar uma graça maior e finalmente chegar à salvação.7
A chuva recebida pelo incrédulo não o regenera. A inteligência não o justifica. A capacidade de realizar atos civilmente bons não o reconcilia com Deus. Os benefícios da criação tornam ainda mais evidente sua dependência do Criador, mas não substituem a obra salvadora de Cristo e a regeneração pelo Espírito.
Assim, podemos reconhecer muito bem verdadeiro, belo e útil produzido também por pessoas não convertidas sem transformar essas realizações em mérito salvador.
A paciência de Deus não é infinita no sentido de nunca julgar
É agora, depois de estabelecer essas categorias, que os grandes episódios judiciais da Escritura podem ser compreendidos com maior clareza.
O Dilúvio, Sodoma, Egito e Canaã não aparecem como exemplos de um Deus que jamais demonstrou paciência e repentinamente resolveu tornar-se hostil. Pelo contrário, em vários casos a própria Bíblia enfatiza períodos anteriores de tolerância.
Nos dias de Noé, Pedro fala da longanimidade de Deus enquanto a arca era preparada:
Gênesis, por sua vez, descreve o estágio a que chegara aquela sociedade:
A paciência foi real. O juízo também.
Uma coisa não anula a outra.
Sodoma e Canaã mostram que o juízo possui tempo determinado
Algo semelhante aparece em Sodoma. Abraão intercede, Ló é retirado e somente então ocorre a destruição. A narrativa não apresenta a cidade sendo julgada na primeira manifestação de pecado, mas também não apresenta a tolerância divina como infinita ausência de julgamento.
O mesmo princípio aparece de maneira ainda mais explícita quando Deus fala dos amorreus. Abraão é informado de que seus descendentes não tomariam imediatamente a terra porque:
A declaração mostra que a demora do julgamento não deve ser confundida com aprovação moral. Há paciência antes do juízo, e o tempo do juízo pertence ao governo de Deus.
Isso também ajuda a compreender textos posteriormente relacionados aos cananeus e aos amalequitas. Eles pertencem a momentos específicos da história da redenção e não funcionam como autorização geral para violência religiosa. Ainda assim, revelam que Deus não possui obrigação moral de permitir indefinidamente a expansão da iniquidade.
Faraó reúne responsabilidade humana e soberania divina
O relato do Êxodo apresenta outro aspecto. Faraó recebeu sucessivas advertências, testemunhou sinais extraordinários e repetidamente recusou a ordem de libertar Israel.
O texto afirma tanto que Faraó endureceu seu próprio coração quanto que Deus endureceu o coração de Faraó. Paulo posteriormente utiliza o episódio:
Isso não transforma Faraó em vítima moralmente inocente. Sua opressão e resistência eram voluntárias e culpáveis.
Ao mesmo tempo, a narrativa impede uma visão de Deus como observador passivo da história. O endurecimento também assume caráter judicial.
A série de pragas culmina na morte dos primogênitos egípcios e posteriormente na destruição do exército de Faraó. O mesmo Egito que durante gerações havia recebido chuva, alimento, vida e prosperidade debaixo da providência divina é finalmente atingido pelo julgamento.
Benefício providencial não significava imunidade judicial.
Uma das formas mais sérias de juízo é ser entregue ao próprio pecado
Nem todo julgamento bíblico aparece como Dilúvio, fogo ou queda de uma nação.
Romanos 1 apresenta algo talvez ainda mais assustador: Deus pode julgar permitindo que o homem avance na direção moral que escolheu.
Paulo repete a expressão nos versículos 26 e 28. O movimento é importante: homens rejeitam a verdade sobre Deus, trocam-na pela mentira e, judicialmente, são entregues às consequências crescentes da própria rebelião.
Portanto, receber aquilo que desejamos nem sempre é sinal de bênção. A retirada de determinados freios também pode constituir julgamento.
Jesus não apresentou seu amor como ausência de juízo
O Novo Testamento não modifica esse quadro transformando Cristo num contraponto amoroso ao Deus justo do Antigo Testamento.
O próprio Jesus que acolhe pecadores arrependidos também anuncia rejeição final.
E no discurso sobre o juízo:
O mesmo Cristo que diz “vinde a mim” também diz “apartai-vos de mim”. Não existe contradição porque o convite misericordioso ao arrependimento e o julgamento do impenitente procedem do mesmo caráter santo.
O convite do evangelho continua sendo verdadeiro para todos
Reconhecer eleição, ira e amor redentor particular não autoriza a Igreja a restringir o evangelho a pessoas que considera provavelmente eleitas.
A eleição pertence ao propósito secreto de Deus. A ordem revelada à Igreja é pregar a Cristo.
João 3:16 contém uma promessa universal em sua formulação:
todo aquele que crê não perecerá.
A Igreja não precisa acrescentar uma condição secreta à frase. Nenhum pecador que venha verdadeiramente a Cristo descobrirá depois que deveria ter permanecido longe por não estar numa suposta lista acessível apenas a Deus.
Portanto, eleição soberana e oferta sincera do evangelho permanecem juntas. Deus determina a salvação e utiliza a proclamação do evangelho como meio para chamar pecadores.
Deus não faz acepção de pessoas — e eleição não contradiz isso
A expressão bíblica “Deus não faz acepção de pessoas” também precisa ser corretamente compreendida. Ela não significa que Deus nunca faça distinções de qualquer espécie; a própria Bíblia apresenta inúmeras distinções feitas por ele. Significa que Deus não julga segundo favoritismos pecaminosos, aparência externa, riqueza, etnia ou status humano.
A eleição incondicional, longe de depender dessas vantagens, exclui todas elas.
Jacó não foi escolhido por ser moralmente superior a Esaú. A escolha precedeu suas obras.
Os eleitos não foram encontrados em estado melhor do que o restante da humanidade. Os Cânones de Dort insistem precisamente que todos estavam na mesma miséria decorrente da queda.8
Por isso, ninguém pode dizer diante de Deus: “fui escolhido porque havia em mim algo que me tornava mais digno”.
A eleição é misericórdia, não favoritismo meritório.
A cruz é o lugar onde amor e justiça finalmente se encontram
Toda essa discussão retorna finalmente à entrega do Filho em João 3:16.
Se o amor de Deus significasse simplesmente ignorar o pecado, a cruz seria desnecessária.
O Filho foi dado precisamente porque a salvação não poderia consistir em Deus fingir que a culpa não existe.
A cruz demonstra simultaneamente a gravidade do pecado e a profundidade do amor. O pecado é tão sério que exige expiação; o amor é tão profundo que Deus providencia o Salvador.
Não existe ali oposição entre justiça e misericórdia.
Existe reconciliação por meio de uma obra redentora.
O amor redentor produz aquilo que a bondade temporal não pode produzir
Podemos agora reunir as distinções feitas ao longo do texto.
| Relação | Descrição | Resultado |
|---|---|---|
| Bondade providencial | Vida, chuva, alimento, capacidades, relações, cultura e outros bens. | Benefícios temporais reais. |
| Paciência | Deus retarda o julgamento e suporta por determinado tempo o pecador. | Tempo que deveria conduzir ao arrependimento. |
| Graça comum | Restrição de determinados efeitos do pecado e concessão de benefícios não salvadores. | Ordem social, bens culturais e inúmeras dádivas da criação. |
| Juízo | Deus trata o pecado segundo sua justiça, historicamente ou no julgamento final. | Condenação justa. |
| Graça salvadora | Regeneração, fé, justificação, adoção, santificação e perseverança em Cristo. | Vida eterna. |
Não precisamos chamar tudo isso pela mesma palavra para reconhecer que procede do mesmo Deus. O erro começa justamente quando as categorias são achatadas até perderem suas diferenças.
Deus ama todas as pessoas da mesma forma?
A resposta precisa ser mais cuidadosa do que um simples “sim” ou “não”.
Se a pergunta significa “Deus demonstra verdadeira bondade para com pessoas que jamais serão salvas?”, a resposta bíblica é sim. Jesus diz que ele é benigno para com ingratos e maus. Deus faz nascer o sol sobre justos e injustos. Paulo afirma que ele fez bem aos pagãos, dando-lhes chuva, colheitas, alimento e alegria. A Escritura fala de sua bondade, paciência e longanimidade para com pecadores impenitentes.
Por isso, não é necessário criar uma imagem de Deus segundo a qual ele só concede benefícios aos eleitos e se relaciona com todos os demais exclusivamente por meio de hostilidade imediata. A providência bíblica não permite essa simplificação.
Se, porém, a pergunta significa “Deus mantém exatamente a mesma relação com todo ser humano?”, a resposta é claramente não.
O próprio capítulo de João 3 que anuncia o amor de Deus pelo mundo termina dizendo que a ira permanece sobre aquele que rejeita o Filho. A Bíblia fala do juízo sobre o pecado, da rejeição final, do endurecimento judicial e da eleição soberana.
Também fala de uma relação redentora particular em Cristo. Cristo ama a Igreja e entrega-se por ela. O Bom Pastor dá a vida pelas ovelhas. Ele lhes concede vida eterna e garante que jamais perecerão.
Essa relação não é apenas uma versão quantitativamente maior da chuva que cai sobre justos e injustos. É uma relação de salvação.
A eleição não significa que essas pessoas possuíam mérito superior. Todos pecaram. Jacó não foi escolhido por haver praticado o bem antes de Esaú. Os eleitos não são um grupo de pessoas melhores que conseguiram convencer Deus de que mereciam tratamento especial.
São pecadores alcançados por graça.
Isso significa que a resposta reformada à pergunta do título pode ser resumida desta maneira:
Deus demonstra verdadeira bondade a todas as suas criaturas e é benigno até para com os ingratos e maus. Mas a Escritura não ensina que ele se relaciona com todos exatamente da mesma maneira. Aos que estão em Cristo, Deus concede uma graça redentora e pactual que ultrapassa infinitamente os benefícios temporais da providência: ele os regenera, justifica, adota, santifica e conduz à vida eterna.
Isso também ajuda a ler João 3:16 sem diminuí-lo.
O maravilhoso não é que um mundo admirável tenha despertado em Deus um amor proporcional à sua dignidade. O maravilhoso é que Deus amou um mundo caído.
Um mundo que não poderia exigir o Filho.
Um mundo que estava debaixo de condenação.
Um mundo no qual pecadores rejeitam seu Criador.
E foi para esse mundo que Deus enviou Cristo.
A promessa permanece aberta e verdadeira:
Por isso, João 3:16 não deve ser reduzido nem a um sentimentalismo em que amor elimina justiça, nem a uma fórmula tão estreita que já não seja possível afirmar a verdadeira bondade de Deus para com o mundo.
O texto revela algo muito maior: o Deus santo e justo demonstrou amor por um mundo que não o merecia, entregou seu Filho e concede vida eterna a todo aquele que crê.
E justamente porque essa salvação é graça, ninguém que a recebe poderá afirmar que Deus lhe devia alguma coisa.
Notas
1 BERKHOF, Louis. Systematic Theology — Common Grace. Berkhof apresenta a doutrina da graça comum como resposta à permanência, num mundo caído, de ordem social e de manifestações do verdadeiro, bom e belo que não possuem caráter regenerador. Consultar texto. ↩ voltar ao texto
2 BERKHOF, Louis. Common Grace. Entre os elementos abordados estão a restrição do pecado e bênçãos gerais como chuva, alimento, abrigo e outros bens concedidos em diferentes medidas aos homens. Consultar. ↩ voltar ao texto
3 FERGUSON, Sinclair. “In John 3:16, does ‘the world’ refer to the elect or to fallen humanity?”. Ligonier Ministries. Ferguson argumenta que “mundo” não deve ser reduzido apenas aos eleitos, mas aponta para o mundo caído que se voltou contra Deus e também para a extensão da salvação além dos judeus. Consultar resposta. ↩ voltar ao texto
4 TWEEDDALE, John. “What Does ‘World’ Mean in John 3:16?”. Ligonier Ministries. O artigo apresenta diferentes leituras reformadas do termo e destaca, seguindo B.B. Warfield, a indignidade moral do mundo que é objeto da dádiva divina. Consultar artigo. ↩ voltar ao texto
5 SPROUL, R.C. “Does God love the wicked the same way He loves the elect?”. Ligonier Ministries. Sproul distingue benevolência e graça comum do amor redentor concedido aos eleitos. Consultar resposta. ↩ voltar ao texto
6 CÂNONES DE DORT, Primeiro Ponto Principal, artigo 7. Os eleitos são descritos como pessoas que não eram melhores ou mais merecedoras que as demais, mas estavam com elas na mesma miséria decorrente da queda. Consultar texto oficial. ↩ voltar ao texto
7 CÂNONES DE DORT, Terceiro e Quarto Pontos Principais, rejeição do erro V. Os Cânones rejeitam a ideia de que o homem natural possa utilizar a graça comum de forma a adquirir gradualmente graça salvadora. Consultar Cânones. ↩ voltar ao texto
8 CÂNONES DE DORT, Primeiro Ponto Principal, artigos 7–9. A eleição não é fundamentada em fé, santidade ou qualidade previamente vista no homem; fé e santidade são apresentadas como frutos da eleição. Consultar. ↩ voltar ao texto
Fontes e referências
BÍBLIA SAGRADA. Referências principais: Gênesis 6:5; 15:16; 18–19; Êxodo 7–14; 17:14; Deuteronômio 7; Salmos 5, 11 e 34; Mateus 5:45; 7:23; 25:41; Lucas 6:35; João 3:16–36; 6:37; 10; 11:51–52; Atos 14:15–17; Romanos 1–3; 5; 9; 13; Efésios 5:25; 1 Pedro 3:20.
BERKHOF, Louis. Systematic Theology. Seção sobre graça comum. Texto disponível.
CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER. Especialmente capítulos II — “De Deus e da Santíssima Trindade”; III — “Dos Eternos Decretos de Deus”; V — “Da Providência”; X — “Da Vocação Eficaz”; XXXIII — “Do Juízo Final”. Orthodox Presbyterian Church. Acessar Confissão.
CÂNONES DE DORT. Especialmente o Primeiro Ponto Principal sobre eleição e os Terceiro e Quarto Pontos sobre corrupção humana e graça. Christian Reformed Church. Acessar.
FERGUSON, Sinclair. “In John 3:16, does ‘the world’ refer to the elect or to fallen humanity?”. Ligonier Ministries. Acessar.
TWEEDDALE, John. “What Does ‘World’ Mean in John 3:16?”. Ligonier Ministries. Acessar.
SPROUL, R.C. “Does God love the wicked the same way He loves the elect?”. Ligonier Ministries. Acessar.
LIGONIER MINISTRIES. “God's Love for the World”. Estudo devocional sobre João 3:16 e seu contexto. Acessar.
CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã. Especialmente as seções relativas à providência, eleição, graça e condição humana.