A Confissão de Fé de Westminster, o Catecismo Maior e o Breve Catecismo estão entre os documentos mais importantes da tradição reformada. Pastores os utilizam para ensinar doutrina, igrejas os adotam como padrões confessionais, famílias recorrem aos catecismos para instruir seus filhos e teólogos reconhecem neles uma das exposições mais cuidadosas da fé cristã produzidas depois da Reforma.
Entretanto, existe um aspecto de sua origem que frequentemente é mencionado apenas de passagem: a Assembleia de Westminster não foi convocada por uma denominação independente, mas pelas autoridades civis. Os documentos foram debatidos e redigidos por teólogos, mas a reunião que tornou esse trabalho possível foi estabelecida pelo Parlamento inglês.1
Isso não representava uma interferência ocasional em uma sociedade organizada segundo o princípio moderno de neutralidade religiosa. A convocação correspondia a uma ordem política na qual os governantes reconheciam deveres públicos diante de Deus também em relação à religião.
O Parlamento entendia que proteger, organizar e reformar publicamente a religião cristã fazia parte de suas responsabilidades.
Westminster nasceu dentro dessa concepção, foi viabilizada por ela e produziu documentos coerentes com ela.
Por isso, sua origem levanta uma questão especialmente importante para o presbiterianismo confessional contemporâneo: como exaltar os documentos de Westminster como expressão máxima da fidelidade reformada e, ao mesmo tempo, condenar com veemência o modelo político-confessional sem o qual a Assembleia não teria existido da forma como existiu?
A Inglaterra não era um Estado laico
Para compreender a convocação da Assembleia de Westminster, é necessário abandonar por alguns momentos as categorias políticas modernas.
A Inglaterra do século XVII não entendia a religião como escolha exclusivamente privada. A Igreja da Inglaterra era uma Igreja nacional, e sua doutrina, sua liturgia, sua organização e sua relação com a Coroa possuíam consequências públicas.2
Decidir qual religião seria reconhecida não era considerado algo separado da ordem política. A religião estava ligada:
- à identidade do reino;
- à legitimidade do governo;
- à educação da população;
- à moralidade pública;
- à unidade social;
- à estabilidade política;
- à compreensão do bem comum.
Governantes, parlamentares e teólogos geralmente reconheciam que as autoridades civis estavam submetidas a Deus e deveriam promover uma ordem pública coerente com a religião cristã.
Essa convicção explica por que o Parlamento considerou legítimo convocar uma assembleia de teólogos, determinar seus trabalhos e buscar a aplicação pública de suas conclusões.
A convocação da Assembleia não foi uma exceção estranha ao sistema. Foi uma expressão direta do próprio sistema.
O conflito que antecedeu Westminster
A Assembleia de Westminster foi convocada durante um período de grave crise política e religiosa. O rei Carlos I e o Parlamento estavam em conflito, enquanto muitos puritanos consideravam que a Reforma inglesa havia permanecido incompleta.3
A Igreja da Inglaterra havia rompido com a autoridade papal, mas preservava elementos episcopais, litúrgicos e cerimoniais que muitos reformados julgavam contrários às Escrituras.
O governo de Carlos I e a atuação do arcebispo William Laud aumentaram ainda mais a tensão por meio de medidas de uniformidade religiosa, repressão aos puritanos e tentativas de impor mudanças litúrgicas.4
O conflito não envolvia apenas preferências sobre cerimônias. Tratava-se de uma disputa sobre:
- a autoridade na Igreja;
- os limites do rei;
- a competência do Parlamento;
- a forma de governo eclesiástico;
- a maneira pela qual o reino deveria confessar publicamente a religião cristã.
Em 1642, o conflito político transformou-se em guerra civil. Foi nesse ambiente que o Parlamento buscou reorganizar a Igreja nacional e promover aquilo que considerava uma reforma necessária.5
A convocação da Assembleia
Em 12 de junho de 1643, o Parlamento inglês promulgou uma ordenança convocando uma assembleia de ministros considerados eruditos e piedosos, além de membros da Câmara dos Comuns e da Câmara dos Lordes.
O título da própria ordenança deixava claro que os teólogos seriam consultados pelo Parlamento para o estabelecimento do governo e da liturgia da Igreja da Inglaterra.6
Portanto, a Assembleia não apareceu como um concílio autônomo que decidiu reunir-se por iniciativa própria.
Ela foi instituída por determinação civil e permaneceu dependente do Parlamento quanto aos assuntos que deveria examinar e à aplicação pública de suas conclusões.7
O Parlamento:
- convocou formalmente a Assembleia;
- indicou seus integrantes;
- determinou o local das reuniões;
- estabeleceu sua função consultiva;
- definiu os primeiros assuntos a serem examinados;
- encaminhou novas questões aos teólogos;
- recebeu os documentos produzidos;
- avaliou quais conclusões seriam adotadas publicamente.
Isso não significa que os parlamentares tenham escrito a Confissão ou possuíssem a mesma competência teológica dos ministros reunidos.
Os teólogos examinaram as Escrituras, debateram as doutrinas, formularam os artigos e redigiram os documentos.
Entretanto, a oportunidade institucional, o mandato público, o alcance nacional e a própria existência da Assembleia foram providenciados pelas autoridades civis.
Os teólogos foram os autores teológicos dos documentos; as autoridades civis tornaram possível a instituição que os produziu.
Humanamente falando, sem a convocação parlamentar, a Assembleia de Westminster não teria existido da forma como veio a existir.
Sua primeira reunião ocorreu em 1º de julho de 1643, na Abadia de Westminster, depois de um sermão pregado por William Twisse, escolhido como presidente da Assembleia.8
Quem participou da Assembleia?
A ordenança original nomeou 121 ministros ingleses e trinta representantes leigos do Parlamento, sendo dez membros da Câmara dos Lordes e vinte membros da Câmara dos Comuns.
Nem todos os ministros convocados compareceram, e outros foram posteriormente acrescentados.9
Os participantes pertenciam principalmente ao movimento puritano, mas não concordavam em todos os assuntos, especialmente quanto ao governo da Igreja.
Entre eles havia:
- presbiterianos;
- independentes ou congregacionais;
- homens favoráveis a uma participação civil mais ampla em assuntos eclesiásticos;
- parlamentares com interesses políticos e religiosos distintos.
Os chamados erastianos não formavam necessariamente um grupo homogêneo, mas defendiam graus variados de supremacia civil sobre decisões eclesiásticas, especialmente em questões de disciplina.10
Comissários escoceses também participaram dos trabalhos e exerceram grande influência, embora formalmente atuassem como representantes consultivos da Igreja da Escócia e não como membros votantes da Assembleia inglesa.
Entre os ministros escoceses enviados estavam Alexander Henderson, Robert Douglas, Samuel Rutherford, Robert Baillie e George Gillespie. Também foram nomeados os presbíteros governantes John Kennedy, John Maitland e Archibald Johnston de Warriston.11
A Assembleia, portanto, não era um grupo uniforme que apenas confirmou uma posição previamente estabelecida.
Seus integrantes debateram longamente temas como:
- a autoridade das Escrituras;
- os decretos de Deus;
- a aliança;
- a justificação;
- a santificação;
- o culto público;
- os sacramentos;
- o governo da Igreja;
- a disciplina eclesiástica;
- a autoridade do magistrado civil.
Os documentos resultaram de anos de debates, revisões, comissões e votações, e não de uma simples imposição parlamentar de conclusões prontas.
A Assembleia realizou mais de mil sessões plenárias, além de numerosos encontros de comissões.12
O propósito inicial foi ampliado
A primeira tarefa efetiva da Assembleia foi revisar os Trinta e Nove Artigos da Igreja da Inglaterra.
O Parlamento desejava reformar a doutrina da Igreja nacional, mas a aproximação com a Escócia ampliou significativamente o projeto.13
Em outubro de 1643, o Parlamento determinou que os teólogos passassem a discutir uma forma de disciplina e governo eclesiástico que fosse:
- mais conforme à Palavra de Deus;
- mais apta a preservar a paz da Igreja inglesa;
- mais próxima da Igreja da Escócia;
- mais semelhante às melhores igrejas reformadas.14
Essa ampliação estava relacionada à Solene Liga e Aliança, estabelecida em 1643 entre os parlamentares ingleses e os covenanters escoceses.
O pacto possuía dimensões religiosas, políticas e militares.
Os escoceses forneceriam auxílio ao Parlamento na guerra, enquanto ingleses e escoceses se comprometeriam com a preservação e a reforma da religião nos três reinos.15
A intenção era buscar maior uniformidade entre Inglaterra, Escócia e Irlanda quanto:
- à doutrina;
- ao culto;
- à disciplina;
- ao governo eclesiástico.
A Solene Liga e Aliança relacionava expressamente a reforma e a defesa da religião à honra do rei e à paz e segurança dos três reinos.
Para seus formuladores, a religião cristã, a ordem política e a estabilidade social não pertenciam a mundos independentes.16
O projeto era maior do que uma Confissão
O trabalho da Assembleia deu origem a um conjunto amplo de documentos.
Os mais conhecidos são a Confissão de Fé de Westminster, o Catecismo Maior e o Breve Catecismo, mas o projeto incluía também culto, governo, ordenação e disciplina.
Entre os principais documentos produzidos estavam:
- a Confissão de Fé de Westminster;
- o Catecismo Maior de Westminster;
- o Breve Catecismo de Westminster;
- o Diretório para o Culto Público de Deus;
- a Forma de Governo Eclesiástico Presbiteriano;
- o Diretório para a Ordenação de Ministros;
- as razões dos irmãos dissidentes e a resposta da Assembleia;
- uma versão métrica dos Salmos examinada para o culto público.
A Assembleia também iniciou a revisão dos Trinta e Nove Artigos e produziu pareceres, cartas, petições e orientações relacionadas à disciplina, à Ceia do Senhor, à ordenação e ao governo da Igreja.
O Diretório para o Culto Familiar, embora tradicionalmente publicado em algumas coleções escocesas junto aos padrões de Westminster, foi produzido e aprovado posteriormente pela Igreja da Escócia e não deve ser atribuído diretamente à Assembleia de Westminster.17
O conjunto documental demonstra que o propósito não era apenas criar uma declaração abstrata de doutrina.
Tratava-se de reformar a vida pública da Igreja, colocando doutrina, culto, governo, educação religiosa, ordenação e disciplina em conformidade com a Palavra de Deus.
A Confissão não foi concebida como documento privado
Hoje, uma confissão de fé costuma ser entendida como documento interno de uma denominação. Uma igreja decide adotá-la, outra pode rejeitá-la e o Estado permanece oficialmente afastado da discussão.
Esse não era o contexto de Westminster.
A Confissão foi elaborada para servir como padrão doutrinário público dentro de um projeto de reforma nacional.
Não foi concebida apenas para uma associação voluntária de algumas congregações, pois seu objetivo estava relacionado à Igreja do reino.
O texto da Confissão foi entregue às Casas do Parlamento em 1646. O Parlamento solicitou posteriormente que fossem acrescentadas referências bíblicas, trabalho concluído no ano seguinte.
As primeiras edições apresentavam o documento como o “humilde conselho” da Assembleia de Teólogos reunida em Westminster por autoridade parlamentar.18
Na Inglaterra, o Parlamento aprovou a Confissão em 1648 com omissões e alterações, especialmente em partes relacionadas à disciplina eclesiástica, aos sínodos, à liberdade de consciência e ao casamento.
Isso mostra que o Parlamento não se limitava a financiar ou hospedar os teólogos. Ele examinava os textos e decidia o alcance de seu reconhecimento civil.19
Na Escócia, a Assembleia Geral da Igreja adotou a Confissão em 1647, declarando-a conforme à Palavra de Deus, e o Parlamento escocês também a ratificou.
A recepção eclesiástica foi acompanhada de reconhecimento público.20
A confessionalidade não estava restrita ao espaço interno de uma comunidade religiosa.
Pretendia-se que ela orientasse a religião publicamente reconhecida nos reinos comprometidos com aquela reforma.
Como as decisões afetariam a Igreja?
As decisões da Assembleia afetariam diretamente a organização da Igreja.
O Diretório para o Culto Público deveria substituir o Livro de Oração Comum. A liturgia seria reformada segundo princípios puritanos, e o culto deveria abandonar cerimônias consideradas sem fundamento bíblico.
A pregação ocuparia posição central. Os sacramentos seriam administrados conforme a teologia reformada. A disciplina eclesiástica seria estruturada, e a ordenação de ministros seguiria novas regras.
Em 1645, o Parlamento determinou que o Diretório fosse publicado e observado, ao mesmo tempo que retirava o Livro de Oração Comum do culto público oficial.21
No projeto presbiteriano, a organização episcopal seria substituída por uma estrutura governada por presbíteros reunidos em concílios.
A formação doutrinária da população seria orientada pelos catecismos.
As congregações, portanto, não seriam deixadas para definir isoladamente sua doutrina, seu culto e seu governo.
Buscava-se uma Igreja nacional reformada, confessional e ordenada.
Como as decisões afetariam a sociedade?
A reforma da Igreja produziria consequências para toda a sociedade porque a Igreja nacional alcançava a vida pública do reino.
Os catecismos seriam utilizados na instrução religiosa, enquanto famílias, escolas e ministros participariam da formação cristã da população.
O calendário religioso, o culto dominical, os sermões e os sacramentos faziam parte da experiência social comum.
A doutrina ensinada pela Igreja moldaria a compreensão pública sobre:
- Deus;
- a autoridade;
- a família;
- o casamento;
- o trabalho;
- a propriedade;
- a justiça;
- os deveres entre governantes e governados;
- a moralidade pessoal e coletiva.
As decisões tomadas em Westminster não permaneceriam dentro de uma sala de debates.
Elas deveriam alcançar os púlpitos, as casas, as escolas e a vida pública.
A reforma da religião era vista como parte da reforma do reino, e não como reorganização privada de uma associação voluntária.
O magistrado era considerado servo de Deus
A visão política por trás da convocação partia da convicção de que as autoridades civis estavam debaixo da autoridade de Deus.
O magistrado não era considerado religiosamente autônomo, nem autorizado a governar como se Deus não existisse.
A própria Confissão de Westminster afirma:
“Deus, o Senhor Supremo e Rei de todo o mundo, ordenou os magistrados civis para estarem, sob ele, sobre o povo, para a sua própria glória e para o bem público.”
O magistrado existia sob Deus, e seu governo deveria servir à glória divina e ao bem público.
A Confissão também afirmava que os cristãos poderiam exercer legitimamente a magistratura e que deveriam manter especialmente a piedade, a justiça e a paz.
Na redação original, o capítulo 23 atribuía ao magistrado responsabilidades relacionadas à preservação da unidade e da paz da Igreja, à proteção da verdade e, em determinadas circunstâncias, à convocação de sínodos.22
Isso não significava que o governante civil recebesse o ministério da Palavra ou dos sacramentos.
O magistrado não deveria tornar-se pastor, o Parlamento não deveria administrar a Ceia e o rei não deveria exercer as chaves do Reino.
Existia distinção entre Igreja e Estado, mas não existia neutralidade entre Deus e o governo.
A Assembleia e a Confissão pertenciam ao mesmo modelo
A relação entre o sistema político e os documentos produzidos não foi apenas externa.
O Parlamento convocou a Assembleia porque reconhecia deveres religiosos no poder civil.
A Assembleia, por sua vez, produziu uma Confissão que também reconhecia deveres religiosos no magistrado.
Há, portanto, continuidade entre:
- o modelo político que convocou os teólogos;
- o mandato público recebido pela Assembleia;
- o propósito de reformar a Igreja nacional;
- a expectativa de uniformidade entre os reinos;
- a doutrina original formulada sobre o magistrado civil.
A Assembleia não foi simplesmente beneficiada por um sistema cuja legitimidade rejeitava.
Seus documentos foram elaborados dentro daquele arranjo e exprimiram uma compreensão política e eclesiástica coerente com ele.
Westminster não surgiu apesar do modelo político-confessional. Surgiu por meio dele e formulou uma doutrina que o reconhecia.
Sem esse modelo, não haveria a mesma Assembleia
Uma reunião privada de ministros poderia produzir sermões, tratados, declarações ou até uma confissão de fé.
Mas a Assembleia de Westminster não foi apenas uma reunião privada.
Seu caráter específico dependia de elementos que somente aquele modelo institucional proporcionava:
- convocação pública;
- representação ministerial ampla;
- participação parlamentar;
- cooperação com a Igreja da Escócia;
- mandato para reformar uma Igreja nacional;
- perspectiva de adoção pública dos documentos;
- aplicação ao culto, ao governo, à disciplina e à catequese;
- pretensão de uniformidade entre os reinos.
Sem esse modelo, poderia haver outros escritos reformados, outras confissões e outras reuniões eclesiásticas.
Mas não haveria a Assembleia de Westminster tal como existiu historicamente, com seu mandato, sua composição, seu alcance e sua finalidade.
E sem essa Assembleia não haveria, na forma em que foram produzidos, a Confissão de Fé, o Catecismo Maior e o Breve Catecismo que posteriormente se tornaram os grandes padrões do presbiterianismo confessional.
O modelo político-confessional não foi um detalhe decorativo da história. Foi condição institucional da própria definição confessional presbiteriana.
A tensão no presbiterianismo confessional contemporâneo
Muitos presbiterianos contemporâneos reconhecem nos documentos de Westminster uma das mais importantes expressões da fé reformada.
A Confissão e os Catecismos são:
- adotados oficialmente;
- ensinados em igrejas e seminários;
- utilizados para avaliar a fidelidade doutrinária;
- apresentados como marcas da identidade presbiteriana;
- celebrados pela precisão, equilíbrio e profundidade teológica.
Entretanto, alguns dos mesmos presbiterianos condenam com grande veemência qualquer sistema no qual o poder civil reconheça deveres públicos relativos à religião.
Essa condenação não se limita à crítica de decisões particulares, personagens ou episódios específicos.
Em muitos casos, o próprio princípio político-confessional é tratado como essencialmente estranho ou contrário à tradição reformada.
É nesse ponto que aparece uma inconsistência.
Os documentos exaltados não surgiram dentro de um sistema de neutralidade religiosa.
Não foram produzidos por uma denominação inteiramente separada do Estado.
Não foram concebidos apenas para uso privado de congregações voluntariamente associadas.
Foram produzidos por uma Assembleia:
- convocada pelo Parlamento;
- integrada também por parlamentares;
- encarregada de auxiliar na reforma da Igreja nacional;
- orientada para a uniformidade doutrinária e eclesiástica;
- destinada a produzir consequências públicas;
- coerente com uma Confissão que atribuía deveres religiosos ao magistrado.
Há, no mínimo, uma inconsistência histórica e confessional em exaltar o resultado enquanto se condena categoricamente o modelo institucional que o tornou possível e que a própria Westminster original sustentava.
Não se trata apenas de circunstância externa
Poderia parecer que o Parlamento apenas ofereceu condições materiais para um trabalho essencialmente independente do sistema político.
Mas essa descrição seria insuficiente.
O poder civil não apenas forneceu um edifício ou permitiu uma reunião.
Ele:
- criou juridicamente a Assembleia;
- definiu sua função;
- nomeou participantes;
- encaminhou tarefas;
- ampliou seu mandato;
- recebeu seus documentos;
- decidiu sobre seu reconhecimento público;
- determinou a aplicação de parte de seus resultados.
Do mesmo modo, a Assembleia não limitou suas conclusões ao interior de uma associação religiosa privada.
Seus trabalhos abrangiam a doutrina, o culto, o governo, a ordenação, a disciplina e a formação religiosa da Igreja nacional.
O caráter público e político da Assembleia não foi uma camada acrescentada posteriormente. Pertencia à sua própria constituição e finalidade.
A Westminster original apoiava essa estrutura
A tensão se torna ainda mais clara quando se considera a redação original da Confissão.
O capítulo sobre o magistrado civil não tratava a participação pública das autoridades na religião como uma anomalia.
Ao mesmo tempo que negava ao magistrado a administração da Palavra, dos sacramentos e das chaves do Reino, atribuía-lhe responsabilidades relacionadas:
- à preservação da unidade e da paz da Igreja;
- à manutenção da verdade de Deus;
- à repressão de blasfêmias e heresias;
- à reforma de corrupções no culto e na disciplina;
- à convocação de sínodos em determinadas circunstâncias.
Portanto, a estrutura que tornou a Assembleia possível não estava apenas presente na história externa dos documentos.
Ela recebeu formulação teológica dentro da própria Confissão.
A Assembleia foi convocada segundo um modelo que a Confissão original posteriormente reconheceu como legítimo e correspondente aos deveres do magistrado.
Celebrar Westminster exige reconhecer sua origem
Uma tradição confessional não pode ser compreendida apenas por suas proposições abstratas.
Também precisa ser situada nas instituições, nos conflitos e nos objetivos que permitiram sua formulação.
Celebrar Westminster significa celebrar documentos produzidos por ministros de grande capacidade teológica.
Mas significa também reconhecer que esses ministros foram reunidos por uma iniciativa pública, receberam uma tarefa relacionada à Igreja nacional e trabalharam com a expectativa de que suas conclusões alcançassem o culto, a doutrina e a vida dos reinos.
A precisão doutrinária que hoje é admirada não apareceu isoladamente da ordem política que reuniu os teólogos, sustentou seus trabalhos e lhes concedeu alcance nacional.
A confessionalidade presbiteriana definida em Westminster possui uma origem institucional inseparável do modelo político-confessional no qual foi produzida.
Conclusão
A Assembleia de Westminster foi convocada pelo Parlamento inglês.
Os teólogos discutiram, examinaram as Escrituras e redigiram os documentos, mas foram as autoridades civis que criaram a Assembleia, estabeleceram sua composição e lhe concederam um mandato público.
Seu propósito não era apenas produzir material para devoção privada.
Pretendia-se reformar:
- a doutrina;
- o culto;
- o governo;
- a ordenação;
- a disciplina;
- a educação religiosa da Igreja nacional.
Essas decisões deveriam alcançar as congregações, as famílias, as escolas e a vida pública dos reinos.
Isso aconteceu porque aquelas autoridades entendiam que possuíam deveres diante de Deus em relação à religião.
A Assembleia não surgiu apesar dessa ordem política.
Foi convocada por ela, recebeu dela sua existência institucional e trabalhou em coerência com sua finalidade pública.
A própria redação original da Confissão reconhecia deveres religiosos no magistrado civil, mantendo a distinção entre a espada civil e as chaves do Reino, mas rejeitando a ideia de neutralidade religiosa do governo.
Sem esse modelo político-confessional, não haveria a Assembleia de Westminster tal como a história a conheceu.
Sem sua convocação pública, seu mandato nacional, sua cooperação com os escoceses e a expectativa de uniformidade religiosa, não haveria o mesmo processo de formulação doutrinária.
E sem essa Assembleia não existiriam, na forma em que foram produzidos, a Confissão de Fé, o Catecismo Maior e o Breve Catecismo que hoje definem grande parte da identidade presbiteriana confessional.
O sistema político-confessional não foi apenas o cenário no qual Westminster apareceu. Foi a condição institucional sem a qual a confessionalidade presbiteriana não teria sido definida daquela maneira.
Por isso, existe uma inconsistência evidente quando presbiterianos exaltam Westminster, celebram seus documentos como ápice da fidelidade reformada e, ao mesmo tempo, condenam de forma absoluta o modelo político que tornou tudo isso possível.
A inconsistência se torna ainda maior porque esse modelo não era apenas tolerado pelos teólogos como circunstância externa.
Ele correspondia à doutrina política expressa na redação original da própria Confissão.
Westminster foi uma obra teológica realizada por ministros, mas foi também uma iniciativa pública viabilizada por magistrados que entendiam possuir deveres religiosos.
Celebrar seus resultados enquanto se condena categoricamente sua condição institucional e sua teologia política original produz uma separação que a própria história não permite sustentar.
Notas
1 A Assembleia foi criada pela ordenança do Parlamento inglês de 12 de junho de 1643, intitulada Ordinance for the Calling of an Assembly of Learned and Godly Divines, to Be Consulted with by the Parliament, for the Settling of the Government and Liturgy of the Church of England. Ver Charles H. Firth e Robert S. Rait, eds., Acts and Ordinances of the Interregnum, 1642–1660, Londres, 1911, p. 180–184. ↩
2 Sobre a condição da Igreja da Inglaterra como Igreja estabelecida e a relação entre crise religiosa e estruturas políticas do reino, ver Robert S. Paul, The Assembly of the Lord: Politics and Religion in the Westminster Assembly and the Grand Debate, Edimburgo: T&T Clark, 1985; e John Coffey, Persecution and Toleration in Protestant England, 1558–1689, Harlow: Longman, 2000. ↩
3 A insatisfação puritana com a Reforma inglesa envolvia especialmente o episcopado, as cerimônias litúrgicas, a disciplina eclesiástica e a permanência de práticas consideradas sem fundamento bíblico. Ver Patrick Collinson, The Elizabethan Puritan Movement, Oxford: Clarendon Press, 1967; e John Spurr, English Puritanism, 1603–1689, Londres: Macmillan, 1998. ↩
4 Sobre as políticas religiosas de Carlos I e William Laud e sua contribuição para a crise anterior à Guerra Civil, ver Anthony Milton, Laudian and Royalist Polemic in Seventeenth-Century England, Manchester: Manchester University Press, 2007; e Kenneth Fincham, ed., The Early Stuart Church, 1603–1642, Stanford: Stanford University Press, 1993. ↩
5 A Primeira Guerra Civil Inglesa começou em 1642, depois do colapso das relações entre Carlos I e o Parlamento. Ver Conrad Russell, The Causes of the English Civil War, Oxford: Clarendon Press, 1990; e Michael Braddick, God’s Fury, England’s Fire: A New History of the English Civil Wars, Londres: Allen Lane, 2008. ↩
6 A ordenança de 12 de junho de 1643 nomeava os ministros e parlamentares convocados, fixava o início da Assembleia em 1º de julho e declarava que seus integrantes seriam consultados pelo Parlamento a respeito do governo, da liturgia e da doutrina da Igreja da Inglaterra. Ver Firth e Rait, Acts and Ordinances of the Interregnum, p. 180–184. ↩
7 A Assembleia possuía caráter consultivo e não tinha poder independente para implementar suas conclusões. O Parlamento controlava formalmente sua pauta e recebia os documentos produzidos. Ver Robert S. Paul, The Assembly of the Lord; e Philip Schaff, The Creeds of Christendom, vol. 1, seção dedicada aos padrões de Westminster. ↩
8 A primeira sessão ocorreu em 1º de julho de 1643, na Abadia de Westminster. William Twisse pregou o sermão de abertura e exerceu a presidência da Assembleia até sua morte. Ver William M. Hetherington, History of the Westminster Assembly of Divines, Edimburgo, 1856, cap. 2; e Chad Van Dixhoorn, God’s Ambassadors: The Westminster Assembly and the Reformation of the English Pulpit, 1643–1653, Grand Rapids: Reformation Heritage Books, 2017. ↩
9 A convocação original incluía 121 ministros, dez membros da Câmara dos Lordes e vinte membros da Câmara dos Comuns. Nem todos os ministros nomeados chegaram a tomar assento, e outros foram posteriormente acrescentados. Ver Chad Van Dixhoorn, ed., The Minutes and Papers of the Westminster Assembly, 1643–1652, 5 vols., Oxford: Oxford University Press, 2012. ↩
10 As principais divergências eclesiológicas envolveram presbiterianos, independentes ou congregacionais e defensores de diferentes formas de supremacia civil sobre a disciplina da Igreja. Ver Robert S. Paul, The Assembly of the Lord; e Hunter Powell, The Crisis of British Protestantism: Church Power in the Puritan Revolution, 1638–1644, Manchester: Manchester University Press, 2015. ↩
11 A Assembleia Geral da Igreja da Escócia nomeou como comissários os ministros Alexander Henderson, Robert Douglas, Samuel Rutherford, Robert Baillie e George Gillespie, além dos presbíteros governantes John Kennedy, John Maitland e Archibald Johnston. Os escoceses possuíam voz consultiva, mas não voto formal na Assembleia inglesa. Ver Acts of the General Assembly of the Church of Scotland, sessão de 19 de agosto de 1643; e Robert Baillie, The Letters and Journals of Robert Baillie, ed. David Laing, Edimburgo, 1841–1842. ↩
12 A Assembleia realizou mais de mil sessões plenárias, além de numerosos encontros de comissões. As atas e documentos remanescentes foram editados criticamente por Chad Van Dixhoorn em The Minutes and Papers of the Westminster Assembly, 1643–1652. Ver também John R. De Witt, Jus Divinum: The Westminster Assembly and the Divine Right of Church Government, Kampen: J. H. Kok, 1969. ↩
13 A primeira tarefa efetiva da Assembleia foi revisar os Trinta e Nove Artigos da Igreja da Inglaterra. O trabalho alcançou os primeiros quinze artigos e avançou parcialmente sobre o décimo sexto antes da ampliação da pauta. Ver The Proceedings of the Assembly of Divines upon the Thirty-Nine Articles of the Church of England, publicado por autoridade parlamentar em 1647. ↩
14 Em 12 de outubro de 1643, as duas Casas do Parlamento ordenaram que a Assembleia discutisse uma forma de disciplina e governo mais conforme à Palavra de Deus, apta a preservar a paz da Igreja inglesa e a promover maior acordo com a Igreja da Escócia e outras igrejas reformadas. Ver Hetherington, History of the Westminster Assembly; e Van Dixhoorn, Minutes and Papers. ↩
15 A Solene Liga e Aliança foi aprovada pela Assembleia Geral da Igreja da Escócia em agosto de 1643 e pelo Parlamento inglês e pela Assembleia de Westminster em setembro daquele ano. O acordo estava ligado à entrada militar escocesa na guerra ao lado do Parlamento. Ver The Solemn League and Covenant, 1643; e Allan I. Macinnes, The British Confederate: Archibald Campbell, Marquess of Argyll, 1607–1661, Edimburgo: John Donald, 2011. ↩
16 O preâmbulo da Solene Liga e Aliança declara como objetivos “a reforma e defesa da religião”, “a honra e felicidade do rei” e “a paz e segurança dos três reinos”. Seu primeiro artigo compromete os signatários com a preservação da religião reformada na Escócia e a reforma da religião na Inglaterra e na Irlanda segundo a Palavra de Deus e o exemplo das melhores igrejas reformadas. ↩
17 O Diretório para o Culto Familiar foi aprovado pela Assembleia Geral da Igreja da Escócia em 1647. Embora apareça frequentemente em edições escocesas dos padrões de Westminster, não foi um documento redigido pela Assembleia de Westminster. ↩
18 A Confissão foi concluída pela Assembleia em novembro de 1646 e apresentada ao Parlamento no fim daquele ano. A Câmara dos Comuns determinou posteriormente que fossem acrescentadas referências bíblicas. O título das primeiras edições descrevia o documento como o humilde conselho da Assembleia reunida por autoridade parlamentar. Ver Chad Van Dixhoorn, ed., The Minutes and Papers of the Westminster Assembly. ↩
19 Em 1648, o Parlamento inglês aprovou a Confissão na forma conhecida como Articles of Christian Religion, omitindo os capítulos 30 e 31 e partes dos capítulos 20 e 24. Ver Philip Schaff, The Creeds of Christendom, vol. 1; e Alexander F. Mitchell, The Westminster Assembly: Its History and Standards, Londres: James Nisbet, 1883. ↩
20 A Assembleia Geral da Igreja da Escócia aprovou a Confissão em 27 de agosto de 1647, reconhecendo-a como conforme à Palavra de Deus. O Parlamento escocês ratificou a Confissão posteriormente. Ver Acts of the General Assembly of the Church of Scotland, 1647; e Acts of the Parliaments of Scotland. ↩
21 O Diretório para o Culto Público foi produzido pela Assembleia com a participação dos comissários escoceses e submetido às duas Casas do Parlamento. Em janeiro de 1645, o Parlamento determinou seu uso na Inglaterra e no País de Gales e aboliu legalmente o Livro de Oração Comum. A Assembleia Geral e o Parlamento da Escócia também aprovaram o Diretório em 1645. Ver A Directory for the Public Worship of God, edições de 1645; e Firth e Rait, Acts and Ordinances of the Interregnum. ↩
22 A redação original do capítulo 23.3 da Confissão atribuía ao magistrado civil responsabilidades relacionadas à preservação da unidade e da paz da Igreja, à proteção da verdade de Deus, à repressão de blasfêmias e heresias e à convocação de sínodos em determinadas circunstâncias. O mesmo parágrafo negava ao magistrado a administração da Palavra, dos sacramentos e das chaves do Reino. ↩