sexta-feira, 6 de outubro de 2017

A data recuada do Apocalipse (por Kenneth L. Gentry Jr.)

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Nos círculos cristãos existem duas escolas básicas de pensamento a respeito de quando João escreveu o Apocalipse. A data tardia afirma que João escreveu em 95-96 d.C., perto do fim do governo do imperador Domiciano. A data recuada propõe que João tenha escrito sua grande obra um pouco antes da destruição de Jerusalém e do templo em 70 d.C., no período entre os anos 65 e 70. Essas são as posições básicas mantidas pelos acadêmicos da atualidade.
Creio com convicção que a evidência interna do Apocalipse preconiza a data recuada. Ainda que várias linhas de evidência nos levem nessa direção, apresentarei em especial duas evidências internas que sugerem fortemente a data recuada.[1]


Primeira, quando João escreveu, o templo ainda estava em pé em Jerusalém. Sendo assim, João deve ter escrito o Apocalipse antes do ano 70. Se João o escrevesse 25 anos mais tarde, isso consistiria em um anacronismo que causaria confusão nos primeiros leitores. Contudo, em Apocalipse 11.1,2, João recebe a ordem que dá a entender que o templo ainda existia:
Deram-me um caniço semelhante a uma haste e me disseram: Levanta-te, mede o santuário de Deus, o altar e os que nele adoram. Mas deixa o pátio que está fora do santuário, não o meças, porque foi dado aos gentios. Eles pisarão a cidade santa durante quarenta e dois meses.
Isto nos mostra o “santuário de Deus” localizado na “cidade santa”. Sem dúvida a Escritura chama Jerusalém de “santa cidade” (Is 48.2; 52.1; Ne 11.1-18; Mt 4.5; 27.53). E o templo de Deus estava localizado em Jerusalém (Mc 11.11,15; Lc 4.9; At 22.17). Como poderia o público de João depreender qualquer outra coisa além de Jerusalém e do templo? Contudo, o templo foi destruído no ano 70. Assim, esta profecia deveria acontecer antes dessa data. Como consequência, confirma-se a data recuada do Apocalipse. No entanto, há mais.

Apocalipse 11.2 é um paralelo com a declaração de Jesus em Lucas 21.24:

Eles cairão ao fio da espada e serão levados cativos para todas as nações; e Jerusalém será pisada pelos gentios, até que os tempos destes se completem.

Mas deixa o pátio que está fora do santuário, não o meças, porque foi dado aos gentios. Eles pisarão a cidade santa durante quarenta e dois meses (Ap 11.2).

Com certeza Jesus se refere em Lucas ao mesmo templo existente em seus dias (Lc 21.5,20), o templo que em breve ruiria (Lc 21.6,31,32). É óbvio, então, que a escolha feita por João da profecia de Jesus demanda que ele também esteja se referindo à mesma destruição. Desse modo, João deve ter composto o Apocalipse antes do ano 70.


Segunda, quando João escreveu Nero era o imperador de Roma. Em Apocalipse 17.1-6 João apresenta a visão de uma besta com sete cabeças. Nos versículos 9 e 10 um anjo a interpreta e explica o significado da besta com sete cabeças:
Aqui está a mente que tem sabedoria: As sete cabeças são sete montes, sobre os quais a mulher está assentada; são também sete reis: cinco já caíram; um existe; e o outro ainda não veio; quando vier, deve permanecer por pouco tempo.
O anjo informa João de que as sete cabeças da besta representam sete montes e sete reis. João não seria capaz de perceber o significado duplo envolvido; portanto, o anjo o ajuda. Todos concordam que o livro do Apocalipse foi escrito em algum momento da supervisão de Roma imperial, quer antes do ano 70, quer em meados da década de 90. Quando o anjo interpreta as sete cabeças representando “sete montes”, o leitor é capaz de entender de imediato a referência às sete colinas de Roma. Há, desse modo, uma clara referência geográfica à antiga cidade de Roma.

Ademais, o anjo fornece mais lampejos de interpretação ao destacar que os sete reis representam uma sucessão de reis em vez de sete reis que reinam ao mesmo tempo: Cinco jazem no passado (“caíram”); um (obviamente o sexto) reina no presente momento (“um existe”); e o outro “ainda não veio” (o sétimo). O fato de que cinco “caíram” indica que não mais ocupam o poder e é provável que estejam mortos. O que “existe” (no tempo presente) indica que o sexto rei está no poder e reina de forma ativa enquanto João escreve. O último da série de sete reis (o sétimo, claro) “ainda não veio”, mas “quando vier, deve permanecer por pouco tempo” depois que o sexto sair de cena. Quem são os sete reis sucessivos?

Pelo fato de os sete montes (as sete Colinas de Roma) também representarem os sete reis, deve se esperar que os sete reis dissessem respeito ao governo romano. Portanto, o anjo informa João de que eles pertencem ao Império Romano. De forma bem específica, eles são os primeiros sete imperadores relevantes para o público originário de João.[2] 
Júlio César (49-44 a.C.), Augusto (31 a.C.-14 d.C.), Tibério (14-37 d.C.), Gaio (37-41 d.C.), Cláudio (41-54 d.C.), Nero (d.C. 54-68) e Galba (junho de 68-janeiro de 69 d.C.).[3] 
O triunfo militar de Júlio César persuadiu Roma a deixar de ser uma República, e estabeleceu os fundamentos para a estruturação da Roma imperial.

Augusto estabeleceu Roma como império de modo firme e formal, e assegurou a pax romana. Ele era o imperador quando Jesus nasceu (Lc 2.1). Quando Jesus foi crucificado, Tibério era o imperador (Lc 3.1). Cláudio é um dos imperadores contemporâneos de Atos (At 11.28) e o responsável pelo banimento dos judeus (e, portanto, dos cristãos) de Roma (At 18.2). Nero é o imperador a quem Paulo pede proteção dos judeus (At 28.19), mas que mais tarde se tornaria o primeiro perseguidor da igreja ao matar Paulo e Pedro.

Neste momento é preciso notar que o anjo diz terem os cinco primeiros “caído” e que o sexto “existe”. A bem da verdade histórica, Nero é o sexto na linha dos Césares. Isto preconiza que Nero estivesse vivo quando João escreveu e que a composição do livro deve ter ocorrido antes de 8 de junho de 68 d.C., o dia em que Nero cometeu suicídio e irrompeu a guerra civil em Roma. De forma notável, o anjo diz: “o outro ainda não veio; quando vier, deve permanecer por pouco tempo”. O imperador que se seguiu à morte de Nero foi Galba, que governou de junho a janeiro, o período de apenas seis meses, o imperador que ficou menos tempo no poder. Assim, depois de quase 14 anos de Nero, ocorreu o reinado extremamente curto de Galba. Pelo fato de as coisas descritas no Apocalipse deverem acontecer “em breve” (Ap 1.1) porque “o tempo está próximo” (Ap 1.3) o sétimo imperador que “ainda não veio” deveria aparecer em breve; ou seja, no contexto do público de João. Isto assegura que a série de sete reis deve ser a dos primeiros sete imperadores do Império Romano.


Conclusão. As duas linhas de evidências — a da arquitetura e (o templo judaico) e a da política (imperadores romanos) — indicam com convicção que João escreveu o Apocalipse antes da destruição do templo (agosto/setembro de 70 d.C.) e da morte de Nero (junho de 68 d.C.). Por causa disso, os acontecimentos ocorridos no ano 70 d.C. poderiam ser muito bem os preditos pela profecia de João. 



  • Extraído do livro "Pós-Milenarismo para Leigos" da Editora Monergismo.


[1] Para mais detalhes a respeito das evidências, cf. meu livro Before Jerusalem Fell: Dating the Book of Revelation (3d.ed.: Powder Springs, Geo.: American Vision, 1998).
[2] O NT se refere aos imperadores romanos como “reis”, destacando sua autoridade civil em lugar de sua designação formal. Cf. Jo 19.15; At 17.7.
[3] Essa contagem dos imperadores (todos chamados “Césares” para honrar Júlio César) pode ser encontrada no historiador judeu Flávio Josefo (Antiquities 16.6.2; 18.2.2; 18.6.10), no biógrafo romano Suetônio (The Lives of the Twelve Caesars) e no historiador romano Dio Cássio (Roman History, 5).