segunda-feira, 19 de setembro de 2022

O duplo chamado do cristão para a fé e o trabalho (por Ron Ferner e Philip Ryken)

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Arcabouço biblico e teológico


A tensão observada entre a fe cristã e os negócios terrenos é quase tão antiga quanto a própria igreja. Ainda que o chamado trabalho secular não tenha sido visto como intrinsecamente mau, todavia, tem sido encarado como um modo de segunda categoría de servir ao Senhor. isto para não dizer que é uma arena para a tentação e para o compromisso ético.

Remontando até os dias da igreja primitiva, a Cristandade teceu uma nítida distinção entre o sagrado e a secular. Havia dois tipos de trabalho no mundo: um inteiramente devotado ao Reino de Deus e outro comprometido com os negócios terrenos. Todavia, somente as pessoas que serviam em algum ofício religioso eram realmente chamadas por Deus. Para citar um exemplo notável, o teólogo do século IV. Eusébio de Cesaréia, afirmou:
Dois modos de vida foram dados pela lei de Cristo à sua igreja. A primeira está acima da natureza e além da existência humana comum... Inteira e permantemente separada da vida costanera habitual da humanidade, devota somente ao serviço de Deus... Essa pois, a forma perfeita da vida cristã. E a outra, mais humilde, mais humana, consente que os homens... tenham disposição para a agricultura, para o comércio e para outros interesses seculares, bem como para a religião... E um tipo secundário de piedade lhes é atribuído.[2]
Em outras palavras, algumas pessoas são especialmente chamadas para servir ao Senhor, mas a maioria é chamada para o trabalho comum. Ao longo da Idade Média, essa bifurcação entre o sagrado e o secular teve como consequência inevitável e lamentável o rebaixamento do trabalho diário e terreno dos leigos.

Felizmente a Reforma Protestante desencadeou uma transformação radical, na medida em que Martinho Lutero e outros reformadores rejeitaram absolutamente a noção de que freiras, monges e outros clérigos realizassem um trabalho intrinsecamente mais santo ou mais valioso do que aquele realizado por donas-de-casa e comerciantes. De acordo com o reformador inglés William Tyndale, de uma perspectiva externa, "há diferença entre lavar os pratos e pregar a palavra de Deus; mas, no tocante a agra dar a Deus, não há diferença alguma"?[3]

Em vez de tecer uma dicotomia entre o sagrado e o secular, os reformadores e, posteriormente, os teólogos de Westminster reuniram esses dois domínios ao demonstrar que todo cristão possui um duplo chamado (ou vocação, do latim vocatio) para a fé e o trabalho. Como resultado, Lutero pregava que "o mundo inteiro" devia estar "repleto do serviço a Deus, não apenas as igrejas, mas também o lar, a cozinha, a adega, a oficina e o campo".[4]

O chamado primordial do cristão é seguir a Cristo - o chamado geral da salvação. Nas palavras de William Perkins, esse "chamamento do cristianismo, que é "comum a todos aqueles que vivem na igreja de Deus", é uma convocação divina graciosa, "por meio da qual um homem é chamado para fora do mundo a fim de ser um filho de Deus?"[5] Os puritanos fundamentaram essas convocações na doutrina bíblica da eleição, encontrando amplas bases para isso nos textos bíblicos que usam o termo "chamado" (kaleo) para descrever a compulsão divina por trás da conversão cristã (por exemplo, 1Co 1.9, 1Tm 6.12; 1Pe 2.9). Neste sentido da palavra, "chamado" é o modo pelo qual o Espirito Santo concede o Evangelho às pessoas, "atraindo-os eficazmente a Jesus Cristo".[6]

Como desenvolvimento da fé salvifica, todo cristão tem um chamado secundário para servir a Deus em alguma linha particular de negócios - isto é a "vocação" (ou vocatio, para utilizar a palavra latina em seu sentido mais estrito) do individuo. Essa foi, também, uma forte énfase no ensino puritano sobre a vida crista. Segundo Cotton Mather, "todo cristão, via de regra, deve ter um chamado. Ou seja, deve existir alguma ocupação especial [...] na qual um cristão ocuparia a maior parte de seu tempo; e isso para que possa glorificar a Deus".[7] Nosso trabalho diário não é simplesmente um modo de ganhar a vida, mas um caminho para realizar o chamado feito por Deus.

Se o chamado geral de todo cristão está fundamentado na doutrina da eleição, o chamado especial de cada trabalhador cristão está fundamentado, por sua vez, na doutrina da providência divina. "O Grande Governador deste mundo", escreveu Richard Steele, "designou a cada homem sua ocupação apropriada"." Dito de maneira simples, todo cristão possui um chamado singular da parte de Deus "ande cada um segundo o Senhor lhe tem distribuído, cada um conforme Deus o tem chamado" (1Co 7.17; cf. Le 3.12-14) que é divinamente estabelecido para a frutificação e alegria.

Ao discutir o chamado particular de todo cristão, os reformadores e os puritanos reconheceram a dignidade de toda forma legítima de trabalho. Falando de modo apropriado, não há algo como trabalho secular; tudo é sagrado. A santidade do trabalho rotineiro remonta às ordenanças da criação, quando Deus disse ao primeiro homem para cultivar e guardar o jardim (Gn 2.15). Mesmo que nes te mundo caído o trabalho tenha sido amaldiçoado pelo pecado (veja Gn 3.17-19; Ec 2.18-23), ele retém, entretanto, sua dignidade inerente. Com efeito, o trabalho diário é um dos mandamentos básicos de Deus (Ex 20.9). Ele encontra uma consagração adicional na vocação de Jesus Cristo, que aprendeu o valor de um bom dia de trabalho em seu trabalho rotineiro como carpinteiro, e que amiúde descreveu o trabalho de sua vida - tudo até (e inclusive) a pesada tarefa que realizou na cruz - em termos de um chamado que recebeu de seu Pai no céu (por exemplo, Jo 4.34; 5.17).

As implicações do duplo chamado cristão à fé e ao trabalho não apenas moldam a economia, mas transformam a vida. Se todos os chamados são sagrados, então os negócios rotineiros são um modo apropriado de realizar o trabalho do Reino. O ponto aqui não é somente que os cristãos podem servir a Deus nos negócios, mas que cristãos podem servir a Deus por meio dos negócios. "Um cristão verdadeiramente crente", escreveu John Cotton, "vive em sua vocação pela fé. Não apenas minha vida espiritual, mas também minha vida civil neste mundo e toda a vida que vivo são [vividas] pela fé no Filho de Deus".[9] Portanto, nossos negócios, em si mesmos, podem glorificar a Deus.[10] William Perkins escreveu algo semeIhante: "A finalidade principal de nossas vidas [...] é servir a Deus ao servir os homens nos respectivos serviços de nossos chamados".[11] Embora possamos extrair benefícios pessoais de nosso trabalho, em última instância, ele é para a glória de Deus e para o bem de outras pessoas (veja Ec 2.24; Ef 4.28; 6.5-7; Cl 3.23-24).

Os puritanos tinham muitas outras coisas importantes e valiosas a dizer acerca do chamado de Deus para os negócios. Eis aqui vários exemplos:
  • Eles acreditavam que, quando Deus chamado particular, ele também providenciava os dons e oportunidades para a sua realização (John Cotton: "Quando Deus me chamou para uma posição, ele também me concedeu alguns dons para ela).[12]

  • Eles enfatizavam o valor do trabalho duro, e tando a diligência como uma virtude piedosa (Thomas Watson: "Deus abençoará nossa diligência, não nossa indolência").[13]

  • Ao mesmo tempo, eles se guardavam contra idolatria do trabalho mediante a especificação de outros chamados legitimos na vida (per exemplo, as funções de esposo e esposa, mãe e pai) e a recomendação da moderação (John Preston: "Atenção para o excesso de trabalho").[14]

  • Eles reconheciam que o trabalho duro normalmente conduz à prosperidade econômica, e com razão (de acordo com a resposta 141 do Catecismo Maior de Westminster, o Oitavo Mandamento exige que "o esforço por todos os modos justos e lícitos para adquirir, preservar e adiantar a riqueza e o estado exterior, tanto de outros como o nosso próprio").

  • Todavia, eles afirmavam que o propósito da prosperidade dada por Deus era prover a família e promover o bem comum, incluindo o cuidado para com os pobres, e não buscar a vantagem pessoal ou gastar para propósitos egoístas (Richard Baxter: as riquezas "nos permitem assistir nossos irmãos necessitados e promover boas obras para a igreja e o Estado").[15]

Em resumo, como fundamento de tudo mais que afirmaram sobre esse assunto, os reformadores e puritanos concebiam os negócios como um chamado gracioso e redentivo feito por Deus aos seguidores de Jesus Cristo. Estes famosos versos de Paraiso Perdido, de John Milton, fornecem uma sintese adequada da perspectiva protestante da vocação:
"O homem tem seu labor de corpo ou mente
Marcado, que lhe atesta a dignidade, 
E do Céu o favor nos seus caminhos." [16]


Extraído do livro "Perspectivas Bíblicas Sobre Negócios", da Editora Monergismo.


Notas:

[1] Eusebius of Caesarea, Demonstratio Evangelica, citado em W. R. Forrester, Christian Vocation (New York: Scribner, 1953), p. 42.

[2] William Tyndale, The Parable of Wicked Mammon, citado em Louis B. Wright, Middle-Class Culture in Elizabethan England (Chapel Hill: University of North Carolina Press, 1935), P 171q

[3] Martinho Lutero, do seu sermão sobre Mateus 6.24-34, citado em Ewald M. Plass, What Luther Says: An Anthology (St. Louis Concordia, 1959), p. 560.

[4] William Perkins, Works, 3 vols (London, 1626), vol. 1, p. 752. 

[5] Confissão de fe de Westminster, x.l.

[6] Cotton Mather, A Christian in His Calling, citado em Michael McGiffert (org). Puritanism and the American Experience (Reading, MA Addison-Wesley, 1969), p. 121.

[7] Richard Steele, The Tradesman's Calling, citado em R. H. Taw ney, Religion and the Rise of Capitalism (New York: Harcourt Brace, 1926), p. 321.

[8] John Cotton, Christian Calling, citado em Perry Miller e Thom as E. Johnson (org.). The Puritans, rev. ed., 2 vols. (New York: Harper, 1963), vol. 1, p. 319.

[9] Esse tema é mais amplamente desenvolvido por Wayne Grudem em seu Business for the Glory of God: The Bible's Teaching on the Moral Goodness of Business (Wheaton, IL: Crossway, 2003). 

[10] William Perkins, Treatise on the Vocations, citado em Edmund S. Morgan, Puritan Political Ideas, 1558-1794 (Indianapolis: Bobbs-Merrill, 1965), p. 57.

[11] John Cotton, The Way of Life, citado em Edmund S. Morgan, The Puritan Family Religion and Domestic Relations in Seven teenth Century New England (1944, repr. New York: Harper and Row, 1966), p. 72. 

[12] Thomas Watson, The Beatitudes (Edinburgh: Banner of Truth 1977), p. 257.

[13] John Preston, The Saint's Qualification, citado em Charles H. and Katherine George, The Protestant Mind of the English Reformation, 1570-1640 (Princeton: Princeton University Press 1961), p. 172.

[14] Richard Baxter, A Christian Directory, citado em Ralph Barton Perry, Puritanism and Democracy (New York: Vanguard, 1944), P.315.

[15] John Milton, Paraíso Perdido (Tradução de Daniel Jonas. Lisboa: Cotovia, 2006), p. 177.