sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

"Olho por olho" ou "dar a outra face"??


Conforme mencionado em postagem anterior, a bíblia garante a autodefesa como direito a todo indivíduo. Porém, essa mesma Escritura nos traz ensinos que parecem opostos e até contraditórios a esse direito, quando fala em não nos vingarmos, não odiarmos nem nossos inimigos, em respondermos ao mal com o bem, etc. Mais extremos ainda são os casos de martírio, em que cristãos entregaram suas vidas sem resistência física, com alguns desses casos sendo relatados nas Escrituras e muitos (inúmeros) outros registrados na História da Igreja daquela época até hoje.
O contraste é evidente, mas será que há mesmo contradição?? Ou será que devemos escolher o que acharmos conveniente e ignorar o que a nosso ver contradiz a mensagem central da Escritura??
A proposta dessa postagem é tentar responder essas e outras questões subjacentes.



Dar a outra face contraria ou altera a Lei de DEUS??


Indo direto ao ponto, a argumentação em favor da legítima defesa parece contradizer tantos textos bíblicos que nos instruem a não praticarmos o mal ao nosso próximo. Tirando aqueles que rejeitam a bíblia como Palavra infalível de DEUS, ainda há os que o fazem mas perante esse contraste acabam buscando "saídas" perigosas e anti-bíblicas, como afirmar que no contexto do Antigo Testamento tudo funcionava de forma distinta do que vivemos a partir do Novo Testamento. Baseando-se nisso afirmam que a forma como DEUS trata a humanidade mudou ou muda conforme dispensações definidas por Ele, logo, o que antes era certo pode não ser mais e vice-versa.
Com isso, alguns acabam afirmando que no Antigo Testamento a Lei de DEUS vigorava e havia "tolerância zero", enquanto que a partir do Novo Testamento passamos a viver a "dispensação da Graça", em que supostamente a Lei foi totalmente abolida e, pela Graça, cabe a nós vivermos em amor baseados na redefinição que Cristo teria dado para a Lei e que gravou nos nossos corações
Os perigos desse tipo de pensamento são enormes...

Primeiramente, ela troca a segurança das Escrituras como padrão para nossa santificação pela "confiança" em nossos corações como fruto de nossa regeneração.
Por mais que de fato todo convertido tenha um coração regenerado, ele não é perfeito. Mais do que isso, continua imensamente enganoso (Jeremias 17:9), e portanto não há como ser a base para o julgamento.
"Sentir" que está certo não é o caminho. A Palavra de DEUS tem que ser nossa referência. Sola Scriptura.

Em segundo lugar, afirmar que Jesus corrige a Lei dada por DEUS seria torná-Lo de fato um transgressor ou blasfemo. Seria isso ou teríamos que pensar que DEUS atua de forma "esquizofrênica", que é sujeito ao tempo-espaço e os atos de Suas Criaturas ou que brinca com elas.

Vejamos por partes:



- Se Jesus surgisse dizendo que a Lei de Deus precisava ser corrigida, estaria contradizendo o Pai, que foi o autor que a entregou a Israel.


Quando lemos com cuidado Jesus corrigindo o que os judeus tinham como certo, notamos que Ele contrasta o que eles ouviram com o que Ele tinha a dizer. Porém, em nenhum momento Ele diz que aquilo que eles ouviram (e entendiam ser a correta interpretação da Lei) era o que de fato a Lei dizia.
Jesus em nenhum momento diz algo como "A Lei diz (...) mas eu vos digo". Ele afirma veementemente que não veio abolir a Lei e sim cumpri-la (Mateus 5:17). Não há qualquer palavra sobre correção da Lei.
Ou seja, o que eles ouviram e criam eram interpretações errôneas da Lei, da parte dos "doutores", que a pervertiam pelo próprio interesse da classe religiosa.

Certamente que a observação de parte da Lei cai por terra com a obra sacrificial de Cristo em prol de Seu povo (como o livro de Hebreus esclarece), mas nada referente aos princípios morais da Lei é alterado.

Caso pensássemos que Cristo estava alterando princípios da Lei em nome de DEUS (sendo DEUS), qual garantia teríamos de que isso não poderia ocorrer (ou já ocorreu) outras vezes?? Mais que isso, se DEUS mudasse de ideia com o passar do tempo então a segurança na Sua Palavra seria maculada.
E se fosse esse o caso (de Cristo mudando a Lei), não faria total sentido que os religiosos o acusassem?? Se eles já faziam o possível para tentar invalidar Sua autoridade, o fato dEle "tentar mudar" o que DEUS lhes disse não seria uma prova cabal das suas más intenções??
Enfim, os problemas seriam muitos...


Para um melhor entendimento quanto ao tema "Lei e Graça", recomendo o livro de mesmo nome de autoria do pastor Mauro Meister, pela editora Cultura Cristã. Nesse livro o pastor explica muito bem como a Graça não substitui a Lei, e "Lei É Graça", não havendo contradição entre ambas unidas.

Mas voltando ao tema do artigo, se não há mesmo (e não há) contradições entre os ensinos da Lei de DEUS e os ensinos de Cristo, como entender as passagens contrastantes já mencionadas??

Primeiramente, é necessário entender o que elas de fato dizem. Para isso, vamos analisar o trecho no chamado "Sermão do Monte" onde Cristo faz a comparação entre o conceitos de "olho por olho e dente por dente" e "dar a outra face":

Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente.
Eu, porém, vos digo que não resistais ao mau; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; e, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; e, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes.
Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo.
Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus; porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos. Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim?
Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus.

(Mateus 5:38-48 - grifos meus)
Nesse trecho, Jesus faz comparações entre o que eles ouviram e o que Ele tinha a lhes dizer. No primeiro caso, de fato, a Lei dada por DEUS instruía a prática do olho por olho e dente por dente:
Mas se houver morte, então darás vida por vida,Olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé,Queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe.
(Êxodo 21:23-25)
Quebradura por quebradura, olho por olho, dente por dente; como ele tiver desfigurado a algum homem, assim se lhe fará.
(Levítico 24:20)
O teu olho não perdoará; vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé.
(Deuteronômio 19:21)

Cada um desses textos possui um contexto específico, mas todos tem algo em comum: são instruções para legislação civil. Ou seja, tanto para a mulher grávida agredida, quanto para a pessoa que foi desfigurada por alguém, quanto para a testemunha que mente no julgamento, a pena civil aplicada deveria ser proporcional ao dano que eles causaram ou intentavam causar (no caso da falsa testemunha, a pena que seria do acusado era transferida para ela, caso comprovado que a acusação é falsa).
Voltando à expressão "Olho por olho, dente por dente", em todos os casos é aplicada para apontar para o princípio da proporcionalidade na aplicação da punição. Ou seja, não se deveria, por exemplo, punir com morte quem quebrou o dente de outro, nem se punir com algo inferior à morte aquele que cometeu homicídio. Trata-se portanto de instruções para aplicação da justiça civil.
Para uma explicação mais detalhada, recomendo a leitura:
O que Jesus corrige aqui não é essa aplicação civil (ou estaria contradizendo o conceito de justiça dado por DEUS) mas sim a perversão feita por eles, assumindo a vingança por conta própria. A bíblia condena em muitas passagens a vingança pessoal, mas afirma que cabe às autoridades serem ministras de DEUS para aplicação da justiça (Romanos 13:4). Logo, o que Cristo faz não é destruir o conceito de justiça e sim combater a vingança.
Mais que isso, Ele os instrui a revidar o mal com o bem.



Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem. (Romanos 12:21)


Alguém poderia então sugerir que, se devemos revidar o mal com o bem, então a legítima defesa não seria aceitável pois estaríamos fazendo mal ao agressor para nos defendermos. Para responder isso, primeiro vale a pena observar os exemplos que o próprio Cristo dá nas instruções mencionadas anteriormente (Mateus 5:38-42) :
  • se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra;
  • ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa;
  • se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas.
  • Repare que em nenhum desses casos há uma ação imediata do "inimigo" que coloca em risco a vida da pessoa. Existe menção à ofensa (bater na face direita), acusação e julgamento (pleitear contigo) e abuso de poder (obrigar a caminhar), e sobre tais coisas Cristo os ensina a reagir com mansidão ao invés de "comprar briga". Depois ainda os instrui sobre a aplicação da misericórdia de forma mais clara: "dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes."

    Uma prova de que Jesus estava corrigindo as tradições deles e não a Lei de Deus está na própria sequência do texto (Mateus 5:43-48), quando Ele diz: "Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos (...)". A Lei de DEUS não diz que inimigo deveria ser odiado, tratando-se obviamente de algo que os religiosos passaram a transmitir como Palavra de DEUS e não o sendo.
    Jesus então reforça ensinos já presentes no Antigo Testamento (Êxodo 23:4-5,9, Levítico 19:17-18, I Samuel 24:18Provérbios 25:21-22), e contrasta a mentira que eles ouviram sobre o ódio aos inimigos com o dever de amar os inimigos, bendizer os que nos maldizem, fazer bem aos que nos odeiam, e orar pelos que nos maltratam e nos perseguem. E como modelo para essa atitude, Cristo fala do amor de DEUS, que "faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos".

    Portanto, os ensinos de Cristo em nada contradizem o que a Lei de DEUS já dizia. A propósito, conforme eu já havia mencionado no texto "A bíblia me permite ter uma arma??", o princípio da autodefesa não vem desacompanhado do conceito de proporcionalidade e, portanto, haveria pena para quem reagisse com força letal contra quem não oferecesse risco real à vida.
    Então o que Cristo faz aqui não é aprimorar ou mudar o que a Lei já dizia, mas sim interpretá-la da forma correta, e lembrar a seus ouvintes que assim como DEUS é misericordioso eles também deveriam ser.

    Mas se existe um direito à autodefesa, por que muitos do povo de DEUS (incluindo profetas, apóstolos e o próprio Cristo) perderam suas vidas ao invés de reagirem contra as autoridades que os perseguiram??

    O martírio como testemunho

    “O martírio é o supremo testemunho prestado à verdade da fé; designa um testemunho que vai até a morte”.
    O parágrafo 2473 do Catecismo da Igreja) descreve muito bem o que representa o martírio.

    A palavra "mártir" vem do grego (μαρτυς), e originalmente significa "testemunha". O termo passa a ter seu sentido atrelado à morte justamente porque muitos do povo de DEUS tiveram suas vidas tomadas pelo testemunho insistente da Sua Palavra. A morte era uma consequência por não negarem a Verdade, mesmo perante torturas.

    As Escrituras apresentam alguns casos de martírio, que incluem o próprio sacrifício de Cristo - o martírio mais importante da História, os martírios de João Batista (decapitado por sua profissão de fé - Marcos 6:14-29), Estevão (que também menciona os profetas martirizados no passado - Atos 7) e Tiago (morto a mando de Herodes - Atos 12:1-2). 

    Em Hebreus 11:35-38 (grifos meus) lemos:
    Houve mulheres que, pela ressurreição, tiveram de volta os seus mortos. Alguns foram torturados e recusaram ser libertados, para poderem alcançar uma ressurreição superior.Outros enfrentaram zombaria e açoites, outros ainda foram acorrentados e colocados na prisão, apedrejados, serrados ao meio, postos à prova, mortos ao fio da espada. Andaram errantes, vestidos de pele de ovelhas e de cabras, necessitados, afligidos e maltratados.O mundo não era digno deles. Vagaram pelos desertos e montes, pelas cavernas e grutas.
    Esse capítulo é famoso por relacionar grandes "heróis da fé", e listar alguns de seus feitos. O trecho acima faz menção a ressurreições ocorridas no tempo do Antigo Testamento (1 Reis 17:22 eReis 4:36) e depois fala sobre muitos "anônimos", que sofreram na pele por serem testemunhas do Senhor em suas épocas.
    Apocalipse 6:11 e 7:9-14 ainda faz menção à visão de João quanto aos que "vieram da grande tribulação e lavaram as suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro". No capítulo anterior lemos uma descrição ainda mais completa, revelando que além daquelas almas haveria mais outros mártires cujas almas viriam se juntar a elas:
    Quando ele abriu o quinto selo, vi debaixo do altar as almas daqueles que haviam sido mortos por causa da palavra de Deus e do testemunho que deram.Eles clamavam em alta voz: "Até quando, ó Soberano santo e verdadeiro, esperarás para julgar os habitantes da terra e vingar o nosso sangue? "Então cada um deles recebeu uma veste branca, e foi-lhes dito que esperassem um pouco mais, até que se completasse o número dos seus conservos e irmãos, que deveriam ser mortos como eles.
    (Apocalipse 6:9-11  - grifos meus)
    Se considerarmos a História do povo de Deus, desde seu início até então, seria impossível tentarmos calcular o tamanho da multidão total vitimada por causa da fé. Até hoje essa perseguição que resulta em execuções ocorre em larga escala em alguns países, mas algo a ser considerado é que, apesar de haver tantos textos bíblicos falando sobre a perseguição como algo inevitável em algum grau. Por exemplo:
    "Bem-aventurados serão vocês quando, por minha causa os insultarem, perseguirem e levantarem todo tipo de calúnia contra vocês.Alegrem-se e regozijem-se, porque grande é a recompensa de vocês nos céus, pois da mesma forma perseguiram os profetas que viveram antes de vocês".
    (Mateus 5:11,12)
    Se vocês são insultados por causa do nome de Cristo, felizes são vocês, pois o Espírito da glória, o Espírito de Deus, repousa sobre vocês.Se algum de vocês sofre, que não seja como assassino, ladrão, criminoso ou como quem se intromete em negócios alheios.Contudo, se sofre como cristão, não se envergonhe, mas glorifique a Deus por meio desse nome.
    (1 Pedro 4:14-16
    Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou forte.
    (2 Coríntios 12:10)
    Não tenham medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes, tenham medo daquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno.
    (Mateus 10:28)
    Quem acha a sua vida a perderá, e quem perde a sua vida por minha causa a encontrará.
    (Mateus 10:39)

    Há mais e mais textos exaltando a perseverança nas tribulações e dando exemplos de personagens bíblicos que se tornaram modelos nessa prática. Além disso, pelas palavras de Cristo, fica claro que morrer pela Sua causa vale mais que viver O negando. E que devemos temer o nosso destino eterno muito mais que o fim da nossa vida terrena.
    Em outras palavras, é virtuoso e digno de honra (Romanos 13:7) perder a vida em nome do testemunho da Verdade, mas é um erro desperdiçar a vida visando os bens celestiais ou qualquer outra coisa. Lembrando que não tentar evitar tal situação é um sinal de desprezo ao valor da vida como dom de DEUS e, além disso, é permitir (e facilitar para) que uma injustiça seja praticada e que o pecado de homicídio seja imputado a quem aplicar a pena (até por isso Jesus e Estevão oraram pedindo que tal culpa não fosse imputada a seus algozes).


    Podemos fugir da perseguição??


    Mesmo que as chances de passarmos por perseguições sejam previstas, não há qualquer encorajamento para que busquemos essa condição. Podemos sim vir a sermos vítimas de perseguição extrema, devendo buscar forças em DEUS para lidar com isso, mas jamais perseguir "masoquistamente" essa realidade.

    Quando Cristo enviou os apóstolos para pregar aos judeus, lhes alertou:
    Eu os estou enviando como ovelhas entre lobos. Portanto, sejam prudentes como as serpentes e simples como as pombas.
    (Mateus 10:16)
    Posteriormente, o apóstolo Paulo escreveu algo semelhante:
    Como está escrito: "Por amor de ti enfrentamos a morte todos os dias; somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro".
    (Romanos 8:36)

    O que podemos entender é que há sim o risco iminente, quando aqueles que nos rodeiam odeiam o evangelho, mas não há sugestão para que abramos mão de nossas vidas se isso puder ser evitado.
    Na própria bíblia há exemplos claros de como o povo de DEUS fugia da perseguição física conforme seu alcance (Atos 8:1; 9:25, 30; 14:6; 17:10, 14). Há também a prova de que essa não é uma atitude covarde e sim a vontade de seu cabeça, Jesus Cristo; tanto por ordem direta (Mateus 10:23) como por exemplo próprio (Lucas 4,29-30; João 8,59). A fuga pode ser considerada então uma forma de autodefesa "passiva", ou seja, para evitar o pior a pessoa escapa para não ser atacada.

    Podemos "atacar" os perseguidores??

    Ainda assim, há situações em que a reação contra o mal pode ser ativa, em prol de um bem maior que a própria segurança. Isto é, quando terceiros oferecem riscos a inocentes, a legítima defesa do outro é um bem superior a poupar a vida do agressor.
    Por exemplo, durante a Segunda Guerra Mundial, Hitler comandava a Alemanha e gradativamente passava a dominar a Europa. Como parte seus atos desumanos, instituiu perseguição a certos grupos, a fim de reforçar a suposta supremacia ariana. Povos dominados passaram a ser aliados nessas práticas e todos (incluindo alemães) que discordavam da prática eram considerados traidores.
    Nesse contexto, um pastor luterano se destacou historicamente por participar ativamente de atentados contra o tirano Hitler. Seu nome era Dietrich Bonhoeffer.
    Diante da grande opressão nazista e da  covardia de muitos cristãos (que se aliaram ao tirano), Bonhoeffer fez parte de um movimento cristão de resistência a o Partido Nazista, chamado "Igreja Confessante", que insistia que:
    Jesus Cristo, e não homem algum ou o Estado, é o nosso único Salvador.
    Além do discurso, efetivamente lutaram para ocultar e salvar judeus das garras dos nazistas, e de fato tentaram matar o próprio Hitler, porém sem êxito.
    Pelas palavras de Bonhoeffer: "É melhor fazer um mal do que ser mau."

    Antes de prosseguir, é importante dizer que Bonhoeffer chegou ao extremo de atentar contra a vida de Hitler depois que as demais tentativas de impedi-lo por meios "não-letais" não tiveram resultados. Quero dizer, intencionar matar o tirano não foi a primeira, nem a segunda coisa que lhe veio em mente, mas sim a última alternativa.

    O grande dilema que aqui se apresenta é: "matar um tirano ou permitir que ele continue matando inocentes??" E se o bom senso nos levar a escolher a primeira opção, a próxima pergunta é: "para proteger inocentes é legítimo matar um tirano??"

    É importante ressaltar aqui que, não proteger inocentes (tendo isso ao alcance) é pecado:
    Erga a voz em favor dos que não podem defender-se, seja o defensor de todos os desamparados.
    (Provérbios 31:8)
    A omissão perante a injustiça é pecado. 
    Fato.

    Matar alguém é pecado. 
    Fato??

    Nem sempre... Conforme demonstrado na postagem anterior, uma pessoa é inocentada de pecado caso mate quem lhe oferece risco real de morte.

    No caso da omissão, é geralmente causada por comodismo e/ou covardia, logo não pode ser defendida. Dessa forma, se para impedir a opressão extrema for inevitável o extremo do assassinato do opressor, esse será um mal menor a ser escolhido. 
    Claro, lembrando sempre do princípio de proporcionalidade... Ninguém deve, por exemplo, pensar em matar seu chefe por não ser devidamente valorizado no trabalho. O extremo só deve ser cogitado (por exemplo, se esse chefe tentasse te matar) depois que todos meios legítimos de impedimento foram tentados ou não resolveriam.

    Dito tudo isso, por que muitos escolhem o martírio ao invés da legítima defesa??
    Por que os cristãos não reagem perante os que querem matar por causa da fé que professam??

    Bom, creio que possa existir muitas repostas, inclusive aquelas que são baseadas em motivações errôneas. Vimos que não devemos "caçar" o martírio, nem crer que através do mérito por essa obra receberemos recompensas celestiais, mas quais seriam as motivações corretas??

    Fatores a serem considerados:

    Primeiramente, é importante distinguir se o ataque motivado pela nossa profissão de fé vem de autoridades legalmente instituídas ou de "civis comuns". A distinção é importante considerando nosso dever de submissão às autoridades (enquanto isso não significar desobediência a DEUS) e a ausência de qualquer dever semelhante perante outras pessoas. Sendo assim, enquanto no caso de "não-autoridades" não há qualquer dever de rendição, perante a perseguição vinda de autoridades a não-rendição poderia se tornar motivo para calúnias, por exemplo. 
    Além disso, uma reação violenta poderia gerar a morte imediata pelo ataque dos perseguidores, enquanto que a rendição poderia dar mais tempo de vida, e com isso haver alguma esperança de escapar da punição final (seja por fuga, seja por reviravolta em um julgamento, etc.).

    Isso leva a um segundo fator a ser considerado, que é o da possibilidade de êxito na resistência. Da mesma forma que deve caber a uma pessoa a decisão sobre reagir ou não em uma situação de risco (por exemplo, tentar aproveitar uma chance para sacar uma arma e atirar em alguém que já lhe aponta uma arma ou apenas seguir ordens esperando que sua vida seja poupada), em uma situação em que é abordada por perseguidores ela pode "medir" quais chances tem de sobreviver caso se renda ou reaja. E lembrando sempre do princípio da proporcionalidade, a pessoa só poderia reagir letalmente se os ataques que sofresse fossem também visando sua morte.

    Por fim, lembrando do que significa a palavra "mártir" em sua origem, pode ser visto como uma grande chance de testemunho a rendição perante os perseguidores, ao invés da reação física ou armada. Lembrando aqui que, "rendição" se refere apenas a não atacar o agressor, mas a profissão de fé jamais deve ser negada.
    Perante a ameaça de morte, um cristão deve persistir na convicção do que crê, jamais negando sua fé em DEUS e em Jesus Cristo como Senhor e Salvador. Desta forma, a pena para essa perseverança na Verdade pode ser a morte pelas mãos assassinas dos seus perseguidores, seja após a rendição física ou após alguma tentativa de se defender dos ataques.

    Entregar a vida na defesa da fé, tem o efeito negativo de não evitar a injustiça e a culpa de homicídio da parte dos assassinos, porém é uma forma extrema de reafirmar a certeza da ressurreição (I Coríntios 15) e que a gratidão e o amor a DEUS estão acima do amor à própria vida aqui neste mundo.
    Nisso se aplicam bem textos já mencionados, como Mateus 10:39: "Quem acha a sua vida a perderá, e quem perde a sua vida por minha causa a encontrará"
    . Ou Filipenses 1:20-21: "Aguardo ansiosamente e espero que em nada serei envergonhado. Pelo contrário, com toda a determinação de sempre, também agora Cristo será engrandecido em meu corpo, quer pela vida quer pela morte; porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro".

    O amor aos algozes, leva ao desejo de suas conversões.
    O reconhecimento da Graça de Deus sobre Seu povo, leva ao entendimento que antes todos nós éramos também inimigos de Deus e de Seus filhos. Portanto, se fomos resgatados, nossos algozes também o podem ser.
    Esse testemunho extremo pode ser um meio de graça para que a semente do evangelho seja plantada e germinada nesses corações.

    Neste caso, faz mais sentido que um cristão entregue sua vida caso a motivação dos agressores seja o ódio do evangelho do que a defenda ao custo de possíveis mortes de seus inimigos. Se a causa do ataque é o evangelho, justifica-se a não reação.

    Na minha opinião, essa entrega deve dizer respeito à própria vida, não a vida de terceiros. Não faz sentido, a meu ver, que o cristão apoie e não resista à tortura contra inocentes devido à causa, ao invés de fazer o possível para impedir. Mas no caso da outra vítima também estar aplicando seu desejo de entrega voluntária por essa causa, passa a fazer sentido o respeito a essa decisão.


    Que DEUS nos fortaleça e conceda sabedoria para que perante situações que exigem decisões difíceis possamos ser firmes e justos, conforme Sua Palavra nos ensina.


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