sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

"Olho por olho" ou "dar a outra face"??


Conforme mencionado em postagem anterior, a bíblia garante a autodefesa como direito a todo indivíduo. Porém, essa mesma Escritura nos traz ensinos que parecem opostos e até contraditórios a esse direito, quando fala em não nos vingarmos, não odiarmos nem nossos inimigos, em respondermos ao mal com o bem, etc. Mais extremos ainda são os casos de martírio, em que cristãos entregaram suas vidas sem resistência física, com alguns desses casos sendo relatados nas Escrituras e muitos (inúmeros) outros registrados na História da Igreja daquela época até hoje.
O contraste é evidente, mas será que há mesmo contradição?? Ou será que devemos escolher o que acharmos conveniente e ignorar o que a nosso ver contradiz a mensagem central da Escritura??
A proposta dessa postagem é tentar responder essas e outras questões subjacentes.



Dar a outra face contraria ou altera a Lei de DEUS??


Indo direto ao ponto, a argumentação em favor da legítima defesa parece contradizer tantos textos bíblicos que nos instruem a não praticarmos o mal ao nosso próximo. Tirando aqueles que rejeitam a bíblia como Palavra infalível de DEUS, ainda há os que o fazem mas perante esse contraste acabam buscando "saídas" perigosas e anti-bíblicas, como afirmar que no contexto do Antigo Testamento tudo funcionava de forma distinta do que vivemos a partir do Novo Testamento. Baseando-se nisso afirmam que a forma como DEUS trata a humanidade mudou ou muda conforme dispensações definidas por Ele, logo, o que antes era certo pode não ser mais e vice-versa.
Com isso, alguns acabam afirmando que no Antigo Testamento a Lei de DEUS vigorava e havia "tolerância zero", enquanto que a partir do Novo Testamento passamos a viver a "dispensação da Graça", em que supostamente a Lei foi totalmente abolida e, pela Graça, cabe a nós vivermos em amor baseados na redefinição que Cristo teria dado para a Lei e que gravou nos nossos corações
Os perigos desse tipo de pensamento são enormes...

Primeiramente, ela troca a segurança das Escrituras como padrão para nossa santificação pela "confiança" em nossos corações como fruto de nossa regeneração.
Por mais que de fato todo convertido tenha um coração regenerado, ele não é perfeito. Mais do que isso, continua imensamente enganoso (Jeremias 17:9), e portanto não há como ser a base para o julgamento.
"Sentir" que está certo não é o caminho. A Palavra de DEUS tem que ser nossa referência. Sola Scriptura.

Em segundo lugar, afirmar que Jesus corrige a Lei dada por DEUS seria torná-Lo de fato um transgressor ou blasfemo. Seria isso ou teríamos que pensar que DEUS atua de forma "esquizofrênica", que é sujeito ao tempo-espaço e os atos de Suas Criaturas ou que brinca com elas.

Vejamos por partes:



- Se Jesus surgisse dizendo que a Lei de Deus precisava ser corrigida, estaria contradizendo o Pai, que foi o autor que a entregou a Israel.


Quando lemos com cuidado Jesus corrigindo o que os judeus tinham como certo, notamos que Ele contrasta o que eles ouviram com o que Ele tinha a dizer. Porém, em nenhum momento Ele diz que aquilo que eles ouviram (e entendiam ser a correta interpretação da Lei) era o que de fato a Lei dizia.
Jesus em nenhum momento diz algo como "A Lei diz (...) mas eu vos digo". Ele afirma veementemente que não veio abolir a Lei e sim cumpri-la (Mateus 5:17). Não há qualquer palavra sobre correção da Lei.
Ou seja, o que eles ouviram e criam eram interpretações errôneas da Lei, da parte dos "doutores", que a pervertiam pelo próprio interesse da classe religiosa.

Certamente que a observação de parte da Lei cai por terra com a obra sacrificial de Cristo em prol de Seu povo (como o livro de Hebreus esclarece), mas nada referente aos princípios morais da Lei é alterado.

Caso pensássemos que Cristo estava alterando princípios da Lei em nome de DEUS (sendo DEUS), qual garantia teríamos de que isso não poderia ocorrer (ou já ocorreu) outras vezes?? Mais que isso, se DEUS mudasse de ideia com o passar do tempo então a segurança na Sua Palavra seria maculada.
E se fosse esse o caso (de Cristo mudando a Lei), não faria total sentido que os religiosos o acusassem?? Se eles já faziam o possível para tentar invalidar Sua autoridade, o fato dEle "tentar mudar" o que DEUS lhes disse não seria uma prova cabal das suas más intenções??
Enfim, os problemas seriam muitos...


Para um melhor entendimento quanto ao tema "Lei e Graça", recomendo o livro de mesmo nome de autoria do pastor Mauro Meister, pela editora Cultura Cristã. Nesse livro o pastor explica muito bem como a Graça não substitui a Lei, e "Lei É Graça", não havendo contradição entre ambas unidas.

Mas voltando ao tema do artigo, se não há mesmo (e não há) contradições entre os ensinos da Lei de DEUS e os ensinos de Cristo, como entender as passagens contrastantes já mencionadas??

Primeiramente, é necessário entender o que elas de fato dizem. Para isso, vamos analisar o trecho no chamado "Sermão do Monte" onde Cristo faz a comparação entre o conceitos de "olho por olho e dente por dente" e "dar a outra face":

Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente.
Eu, porém, vos digo que não resistais ao mau; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; e, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; e, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes.
Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo.
Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus; porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos. Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim?
Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus.

(Mateus 5:38-48 - grifos meus)
Nesse trecho, Jesus faz comparações entre o que eles ouviram e o que Ele tinha a lhes dizer. No primeiro caso, de fato, a Lei dada por DEUS instruía a prática do olho por olho e dente por dente:
Mas se houver morte, então darás vida por vida,Olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé,Queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe.
(Êxodo 21:23-25)
Quebradura por quebradura, olho por olho, dente por dente; como ele tiver desfigurado a algum homem, assim se lhe fará.
(Levítico 24:20)
O teu olho não perdoará; vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé.
(Deuteronômio 19:21)

Cada um desses textos possui um contexto específico, mas todos tem algo em comum: são instruções para legislação civil. Ou seja, tanto para a mulher grávida agredida, quanto para a pessoa que foi desfigurada por alguém, quanto para a testemunha que mente no julgamento, a pena civil aplicada deveria ser proporcional ao dano que eles causaram ou intentavam causar (no caso da falsa testemunha, a pena que seria do acusado era transferida para ela, caso comprovado que a acusação é falsa).
Voltando à expressão "Olho por olho, dente por dente", em todos os casos é aplicada para apontar para o princípio da proporcionalidade na aplicação da punição. Ou seja, não se deveria, por exemplo, punir com morte quem quebrou o dente de outro, nem se punir com algo inferior à morte aquele que cometeu homicídio. Trata-se portanto de instruções para aplicação da justiça civil.
Para uma explicação mais detalhada, recomendo a leitura:
O que Jesus corrige aqui não é essa aplicação civil (ou estaria contradizendo o conceito de justiça dado por DEUS) mas sim a perversão feita por eles, assumindo a vingança por conta própria. A bíblia condena em muitas passagens a vingança pessoal, mas afirma que cabe às autoridades serem ministras de DEUS para aplicação da justiça (Romanos 13:4). Logo, o que Cristo faz não é destruir o conceito de justiça e sim combater a vingança.
Mais que isso, Ele os instrui a revidar o mal com o bem.



Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem. (Romanos 12:21)


Alguém poderia então sugerir que, se devemos revidar o mal com o bem, então a legítima defesa não seria aceitável pois estaríamos fazendo mal ao agressor para nos defendermos. Para responder isso, primeiro vale a pena observar os exemplos que o próprio Cristo dá nas instruções mencionadas anteriormente (Mateus 5:38-42) :


  • se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra;
  • ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa;
  • se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas.
  • Repare que em nenhum desses casos há uma ação imediata do "inimigo" que coloca em risco a vida da pessoa. Existe menção à ofensa (bater na face direita), acusação e julgamento (pleitear contigo) e abuso de poder (obrigar a caminhar), e sobre tais coisas Cristo os ensina a reagir com mansidão ao invés de "comprar briga". Depois ainda os instrui sobre a aplicação da misericórdia de forma mais clara: "dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes."

    Uma prova de que Jesus estava corrigindo as tradições deles e não a Lei de Deus está na própria sequência do texto (Mateus 5:43-48), quando Ele diz: "Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos (...)". A Lei de DEUS não diz que inimigo deveria ser odiado, tratando-se obviamente de algo que os religiosos passaram a transmitir como Palavra de DEUS e não o sendo.
    Jesus então reforça ensinos já presentes no Antigo Testamento (Êxodo 23:4-5,9, Levítico 19:17-18, I Samuel 24:18Provérbios 25:21-22), e contrasta a mentira que eles ouviram sobre o ódio aos inimigos com o dever de amar os inimigos, bendizer os que nos maldizem, fazer bem aos que nos odeiam, e orar pelos que nos maltratam e nos perseguem. E como modelo para essa atitude, Cristo fala do amor de DEUS, que "faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos".

    Portanto, os ensinos de Cristo em nada contradizem o que a Lei de DEUS já dizia. A propósito, conforme eu já havia mencionado no texto "A bíblia me permite ter uma arma??", o princípio da autodefesa não vem desacompanhado do conceito de proporcionalidade e, portanto, haveria pena para quem reagisse com força letal contra quem não oferecesse risco real à vida.
    Então o que Cristo faz aqui não é aprimorar ou mudar o que a Lei já dizia, mas sim interpretá-la da forma correta, e lembrar a seus ouvintes que assim como DEUS é misericordioso eles também deveriam ser.

    Mas se existe um direito à autodefesa, por que muitos do povo de DEUS (incluindo profetas, apóstolos e o próprio Cristo) perderam suas vidas ao invés de reagirem contra as autoridades que os perseguiram??

    O martírio como testemunho

    “O martírio é o supremo testemunho prestado à verdade da fé; designa um testemunho que vai até a morte”.
    O parágrafo 2473 do Catecismo da Igreja) descreve muito bem o que representa o martírio.

    A palavra "mártir" vem do grego (μαρτυς), e originalmente significa "testemunha". O termo passa a ter seu sentido atrelado à morte justamente porque muitos do povo de DEUS tiveram suas vidas tomadas pelo testemunho insistente da Sua Palavra. A morte era uma consequência por não negarem a Verdade, mesmo perante torturas.

    As Escrituras apresentam alguns casos de martírio, que incluem o próprio sacrifício de Cristo - o martírio mais importante da História, os martírios de João Batista (decapitado por sua profissão de fé - Marcos 6:14-29), Estevão (que também menciona os profetas martirizados no passado - Atos 7) e Tiago (morto a mando de Herodes - Atos 12:1-2). 

    Em Hebreus 11:35-38 (grifos meus) lemos:
    Houve mulheres que, pela ressurreição, tiveram de volta os seus mortos. Alguns foram torturados e recusaram ser libertados, para poderem alcançar uma ressurreição superior.Outros enfrentaram zombaria e açoites, outros ainda foram acorrentados e colocados na prisão, apedrejados, serrados ao meio, postos à prova, mortos ao fio da espada. Andaram errantes, vestidos de pele de ovelhas e de cabras, necessitados, afligidos e maltratados.O mundo não era digno deles. Vagaram pelos desertos e montes, pelas cavernas e grutas.
    Esse capítulo é famoso por relacionar grandes "heróis da fé", e listar alguns de seus feitos. O trecho acima faz menção a ressurreições ocorridas no tempo do Antigo Testamento (1 Reis 17:22 eReis 4:36) e depois fala sobre muitos "anônimos", que sofreram na pele por serem testemunhas do Senhor em suas épocas.
    Apocalipse 6:11 e 7:9-14 ainda faz menção à visão de João quanto aos que "vieram da grande tribulação e lavaram as suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro". No capítulo anterior lemos uma descrição ainda mais completa, revelando que além daquelas almas haveria mais outros mártires cujas almas viriam se juntar a elas:
    Quando ele abriu o quinto selo, vi debaixo do altar as almas daqueles que haviam sido mortos por causa da palavra de Deus e do testemunho que deram.Eles clamavam em alta voz: "Até quando, ó Soberano santo e verdadeiro, esperarás para julgar os habitantes da terra e vingar o nosso sangue? "Então cada um deles recebeu uma veste branca, e foi-lhes dito que esperassem um pouco mais, até que se completasse o número dos seus conservos e irmãos, que deveriam ser mortos como eles.
    (Apocalipse 6:9-11  - grifos meus)
    Se considerarmos a História do povo de Deus, desde seu início até então, seria impossível tentarmos calcular o tamanho da multidão total vitimada por causa da fé. Até hoje essa perseguição que resulta em execuções ocorre em larga escala em alguns países, mas algo a ser considerado é que, apesar de haver tantos textos bíblicos falando sobre a perseguição como algo inevitável em algum grau. Por exemplo:
    "Bem-aventurados serão vocês quando, por minha causa os insultarem, perseguirem e levantarem todo tipo de calúnia contra vocês.Alegrem-se e regozijem-se, porque grande é a recompensa de vocês nos céus, pois da mesma forma perseguiram os profetas que viveram antes de vocês".
    (Mateus 5:11,12)
    Se vocês são insultados por causa do nome de Cristo, felizes são vocês, pois o Espírito da glória, o Espírito de Deus, repousa sobre vocês.Se algum de vocês sofre, que não seja como assassino, ladrão, criminoso ou como quem se intromete em negócios alheios.Contudo, se sofre como cristão, não se envergonhe, mas glorifique a Deus por meio desse nome.
    (1 Pedro 4:14-16
    Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou forte.
    (2 Coríntios 12:10)
    Não tenham medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes, tenham medo daquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno.
    (Mateus 10:28)
    Quem acha a sua vida a perderá, e quem perde a sua vida por minha causa a encontrará.
    (Mateus 10:39)

    Há mais e mais textos exaltando a perseverança nas tribulações e dando exemplos de personagens bíblicos que se tornaram modelos nessa prática. Além disso, pelas palavras de Cristo, fica claro que morrer pela Sua causa vale mais que viver O negando. E que devemos temer o nosso destino eterno muito mais que o fim da nossa vida terrena.
    Em outras palavras, é virtuoso e digno de honra (Romanos 13:7) perder a vida em nome do testemunho da Verdade, mas é um erro desperdiçar a vida visando os bens celestiais ou qualquer outra coisa. Lembrando que não tentar evitar tal situação é um sinal de desprezo ao valor da vida como dom de DEUS e, além disso, é permitir (e facilitar para) que uma injustiça seja praticada e que o pecado de homicídio seja imputado a quem aplicar a pena (até por isso Jesus e Estevão oraram pedindo que tal culpa não fosse imputada a seus algozes).


    Podemos fugir da perseguição??


    Mesmo que as chances de passarmos por perseguições sejam previstas, não há qualquer encorajamento para que busquemos essa condição. Podemos sim vir a sermos vítimas de perseguição extrema, devendo buscar forças em DEUS para lidar com isso, mas jamais perseguir "masoquistamente" essa realidade.

    Quando Cristo enviou os apóstolos para pregar aos judeus, lhes alertou:
    Eu os estou enviando como ovelhas entre lobos. Portanto, sejam prudentes como as serpentes e simples como as pombas.
    (Mateus 10:16)
    Posteriormente, o apóstolo Paulo escreveu algo semelhante:
    Como está escrito: "Por amor de ti enfrentamos a morte todos os dias; somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro".
    (Romanos 8:36)

    O que podemos entender é que há sim o risco iminente, quando aqueles que nos rodeiam odeiam o evangelho, mas não há sugestão para que abramos mão de nossas vidas se isso puder ser evitado.
    Na própria bíblia há exemplos claros de como o povo de DEUS fugia da perseguição física conforme seu alcance (Atos 8:1; 9:25, 30; 14:6; 17:10, 14). Há também a prova de que essa não é uma atitude covarde e sim a vontade de seu cabeça, Jesus Cristo; tanto por ordem direta (Mateus 10:23) como por exemplo próprio (Lucas 4,29-30; João 8,59). A fuga pode ser considerada então uma forma de autodefesa "passiva", ou seja, para evitar o pior a pessoa escapa para não ser atacada.

    Podemos "atacar" os perseguidores??


    Ainda assim, há situações em que a reação contra o mal pode ser ativa, em prol de um bem maior que a própria segurança. Isto é, quando terceiros oferecem riscos a inocentes, a legítima defesa do outro é um bem superior a poupar a vida do agressor.
    Por exemplo, durante a Segunda Guerra Mundial, Hitler comandava a Alemanha e gradativamente passava a dominar a Europa. Como parte seus atos desumanos, instituiu perseguição a certos grupos, a fim de reforçar a suposta supremacia ariana. Povos dominados passaram a ser aliados nessas práticas e todos (incluindo alemães) que discordavam da prática eram considerados traidores.
    Nesse contexto, um pastor luterano se destacou historicamente por participar ativamente de atentados contra o tirano Hitler. Seu nome era Dietrich Bonhoeffer.
    Diante da grande opressão nazista e da  covardia de muitos cristãos (que se aliaram ao tirano), Bonhoeffer fez parte de um movimento cristão de resistência a o Partido Nazista, chamado "Igreja Confessante", que insistia que:
    Jesus Cristo, e não homem algum ou o Estado, é o nosso único Salvador.
    Além do discurso, efetivamente lutaram para ocultar e salvar judeus das garras dos nazistas, e de fato tentaram matar o próprio Hitler, porém sem êxito.
    Pelas palavras de Bonhoeffer: "É melhor fazer um mal do que ser mau."

    Antes de prosseguir, é importante dizer que Bonhoeffer chegou ao extremo de atentar contra a vida de Hitler depois que as demais tentativas de impedi-lo por meios "não-letais" não tiveram resultados. Quero dizer, intencionar matar o tirano não foi a primeira, nem a segunda coisa que lhe veio em mente, mas sim a última alternativa.

    O grande dilema que aqui se apresenta é: "matar um tirano ou permitir que ele continue matando inocentes??" E se o bom senso nos levar a escolher a primeira opção, a próxima pergunta é: "para proteger inocentes é legítimo matar um tirano??"

    É importante ressaltar aqui que, não proteger inocentes (tendo isso ao alcance) é pecado:
    Erga a voz em favor dos que não podem defender-se, seja o defensor de todos os desamparados.
    (Provérbios 31:8)
    A omissão perante a injustiça é pecado. 
    Fato.

    Matar alguém é pecado. 
    Fato??

    Nem sempre... Conforme demonstrado na postagem anterior, uma pessoa é inocentada de pecado caso mate quem lhe oferece risco real de morte.

    No caso da omissão, é geralmente causada por comodismo e/ou covardia, logo não pode ser defendida. Dessa forma, se para impedir a opressão extrema for inevitável o extremo do assassinato do opressor, esse será um mal menor a ser escolhido. 
    Claro, lembrando sempre do princípio de proporcionalidade... Ninguém deve, por exemplo, pensar em matar seu chefe por não ser devidamente valorizado no trabalho. O extremo só deve ser cogitado (por exemplo, se esse chefe tentasse te matar) depois que todos meios legítimos de impedimento foram tentados ou não resolveriam.

    Dito tudo isso, por que muitos escolhem o martírio ao invés da legítima defesa??
    Por que os cristãos não reagem perante os que querem matar por causa da fé que professam??

    Bom, creio que possa existir muitas repostas, inclusive aquelas que são baseadas em motivações errôneas. Vimos que não devemos "caçar" o martírio, nem crer que através do mérito por essa obra receberemos recompensas celestiais, mas quais seriam as motivações corretas??

    Fatores a serem considerados:

    Primeiramente, é importante distinguir se o ataque motivado pela nossa profissão de fé vem de autoridades legalmente instituídas ou de "civis comuns". A distinção é importante considerando nosso dever de submissão às autoridades (enquanto isso não significar desobediência a DEUS) e a ausência de qualquer dever semelhante perante outras pessoas. Sendo assim, enquanto no caso de "não-autoridades" não há qualquer dever de rendição, perante a perseguição vinda de autoridades a não-rendição poderia se tornar motivo para calúnias, por exemplo. 
    Além disso, uma reação violenta poderia gerar a morte imediata pelo ataque dos perseguidores, enquanto que a rendição poderia dar mais tempo de vida, e com isso haver alguma esperança de escapar da punição final (seja por fuga, seja por reviravolta em um julgamento, etc.).

    Isso leva a um segundo fator a ser considerado, que é o da possibilidade de êxito na resistência. Da mesma forma que deve caber a uma pessoa a decisão sobre reagir ou não em uma situação de risco (por exemplo, tentar aproveitar uma chance para sacar uma arma e atirar em alguém que já lhe aponta uma arma ou apenas seguir ordens esperando que sua vida seja poupada), em uma situação em que é abordada por perseguidores ela pode "medir" quais chances tem de sobreviver caso se renda ou reaja. E lembrando sempre do princípio da proporcionalidade, a pessoa só poderia reagir letalmente se os ataques que sofresse fossem também visando sua morte.

    Por fim, lembrando do que significa a palavra "mártir" em sua origem, pode ser visto como uma grande chance de testemunho a rendição perante os perseguidores, ao invés da reação física ou armada. Lembrando aqui que, "rendição" se refere apenas a não atacar o agressor, mas a profissão de fé jamais deve ser negada.
    Perante a ameaça de morte, um cristão deve persistir na convicção do que crê, jamais negando sua fé em DEUS e em Jesus Cristo como Senhor e Salvador. Desta forma, a pena para essa perseverança na Verdade pode ser a morte pelas mãos assassinas dos seus perseguidores, seja após a rendição física ou após alguma tentativa de se defender dos ataques.

    Entregar a vida na defesa da fé, tem o efeito negativo de não evitar a injustiça e a culpa de homicídio da parte dos assassinos, porém é uma forma extrema de reafirmar a certeza da ressurreição (I Coríntios 15) e que a gratidão e o amor a DEUS estão acima do amor à própria vida aqui neste mundo.
    Nisso se aplicam bem textos já mencionados, como Mateus 10:39: "Quem acha a sua vida a perderá, e quem perde a sua vida por minha causa a encontrará"
    . Ou Filipenses 1:20-21: "Aguardo ansiosamente e espero que em nada serei envergonhado. Pelo contrário, com toda a determinação de sempre, também agora Cristo será engrandecido em meu corpo, quer pela vida quer pela morte; porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro".

    O amor aos algozes, leva ao desejo de suas conversões.
    O reconhecimento da Graça de Deus sobre Seu povo, leva ao entendimento que antes todos nós éramos também inimigos de Deus e de Seus filhos. Portanto, se fomos resgatados, nossos algozes também o podem ser.
    Esse testemunho extremo pode ser um meio de graça para que a semente do evangelho seja plantada e germinada nesses corações.

    Neste caso, faz mais sentido que um cristão entregue sua vida caso a motivação dos agressores seja o ódio do evangelho do que a defenda ao custo de possíveis mortes de seus inimigos. Se a causa do ataque é o evangelho, justifica-se a não reação.

    Na minha opinião, essa entrega deve dizer respeito à própria vida, não a vida de terceiros. Não faz sentido, a meu ver, que o cristão apoie e não resista à tortura contra inocentes devido à causa, ao invés de fazer o possível para impedir. Mas no caso da outra vítima também estar aplicando seu desejo de entrega voluntária por essa causa, passa a fazer sentido o respeito a essa decisão.


    Que DEUS nos fortaleça e conceda sabedoria para que perante situações que exigem decisões difíceis possamos ser firmes e justos, conforme Sua Palavra nos ensina.


    >>> LER A POSTAGEM...

    terça-feira, 29 de janeiro de 2019

    A bíblia me permite ter uma arma??


    Esse é um daqueles temas recorrentes e cheio de opiniões divergentes, das quais, infelizmente, muitas são de cristãos desinformados.
    Neste blog já postei algumas vezes sobre isso, mas nesta postagem em específico pretendo trazer respostas bíblicas para algumas objeções comuns e ressaltar alguns pontos levantados pelo pastor Douglas Wilson no seu artigo: Gun Ownership As Civic Virtue (Posse de Arma como Virtude Cívica).

    O titulo desse artigo é polêmico, e o autor inicia o texto justamente justificando essa afirmação, resumidamente afirmando que não ter uma arma não é um pecado, mas que tê-la e usá-la corretamente é uma virtude. Para maiores detalhes quanto a isso, sugiro a leitura do artigo (em inglês).

    Mas o que de fato me interessa nessa análise é tomar o que a Escritura nos diz sobre a posse de arma, e o autor nos ajuda quanto a isso, mostrando que os "desarmamentistas" erram em ao menos 3 aspectos ao tentarem assumirem que a Escritura os apoia. Segundo ele:
    Existem três argumentos básicos aqui. Há um erro teológico da parte daqueles que tirariam nossas armas de nós. Em segundo lugar, há um erro exegético - uma falha em ver que a Bíblia deixa explícito o espaço para autodefesa. E terceiro, a própria natureza nos ensina que a autodefesa é a prerrogativa de toda criatura.

    O erro teológico se refere à tentação constante de nos esquivarmos da responsabilidade, a ponto colocar a culpa de nossos pecados em objetos inanimados:
    Culpamos o álcool pela embriaguez, computadores pela pornografia, carros por um estilo de vida frenético, ouro pela avareza e as armas pelo crime. Mas as coisas não nos fazem pecar - o pecado procura ingredientes para acontecer, e sempre encontrará. Quando Caim assassinou seu irmão, não foi impedido pela ausência de armas. O material para pecar está sempre preparado ao alcance, e uma parte central do nosso pecado está apontando para longe de nós mesmos. Todo político que pede controle de armas é (em princípio) um herege pelagiano.
    Em segundo lugar, há as considerações exegéticas. Vejamos referências no Antigo e no Novo Testamentos. 


    No Antigo Testamento:

    Se o ladrão que for pego arrombando for ferido e morrer, quem o feriu não será culpado de homicídio,
    (Êxodo 22:2)
    Fica claro que, perante a Lei de Deus, o dono da casa deveria ser inocentado caso ferisse e matasse um invasor. No versículo seguinte, porém, encontramos uma condição:
    mas se isso acontecer depois do nascer do sol, será culpado de homicídio. Um ladrão terá que restituir o que roubou, mas se não tiver nada, será vendido para pagar o roubo.
    (Êxodo 22:3)
    Aqui percebemos que se o crime tiver ocorrido durante o dia, a pena era outra. O ladrão deveria restituir o que roubou (mesmo que tivesse que trabalhar à força para conseguir o valor total), mas se o dono da casa resolvesse matá-lo seria condenado por homicídio.

    Nesse caso, a menção ao sol não é um capricho, há alguns princípios a serem considerados e ao menos 2 interpretações:
    1) Lembrando que o contexto da lei envolve casas sem energia elétrica, o princípio aqui se refere à capacidade de identificar qual a intenção do agressor. Durante o dia, o dono da casa facilmente poderia ver o agressor e saber que tipo de risco ele fornecia (se estava armado e com que tipo de arma), logo, poderia escapar ou se defender à altura (e proporcionalmente), a ponto de neutralizar a ameaça. 
    2) Uma segunda interpretação diria respeito ao ataque do dono da casa não ser vingativo. A ideia aqui é que ele deveria ser absolvido caso atacasse o invasor enquanto este estava em ação (à noite) e não depois (saído o sol). Ou seja, o dono da casa não deveria ir atrás do invasor e matá-lo, pois o bandido não deveria ser condenado à morte e sim a restituir o que roubou.

    Acredito que as 2 interpretações são possíveis, e o mais importante é que o princípio ao direito à autodefesa é assegurado em ambas.

    Um outro texto ressaltando a naturalidade do direito à autodefesa é o capítulo 4 do livro de Neemias. Vale a pena replicá-lo aqui grifando alguns trechos:
    Quando Sambalate soube que estávamos reconstruindo o muro, ficou furioso. Ridicularizou os judeus e, na presença de seus compatriotas e dos poderosos de Samaria, disse:

    "O que aqueles frágeis judeus estão fazendo?
    Será que vão restaurar o seu muro?
    Irão oferecer sacrifícios?
    Irão terminar a obra num só dia?
    Será que vão conseguir ressuscitar pedras de construção
    daqueles montes de entulho e de pedras queimadas? "

    Tobias, o amonita, que estava ao seu lado, completou: 
    "Pois que construam! 
    Basta que uma raposa suba lá, 
    para que esse muro de pedras desabe! "

    Ouve-nos, ó Deus, pois estamos sendo desprezados. Faze cair sobre eles a zombaria. E sejam eles levados prisioneiros como despojo para outra terra. Não perdoes os seus pecados nem apagues as suas maldades, pois provocaram a tua ira diante dos construtores.

    Nesse meio tempo fomos reconstruindo o muro, até que em toda a sua extensão chegamos à metade da sua altura, pois o povo estava totalmente dedicado ao trabalho.

    Quando, porém, Sambalate, Tobias, os árabes, os amonitas e os homens de Asdode souberam que os reparos nos muros de Jerusalém tinham avançado e que as brechas estavam sendo fechadas, ficaram furiosos.
    Todos juntos planejaram atacar Jerusalém e causar confusão.
    Mas nós oramos ao nosso Deus e colocamos guardas de dia e de noite para proteger-nos deles. 
    Enquanto isso, o povo de Judá começou a dizer: 
    "Os trabalhadores já não têm mais forças e ainda há muito entulho. 
    Por nós mesmos não conseguiremos reconstruir o muro".

    E os nossos inimigos diziam: 
    "Antes que descubram qualquer coisa ou nos vejam, 
    estaremos bem ali no meio deles
    vamos matá-los e acabar com o trabalho deles".

    Os judeus que moravam perto deles dez vezes nos preveniram: 
    "Para onde quer que vocês se virarem, 
    saibam que seremos atacados de todos os lados".

    Por isso posicionei alguns do povo atrás dos pontos mais baixos do muro, nos lugares abertos, divididos por famílias, armados de espadas, lanças e arcos.

    Fiz uma rápida inspeção e imediatamente disse aos nobres, aos oficiais e ao restante do povo: 
    "Não tenham medo deles.
    Lembrem-se de que o Senhor é grande e temível,
    e lutem por seus irmãos,
    por seus filhos e por suas filhas,
    por suas mulheres e por suas casas".

    Quando os nossos inimigos descobriram que sabíamos de tudo e que Deus tinha frustrado a sua trama, todos nós voltamos para o muro, cada um para o seu trabalho.
    Daquele dia em diante, enquanto a metade dos meus homens fazia o trabalho, a outra metade permanecia armada de lanças, escudos, arcos e couraças. 

    Os oficiais davam apoio a todo o povo de Judáque estava construindo o muro. Aqueles que transportavam material faziam o trabalho com uma mão e com a outra seguravam uma armae cada um dos construtores trazia na cintura uma espada enquanto trabalhava; e comigo ficava um homem pronto para tocar a trombeta.

    Então eu disse aos nobres, aos oficiais e ao restante do povo: 

    "A obra é grande e extensa, e estamos separados, distantes uns dos outros, ao longo do muro. Do lugar de onde ouvirem o som da trombeta, juntem-se a nós ali. Nosso Deus lutará por nós! "

    Dessa maneira prosseguimos o trabalho com metade dos homens empunhando espadas, desde o raiar da alvorada até o cair da tarde.

    Naquela ocasião eu também disse ao povo: 

    "Cada um de vocês e o seu ajudante
    devem ficar à noite em Jerusalém,
    para que possam servir de guarda à noite
    e trabalhar durante o dia".

    Eu, os meus irmãos, os meus homens de confiança e os guardas que estavam comigo nem tirávamos a roupa, e cada um permanecia de arma na mão.
    O contexto deste texto é a reconstrução dos muros de Jerusalém. Apesar da permissão concedida pelo rei persa Artaxerxes, os judeus enfrentaram oposição contra seu trabalho e este capítulo ressalta a resolução e determinação deles em realizá-lo.

    A narrativa de Neemias nos mostra pontos interessantes, como a divisão da jornada dos homens entre os que trabalhavam ativamente na construção e os que serviam como guardas para os demais. Pelo texto podemos pensar em turnos, de homens voluntários, que tinham em mente a proteção de suas famílias e seus compatriotas.
    O conceito de autodefesa (e defesa de terceiros) é tão natural aqui, que eles portavam suas armas o tempo todo, preparados para contra-atacar. E mais que um direito, tinham isso como dever, pois eram os cabeças de suas famílias e portanto tinham que defendê-las.

    Lembrando ainda que estavam empenhados na construção dos muros, que também são para defesa. Desta forma, precisavam garantir a segurança em uma situação extrema com uso de armas de ataque para minimizarem os riscos com muros, que trariam mais proteção e reduziria essa necessidade de confronto direto.

    Outro ponto importantíssimo está no fato deles orarem a DEUS pedindo proteção, mas portarem armas.
    Alguns, hoje em dia, alegam que portar armas seria uma demonstração de falta de confiança em DEUS, porém este é um outro erro cometido por ingenuidade ou desfaçatez.
    Poderíamos inclusive discutir aqui sobre o contraste entre Soberania de Deus e responsabilidade humana, porém, resumindo pelo óbvio, o fato de Deus ser o Senhor da História, do Tempo e Sustentador de todas as coisas não elimina a responsabilidade humana em agir conforme o próprio Deus ordena.

    No Salmo 127 encontramos o contraste apresentado sem qualquer contradição. O primeiro versículo diz:
    Se não for o Senhor o construtor da casa, será inútil trabalhar na construção.
    Se não é o Senhor que vigia a cidade, será inútil a sentinela montar guarda.
    A ênfase aqui é a Soberania de Deus (como deve ser), demonstrando que qualquer obra humana em si só não é suficiente para determinar o fim do homem. Somente se Deus quiser, tais esforços terão o resultado desejado pelo homem.

    Porém, o próprio texto não condena a ação humana. Ele não diz que o fato de que tudo depende da vontade de Deus deve excluir a atuação humana em prol do bem do seu próximo e da preservação da vida. Logo, mesmo que não adiante trabalhar na construção da casa ou uma sentinela montar guarda para vigiar a cidade se DEUS não estiver à frente da construção ou vigiando, isso não torna a construção ou a guarda inúteis e sem sinal de desconfiança. É, ao contrário, sinal de prudência, também exigida nas Escrituras. (Provérbios 8:5; Provérbios 8:121 Crônicas 22:12).

    O capítulo 4 de Neemias (explicado acima) se aplica, portanto, perfeitamente ao conceito explicado nesse versículo do Salmo.

    Outro ponto que poderia ser bastante comentado tendo por base textos do Antigo Testamento é o do envolvimento do povo de Deus com guerras, mas o foco deste artigo não é este.
    Para mais informações e uma análise mais detalhada sobre esse ponto, sugiro a seguinte leitura:



    Mas e quanto ao Novo Testamento?

    Ele lhes disse: "Mas agora, se vocês têm bolsa, levem-na, e também o saco de viagem; e se não têm espada, vendam a sua capa e comprem uma.
    Está escrito: ‘E ele foi contado com os transgressores’; e eu lhes digo que isto precisa cumprir-se em mim. Sim, o que está escrito a meu respeito está para se cumprir".
    Os discípulos disseram: "Vê, Senhor, aqui estão duas espadas".
    "É o suficiente!", respondeu ele.
    (Lucas 22:36-38)
    Apesar das palavras de Cristo parecerem claras, existe a alegação de não há literalidade nelas. Alguns afirmam que Jesus estaria falando ironicamente, e subentende-se então que os ouvintes deveriam assimilar isso, porém faltam evidências dessa ironia. Soa como uma tentativa simplória de justificação da parte dos desarmamentistas, mas sem provas.
    Mesmo assumindo que Jesus quis dizer algo enigmático, ainda assim seria estranho considerar que seus discípulos já possuíam espadas e Ele não os censurou...

    E vale a pena considerar esse discurso lembrando que tempos atrás esses mesmo discípulos foram informados que não precisavam se preocupar com recursos para sua sobrevivência nas viagens, pois seriam supridos:
    Vão! Eu os estou enviando como cordeiros entre lobos.
    Não levem bolsa nem saco de viagem nem sandálias; e não saúdem ninguém pelo caminho.
    (Lucas 10:3,4)
    Esse trecho é parte da narrativa de Jesus enviando mais de 70 homens como missionários, e garantindo que seriam supridos, sem que precisassem levar mantimentos. Ele está claramente ligado ao texto mencionado antes (Lucas 22:36-30), como fica evidente se lermos também o versículo 35:
    Então Jesus lhes perguntou: "Quando eu os enviei sem bolsa, saco de viagem ou sandálias, faltou-lhes alguma coisa?" "Nada", responderam eles.Ele lhes disse: "Mas agora, se vocês têm bolsa, levem-na, e também o saco de viagem; e se não têm espada, vendam a sua capa e comprem uma.
    (Lucas 22:35,36 - grifos meus)
    Quando lemos o início do versículo 36 com um pouco de atenção, percebemos que há um contraste (mas) entre o que foi no passado e o que deveria ser feito naquele momento ou a partir dali (agora). E o versículo traz um comando justamente oposto ao do passado, acrescentando que adquirissem também espadas.

    Alguns ainda alegam dissimulada ou ingenuamente que o fato do "Reino de Deus não ser deste mundo" (João 18:36) e que "nossa luta não é contra carne e sangue" (Efésios 6:12) aponta para a autodefesa violenta com um pecado. Alguns vão além dizendo que não é pela força que o Reino de Deus é ampliado e com isso acabam pregando uma passividade perniciosa, que transformaria o povo de Deus em um refém masoquista dos ímpios. Porém, ao fazerem uma interpretação errônea desses textos, geram contradições com os textos já mencionados anteriormente.

    Evidentemente não é pela força física ou letal que a Igreja prevalece contra o inferno (Mateus 16:18), porém, um indivíduo se defender contra a violência não é um pecado. A luta espiritual real que vivenciamos não exclui as relações humanas e a necessidade de atitude perante os efeitos do pecado na sociedade.

    Além disso, em uma situação de ameaça às vidas de inocentes (terceiros), preservá-las é mais importante do que preservar a vida daquele(s) que fornecem tal ameaça. O texto anteriormente mencionado de Neemias mostra isso claramente. 
    Essa é a base para a autodefesa e a defesa de entes queridos. Não é apenas um direito, mas também um dever:
    Se alguém não cuida de seus parentes, e especialmente dos de sua própria família, negou a fé e é pior que um descrente.
    (1 Timóteo 5:8)
    O texto acima engloba todo tipo de cuidado quanto às necessidades de familiares, logo, a própria vida deles precisa ser incluída. E a acusação contra a omissão nesse caso é pesada: "negou a fé e é pior que um descrente".


    As autoridades e instituições incumbidas para defesa do cidadão


    Dito tudo isso, outro ponto a ser pensado diz respeito a instituições incumbidas de proteger as pessoas de forma geral. É comum que pessoas digam que deve haver desarmamento civil porque é obrigação da polícia defender a população.
    Esse argumento é muito ruim, falhando em considerar que:


    1) O direito à autodefesa não deve ser retirado ou terceirizado À FORÇA;
    Esse é o principal ponto. O fato de haver uma instituição criada para tal fim não deve ser justificativa para que um direito natural de um indivíduo seja retirado.
    Uma pessoa pode livremente escolher abrir mão desse direito (tendo terceiros como seguranças, por exemplo), mas jamais deveria ser forçada a isso.


    2) Nenhuma instituição humana é onisciente, onipotente e onipresente;
    Devido ao péssimo entendimento de muitos quanto ao real papel das autoridades e governos, praticamente se atribui ao Estado o papel de DEUS. Ele deve nos conceder tudo que precisamos, afinal, pagamos nossos impostos...
    A partir desse entendimento errado, alguns acham que os indivíduos não precisam ter o direito à autodefesa assegurado pois é o Estado quem deve cumprir esse papel. Desprezam que, além praticarem uma espécie de idolatria infundada (e ingênua), estão cobrando que um grupo limitado de pessoas seja capaz de realizar atos que exigem plenitude de conhecimento, poder e presença. Algo logicamente impossível...
    Obviamente, pela polícia (ou qualquer instituição que exercesse tal papel) não possuir tais atributos, nenhum indivíduo pode supor que em qualquer situação ela poderá ajudá-lo imediatamente. E por muitas vezes o imediatismo ser necessário é, que mais uma vez o direito pessoal à autodefesa é reforçado.

    3) Uma instituição que monopoliza o direito à defesa tem portas abertas para oprimir os indefesos.
    "Ora, em toda a terra de Israel não se achava um só ferreiro; porque os filisteus tinham dito: Não façam os hebreus para si nem espada nem lança. Pelo que todos os israelitas tinham que descer aos filisteus para afiar cada um a sua relha, a sua enxada, o seu machado e o seu sacho. Tinham porém limas para os sachos, para as enxadas, para as forquilhas e para os machados, e para consertar as aguilhadas. Assim, no dia da peleja, não se achou nem espada nem lança na mão de todo o povo que estava com Saul e com Jônatas; acharam-se, porém, com Saul e com Jônatas seu filho." 
    (1 Samuel 13: 19-20).
    Quando os governantes políticos estão ansiosos para desarmar a população em geral, não é paranoia suspeitar que outras questões estão em jogo.
    - Douglas Wilson
    Creio que o texto bíblico não exija muita explicação, e o comentário de Douglas Wilson sintetiza isso. Mas se não for suficiente, lembremos os casos de desarmamento impostos por governantes na História Moderna, e quais foram os frutos disso...
    Quanto menos restrições (e portanto mais poder) se dá aos governantes, maior a chance dos cidadãos comuns serem oprimidos. Quanto menos recursos para a autodefesa tivermos, as chances de nos tornarmos vítimas aumenta.


    E como diz Douglas Wilson:
    Não é possível garantir o direito à autodefesa sem simultaneamente garantir os meios para a autodefesa.
    Em outras palavras, qual o efeito de se afirmar a existência desse direito e se proibir as formas possíveis de realizá-lo??


    As "armas de fogo" como aliadas e não vilãs

    Apesar de tantos exemplos bíblicos, alguém poderia alegar que nenhum deles se refere a "armas de fogo" e portanto não se aplicariam. Porém, isso é falso, pois o mesmo princípio da autodefesa (tão destacado) vale para o uso de qualquer tipo de arma.

    No livro "Armas, Defesa Pessoal e a Bìblia", o autor discorre bem sobre a possibilidade real de que praticamente qualquer objeto pode vir a se tornar uma arma nas mãos de alguém intencionado em agredir outrem. Logo, a autodefesa também se sustenta com o uso de objetos para esse fim.

    Se por um lado as armas de fogo tem seu poder letal ampliado pela maior praticidade para o seu usuário em comparação com armas que exigem curta distância ou maior emprego de força no manuseio, por outro lado isso favorece a vítima de agressão possibilitando que possa se defender melhor.
    Por exemplo: Se um homem invade uma casa e intenciona abusar sexualmente de uma mulher que está sozinha, ela terá chances muito melhores de se defender do agressor se portar um revólver do que um canivete.

    Desta forma, pode-se considerar que a vítima é favorecida com o acesso a esse tipo de arma.

    Por fim, o mau uso é algo que não pode ser efetivamente evitado, mas tirar o direito da autodefesa não é a solução para isso. O que deve ser feito é o que as Escrituras apontam, que é punir severamente aqueles que, devido ao mau uso, causaram danos a terceiros. A imperícia e a imprudência são agravantes na pena de um homicida, por exemplo. Desta forma, assim como deve haver garantia do direito natural à autodefesa é também preciso que se puna adequadamente aqueles que usam esse direito indevidamente, e ferem outros direitos de terceiros.

    CONCLUSÃO


    Ao contrário do que muitos acreditam ou distorcem (incluindo cristãos), a bíblia não proíbe a autodefesa. Conforme demonstrado, o direito era assegurado civilmente no Antigo Israel e confirmado por Cristo no Novo Testamento. E mais que um direito, pode ser visto como um dever quando se trata de proteger a vida de "próximos" perante ameaças de agressores.
    Confiar em Deus não exclui a prudência e a responsabilidade humana, do contrário até trancar a porta de casa seria sinal de incredulidade. Pelo contrário, o próprio Cristo diz perante o diabo que não devemos tentar ao nosso DEUS ().
    Portanto, jamais devemos desenvolver uma confiança idólatra em armas como se fossem a solução para a segurança pessoal ou de todos e esquecendo que é DEUS quem nos sustenta e nos guarda, mas tê-las para proteção não é sinal de falta de fé ou de amor ao próximo.

    Que ELE abra nossos olhos e corações para nos atermos à Sua Palavra e tão somente ela como fonte da Verdade.


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    sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

    O que a Bíblia diz sobre Trabalho?


    O início de um ensaio escrito por Bob Black em 1985 intitulado A abolição do trabalho dizia: "Ninguém deveria trabalhar. O trabalho é a fonte de quase toda a miséria do mundo. Quase todo mal que você gostaria de nomear vem do trabalho ou de viver em um mundo projetado para o trabalho. Para parar de sofrer, temos que parar de trabalhar". Em uma cultura amante do lazer, muitos sinceramente ecoariam o sentimento de Black. Os americanos gastam aproximadamente 50% de suas horas de vigília dedicadas ao trabalho. O trabalho é uma maldição, ou é algo que os seres humanos foram projetados exclusivamente para fazer? Em contraste com as afirmações de Bob Black, o significado e a natureza benéfica do trabalho é um tema retumbante na Bíblia.

    A origem do trabalho é descrita no livro de Gênesis. Na passagem de abertura, Deus é o principal trabalhador ocupado com a criação do mundo (Gênesis 1:1-15). A Bíblia afirma que Deus trabalhou por seis dias e descansou no sétimo dia. Essas passagens revelam que Deus foi o primeiro a trabalhar na terra. Portanto, o trabalho legítimo reflete a atividade de Deus. Porque Deus é inerentemente bom, o trabalho também é inerentemente bom (Salmos 25:8; Efésios 4:28). Além disso, Gênesis 1:31 declara que, quando Deus viu o fruto do seu trabalho, Ele o chamou de "muito bom". Deus examinou e avaliou a qualidade de Seu trabalho e, quando determinou que Ele havia feito um bom trabalho, prazer no resultado. Por este exemplo, é evidente que o trabalho deve ser produtivo. O trabalho deve ser conduzido de uma maneira que produza resultados da mais alta qualidade. A recompensa pelo trabalho é a honra e satisfação que vem de um trabalho bem feito.

    O salmo 19 diz que Deus se revela ao mundo por Sua obra (Seu trabalho). Através da revelação natural, a existência de Deus é dada a conhecer a todas as pessoas na terra. Assim, o trabalho revela algo sobre quem está fazendo o trabalho. Ele expõe o caráter subjacente, motivações, habilidades, capacidades e traços de personalidade. Jesus repetiu esse princípio em Mateus 7:15-20, quando declarou que árvores ruins só produzem bons frutos e boas árvores apenas bons frutos. Isaías 43:7 indica que Deus criou o homem para a Sua própria glória. Em 1 Coríntios 10:31 lemos que tudo o que fazemos deve ser para a Sua glória. O termo glorificar significa "dar uma representação precisa". Portanto, o trabalho feito pelos cristãos deve dar ao mundo uma imagem precisa de Deus em retidão, fidelidade e excelência.

    Deus criou o homem à Sua imagem com características semelhantes a Ele (Gênesis 1:26-31). Ele criou o homem para trabalhar com Ele no mundo. Deus plantou um jardim e colocou Adão nele para cultivá-lo e mantê-lo (Gênesis 2: 8, 15). Além disso, Adão e Eva deveriam subjugar e governar a terra. O que esse mandato original significa? Cultivar significa promover o crescimento e melhorar. Manter meios de preservar do fracasso ou declínio. Subjugar significa exercer controle e disciplina. Dominar os meios para administrar, assumir a responsabilidade e tomar decisões. Este mandato aplica-se a todas as vocações. Os líderes da Reforma do século XV viram uma ocupação como um ministério diante de Deus. Os empregos devem ser reconhecidos como ministérios, e os locais de trabalho devem ser considerados como campos missionários.

    A Queda do Homem descrita em Gênesis 3 gerou uma mudança na natureza do trabalho. Em resposta ao pecado de Adão, Deus pronunciou vários juízos em Gênesis 3:17-19, dos quais o mais grave é a morte. No entanto, o trabalho e os resultados do trabalho figuram centralmente no restante dos julgamentos. Deus amaldiçoou o chão. O trabalho ficou difícil. A palavra labuta é usada, implicando desafio, dificuldade, exaustão e luta. O trabalho em si ainda era bom, mas o homem deve esperar que isso seja realizado "pelo suor de sua testa". Além disso, o resultado nem sempre será positivo. Embora o homem coma as plantas do campo, o campo também produzirá espinhos e cardos. O trabalho duro e o esforço nem sempre serão recompensados ​​da maneira que o trabalhador espera ou deseja.

    Também é notado que o homem estaria comendo do produto do campo, não do jardim. Um jardim simboliza um paraíso terrestre feito por Deus como um recinto seguro. Jardins também simbolizam pureza e inocência. A terra ou campo, por outro lado, representa um espaço ilimitado e desprotegido e uma ênfase na perda de inibição e mundanismo. Portanto, o ambiente de trabalho pode ser hostil, especialmente para os cristãos (Gênesis 39:1-23; Êxodo 1:8-22; Neemias 4).


    Dizem que o homem tem três necessidades básicas na vida: amor, propósito e significado. Muitas vezes, os humanos tentam encontrar propósito e significado no próprio trabalho. Em Eclesiastes 2:4-11, Salomão detalha sua busca por significado em uma variedade de projetos e obras de todos os tipos. Mesmo que o trabalho tenha trazido certo grau de satisfação, sua conclusão foi: "Contudo, quando avaliei tudo o que as minhas mãos haviam feito e o trabalho que eu tanto me esforçara para realizar, percebi que tudo foi inútil, foi correr atrás do vento; não há qualquer proveito no que se faz debaixo do sol."


    Outros princípios bíblicos críticos sobre o trabalho são:
    • O trabalho é feito não apenas para beneficiar o trabalhador, mas também outros (Êxodo 23:10-11; Deuteronômio 15:7-11; Efésios 4:28).
    • O trabalho é uma dádiva de Deus e, para o Seu povo, será abençoado (Salmos 104: 1-35; 127: 1-5; Eclesiastes 3: 12-13, 5: 18-20; Provérbios 14:23).
    • Deus equipa o Seu povo para o seu trabalho (Êxodo 31:2-11).

    Tem havido muito debate recentemente sobre as responsabilidades e obrigações sociais para com os desempregados, sem seguro e sem educação em nossa sociedade. Embora muitos dos afetados pelas recessões econômicas realmente desejem trabalhar e não consigam emprego, há vários cidadãos dos EUA que se tornaram beneficiários da previdência social, preferindo permanecer no governo. É interessante notar que o sistema de bem-estar bíblico era um sistema de trabalho (Levítico 19:10; 23:22). A Bíblia é dura em sua condenação da preguiça (Provérbios 18:9). Paulo deixa claro a ética do trabalho cristão: "Se alguém não cuida de seus parentes, e especialmente dos de sua própria família, negou a fé e é pior que um descrente." (1 Timóteo 5:8).

    Além disso, a instrução de Paulo a outra igreja em relação àqueles que preferiram não trabalhar era: "se afastem de todo irmão que vive ociosamente e não conforme a tradição que receberam de nós". E ele prossegue dizendo: "Quando ainda estávamos com vocês, nós lhes ordenamos isto: se alguém não quiser trabalhar, também não coma". Em vez disso, Paulo instrui aqueles que estiveram ociosos, "A tais pessoas ordenamos e exortamos no Senhor Jesus Cristo que trabalhem tranqüilamente e comam o seu próprio pão." (2 Tessalonicenses 3:12).


    Embora o desígnio original de Deus para o trabalho tenha sido pervertido pelo pecado, Deus um dia restaurará o trabalho sem as cargas que o pecado introduziu (Isaías 65:17-25; Apocalipse 15:1-4; 22:1-11). Até o dia em que o pecado Novos céus e nova terra estejam estabelecidos, a atitude cristã em relação ao trabalho deve espelhar a de Jesus: "A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e concluir a Sua obra" (João 4:34). O trabalho não tem valor, exceto quando Deus está nele.


    Traduzido livremente de: https://www.gotquestions.org/Bible-work.html


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    segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

    Jesus nasceu no dia 25 de dezembro??


    Há quase 2 milênios o Natal é celebrado como festa cristã que remete ao nascimento de Jesus Cristo, e, portanto, à encarnação de Deus para salvação dos homens. Nessa data geralmente lembramos da narrativa bíblica, tão descritiva, sobre a chegada ao mundo do Salvador, tão humilde e tão gloriosa. 

    Aqueles que celebram o Natal devem reconhecer que a bíblia não nos traz qualquer ordenança quanto à celebração ou lembrança desse evento nessa data específica, logo, isso se torna algo de cunho pessoal e não um dever da Igreja, muito menos uma obrigação litúrgica. Por outro lado, não estão proibidos de lembrar e celebrar o nascimento de Cristo, de reunir familiares e terem bons momentos nessa data, ainda que o possam fazer em qualquer outra data.

    O dia 25 de dezembro foi adotado como o dia do nascimento de Cristo, principalmente por causa da Tradição Cristã, mas será que é possível sabermos quando, de fato, Cristo nasceu??

    A proposta desse texto é levantar as objeções mais comuns ao nascimento de Jesus ter ocorrido em 25 de dezembro e alguns argumentos contrários a elas, e apresentar ao término minha opinião a respeito.



    Observação: A maior parte do texto a seguir foi obtida a partir da livre tradução de parte do artigo "Yes, Christ Was Really Born on December 25: Here’s a Defense of the Traditional Date for Christmas".



    O Natal no lugar da Saturnália e do "Sol Invicto"


    Uma alegação comum é que 25 de dezembro foi escolhido para substituir o festival pagão romano da Saturnália, que era um popular festival que celebrava o solstício de inverno.
    Ainda que, de fato, a data do solstício fosse 22 de dezembro, suas celebrações começavam no dia 17 e se estendiam até o dia 23. Sendo assim a alegação não é consistente, por a celebração terminava antes do dia 25.

    Outra alegação diz respeito ao culto do Sol Invicto. O imperador Aureliano introduziu o culto do Sol Invictus ("Sol Invicto") em Roma em 274 dC. Aureliano encontrou força política com este culto, porque seu próprio nome Aureliano deriva da palavra latina aurora denotando "nascer do sol". Moedas revelam que o imperador Aureliano se chamava o Pontifex Solis ou "Pontífice do Sol". Assim, Aureliano simplesmente acomodou um culto solar genérico e identificou seu nome com ele no final do terceiro século.
    O mais importante nessa consideração é que não há registro histórico para uma celebração Natalis Sol Invictus em 25 de dezembro anterior a 354 dC. Em um manuscrito do ano 354 dC, há uma anotação para 25 de dezembro “N INVICTI CM XXX”. "Natividade". INVICTI significa "do Invicto". CM significa "circenses missus" ou "jogos ordenados". O numeral romano XXX é igual a trinta. Assim, a inscrição significa que trinta jogos foram encomendados para a natividade do Indomado para 25 de dezembro. Note que a palavra "sol" não está presente. Além disso, o mesmo códice também lista “natus Christus in Betleem Iudeae” para o dia 25 de dezembro. A frase é traduzida como “nascimento de Cristo em Belém da Judéia”. [I]
    A data de 25 de dezembro só se tornou o "Aniversário do Sol Invicto" sob o Imperador Juliano, o Apóstata. Ele havia sido cristão, mas havia apostatado e retornado ao paganismo romano. A história revela que foi o odioso imperador ex-cristão que ergueu um feriado pagão em 25 de dezembro. Pense nisso por um momento. O que ele estava tentando substituir?
    Esses fatos históricos revelam que o Sol Invicto não era provavelmente uma divindade popular no Império Romano. O povo romano não precisou ser desabituado de um feriado antigo. Além disso, a tradição de uma celebração de 25 de dezembro não encontra um lugar no calendário romano até depois da cristianização de Roma

    O feriado do “Aniversário do Sol Invicto” era pouco tradicional e dificilmente popular. Saturnália (mencionado acima) era muito mais popular, tradicional e divertido. Parece, ao contrário, que o imperador apóstata Juliano tentou introduzir um feriado pagão para substituir o cristão!


    Os pastores não se reúnem durante o inverno, logo, Cristo não nasceu no inverno.


    Outra objeção popular afirma que Cristo não poderia ter nascido em dezembro pois o evangelho segundo Lucas descreve pastores pastoreando nos campos vizinhos de Belém.

    Neste caso é importante lembrar que Belém situa-se na latitude de 31,7. Tomando o exemplo da cidade de Dalas (no Texas), que tem latitude de 32,8, observa-se que ainda é bastante confortável em dezembro. Cornélio à Lapide (1567 - 1637) observou que ainda se podia ver pastores e ovelhas nos campos da Itália durante o final de dezembro, e a Itália está em latitude mais alta do que Belém.


    A bíblia não dá base para identificarmos a data do nascimento de Cristo


    Diferentemente do que se supõe, a Sagrada Escritura nos dá ao menos pistas sobre a data do nascimento de Cristo. Para chegarmos a essa data, o primeiro passo é usar as Escrituras para determinar o aniversário de São João Batista e o próximo é usar o aniversário de São João Batista como a chave para encontrar o aniversário de Cristo.
    Podemos descobrir que Cristo nasceu no final de dezembro, observando primeiro a época do ano em que São Lucas descreve São Zacarias no templo. Isso nos fornece a data aproximada da concepção de São João Batista. De lá, podemos seguir a cronologia que São Lucas dá, e isso nos acolhe no final de dezembro.

    Lucas relata que Zacarias (pai de João) serviu no “turno de Abias” (Lucas 1:5), que a Escritura registra como o oitavo turno entre os vinte e quatro turnos sacerdotais (Neemias 12:17). Cada turno de sacerdotes servia uma semana no templo duas vezes por ano. O curso de Abias serviu durante a oitava semana e a trigésima segunda semana no ciclo anual. [II] No entanto, quando começou o ciclo de turnos?
    Josef Heinrich Friedlieb estabeleceu convincentemente que o primeiro turno sacerdotal de Joiaribe estava em vigor durante a destruição de Jerusalém no nono dia do mês judaico de Av. [III] Assim, o curso sacerdotal de Joiaribe estava em serviço durante a segunda semana de Av. Conseqüentemente, o turno sacerdotal de Abias (o turno de Zacarias) estava servindo indubitavelmente durante a segunda semana do mês judaico de Tishri - a mesma semana do Dia da Expiação no décimo dia de Tishri. Em nosso calendário, o Dia da Expiação aconteceria de 22 de setembro a 8 de outubro.
    Zacarias e Isabel conceberam João Batista imediatamente depois que Zacarias cumpriu seu turno. Isto implica que São João Batista teria sido concebido em algum lugar por volta do final de setembro, colocando o nascimento de João no final de junho, confirmando a celebração da Igreja Católica da Natividade de São João Batista em 24 de junho.

    O resto da conta é bastante simples. Nós lemos que logo após a Maria conceber Cristo, ela foi visitar sua prima Isabel, que estava grávida de seis meses de João Batista. Isto significa que João Batista era seis meses mais velho que nosso Senhor Jesus Cristo (Lucas 1:24-27,36). Se você acrescentar seis meses a 24 de junho, terá 24 ou 25 de dezembro como o aniversário de Cristo. Então, se você subtrair nove meses de 25 de dezembro, verá que a Anunciação foi em 25 de março. Todas essas datas combinam perfeitamente com aquelas propostas pela Tradição Cristã e adotada pela ICAR (Igreja Católica Apostólica Romana). Então, se João Batista foi concebido logo após o Dia da Expiação, o nascimento de Cristo seria aproximadamente no dia 25 de dezembro.


    A Tradição cristã e o Natal


    Conforme vimos anteriormente, é possível adotarmos a data aproximada de 25 de dezembro (principalmente o mês) como aquela em que Cristo nasceu, olhando para as Escrituras, porém sem plena convicção.

    A adoção da data no calendário litúrgico não pode ser confirmada pelo "Sola Scriptura", ou seja, não pode portanto ser observada trazendo qualquer obrigação sobre os cristãos. E curiosamente, as Escrituras não se preocupam em revelar com detalhes essa data, mesmo que muitas testemunhas pudessem trazer essa informação para os escritores.

    Desta forma, se o Natal é celebrado nessa data, isso se dá pela Tradição Cristã, quando teólogos e a igreja católica romana passam a assumir informação extra-bíblicas como base. A partir disso, afirmando que essas informações tenham se disseminado por tradição oral com fontes como a própria Maria (mãe de Jesus), sugere-se então que a data exata de nascimento (25 de dezembro) e a hora (meia-noite) já seriam conhecidas no primeiro século.

    Um testemunho adicional revela que os Pais da Igreja declararam o dia 25 de dezembro como o aniversário de Cristo antes da conversão de Constantino e do Império Romano. O registro mais antigo disso é que Telésforo (papa que vigorou de 126-127) instituiu a tradição da Missa da meia-noite na véspera de Natal. Embora o Liber Pontificalis não nos dê a data do Natal, supõe-se que o Papa já estava celebrando o Natal e que uma missa à meia-noite foi acrescentada. Durante esse período, lemos também as seguintes palavras de Teófilo (115-181 dC), bispo católico de Cesaréia na Palestina: “Devemos celebrar o aniversário de Nosso Senhor em que dia 25 de dezembro acontecerá”. [IV]
    Pouco depois, no segundo século, São Hipólito (170-240 d.C.) escreveu de passagem que o nascimento de Cristo ocorreu em 25 de dezembro:
    O Primeiro Advento de Nosso Senhor em carne e osso ocorreu quando Ele nasceu em Belém, era 25 de dezembro, uma quarta-feira, enquanto Augusto estava em seu quadragésimo segundo ano, que é cinco mil e quinhentos anos desde Adão. Ele sofreu no trigésimo terceiro ano, 25 de março, sexta-feira, o décimo oitavo ano de Tibério César, enquanto Rufus e Roubellion eram cônsules [V].
    Observe também na citação acima o significado especial de 25 de março, que marca a morte de Cristo (assumiu-se que 25 de março correspondia ao mês hebraico 14 de nisã - a data tradicional da crucificação). [VI] Crê-se que Cristo, como o homem perfeito, tenha sido concebido e morrido no mesmo dia - 25 de março. Em seu Chronicon, Hipólito afirma que a Terra foi criada em 25 de março de 5500 a.C.. Assim, 25 de março foi identificado pelos Pais da Igreja como a data de criação do universo, como a data da Anunciação e da Encarnação de Cristo, e também como a data da morte de Cristo, nosso Salvador.

    Na Igreja Síria, 25 de março ou a Festa da Anunciação foi considerada uma das festas mais importantes do ano inteiro. Denotou o dia em que Deus se instalou no ventre da Virgem. De fato, se a Anunciação e a Sexta-Feira Santa entraram em conflito no calendário, a Anunciação prevaleceu, tamanha sua importância na tradição síria.

    Santo Agostinho confirma esta tradição de 25 de março como a concepção messiânica e 25 de dezembro como seu nascimento:
    Acredita-se que Cristo tenha sido concebido no dia 25 de março, dia em que também sofreu; assim, o ventre da Virgem, em que Ele foi concebido, onde nenhum dos mortais foi gerado, corresponde à nova sepultura em que Ele foi enterrado, onde nunca foi colocado homem, nem antes dele nem desde então. Mas Ele nasceu, segundo a tradição, no dia 25 de dezembro. [VII]
    Por volta de 400 d.C., Santo Agostinho também observou como os donatistas cismáticos comemoravam o dia 25 de dezembro como o nascimento de Cristo, mas que os cismáticos se recusaram a celebrar a Epifania em 6 de janeiro, pois consideravam a Epifania como uma nova festa sem base na Tradição Apostólica. O cisma donatista originou-se em 311 d.C., o que pode indicar que a Igreja latina estava celebrando o Natal em 25 de dezembro (mas não uma epifania de 6 em janeiro) antes de 311 d.C. Seja qual for o caso, a celebração litúrgica do nascimento de Cristo foi comemorada em Roma em 25 de dezembro muito antes do cristianismo se tornar legalizado e muito antes de nosso registro mais antigo de uma festa pagã para o aniversário do Sol Invicto. Por estas razões, é possível sustentar que Cristo nasceu em 25 de dezembro em 1 a.C. e que Ele morreu e ressuscitou em março de 33 d.C..


    CONCLUSÃO:


    Conforme mencionado já no início, a proposta desse texto era demonstrar que há boas respostas às principais alegações contra a celebração do nascimento de Jesus em 25 de dezembro. Porém, conforme espero ter deixado claro, não há como concluirmos a data exata olhando apenas para as Escrituras, mesmo que esta nos dê pistas da data aproximada.
    Como cristão reformado, aponto que isso basta para que qualquer cristão possa se negar a reconhecer essa data, e pela ausência bíblica de ordenança de celebração, ninguém pode ser obrigado a isso nem cobrado por não fazer.
    Ainda assim, vale a pena notar que a tradição de celebração vem dos primeiros séculos depois do nascimento de Cristo, e célebres teólogos acreditavam nessa data como fato.
    Repito, para que não restem dúvidas, que não há obrigatoriedade e nem base para se afirmar que a data é essa mesmo, mas que esses relatos históricos sejam úteis para derrubar as alegações falsas quando elas vierem dos inimigos de Cristo.




    [I] The Chronography of AD 354. Part 12: Commemorations of the Martyrs.  MGH Chronica Minora I (1892), pp. 71-2.

    [II] Supõe-se dois turnos de Abias. Esta teoria só funciona se Zacarias e Isabel conceberam João Batista após o segundo turno de Zacarias - o turno em setembro. Se Lucas se refere ao primeiro turno, isto então colocaria o nascimento de João Batista no final do outono e o nascimento de Cristo no final da primavera. No entanto, acho que a tradição e o Proto evangelium confirmam que o Batista foi concebido no final de setembro.

    [III] Josef Heinrich Friedlieb’s Leben J. Christi des Erlösers. Münster, 1887, p. 312.

    [IV] Magdeburgenses, Cent. 2. c. 6. Hospinian,De origine Festorum Chirstianorum.

    [V] Saint Hippolytus of Rome, Commentary on Daniel.

    [VI]  Há alguma discrepância entre os Pais entre 14 de Nisan 14/25 de Março como data da morte de Cristo ou Sua ressurreição.

    [VII] Saint Augustine, De trinitate, 4, 5.


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