sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Quem foi São Nicolau? (por Kevin DeYoung)

Quem foi São Nicolau?
A resposta insatisfatória ao título deste post é que ninguém sabe dizer com certeza. Citando um estudioso de Nicolau, "Podemos garantir que houve um bispo com esse nome que causou um grande impacto em sua terra natal. Nós também podemos aceitar a data de 6 de dezembro como sendo a data de sua morte e funeral. Esses são todos os fatos que podemos ter certeza. Não podemos ir adiante". (Gustav Anrich, citado por Charles W. Jones em Saint Nicholas of Bari, Myra and Manhattan).
De acordo com as melhores estimativas, Nicolau nasceu por volta do ano 280 AD em Patara, na Ásia Menor. Mais tarde tornou-se bispo de Mira, atual Turquia. Ao que parece, Nicolau morreu por volta do ano 343 ou próximo de 6 de dezembro. Essa é a data de sua celebração na igreja católica.
Não há registro de sua existência em qualquer documento até o século VI. Naquela época, Nicolau, seja lá quem ele tenha sido, já era famoso. O imperador Justiniano dedicou-lhe uma igreja em Constantinopla. Inicialmente, Nicolau era mais conhecido no Oriente. Porém, por volta do ano 900, um grego escreveu: "Tanto o Ocidente quanto o Oriente aclama e o glorifica. Onde quer que haja pessoas, seu nome é reverenciado e igrejas são construídas em sua homenagem. Todos os cristãos respeitam sua memória e invocam sua proteção". Em 1087, marinheiros italianos roubaram seus restos mortais e os levaram de Mira para Bari, na Itália. Isso aumentou sua popularidade na Europa e fez de Bari um dos lugares com o maior índice de peregrinação. Diz-se que Nicolau foi representado por artistas medievais mais vezes do que qualquer outro santo – a não ser Maria.

O homem e o mito

No Concílio de Nicéia, no século IV,
São Nicolau famosamente golpeou Ário,
um sacerdote que negava a divindade de Cristo.

Por que Nicolau foi tão famoso? Bem, é impossível distinguir os fatos da ficção, mas segue aqui um pouco da lenda de São Nicolau:
Ele era considerado ser um fazedor de milagres que trazia crianças de volta à vida, destruía templos pagãos, salvava marinheiros da morte no oceano e, quando bebê era amamentado apenas dois dias por semana e ficava em jejum nos outros cinco dias.
Mudando de uma lenda provável para uma história possível, Nicolau foi honrado por suportar a perseguição. É dito que ele foi aprisionado durante a grande perseguição do Império sob o domínio de Diocleciano e Maximiano. Na ocasião de sua libertação, as pessoas se conglomeraram em sua volta, dizendo: "Nicolau! Confessor! São Nicolau voltou para casa!".
Nicolau também foi aclamado como defensor da ortodoxia. Fontes antigas declaram que ele estava presente no Concílio de Niceia. De acordo com a tradição, ele foi um firme oponente do arianismo. Escrevendo cinco séculos após sua morte, um biógrafo afirma: "Graças ao ensinamento de São Nicolau, a metrópole de Mira não foi maculada pela heresia ariana, pois firmemente a considerou como sendo um veneno". São muitas as histórias sobre sua coragem. Uma delas diz que Nicolau viajou para Niceia e, na chegada, imediatamente deu um tapa no rosto de Ário. O restante dos membros do Concílio ficou tão chocado e revoltado que quiseram remover Nicolau de suas atividades de bispo, até que Jesus e Maria apareceram para defendê-lo. De acordo com a mesma lenda, tal aparição fez com que os membros do Concílio mudassem de ideia, os quais rapidamente se retrataram de tal ultraje.
Como você deve ter adivinhado, Nicolau também foi reverenciado por ser um homem generoso que dava presentes. Tendo nascido em uma família rica, ele herdou a fortuna quando seus pais morreram. Ao que parece, toda a fortuna foi gasta dessa maneira. A história mais famosa envolveu três garotas que eram tão carentes que estavam forçadas a ingressarem em uma vida de prostituição. Nicolau, porém, jogou três bolsas de ouro na janela das jovenzinhas como presentes.
Com o tempo, São Nicolau se tornou o santo padroeiro de nações como a Rússia e a Grécia, de cidades como Friburgo e Moscou, e de crianças, marinheiros, meninas solteiras, comerciantes, penhoristas (as três bolas de ouro penduradas do lado de fora das casas de penhor simbolizam as três bolsas de ouro).

O Natal e São Nicolau

Em homenagem a São Nicolau, o entregador de presentes, cristãos começaram a celebrar a data de 6 de dezembro (dia de São Nicolau) entregando presentes. A tradição se desenvolveu com o tempo. Para os meninos e meninas que tivessem se comportado bem, São Nicolau viria com seu casaco vermelho de bispo e suas botas com presentes na noite de 5 de dezembro. Já os meninos e meninas que tivessem se comportado mal, deveriam temer São Nicolau. Em regiões altamente católicas da Europa, São Nicolau se tornou um estorvo para crianças errantes. Na Alemanha, ele foi acompanhado com frequência por Knecht Ruprecht (trabalhador agrícola Rupert) que ameaçava comer crianças malcomportadas. Na Suiça, São Nicolau ameaçava colocar crianças más em um saco e levá-las à Floresta Negra. Na Holanda, o ajudante de São Nicolau amarrava as crianças em um saco e as levava de volta à Espanha. Em partes da Áustria, o sacerdote, vestido com roupas de Natal, visitaria os lares de crianças malvadas e as ameaçaria com açoites. Pelo menos hoje em dia ele se limita apenas a verificar sua lista!
Não é surpreendente que os reformadores não tenham se simpatizado com as tradições que haviam sido construídas a respeito dos santos. Lutero rejeitou os dias dos santos, acreditando que tais dias haviam sido criados em cima de lendas e superstições (e de uma força virulenta de moralismo que poderíamos acrescentar). Na Alemanha, Lutero substituiu o dia de São Nicolau com uma celebração diferente, "A Criança Cristo" (ou Christkindl). Ironicamente, Kriss Kringle, que derivou do feriado de Lutero, "A Criança Cristo", se tornou apenas outro nome para São Nicolau.

De São Nicolau para Santa Claus (ou Papai Noel)

A seita que cultuava São Nicolau praticamente desapareceu na Europa protestante, com exceção de um país: a Holanda. Se você ama o Natal com todas as decorações de Papai Noel, meias e presentes, agradeça os holandeses. Se você odeia tudo isso, tente ignorar meu sobrenome por enquanto. Os puritanos haviam se livrado de São Nicolau e haviam banido o Natal. Os holandeses, porém, permaneceram com suas tradições e as levaram ao Novo Mundo. Na Holanda, Sint Nicolaas foi abreviado para Sinterklass. De acordo com a tradição holandesa, Sinterklass monta um cavalo e é acompanhado por Zwart Piet, ou Pedro Preto (Black Peter). Muitas pessoas acreditam que o nome Pedro Preto deriva de escravos negros, embora outras digam que ele é negro porque desce as chaminés e se suja de fuligem.
De qualquer forma, é fácil verificar como a palavra Sinterklaas evoluiu nos Estados Unidos para Santa Claus. Santa Claus se tornou quem conhecemos somente depois que o poema "Foi a Noite Antes do Natal" ("Twas the Night Before Christmas") foi escrito em 1823. Possivelmente os versos mais bem conhecidos já escritos por um estadunidense, o poema influenciou muito a tradição de Santa Claus no mundo de língua inglesa e outros países.

O bom e velho São Nick e Jesus

Como os cristãos deveriam reagir às tradições de Santa Claus? C. S. Lewis as abraçou e incluiu o Papai Noel no livro "O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa". Outros cristãos, temendo o sincretismo, permanecem longe de Santa Claus, renas e de árvores cheias de presentes. Eu deixarei que você e sua família formem opinião em relação à celebração de Natal (veja Romanos 14.1, 5-6). Pessoalmente, eu e minha família buscamos um equilíbrio: não ensinamos nossos filhos sobre Santa Claus, mas ficamos felizes em desfrutar do filme "A Felicidade Não se Compra" ("It’s a Wonderful Life"), de algumas árvores de Natal e um pouco de Bing Crosby. E se as crianças começam a ouvir aqui e ali coisas como renas voadoras que pousam nos telhados, não vamos apresentar as leis da física para acabar com suas expectativas. Acima de tudo, é claro, tentamos divulgar em casa que o Natal é a respeito de Cristo.
No entanto, se você tem muitas coisas de Santa Claus, por que não usá-lo em seu benefício e falar a respeito do verdadeiro São Nicolau? Não sabemos muito a respeito dele, mas sabemos que ele viveu e foi reverenciado. De acordo com a lenda – uma daquelas histórias que provavelmente não é verdadeira, mas deveria ser – quando Nicolau era um garotinho ele se levantava bem cedo para ir à igreja e orar. Em uma manhã, o velho sacerdote teve uma visão na qual a primeira pessoa que entrasse na igreja pela manhã deveria ser o novo bispo de Mira. Quando Nicolau entrou primeiro, o velho sacerdote, obedecendo a visão, ordenou o garoto como bispo na mesma hora. Antes, porém, de consagrar Nicolau como bispo, o sacerdote lhe perguntou algo: "Quem é você, meu filho?". De acordo com a tradição, a criança cuja lenda um dia se tornaria em Santa Claus, respondeu: "Nicolau, o pecador". Nada mal para um garotinho.
Com o pouco que sabemos sobre São Nicolau, é seguro dizer que ele não se sentiria feliz em saber que ele apagou Cristo, a figura central do Natal, dos corações de muitos. O bispo de Mira conhecia, sem dúvida, as palavras do anjo a José: "Maria dará à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles". Então, neste Natal, dê presentes se você assim desejar. Em nossa família, nós daremos. Receba-os com ações de graças. Porém, não se esqueça daquilo que mais precisamos: salvação através da morte substitutiva de Cristo. Este é um presente que o verdadeiro São Nicolau não teria ignorado.


Traduzido por Jonathan Silveira.
Extraído de: http://tuporem.org.br/quem-foi-sao-nicolau/


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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Não, Você Não é a Igreja. (por Frank Brito)


Nota: O texto a seguir trata da chamada "Igreja Visível" e demonstra como não somos individualmente Igreja, mas sim membros dela (que é o corpo de Cristo).

Recomendo também a seguinte leitura sobre a "Igreja Invisível": A Verdadeira Igreja


"E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração, Louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à Igreja aqueles que se haviam de salvar".
(Atos 2.46-47)


"Contudo, uma vez que agora nosso propósito é discorrer acerca da Igreja visível, aprendamos, mesmo do mero título mãe, quão útil, ainda mais, quão necessário nos é seu conhecimento, quando não outro nos é o ingresso à vida, a não ser que ela nos conceba no ventre, a não ser que nos dê à luz, a não ser que nos nutra em seus seios, enfim, sob sua guarda e governo nos retenha, até que, despojados da carne mortal, haveremos de ser semelhantes aos anjos (Mt 22.30). Porque nossa habilidade não permite que sejamos despedidos da escola até que tenhamos passado toda nossa vida como discípulos. Anotemos também que fora de seu grêmio não há de esperar-se nenhuma remissão de pecados, nem qualquer salvação". 
(João Calvino, Institutas da Religião Cristã, 4:1:5)


Um movimento que cresce cada vez mais em nosso país é o dos "cristãos desigrejados". São pessoas que professam o Cristianismo, mas que, por diversos motivos, abandonaram a Igreja. Muitos são os argumentos utilizados para justificar o abandono. O objetivo deste artigo é analisar uma destas justificativas: a ideia de que a Igreja de Jesus Cristo não é visível e institucional, mas que cada cristão faz parte da Igreja, ainda que ele se recuse a frequentar qualquer culto ou se submeter a qualquer autoridade eclesiástica.


Um erro frequente entre cristãos modernos é o menosprezo e ignorância em relação ao que a Bíblia ensina sobre a Igreja visível e institucional. É uma heresia que se manifesta de muitas maneiras, mas, basicamente, se resume a ideia de que não temos a obrigação de frequentar e ser membro de uma igreja, pois, supostamente, cada cristão já "é igreja" onde quer que estejam e qualquer aglomeração de cristãos também "é igreja" e, consequentemente, basta se encontrar ocasionalmente com outros "desigrejados" para bater um papo sobre Deus que as obrigações bíblicas relacionadas à "comunhão dos santos" já terão sido cumpridas.

Na segunda vez em que a palavra "igreja" aparece no Novo Testamento, já podemos constatar o absurdo de dizer que cada cristão individualmente "é igreja" ou que qualquer aglomeração de cristãos seja uma igreja:
"Ora, se teu irmão pecar contra ti, vai, e repreende-o entre ti e ele só; se te ouvir, ganhaste a teu irmão; Mas, se não te ouvir, leva ainda contigo um ou dois, para que pela boca de duas ou três testemunhas toda a palavra seja confirmada. E, se não as escutar, dize-o à igreja; e, se também não escutara igreja, considera-o como um gentio e publicano. Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu".
(Mateus 18.15-18)
Aqui Nosso Senhor explicou como deve ser o procedimento por parte daqueles que foram seriamente ofendidas por alguém que, presume-se, é cristão. Inicialmente, o ofendido não deve expor o ofensor. Deve procurar resolver o problema a sós com o ofensor. O segundo passo, caso o ofensor não se arrependa do que fez, é chamar duas ou três testemunhas para buscar resolver o problema. Novamente, o ofensor não foi exposto publicamente. A diferença é que agora há a presença de duas ou três outras pessoas. É somente depois destes dois passos que o problema é finalmente levado a Igreja.

É aqui que devemos notar algo crucial. Todo o processo descrito por Jesus incluiria somente cristãos. A parte ofendida e as duas ou três testemunhas são cristãs e, segundo Jesus, deve-se presumir que o ofensor também seja até que todas as tentativas de conduzi-lo ao arrependimento tenham se esgotado. Mas, ainda assim, é somente no terceiro passo que Jesus falou na igreja. Ainda que Jesus tenha falado de cristãos o tempo inteiro, ele não reconheceu cada um desses cristãos como sendo igreja. A parte ofendida era um cristão. Mas, ele não era a igreja. As duas ou três testemunhas também eram cristãs. Todavia, eles também não eram a igreja. Jesus diz que eles deveriam falar a igreja. Isso demonstra que é a falsa a ideia de que cada cristão individualmente seja igreja ou que qualquer aglomeração de cristãos seja igreja. Se cada cristão individualmente fosse a igreja, então o problema já estaria sendo tratado pela igreja desde o momento em que o indivíduo que foi conversar com seu ofensor. Se qualquer aglomeração de cristãos fosse uma igreja, então o problema já estaria sendo tratado pela igreja desde o momento em que as duas ou três testemunhas foram acompanhar o indivíduo que foi ofendido. O indivíduo ofendido junto de duas ou três testemunhas somam três ou quatro cristãos. Eles eram uma igreja? Não. Pois, caso o ofensor não os escutasse, só então é que o problema seria levado à igreja. Isso mostra que a Igreja não é simplesmente as pessoas. A Igreja inclui as pessoas, mas não é simplesmente isso. A Igreja é maior do que as pessoas. A Igreja é uma instituição.

Para perceber como a visão do desigrejados sobre a "igreja" é falsa, basta se fazer a seguinte pergunta: "Como um desigrejado poderia obedecer a Mateus 18? Como seria possível cumprir o terceiro passo da ordem de Jesus?"


O Governo Eclesiástico

A Igreja de Cristo não é uma anarquia. Ela tem um governo. Acima de tudo, há o governo de Cristo, pois Deus "sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da Igreja" (Ef 1.22). E, abaixo de Cristo, Deus instituiu também um governo humano para Sua Igreja:
"E, tendo anunciado o evangelho naquela cidade e feito muitos discípulos, [Paulo e Barnabé] voltaram para Listra, Icônio e Antioquia, confirmando as almas dos discípulos, exortando-os a perseverarem na fé, dizendo que por muitas tribulações nos é necessário entrar no reino de Deus. E, havendo-lhes feito eleger presbíteros em cada igreja e orado com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido".

(Atos 14.21-23)
Aqui nós aprendemos que os apóstolos, neste caso Paulo e Barnabé (At 14.14), depois de estabelecerem novas igrejas em novos lugares, promoviam uma eleição em cada igreja para que homens fossem ordenados a presbíteros. Antes da eleição, eles eram membros comuns das igrejas. Depois da eleição, recebiam a autoridade para governar a Igreja. A palavra presbítero é πρεσβύτερος (presbuteros) no grego bíblico. A palavra também pode ser traduzida como ancião. Em outros textos, aprendemos também que o ofício do presbítero (πρεσβύτερος - presbuteros) era equivalente ao ofício do bispo (ἐπίσκοπος - episkopos) e ao de pastor (ποιμήν - poimen). As três palavras eram usadas como sinônimas:
"E de Mileto mandou a Éfeso, a chamar os presbíteros (πρεσβύτερος - presbuteros) da igreja… Olhai, pois, por vós, e por todo o rebanho (ποίμνιον - poimnion) sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos (ἐπίσκοπος - episkopos), para apascentardes (ποιμαίνω - poimainoa) igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue. Porque eu sei isto que, depois da minha partida, entrarão no meio de vós lobos cruéis, que não pouparão ao rebanho; E que de entre vós mesmos se levantarão homens que falarão coisas perversas, para atraírem os discípulos após si". 

(Atos 20.17,28-30)
Aqui o Apóstolo Paulo falou às autoridades eclesiásticas de Efésios sobre como os presbíteros/bispos/pastores foram instituídos por Deus para governar Sua Igreja, o que inclui a necessidade de protegê-la de falsos mestres. Ele escreveu essencialmente o mesmo nas cartas a Tito e Timóteo:
"Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam, e de cidade em cidade estabelecesses presbíteros (πρεσβύτερος - presbuteros), como já te mandei: Aquele que for irrepreensível, marido de uma mulher, que tenha filhos fiéis, que não possam ser acusados de dissolução nem são desobedientes. Porque convém que o bispo (ἐπίσκοπος - episkopos) seja irrepreensível, como despenseiro da casa de Deus, não soberbo, nem iracundo, nem dado ao vinho, nem espancador, nem cobiçoso de torpe ganância; Mas dado à hospitalidade, amigo do bem, moderado, justo, santo, temperante; Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes". 
(Tito 1.5-9)
"Esta é uma palavra fiel: se alguém deseja o episcopado (ἐπισκοπή - episkope), excelente obra deseja. Convém, pois, que o bispo (ἐπίσκοπος - episkopos) seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar; Não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância, mas moderado, não contencioso, não avarento; Que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia (Porque, se alguém não sabe governar a sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?); Não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo. Convém também que tenha bom testemunho dos que estão de fora, para que não caia em afronta, e no laço do diabo". 
(I Timóteo 3.1-7)

Aqui nós vemos o Apóstolo Paulo estabelecendo os critérios para que alguém fosse presbítero/bispo/pastor. Primeiro, ele menciona características morais. O presbítero/bispo/pastor deve ser um cristão moralmente "irrepreensível" (Tt 1.7; I Tm 3.2). Caso o candidato seja demasiadamente dominado por fraquezas, ele não é não é apto para se tornar "despenseiro da casa de Deus" (Tt 1.7). Além disso, Paulo compara a função que o presbítero/bispo/pastor exerce na igreja com a função que o pai de família exerce em casa: "que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com todo o respeito. pois, se alguém não sabe governar a sua própria casa, como cuidará da igreja de Deus?". (I Tm 3.4-5) Assim como o pai tem a responsabilidade de governar sua esposa (Ef 5.24; I Co 11.3) e filhos (Ef 6.1; Cl 3.20), o presbítero/bispo/pastor tem a responsabilidade de governar a igreja de Deus.

Desigrejados que negam que a Igreja tenha um governo humano e autoridades humanas terão negar também a autoridade do pai de família, algo que foi explicitamente ordenado no quinto mandamento - "Honra a teu pai e a tua mãe" (Ex 20.12). Paulo deixou claro que a autoridade do presbítero/bispo/pastor sobre a igreja não é edificada sobre qualquer preferência ou consenso humano, mas é expressamente ordenada por Deus. Ele explicitamente comparou a autoridade do presbítero/bispo/pastor sobre a igreja com a autoridade do pai sobre sua própria família de maneira que não é possível negar uma coisa sem negar outra. Os membros da igreja não têm a mesma autoridade. "Os presbíteros… governam" (I Tm 5.7). Os outros membros da igreja não governam, mas são governados. É assim que Jesus Cristo estabeleceu Sua Igreja para ser. Como está escrito:

"Os presbíteros que governam bem sejam tidos por dignos de duplicada honra, especialmente os que labutam na pregação e no ensino". 
(I Timóteo 5.17)
"Ora, rogamo-vos, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre vós, presidem sobre vós no Senhor e vos admoestam; e que os tenhais em grande estima e amor, por causa da sua obras". 
(I Tessalonicenses 5.12-13)
"Obedecei a vossos pastores, e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossas almas, como aqueles que hão de dar conta delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil". 
(Hebreus 13.17)

Não Preciso de Ti!

Se Deus estabeleceu alguns na Igreja para governarem e outros para serem governados, segue-se que se alguém não governa um rebanho, ele necessariamente tem que estar submetida à autoridade daqueles que governam. Se alguém não governo, isto é, se não é presbítero/pastor/bispo, mas também, por consentimento próprio, não é governado, tal pessoa está excluída da Igreja de Deus, do corpo de Cristo e, consequentemente, deve ser, a priori, reconhecida como "gentio e publicano" (Mt 18.17). Não há alternativa lógica. A Igreja de Cristo não é uma anarquia onde "cada um [faz] o que [parece] bem aos seus olhos". (Jz 17.6) Cristo estabeleceu Sua Igreja com um governo. Aqueles que não se submetem ao governo, não fazem parte da Igreja. Este é um dos grandes pecados dos desigrejados. Eles não se submetem as autoridades constituídas por Deus. Eles acreditam que não precisam das autoridades.
"Pois em um só Espírito fomos todos nós batizados em um só corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos quer livres; e a todos nós foi dado beber de um só Espírito… E o olho não pode dizer à mão: Não tenho necessidade de ti; nem ainda a cabeça aos pés: Não tenho necessidade de vós".
(I Coríntios 12.13, 21)
Aqui o Apóstolo Paulo deixou claro que aqueles que se tornam cristãos são batizados pelo Espírito no corpo. Isto é, são incluídos na Igreja. Não existe Cristianismo sem Igreja. O cristão, quando se torna cristão, é incluído na Igreja de maneira que se ele se aparta da Igreja, ele está se rebelando contra a obra do Espírito. Com base nisso, o Apóstolo explica que os cristãos, como membros da Igreja, têm dons e vocações diferentes. Mas, ainda que sejam dons e vocações diferentes, o Deus que chama é o mesmo e a Igreja é a mesma. O fato de um cristão ser chamado exercer um dom para uma coisa não significa que ele possa desprezar aqueles que não foram chamados com a mesma vocação. "E, se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo?" (I Co 12.19) Dentre os diversos dons que o Apóstolo cita, ele menciona os "governos" (I Co 12.28). Aqueles que foram chamados para governar são parte do corpo. "E o olho não pode dizer à mão: Não tenho necessidade de ti". Aqueles que são governados não podem dizer aos que governam: Não preciso de ti! Deus estabeleceu alguns na Igreja para governarem e outros para serem governados. Aqueles que não se submetem aos que governam - presbíteros/bispos/pastores - pecam severamente contra Deus em sua "independência". Deus não estabeleceu a Igreja para que cada cristão fosse independente. Ele estabeleceu a Igreja para ser governada por presbíteros/bispos/pastores. A Igreja não é cada cristão individualmente em sua própria casa onde "cada um [faz] o que [parece] bem aos seus olhos" (Jz 17.6). A Igreja é uma instituição com um governo legitimamente instituído por Deus. O Apóstolo Pedro não mediu palavras contra aqueles que se recusam a se submeter às autoridades:
"O Senhor livrar da tentação os piedosos, e reservar para o dia do juízo os injustos, que já estão sendo castigados; especialmente aqueles que, seguindo a carne, andam em imundas concupiscências, e desprezam toda autoridade. Atrevidos, arrogantes, não receiam blasfemar das dignidades". (II Pedro 2.9-10)
A carta de Judas chega ao ponto de chamar aqueles que ensinam a rejeitar as autoridades de falsos mestres:
"Contudo, semelhantemente também estes falsos mestres, sonhando, contaminam a sua carne, rejeitam toda autoridade e blasfemam das dignidades". (Judas 1:8)

O Culto Público

"As vossas mulheres estejam caladas nas igrejas; porque não lhes é permitido falar; mas estejam sujeitas, como também ordena a lei. E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos; porque é vergonhoso que as mulheres falem na igreja". 
(I Coríntios 14.34-35)
Aqui, novamente, podemos constatar o absurdo de dizer que cada cristão individualmente é a igreja em qualquer lugar ou que qualquer aglomeração de cristãos seja uma igreja. Se cada cristão individualmente fosse igreja ou se qualquer aglomeração de cristãos fosse uma igreja, segue-se que, neste verso, Paulo estaria proibindo as mulheres de falarem em qualquer circunstancia e em qualquer lugar. Evidentemente, não é sobre isso que Paulo estava falando. A palavra igreja nestes versos, evidentemente, se refere especificamente à reunião publica especial. O que Paulo disse é que as mulheres não podem ensinar e pregar no culto público. Elas podem falar em qualquer outro lugar e situação, como, por exemplo, em suas casas, simplesmente porque neste caso elas não estão na reunião pública da igreja.

Desigrejados e outros hereges anarquistas têm dificuldades de entender isso porque eles não aceitam qualquer diferença entre o que acontece na igreja e o que acontece fora da igreja. Eles acreditam na mentira de que cada um de nós "é igreja em todo lugar" e, portanto, que não acreditam que há um momento especial para uma reunião pública especial com regras especiais que não vigoram em outros momentos. Diferente deles, o Apóstolo Paulo cria que em situações normais, as mulheres poderiam falar, mas que o culto público é uma ocasião especial com regras especiais, dentre as quais existe a seguinte regra: "as vossas mulheres estejam caladas nas igrejas; porque não lhes é permitido falar; mas estejam sujeitas". Com isso, Paulo claramente demonstra que as igrejas devem promover cultos públicos, que os cristãos tem a obrigação de frequentá-los, que essas reuniões são distintas de situações comuns do dia a dia (já que nelas vigoram regras diferentes de situações normais) e que estas reuniões devem ser reguladas pela vontade revelada de Deus e não pelo desejo do homem (I Co 14.36). Com isso, vemos claramente que não é possível "sermos igreja" cada um em sua própria casa. Deus estabeleceu que sua Igreja de forma que cada cristão tem a obrigação de frequentar reuniões públicas especiais promovidas pelas autoridades da Igreja com o propósito de cultuar ao Senhor. Na carta aos Coríntios lemos que um dos propósitos destas reuniões era o de celebrar o sacramento da Ceia do Senhor:
"Porventura o cálice de bênção, que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é porventura a comunhão do corpo de Cristo? Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão… Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; E, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha. Portanto, qualquer que comer este pão, ou beber o cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice. Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor. Por causa disto há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem. Porque, se nós nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados. Mas, quando somos julgados, somos repreendidos pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo. Portanto, meus irmãos, quando vos ajuntais para comer, esperai uns pelos outros. Mas, se alguém tiver fome, coma em casa, para que não vos ajunteis para condenação". 
(I Coríntios 10.16-17; 11.23-34)

Aqui o Apóstolo Paulo escreveu sobre o rito da Ceia do Senhor. Ele diferenciou as refeições comuns, que comemos em casa, da Ceia do Senhor. Assim como a reunião da igreja não é uma reunião comum, mas é uma reunião especial na qual vigoram regras especiais, a Ceia do Senhor não é uma refeição comum, mas é uma refeição especial e, portanto, vigoram regras especiais. O cálice, diz ele, é o "cálice da benção", "a comunhão do sangue de Cristo" e o pão é "a comunhão do corpo de Cristo". Diferente de nossas refeições comuns, o propósito da Ceia do Senhor não é matar nossa fome. "Se alguém tiver fome, coma em casa" (I Co 11.34). O propósito da Ceia do Senhor é se alimentar espiritualmente.

Além disso, devemos notar que se a Ceia do Senhor é "a comunhão do corpo de Cristo", segue-se que este rito somente pode ser celebrado sob a autoridade da Igreja. Não é uma celebração do mundo, mas daqueles que "sendo muitos, [são] um só pão e um só corpo" (I Co 10.17). Isso, por si só, explica porque desigrejados não podem celebrar a Ceia do Senhor. Eles não fazem parte do corpo porque se recusam a se submeter às autoridades do corpo e, portanto, não podem comer do pão e beber do vinho. "Porventura o cálice de bênção, que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é porventura a comunhão do corpo de Cristo? Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão". Aqueles que não fazem parte do corpo, por não se submeterem às suas autoridades, não podem se alimentar do corpo e do sangue do Senhor.

Quanto aos que participam da Ceia do Senhor, o Apóstolo Paulo ameaçou "Portanto, qualquer que comer este pão, ou beber o cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor" (I Co 11.29). Em seguida, ele explica que muitos daqueles que Deus pune com doenças e até mesmo com morte alguns dos que participam indignamente: "Por causa disto há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem. Porque, se nós nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados" (I Co 11.30-31). Se a questão é tão séria assim para aqueles que de fato participam de algo que foi ordenado por Deus, o que se dirá então daqueles que se dizem cristãos, mas pensam ser autossuficientes e por isso não frequentam os cultos da igreja, não se submete as autoridades e não tomam a Ceia do Senhor? Como Deus vê a arrogância daqueles que pensam que podem ser independentes das ordenanças que Deus estabeleceu para Sua Igreja?

O Mito da Igreja Primitiva

Muitos desigrejados se defendem argumentando que o problema é que a igreja hoje, diferente da igreja primitiva, é muito corrompida; que eles não teriam problema em fazer parte das igrejas do Novo Testamento, mas que os tempos agora são outros. É o mito da Igreja Primitiva. O fato é que o Novo Testamento não esconde a quantidade de problemas que assolava a Igreja Primitiva. Na Igreja Primitiva havia quem matinha relações sexuais com a própria madrasta (I Co 5), quem promovia bebedeiras na Ceia do Senhor (I Co 11.23), cultos desorganizados (I Co 14) incluindo mulheres que queriam pregar e exercer autoridade na Igreja (I Co 14.34-35), quem não cria na ressurreição dos mortos (I Co 15), quem defendia a idolatria e a participação em cultos pagãos (I Co 10, Ap 2.14, 2.20-21), quem queria reinstituir a necessidade das cerimonias judaicas (Cl 2), quem defendia que a circuncisão era um critério para a salvação (At 15, Gálatas), quem defendia a justificação com base nos méritos de cumprir a Lei (Gálatas), quem defendia o racismo (Gl 2.11-12) quem pregava com segundas intenções e interesses desonestos (Fp 1.15, II Ti 6.5), quem prestava culto a anjos (Cl 2.18), quem queria favorecer os ricos e desprezar os pobres na igreja (Tg 2.1-5), quem se apresentava como cristão mas na verdade era um anticristo (I João 2.18-19) e muitas outras coisas.

O fato é que, mesmo em meio a todos esses problemas, os apóstolos nunca justificaram o desigrejados. O Novo Testamento nem sequer cogita a possibilidade de um cristão genuíno ser um desigrejado. Nas páginas do Novo Testamento, ser cristão inclui ser membro da Igreja e não ser membro da Igreja significa ser pagão. O Novo Testamento desconhece a noção de Cristianismo sem Igreja e invariavelmente trata aqueles que não fazem parte da Igreja ou que abandonam a Igreja como rebeldes contra o Senhor. E isso em nenhum momento se baseia em um conceito utópico de Igreja. A Igreja era o corpo de Cristo. Mas, ao mesmo tempo, havia igrejas em diversos níveis espirituais diferentes. Havia igrejas maravilhosas, mas havia também igrejas afundadas no pecado. A Igreja era a congregação dos santos, mas era também um lugar em que havia facções, brigas e falsos mestres. O mesmo é verdade hoje. Há igrejas maravilhosas e há igrejas extremamente problemáticas. A reação dos apóstolos diante das problemáticas nunca foi a de abandonar tudo o que foi a de anular a verdade que a Igreja visível e institucional foi estabelecida por Jesus Cristo. A reação dos apóstolos era a de lutar pela purificação e santificação da Igreja, por meio da oração, do jejum e do ensino da Palavra. É exatamente isso o que os desigrejados não querem. Preferem acreditar que isso não fazia parte do Cristianismo Primitivo e, portanto, que estão muito acima de tudo isso. Isso é quando sequer dão justificativas. Na maioria dos casos nem se importam em se justificar.

Resumo

I - A Igreja visível e institucional foi estabelecida por Deus.


II - Ela é governada por autoridades humanas.

III - Ela promove reuniões públicas para cultuar a Deus, pregar Sua Palavra e celebrar os sacramentos.

IV - Todo cristão tem a obrigação de fazer parte da Igreja, se submetendo às suas autoridades e participando das reuniões publicas.

V - O Novo Testamento não reconhece a validade de um Cristianismo fora da Igreja visível e institucional.


Confissão Belga, um dos mais importantes documentos do protestantismo, resumiu bem a questão no Artigo 28, "O Dever de Juntar-se à Igreja": "Cremos, então, que ninguém, qualquer que seja a posição ou qualidade, deve viver afastado dela e contentar-se com sua própria pessoa. Mas cada um deve se juntar e se reunir a ela, mantendo a unidade da Igreja, submetendo-se a sua instrução e disciplina, curvando-se diante do jugo de Jesus Cristo e servindo para a edificação dos irmãos, conforme os dons que Deus concedeu a todos, como membros do mesmo corpo… todos os que se separam desta Igreja ou não se juntam a ela, contrariam a ordem de Deus".


Extraído de: 

https://resistireconstruir.wordpress.com/2013/02/27/nao-voce-nao-e-a-igreja/


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A Verdadeira Igreja (por J. C. Ryle)


Nota: O texto a seguir trata da chamada "Igreja Invisível".

Recomendo também a seguinte leitura sobre a "Igreja Visível": 
Não, Você Não é a Igreja.


Desejo que você pertença à verdadeira igreja, fora da qual não existe salvação. Onde se encontra esta igreja? Quais suas características? Que marcas podem identificá-la? Talvez você faça estas perguntas. Preste atenção, lhe apresentarei algumas respostas.


1. A verdadeira igreja é constituída de todos os crentes no Senhor Jesus. É formada por todos os eleitos — homens e mulheres convertidos, verdadeiros cristãos. Em todo aquele que é capaz de reconhecer a eleição de Deus, o Pai, a aspersão do sangue de Deus, o Filho e a obra santificadora de Deus, o Espírito Santo — neste podemos ver um membro da verdadeira igreja de Cristo.


2. A verdadeira igreja possui membros que manifestam as mesmas características. Todos foram nascidos de novo por intermédio do Espírito Santo; possuem “o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor, Jesus Cristo”, bem como santidade em sua vida e conversa. Todos odeiam o pecado e amam a Cristo. (Adoram-No de maneiras e formas diferentes: alguns utilizam orações escritas, outros, as suas próprias palavras; alguns adoram ajoelhados, outros, em pé; mas todos adoram com todo o seu coração.) São guiados pelo Espírito Santo, edificam sua vida espiritual sobre o mesmo fundamento e aprendem sua religião de um único Livro — a Bíblia. Todos centralizam-se na mesma pessoa — Jesus Cristo; podem agora cantar unânimes, com inteireza de coração: “Aleluia!”, e responder a uma voz: “Amém, Amém”.


3. É uma igreja que não depende de qualquer ministro do evangelho, ainda que ela valoriza muito aqueles que o pregam a seus membros. A vida espiritual deles não está atrelada à sua membresia na igreja local, ou ao seu batismo, ou à sua participação na Ceia do Senhor, embora valorizem grandemente estas coisas, quando elas são realizadas.

A verdadeira igreja possui apenas um Cabeça, Pastor e Bispo — Jesus Cristo. Somente Ele, por intermédio de seu Espírito, recebe os membros desta igreja, embora os ministros do evangelho mostrem-lhes a porta. Enquanto Ele não abrir a porta, nenhum homem poderá fazê-lo — nem bispos, nem presbíteros, nem concílios ou sínodos.

Quando o homem se arrepende e crê no evangelho, neste momento ele se torna membro desta igreja. Assim como o ladrão arrependido, o homem que se arrepende e crê talvez não tenha ocasião para ser batizado. Mas ele tem algo que é superior a qualquer batismo: o batismo do Espírito. Talvez ele não possa receber o pão e o vinho na Ceia do Senhor, mas se alimenta do corpo e do sangue de Cristo por meio da fé que a cada dia ele manifesta; e nenhum pastor ou sacerdote é capaz de impedi-lo. Homens consagrados ao ministério podem excomungá-lo e privá-lo da participação nas ordenanças exteriores da igreja professa; no entanto, todos os homens do mundo não são capazes de expulsá-lo da verdadeira igreja.

A existência da verdadeira igreja não depende de formas, cerimônias, grandes edifícios, púlpitos, vestes, instrumentos musicais, talentos, dinheiro, reis, governos, magistrados ou qualquer atos de favor da parte dos homens. Ela tem sobrevivido e permanecido mesmo quando todas essas coisas lhe foram retiradas. A verdadeira igreja tem sido expulsa para os desertos ou para as cavernas e antros da terra, por aqueles que deveriam ter sido seus amigos. Sua existência não depende de nada, exceto da presença de Cristo e do Espírito Santo. E, se Eles estão sempre ao lado da igreja, esta não poderá desaparecer.


4. A verdadeira igreja tem o direito bíblico de honra e privilégios no presente e as promessas da glória eterna, no futuro. Ela é o corpo e o rebanho de Cristo, a família e a casa de Deus; é o edifício construído por Deus e o templo do Espírito Santo. Ela é a igreja dos primogênitos, cujos nomes estão arrolados nos céus. A verdadeira igreja é o sacerdócio real, a nação eleita, o povo que pertence exclusivamente a Deus, a herança adquirida, a habitação de Deus, a luz do mundo, o sal e o trigo da terra. É a “santa igreja católica”, do credo apostólico, a “igreja católica e apostólica”, do credo niceno. A verdadeira igreja é aquela para a qual o Senhor Jesus prometeu: “As portas do inferno não prevalecerão contra ela”; e: “Eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mt 16.18; 28.20).


5. É a única que possui verdadeira unidade. Seus membros concordam unanimemente em todas as grandes verdades do cristianismo, pois o Espírito Santo os instrui. No que diz respeito à pessoa de Deus, de Cristo e do Espírito Santo e no que se refere ao pecado, a seus próprios corações, à fé, ao arrependimento, à necessidade de santidade, ao valor da Bíblia, à importância da oração, à ressurreição e ao julgamento vindouro — em todos estes assuntos, eles possuem o mesmo pensamento. Converse com três ou quatros dentre eles, que não conhecem um ao outro, dos mais remotos lugares da terra; verifique separadamente suas opiniões sobre estes assuntos: descobrirá que todos demonstram o mesmo entendimento.

6.  É a única igreja que possui a verdadeira santificação. Seus membros são santos, não apenas porque professam e têm esse nome ou porque, devido à sua caridade, os outros o reputam como santos. Eles realmente são santos em atitudes, vida e verdade. Todos eles se conformam à imagem de Jesus Cristo. Nenhum homem ímpio pertence a esta igreja.


7. É a única igreja verdadeiramente católica. Não pertence a um povo ou a uma nação. Seus membros se encontram em todas as partes do mundo, onde quer que o evangelho seja recebido pelas pessoas e estas creiam nele. Não está confinada às fronteiras de qualquer país ou enclausurada no âmbito de quaisquer formas de governo. Nesta igreja, não existe qualquer diferença entre judeus e gentios, pretos e brancos, episcopais e presbiterianos — a fé em Cristo é tudo que importa. O membros da verdadeira igreja serão reunidos do norte, do sul, do leste e do oeste; procederão de todas as línguas e nações — Em Cristo, eles serão um.


8. É a única igreja verdadeiramente apostólica. Está edificada sobre os fundamentos dos apóstolos e mantém as doutrinas que eles pregaram. Os dois grandes alvos de seus membros são a fé e a prática dos apóstolos. E seus membros consideram como “bronze que soa” e “címbalo que retine” a pessoa que professa seguir os ensinos dos apóstolos e não possui esses dois grandes alvos.


9. É a única igreja que com certeza permanecerá até ao fim. Nada pode destruí-la ou vencê-la. Seus membros são perseguidos, aprisionados, oprimidos, decapitados, afligidos e lançados ao fogo; mas a verdadeira igreja jamais foi extinta. Ela sempre ressurgiu de suas tribulações; sobreviveu ao fogo e a água. Quando desarraigada de um país, ela brotou em outro. Os faraós, Herodes, Neros e as Marias Sanguinárias têm se esforçado em vão para destruir essa igreja. Assassinam os seus milhares de membros e, em seguida, morrem, indo para seu próprio lugar. A verdadeira igreja sobrevive a todos eles e os vê perecer, cada um a seu tempo. Ela é uma bigorna que já quebrou e ainda destruirá muitos martelos neste mundo; é uma sarça que está sempre ardendo em fogo, mas não se consome.


10. É a única igreja cujos membros jamais perecerão. Uma vez que se tornem parte dessa igreja, os pecadores estão salvos por toda a eternidade; jamais serão lançados fora. A eleição da parte do Pai, a contínua intercessão do Filho e o poder santificador do Espírito Santo os cerca e protege tal como um jardim fechado. Nenhum dos ossos do corpo místico de Cristo jamais será quebrado; nenhuma ovelha do rebanho de Cristo jamais será arrebatada de suas mãos.


11. A verdadeira igreja realiza a obra de Cristo na terra. Seus membros constituem um pequeno rebanho; comparados aos filhos do mundo, seus membros são poucos em número. Um ou dois aqui, dois ou três ali; um pequeno grupo aqui, outro ali. Mas estes membros são aqueles que transtornam o mundo. Eles, por meio de suas orações, mudam o destino dos povos; são trabalhadores enérgicos na obra de propagar o conhecimento da verdadeira e pura religião; são o escudo, a defesa, a coluna e o suporte de qualquer país ao qual pertencem.


12. É a igreja que será realmente gloriosa no final de todas as coisas. Quando toda a glória terrena houver desaparecido, a igreja será apresentada sem mácula diante do trono de Deus. As potestades, os principados e poderes deste mundo se tornarão em nada. As dignidades, as posições elevadas e a sabedoria humana — todas passarão; mas, no final, a igreja dos primogênitos resplandecerá como as estrelas do firmamento e será apresentada com júbilo diante do trono do Pai, no dia da manifestação visível de Cristo. Quando as jóias do Senhor Jesus estiverem completas e os filhos de Deus se tornarem manifestos, episcopais, presbiterianos e congregacionais não serão mencionados; somente uma igreja será conhecida naquele dia, a igreja dos eleitos.

Leitor, esta é a verdadeira igreja à qual o homem tem de pertencer, se deseja ser salvo. Enquanto você não pertencer a esta igreja, sua alma estará perdida. Talvez você tenha a forma, a casca e a aparência da religião, mas não possui a essência e a vida. Sim, é provável que você desfrute de muitos privilégios visíveis, de bastante luz e de conhecimento — mas, se não pertence ao corpo de Cristo, sua luz, privilégios e conhecimento não lhe salvarão a alma.

Infelizmente, hoje prevalece muita ignorância sobre este assunto. Os homens imaginam que, se fazem parte desta ou daquela igreja, ou recebem a comunhão, ou passam por esta ou aquela cerimônia, tudo está bem com sua alma. Isto é iludir-se completamente e cometer um terrível engano. Nem todas as pessoas da nação de Israel eram, de fato, israelitas; nem todos os que professam ser membros do corpo de Cristo são verdadeiramente crentes. Preste atenção: você pode ser um convicto anglicano, batista, metodista, presbiteriano, etc., e, apesar disso, não pertencer à verdadeira igreja. E, se não pertence, seria melhor não haver nascido.


Extraído de: 

http://www.josemarbessa.com/2010/05/verdadeira-igreja-j-c-ryle.html


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