quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Abraham Kuyper: "A escola pertence aos pais"


Durante o início e o meio do século 19, a visão de que as crianças pertenciam em primeiro lugar ao Estado estava se espalhando entre muitos líderes de escolas, tanto no nível nacional quanto no municipal. As crianças foram consideradas indivíduos que mantinham relação direta com o Estado sem a mediação da família. Obviamente, a família cuidava dos cuidados físicos das crianças, mas a mente da criança devia ser formada pelo Estado. Pode ser bastante difícil imaginar o poder dessa doutrina e a oposição feroz que encontrou entre as famílias pobres e religiosas.

Muitos pais sentiram um horror instintivo com a perspectiva de enviar seus filhos para uma escola onde um Estado poderoso os ensinaria a pensar e acreditar. Não é de admirar que alguns pais mantivessem seus filhos em casa, em vez de se submeterem ao que eles acreditavam ser doutrinação.

Embora o Estado tenha interesse na educação de seus cidadãos, não tem a responsabilidade de gerenciar ou direcionar essa educação

Em contrapartida, o teólogo e estadista holandês Abraham Kuyper (1837-1920) e o Partido Anti-Revolucionário acreditavam que as crianças pertencem principalmente aos pais, cujo dever e direito é nutri-las e educá-las de acordo com suas mais profundas crenças. Embora o Estado tenha interesse na educação de seus cidadãos, não tem a responsabilidade de gerenciar ou direcionar essa educação:
O pai é a única pessoa legal, chamada pela natureza e chamada para essa tarefa, para determinar a escolha da escola para o filho. Para isso, devemos nos manter firmes. Essa é a principal verdade em toda a questão das escolas. Se existe algum axioma na área da educação, é esse. (…) Os direitos dos pais devem ser vistos como um direito soberano nesse sentido, que não é delegado por nenhuma outra autoridade, que é inerente à paternidade e à maternidade, e que é dado diretamente por Deus ao pai e à mãe.
Kuyper também argumentou que a educação saudável de uma criança contava com o que já estava dentro dela, que poderia ser mais claramente discernido pelos pais do que por qualquer outra pessoa. Ele argumentou que o espírito dos pais era geralmente também o espírito da criança. Com isso, ele quis dizer que a "direção" do coração de uma criança (suas próprias crenças centrais, entendidas ainda ou não) estava geralmente em harmonia com a de seus pais. Havia uma harmonia intergeracional que era importante para reconhecer e respeitar o melhor tipo de aprendizado a ocorrer. Uma escola secular era simplesmente incapaz de educar as crianças batizadas em harmonia com a raiz de seu ser:
A nutrição moral e religiosa da criança só pode ter sucesso quando começamos buscando as inclinações e tendências dentro da criança e trazendo-as à consciência. E isso só podemos medir de acordo com o que está em nós. Assim como uma mãe amamenta seu bebê no seio, também com essa nutrição, nossa própria consciência deve nos ensinar que consciência está em nosso filho. (...) Deve ser nossa própria consciência e vida que damos como alimento para nossos filhos. Isso diz respeito à continuidade de princípios das gerações. O que você acha estranho, você não pode dar ao seu filho. (...) A provisão dessa necessidade só pode ser dada quando o tesouro da vida moral e religiosa que está no coração do pai é transferido para o coração da criança.

O coração da luta

Por fim, Kuyper defendeu os direitos dos pais na educação porque entendeu que a insistência estatal em controlar a direção das escolas é um uso injustificável da força estatal, em um esforço para sustentar suas posições de poder. Esse era o coração da resistência à liberdade de educação, insistiu ele. Se os pais tivessem permissão de estabelecer suas próprias escolas e permitissem enviar seus filhos para eles, os liberais perderiam o controle, não apenas da educação, mas também no Parlamento, nas universidades, na mídia e até nas igrejas.

Quatro anos antes do culminar da luta escolar com a aprovação da emenda constitucional, Kuyper continuou a comunicar o que ele entendia ter sido o coração da luta. Os liberais radicalizados, ele diz,
... não se contentavam em criar seus próprios filhos como liberais de sangue puro, desde que os filhos de seu vizinho (que excederam o número de filhos em dez por cento) fossem criados de maneira oposta. E, portanto, a escola estatal deles tinha que alcançar toda a terra e ter muito mais poder. Somente [... por meio da] a escola estatal liberal em que eles deram o tom e inspiraram todas as pessoas com esse tom, era o lugar deles em nossa terra segura. … Como a criança deve ser nutrida? A resposta a essa pergunta determina a sina de todo o nosso povo no futuro. Agora dizemos que você deve fazer a Deus essa pergunta e o o que Ele diz em Sua Palavra que os pais são os primeiros responsáveis pelos filhos. (...) Mas os trabalhadores da nova cultura moderna não querem ouvir nada sobre esse direito parental.
Eles são dirigidos por uma sabedoria pagã como Platão. A criança é de responsabilidade do Estado, - acredita ele -, e não dos pais. Você deve confiar a educação de seu filho aos professores que eles escolherem. (...) Eles têm tanto medo da verdadeira liberdade quanto da morte. (...) Portanto, como diz o velho ditado: “Afastem-se de nossos filhos!
Curiosamente, Kuyper também alegou que os direitos dos pais também eram limitados pela natureza da escolaridade. Em 30 de novembro de 1896, Kuyper escreveu um artigo interessante no qual enfatizou que o lema anti-revolucionário "A escola pertence aos pais" não deve ser entendido como conceder aos pais o direito à soberania dentro da escola. A escola era uma esfera independente na qual os educadores exerciam seu chamado sob Deus e em submissão à visão de mundo delegada pelo conselho. Os pais tinham o direito fundamental de estabelecer escolas de acordo com sua visão de mundo e escolher livremente entre essas escolas, mas, na maioria dos casos, não era seu dever determinar as especificidades do currículo.

O currículo precisava ser elaborado por aqueles que haviam passado anos desenvolvendo discernimento sobre a melhor forma de ensinar a partir da vida de suas crenças comuns compartilhadas. Havia questões de pedagogia que eram cruciais para uma educação de qualidade, como mencionei acima. Na maioria dos casos, essas pessoas eram os professores, não os pais. Portanto, embora acreditasse que as escolas deveriam ser criadas pelos pais de acordo com as regras para fundações sem fins lucrativos, ele não considerava as escolas sujeitas aos pais em todos os assuntos. Os educadores prestavam contas aos pais pela visão de mundo que ensinavam, mas não pela maneira como faziam isso. A escola era uma esfera separada que era diretamente responsável perante Deus. Ele expressou seu desapontamento ao ver que em algumas escolas gratuitas os pais consideravam os professores nomeados subordinados e se recusavam a conceder-lhes o respeito e a autoridade adequados ao seu chamado.

Direitos da Igreja

Humanamente falando, a continuidade da igreja de Cristo universal (a comunhão de todos aqueles em todos os países e em todos os tempos que depositaram sua confiança somente em Cristo) exige que cada nova geração absorva o sangue vital espiritual, moral e intelectual do cristianismo. Era direito de cada igreja, portanto, exigir que todos os pais criassem seus filhos como cristãos em pensamentos, palavras e ações. Nas igrejas católicas e calvinistas, essa responsabilidade é expressa no sacramento do batismo infantil. A doutrina calvinista ensinou que o batismo de crianças era o reconhecimento público de que esse filho da aliança foi designado para glorificar a Deus como membro de sua igreja. Antes de uma criança ser batizada nas igrejas reformadas, os pais eram visitados pelo ministro ou pelo ancião para verificar se levavam a sério a educação de seus filhos na fé. Na cerimônia de batismo, os pais faziam um voto obrigatório de criar os filhos com temor e admoestação do Senhor, um voto considerado tão santo quanto o voto do casamento.

Kuyper argumentou que o cumprimento desses votos exigia que os pais dessem aos filhos uma educação distintamente cristã:
Pelas crianças receberem o santo batismo, a igreja tem o dever de garantir que os requisitos educacionais para o batismo sejam cumpridos e de que a educação da criança não seja unilateral, ensinando apenas na graça comum, mas também fazer justiça aos laços da criança com a graça particular.
O batismo e a escola pertencem, de longe, à maior parte do nosso povo, e você ouviu o que uma matriz anticristã e antinacional incontável de professores socialistas e incrédulos tenta pressionar o coração da criança. Isso pode mas não deve permanecer assim.
A esse respeito, Kuyper também argumentou que a igreja tinha um direito válido de corrigir e disciplinar os pais que negligenciavam seu dever de criar seus filhos em uma cosmovisão cristã. Ele também foi rápido em reconhecer que essa autoridade estava limitada à submissão contínua dos pais à própria igreja:
A igreja obriga o pai, por meio de promessas muito positivas e claramente definidas, feitas na presença de testemunhas, de que ele criará o filho, para sua satisfação, em sua doutrina, desse modo, em toda a sua abordagem da vida e do mundo. Certamente devemos admitir, para acalmar a consciência, que tais promessas são vinculativas apenas enquanto o pai permanecer membro da igreja.
Kuyper acreditava que as escolas que reconheciam e articulavam suas crenças centrais preparariam melhor os jovens para a tarefa de influenciar a sociedade para o bem comum. Ele argumentou que todos os cristãos eram chamados a ser sal e luz (Mateus 5:13-16) na sociedade, pessoas que influenciavam a nação em direção a altos padrões de moralidade, à preservação de suas liberdades constitucionais, ao desenvolvimento dos empreendimentos, às artes e estudos, bem como influenciar seus vizinhos através de seu amor. Ele ficou triste por haver tão poucas escolas cristãs, mas ficou igualmente triste quando as escolas cristãs negligenciaram a sabedoria da graça comum e se concentraram exclusivamente no treinamento religioso, deixando seus alunos mal equipados para participação influente na sociedade.

Este comentário foi extraído da introdução de Wendy Naylor no livro "ON Education" de Abraham Kuyper (Lexham Press e Acton Institute, 2019), editado por Naylor e Harry Van Dyke.

Traduzido livremente de:


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terça-feira, 14 de janeiro de 2020

É mentira que cada um tenha a “sua verdade”: a Verdade não é relativa

"A verdade é a conformidade do intelecto à realidade, seja do mundo físico, seja do mundo espiritual" 
(São Tomás de Aquino) 
O bispo da diocese norte-americana de Phoenix, dom Thomas Olmsted, escreveu um artigo em que fala do conceito da Verdade, que Cristo identificou consigo próprio: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida".
"Os homens e as mulheres têm fome insaciável da verdade; almejam respostas e sentido na vida. Nós fomos criados para a verdade porque fomos feitos à imagem de Deus. Pela nossa própria natureza como pessoas humanas, somos ordenados à verdade, temos fome de verdade e temos a obrigação moral de buscá-la".
Ele retoma a definição apresentada por São Tomás de Aquino em sua obra máxima, a Suma Teológica:
"A verdade é a conformidade do intelecto à realidade, seja do mundo físico, seja do mundo espiritual".
Esta definição afirma a existência de uma realidade objetiva e não subjetiva: "ela existe independentemente do nosso conhecimento ou opinião".
Este conceito objetivo encontra resistências ferozes em muita gente da nossa época: as pessoas "têm dificuldades para aceitar um conceito elementar de verdade" porque preferem considerá-la como suposta "construção social", como algo subjetivo, que cada um pode moldar ao seu bel-prazer e conveniência.
"Reclamar a verdade absoluta, aquela em que todos devem crer e que todos devem seguir, é considerado por muitos como algo imoral, porque seria impôr a própria crença aos outros. Aos poucos, a verdade é catalogada como intolerância e preconceito contra o pensar dos outros. 
"Houve tempos em que as pessoas mantinham um conjunto compartilhado de crenças em Deus e naquilo que Deus ensina e espera. Numa cultura pluralista, o Direito Natural era a base essencial para se construírem pontos em comum. Na sociedade contemporânea, o Direito Natural se reduz em geral a um não fator, o que implica um passo atrás na realidade, um passo atrás no mundo criado por Deus, uma retirar-se para dentro da mente de cada um, o que leva a perder por completo o contato com a realidade. É o que acontece quando nos distanciamos da realidade e buscamos a verdade em nossa própria mente em vez de buscá-la na criação e na revelação de Deus".
A consequência dessa relativização da verdade já era exposta por São Paulo em sua Carta aos Romanos, na qual ele critica os homens que, "pela sua injustiça, mantêm a verdade refém (...) Substituíram a verdade de Deus pela mentira, adorando e servindo às criaturas em vez do Criador, que é bendito eternamente".

O bispo continua, contundente:
"Esta confusa noção da realidade chamada relativismo está no coração da crise que ameaça a cultura hoje. O relativismo muda o foco da realidade para o sujeito individual. E, dado que as pessoas têm percepções diferentes, a verdade é vista como relativa. Isto, porém, só pode levar a uma ‘ditadura’ de opiniões, porque quando não podemos apoiar-nos na realidade e na razão para provar o nosso argumento, ficamos discutindo e lutando pelo poder, o que resulta em caos e até mesmo em violência".
A plena Verdade é o próprio Cristo.
"O próprio Jesus é a Verdade, uma Verdade que vem de fora do mundo, mas que dá sentido ao mundo; uma Verdade absoluta e imutável. Quanto mais buscarmos a Verdade e quanto mais rápido nos conformarmos à Sua Santa Vontade, seja ela manifestada nas leis imutáveis da natureza, seja ela revelada na Sagrada Escritura, mais rapidamente encontraremos o significado, a felicidade e a realização para as quais fomos criados. Portanto, quanto mais conhecermos o Senhor, mais conheceremos a Verdade; porque a Verdade não é simplesmente um conjunto de fatos, mas um relacionamento pessoal com Deus. Diferente do relativismo, que constrói a sua casa na areia das opiniões subjetivas, Cristo nos chama a edificar a nossa vida sobre a rocha que é Ele. A Verdade tem o seu próprio poder, um poder que nenhum mal vencerá. Jesus encarna a esperança do triunfo final da verdade".

Extraído de: 


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segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Colombo e o Mito da Terra Plana (por Gary DeMar)

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Em cada "dia de Colombo"[1], Cristóvão Colombo é atacado por suas viagens de exploração de povos nativos. Ao mesmo tempo, os cristãos são ridicularizados por se oporem ao visionário Colombo pela sua rejeição à mitologia da terra plana, que se dizia ter sido mantida pela igreja medieval. 
Isso é verdade? Deixarei que a questão da exploração seja respondida por outras pessoas, mas a questão da terra plana é facilmente respondida. Nos onze volumes de Our Wonder World, publicados pela primeira vez em 1914, os editores apresentaram as seguintes alegações não documentadas: "Todos os povos antigos pensavam que a Terra era plana, ou, se não perfeitamente plana, uma grande superfície levemente curvada" e "Colombo estava tentando convencer as pessoas de que a Terra era esférica."[2]

Ainda em 1961 a Enciclopédia Britânica perpetuou o mito de que a viagem de Colombo consistia em provar que a Terra era redonda: "Antes de Colombo provar que o mundo era esférico, as pessoas pensavam que o horizonte marcava seu limite. Hoje sabemos melhor". 
As pessoas sabiam melhor nos dias de Colombo.

Um livro didático de 1983 para alunos da quinta série relatou que Colombo “sentiu que acabaria alcançando as Índias no Oriente. Muitos europeus ainda acreditavam que o mundo era plano. Colombo, eles pensavam, cairia da terra."[3]
Um texto de 1982 para alunos da oitava série dizia que os europeus "acreditavam que… um navio poderia navegar para bem longe para o mar, até cair na beira do mar…. As pessoas da Europa há mil anos sabiam pouco sobre o mundo."[4]


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Conhecimentos Estéreis

Estudiosos proeminentes como John D. Bernal (1901-1971), em seus quatro volumes de Science in History (1954), e Daniel J. Boorstin (1914-2004), autor premiado e bibliotecário do Congresso de 1975 a 1987, propagaram o mito sem qualquer comprovação histórica. Boorstin derrama muita tinta inventando uma história de crenças da terra plana que ele remonta a um monge obscuro do século VI, Cosmas Indicopleustes, que, segundo o estudioso medieval Jeffrey Russell, "não tinha seguidores: seus trabalhos foram ignorados ou descartados. com escárnio por toda a Idade Média." ((Jeffrey Burton Russell, Inventing the Flat Earth: Columbus and Modern Historians (New York: Praeger, 1991), 4. ver Daniel J. Boorstin, The Discoverers: A History of Man’s Search to Know His World and Himself (New York: Random House, 1983), chaps. 11-14.))

Tentativas anteriores de apresentar Colombo como um iconoclasta científico podem ser encontradas em duas obras anticristãs padrão do século XIX, colocando a ciência contra a religião. John William Draper afirma que os cristãos não se preocupavam com descobertas científicas. Em vez disso, "elas se originaram em rivalidades comerciais, e a questão da forma da terra foi finalmente resolvida por três marinheiros, Colombo, Da Gama e, acima de tudo, por Fernão Magalhães."[5] Enquanto Colombo e outros marinheiros informados que navegavam regularmente além do horizonte acreditavam na "figura globular da terra", tal ideia, "como era de se esperar. . . era recebida com desagrado pelos teólogos."[6] Um argumento semelhante aparece em A History of the Warfare of Science with Theology in Christendom, de Andrew D. White.[7]

A "forma da terra" não estava em questão nos dias de Colombo. "Colombo, como todas as pessoas instruídas de seu tempo, sabia que o mundo era esférico…." [8]
É amplamente aceito o mito de que estudiosos da Renascença acreditavam que a Terra era plana e Colombo precisou provar que estavam errados navegando para o oeste para a "Índia". Isso dá uma ótima história, exceto por ser categoricamente falsa. Desde o início da história registrada, as pessoas perceberam que a Terra era uma esfera. Aristóteles chegou a essa conclusão através da geometria; os estudiosos Romanos também foram claros neste ponto. Explicações documentadas dão conta de como o mastro de um navio permanece visível depois que o corpo desaparece no horizonte. Até os marinheiros antigos tinham que estar cientes da curva da Terra. (JSTOR)
A imagem acima é de uma edição de 1550
de uma reprodução da obra On the Sphere of the World,
originalmente escrita por volta de 1230.

O culpado de terra plana

Como e por que o mito da terra plana começou? A lenda entrou na história quando Washington Irving publicou seus três volumes History of the Life and Voyages of Christopher Columbus (1828). Irving, mais conhecido por "The Legend of Sleepy Hollow" e "Rip Van Winkle", usou suas habilidades de escrita de ficção para fabricar um suposto confronto que Colombo teve com clérigos que sustentavam que a Bíblia ensinava que a Terra era plana. Esse encontro nunca aconteceu. Samuel Eliot Morison, um notável biógrafo de Colombo, descreve a história de Irving como "um absurdo enganoso e travesso ... um dos mitos colombianos mais populares". [9]

O relato ficcionalizado de Colombo, de Irving, descreve-o como sendo "atacado por citações da Bíblia e do Testamento: o livro de Gênesis, os salmos de Davi, as orações dos profetas, as epístolas dos apóstolos e os evangelhos dos evangelistas. A estes foram acrescentadas exposições de vários santos e reverendos Comentadores. . . . Tais são exemplos dos erros e preconceitos, da ignorância e da erudição misturadas e do fanatismo pedante com o qual Colombo teve que enfrentar."[10] Há apenas um problema no relato de Irving: "É fabricação, e é amplamente sobre esse construção que a ideia de uma terra plana medieval foi estabelecida."[11]

Semelhante aos mapas de hoje, os mapas medievais eram planos. "O mapa mundi [abaixo] interpretou o mundo em termos espirituais e geográficos, e incluiu ilustrações bíblicas e representações de lendas e aprendizados clássicos. Como descrições pictóricas do mundo exterior, esses mapas impressionantes também eram educativos; eles foram usados para ensinar história natural e lendas clássicas e reforçar crenças religiosas."


Mapa Mundi de Hereford (século XIII)


Atacando a Igreja

Boorstin afirma que de 300 d.C. a pelo menos 1300, a Europa sofreu sob o que ele descreve como "amnésia acadêmica" devido ao surgimento de "fé e dogma cristãos [que] suprimiram a imagem útil do mundo que havia sido tão lentamente, tão dolorosamente e tão escrupulosamente esboçada por geógrafos antigos."[12] Ele também afirma que os avanços científicos feitos pelos gregos foram desmantelados pelos cristãos com base em um apelo à Bíblia. Na verdade, é a Bíblia, independente de qualquer cosmologia concorrente, que apóia os dados empíricos de que a Terra é um globo:
A demonstração científica da rotundidade da Terra foi imposta pela religião; Deus fez da terra uma esfera porque essa era a forma mais perfeita. No Antigo Testamento, há uma referência a isso em Isaías 40.22: "Ele é o que está assentado sobre o círculo da terra" - sendo "círculo" a tradução da esfera hebraica: khug. [13]
Mapa mundi do Saltério, meados do século XIII
Obviamente, nem todos os cristãos apelaram à Bíblia por seus pontos de vista sobre a forma da terra. Na verdade, a Bíblia tem pouco a dizer sobre o assunto. Nada na Bíblia, no entanto, contradiz os dados empíricos. Por exemplo, o Venerável Bede (673-735), um monge de Jarow e "o Pai da história inglesa", sustentou "que a Terra é um globo que pode ser chamado de esfera perfeita, porque as irregularidades da superfície das montanhas e vales são muito pequenas em comparação com seu vasto tamanho." Ele especifica que "a terra é 'redonda' não no sentido de 'circular', mas no sentido de uma esfera".[14]


Profundo e Amplo

O debate nos dias de Colombo não era se a Terra era plana ou redonda. "A questão era a largura do oceano; e aí a oposição estava certa."[15] Colombo havia subestimado a circunferência da terra e a largura do oceano em um número significativo de quilômetros. "De fato, a distância que Colombo planejava percorrer [com base em mapas precisos] era de 16.600 milhas por via aérea."[16] Providencialmente para Colombo e sua tripulação nervosa, as Américas estavam no seu caminho.

Mesmo considerando suas conclusões equivocadas sobre medições, "Colombo sempre recebe os mais altos elogios dos estudiosos quando se trata de marinharia. Ele foi, sem dúvida, o melhor marinheiro do seu tempo."[17] Praticamente todo estudante de Colombo aceita a opinião de Bartolome de Las Casas (1484-1566), que escreveu em sua Historia de las Indias, que "Cristóvão Colombo superou todos os seus contemporâneos na arte da navegação."[18]


Conclusão

Nome do livroO mito de Colombo é outro exemplo de revisionismo histórico, a tentativa dos secularistas de lançarem a Igreja sob uma luz negativa. Historiadores liberais apreciam o fato de que crianças em idade escolar em todo o país estão sendo ensinadas que os cristãos são ignorantes e malucos que não querem ouvir a razão e a ciência. 
Quando os fatos da história são examinados com precisão, no entanto, descobrimos que a verdadeira ciência nunca entra em conflito com a Bíblia. A desinformação científica nunca é promovida através de um entendimento preciso da Bíblia. Em vez disso, a manipulação da verdade sempre ocorre fora da cosmovisão bíblica.


Extraído e traduzido livremente de:
https://americanvision.org/3040/columbus-and-the-flat-earth-myth



Notas:

[1] O  "Dia de Colombo" ou Dia da Hispanidade é um feriado nacional que celebra a chegada de Cristóvão Colombo à América em 12 de outubro de 1492. A data é comemorada em todos os países de Língua espanhola e também nos Estados Unidos.

[2] Howard Benjamin Grose, ed., Our Wonder World, 11 vols. (Chicago: George L. Shuman & Co., [1914] 1918), 1:1, 5.

[3] America Past and Present (Scott Foresman, 1983), 98. Quoted in Russell, Inventing the Flat Earth, 3.

[4] We the People (Heath, 1982), 28-29. Quoted in Russell, Inventing the Flat Earth, 3.

[5] John William Draper, History of the Conflict Between Religion and Science (New York: D. Appleton and Co., 1875), 159.

[6] Draper, History of the Conflict Between Religion and Science, 160.

[7] Andrew D. White, A History of the Warfare of Science with Theology in Christendom (New York: George Braziller, [1895] 1955), 108.

[8] Zvi Dor-Ner, Columbus and the Age of Discovery (New York: William Morrow, 1991), 72.

[9] Samuel Eliot Morison, Admiral of the Ocean Sea: A Life of Christopher Columbus (Boston, MA: Little, Brown and Co., 1942), 89.

[10] Citado em Russell, Inventing the Flat Earth, 53.

[11] Russell, Inventing the Flat Earth, 53.

[12] Boorstin, The Discoverers, 100.

[13] Samuel Eliot Morison, The European Discovery of America: The Northern Voyages (New York: Oxford University Press, 1971), 6.

[14] Russell, Inventing the Flat Earth, 20.

[15] Morison, Admiral of the Sea, 89.

[16] Kenneth C. Davis, Don’t Know Much About History: Everything You Need to Know About American History but Never Learned (New York: Crown Publishers, 1990), 6.

[17] Robert H. Fuson, The Log of Christopher Columbus (Camden, ME: International Marine Publishing Co., 1987), 29.

[18] Citado em Fuson, The Log of Christopher Columbus, 29.


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sexta-feira, 15 de março de 2019

Dia da Escola – há algo a ser comemorado? (por dra. Inez A. Borges)


As famílias, de modo geral, têm sido acusadas de estarem transferindo para a escola a responsabilidade pela educação dos filhos. Isso é verdade?

Diante dessa pergunta, quase ouço um coro universal respondendo, em uníssono: "claro que é verdade"! As crianças são deixadas nas creches cada vez mais cedo e as mães desejam que a escola seja de tempo integral. Muitas mães reclamam por causa das férias, pois não sabem o que fazer com seus próprios filhos neste "período terrível". Mas, continua o coro implacável, a terceirização não é apenas em relação à escola. Quando os pais viajam em férias, aqueles que podem, procuram hotéis nos quais sejam disponibilizadas atividades para as crianças, com recreacionistas treinados para cuidar dos filhos dos ouros durante todo o dia.

Nas festas de aniversário e nos eventos como Feira do Automóvel e outras similares, há também o "criançódromo", ou seja, o lugar onde deixar os filhos para que os pais disponham do seu tempo da maneira que desejarem, entregando seus filhos para profissionais totalmente desconhecidos.
Bem, estes são os fatos e, contra os fatos, não há argumento. Ou será que há? Será que há alguma possibilidade de argumentar em favor da família e dizer que não é bem assim?

Na comemoração deste "Dia da Escola", eu desejo, pelo menos fazer uma tentativa de argumentar em favor das famílias. Já que não é possível negar o fato de que as crianças não são mais educadas pelos pais, resta-nos perguntar o que veio primeiro: o ovo ou a galinha?

Esse dilema ovo-galinha consiste em saber se as escolas precisam assumir a responsabilidade da educação porque os pais a abandonaram ou se os pais "abandonaram" a educação dos filhos porque o Estado usurpou deles não apenas a responsabilidade, mas também o direito à educação dos filhos.

A Linha do Tempo da educação pública mostra que a segunda opção é a correta. Os governantes foram, gradativamente, assumindo para si a tarefa de "educar", visando formar "cidadãos", ou seja, peças de uma engrenagem social na qual a família e o indivíduo desaparecem, restando apenas os coletivos.

Não dá para falar disso sem recorrer à História. Nos países de tradição cristã reformada, ensinar as crianças a ler e escrever era parte fundamental da teologia do sacerdócio universal. Se cada cristão é um sacerdote, se o único mediador entre o homem e Deus é o Senhor Jesus Cristo, então, todo cristão tinha o dever de aprender a ler para ler por si mesmo as sagradas Escrituras.

Nas colônias norte-americanas havia a clareza de que, além de ler as Escrituras Sagradas, cada cristão deveria ser capaz de ler a Constituição de seu país, o qual, naquele tempo era a própria Colônia na qual vivia. Nessas Colônias, em graus diferenciados conforme variava a teologia, as leis civis e eclesiásticas estavam muito intimamente relacionadas.

Neste tempo, família e igreja eram as instâncias responsáveis pela educação total da criança, incluindo formação intelectual, física, moral e espiritual.

Mas, na Alemanha, final do século XVIII, surge a Pedagogia científica, ou seja, a ideia de que agora há uma "ciência do educar" e que o Estado é o único capaz de definir quem está habilitado para exercer tão grandiosa tarefa, além de decidir também quais são os métodos e conteúdos necessários para a formação de todos os cidadãos.

Neste contexto da escola pública e "laica", a família foi perdendo seu lugar. A escola passou a ser compulsória. Os pais passam a ser forçados pela lei a matricular seus filhos nas escolas, não importando o quanto estavam preparados para educarem, eles mesmos, as suas crianças. Nessas escolas, os pais são cada vez menos ouvidos. Afinal, existe uma autoridade sacrossanta por trás do professor e do diretor escolar. As reuniões escolares também se tornam massificadas

. Afinal, o professor tem a verdade sobre cada criança.

No início da década de 1840, Horace Man, um norte-americano aparentemente bem-intencionado, vai à Alemanha aprender sobre este movimento da escola pública. Ao retornar aos Estados Unidos, funda, em Massachusetts, o primeiro Conselho Estadual de Educação. Poucos anos depois, é criada neste mesmo Estado a primeira Associação de Professores que, mais tarde se tornaria a NEA – National Education Association (Associação Nacional de Educadores). Em meados do século XX, os membros do NEA estão entre os idealizadores da Unesco – órgão da ONU para a educação e cultura.

AS FAMÍLIAS FORAM PROGRESSIVAMENTE RESTRINGIDAS E ATÉ PROIBIDAS DE EXERCER SEU DIREITO DE EDUCAR OS FILHOS
No ideário desta monumental associação, está bem clara a intenção de trabalhar para que, por meio da Educação, as nações abram mão de sua soberania, em favor de um governo mundial.

Embora explicitado em poucas linhas, o que estou tentando dizer é que as famílias foram progressivamente restringidas e até proibidas de exercer seu direito de educar os filhos.

Muitas famílias que hoje não têm condições intelectuais, morais e espirituais para educar suas crianças precisam ser alvos de misericórdia, visto que são formadas por pessoas que também não foram educadas em casa. Milhares de crianças são deixadas nas creches desde os primeiros meses de vida. Dentre estas, a imensa maioria é constituída por filhos de pais e mães que também foram para creches quando ainda bebês. As famílias de hoje são produto de famílias que receberam maior influência da escola pública do que de seus familiares ou de suas denominações religiosas.

Considerando biblicamente, o papel da educação dos filhos é prioritariamente dos pais. Moisés entregou ao povo, ainda no Deserto, um currículo educacional. Tratava-se de um currículo para uma nação, mas cabia aos pais serem instruídos nas leis, estatutos e na história da formação e desenvolvimento da nação. Conhecedores destes fatos básicos (o que evidentemente incluía a leitura e a escrita) os pais eram os responsáveis por educar os filhos "assentados em casa, andando pelo caminho, ao deitar e ao levantar". Os pais deveriam "escrever nos umbrais da porta" [Deuteronômio capítulos 4 a 6] e ter os textos escritos como frontal entre os olhos.

Essas são referências que levam autores como Thomas Ramson Giles a reconhecerem que os judeus constituem o primeiro povo a desenvolver alguma forma ou sistema educacional para toda a população, privilegiando a formação dos adultos em geral para que estes sejam os responsáveis pela educação das gerações seguintes.

Este é o modelo seguido também pelos cristãos, herdeiros, pelo menos em parte, da tradição educacional hebraica. Assim, primeiramente a família e depois a Igreja eram as instâncias de educação das crianças. Quase dois mil anos de Cristianismo formou pessoas de altíssima competência intelectual, moral e espiritual sem necessidade da escola Estatal.

AS FAMÍLIAS DE HOJE SÃO PRODUTO DE FAMÍLIAS QUE RECEBERAM MAIOR INFLUÊNCIA DA ESCOLA PÚBLICA DO QUE DE SEUS FAMILIARES OU DE SUAS DENOMINAÇÕES RELIGIOSAS.
Dizer que antes da escola pública as pessoas eram analfabetas é designar como analfabetas pessoas como Benjamim Franklin, Alexander Hamilton, Abgail Adams e a milhões de outras pessoas educadas em casa, as quais se tornavam capazes de exercer elevados cargos no cenário político sem ter sequer um diploma.

A obrigatoriedade da escola foi proposta pelos contemporâneos de Georg W. Friedrich Hegel, filósofo alemão contrário à divisão de poderes entre legislativo, executivo e judiciário, ou seja, defensor da forma totalitária de governo. A chamada educação democrática foi pensada desde o início para criar uma totalidade incapaz de pensar. Chega próximo do absurdo acreditar que educar é separar as crianças por idades, fazendo com que todas estejam literalmente "na mesma página", pensando igual, lendo igual (ou sendo igualmente privadas de oportunidades de desenvolver sua própria capacidade para ler ou para apurar quaisquer outros dotes individuais.

Esta escolarização obrigatória já completou duzentos anos. Demorou um pouco para chegar ao Brasil, mas, agora, as leis já obrigam os pais a entregarem seus filhos para serem domesticados pelo governo a partir dos 4 anos de idade.

O resultado está muito claro, embora seja politicamente incorreto apontá-lo. Atualmente, milhões de brasileiros estão desempregados e, ao mesmo tempo, em todos os setores há uma extrema dificuldade para preencher vagas para cargos que exijam um mínimo de capacidade de leitura e compreensão de textos. Em praticamente todos os ambientes têm caído muito a qualidade dos serviços prestados, em virtude da baixa qualificação dos candidatos. Analfabetos funcionais (pessoas com diplomas, mas que são incapazes de compreender o que leem) estão por toda parte.

Evidentemente, isso tem reflexos na família, na qualidade da educação que os pais podem oferecer às suas crianças. Mas, ninguém se dá ao trabalho de parar e pensar no quanto todo este caos já é resultado da própria escola, que vem piorando, com toda a ajuda internacional, já há dois séculos.

Quando todos estes fatores explodem em um ato de indescritível violência como o deste 13 de março, poucas pessoas consideram sobre a responsabilidade da própria escola pública e do sistema educacional como promotores da tragédia. É bom lembrar que a escola particular também é controlada pelo Estado.

A escola tem cumprido cabalmente seu papel, conforme preconizado pela Pedagogia Prussiana – formar a horda, formar a manada. Assim, será possível impor um governo totalitário e ninguém terá recursos intelectuais, morais e espirituais para reclamar. Quem tem dúvidas sobre a validade destas afirmações, procure as fontes citadas e leia, com muita atenção, o PNDH 3 e outros documentos nos quais são pautadas todas as políticas educacionais do país. É neste documento que está previsto, por exemplo, "realizar campanhas e ações educativas para desconstruir os estereótipos relativos às profissionais do sexo" (PNDH 3, Objetivo estratégico III, h).

Se é isso o que as crianças devem aprender na escola e se os pais podem ser presos se não enviarem seus filhos para estas instituições, já aos 4 anos de idade, como recriminar as famílias por não mais se responsabilizarem pela educação de seus filhos?


Inez A. Borges. Doutora em Ciências da Religião, mestre em Educação Cristã e graduada em Psicologia.  É fundadora e presidente da Associação Nacional de Defesa e Apoio aos Pais na Educação dos Filhos (Andapef). Atualmente faz parte do Corpo Docente do Seminário Martin Buccer e do Programa de Mestrado da FCU – Flórida Christian University, como professora convidada. Lecionou na Universidade Presbiteriana Mackenzie durante mais de dez anos. Foi diretora da Associação de Escolas Cristãs de Educação por Princípios (Aecep). Atua como Consultora Educacional e preletora em diferentes contextos educacionais.


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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

"Olho por olho" ou "dar a outra face"??


Conforme mencionado em postagem anterior, a bíblia garante a autodefesa como direito a todo indivíduo. Porém, essa mesma Escritura nos traz ensinos que parecem opostos e até contraditórios a esse direito, quando fala em não nos vingarmos, não odiarmos nem nossos inimigos, em respondermos ao mal com o bem, etc. Mais extremos ainda são os casos de martírio, em que cristãos entregaram suas vidas sem resistência física, com alguns desses casos sendo relatados nas Escrituras e muitos (inúmeros) outros registrados na História da Igreja daquela época até hoje.
O contraste é evidente, mas será que há mesmo contradição?? Ou será que devemos escolher o que acharmos conveniente e ignorar o que a nosso ver contradiz a mensagem central da Escritura??
A proposta dessa postagem é tentar responder essas e outras questões subjacentes.



Dar a outra face contraria ou altera a Lei de DEUS??


Indo direto ao ponto, a argumentação em favor da legítima defesa parece contradizer tantos textos bíblicos que nos instruem a não praticarmos o mal ao nosso próximo. Tirando aqueles que rejeitam a bíblia como Palavra infalível de DEUS, ainda há os que o fazem mas perante esse contraste acabam buscando "saídas" perigosas e anti-bíblicas, como afirmar que no contexto do Antigo Testamento tudo funcionava de forma distinta do que vivemos a partir do Novo Testamento. Baseando-se nisso afirmam que a forma como DEUS trata a humanidade mudou ou muda conforme dispensações definidas por Ele, logo, o que antes era certo pode não ser mais e vice-versa.
Com isso, alguns acabam afirmando que no Antigo Testamento a Lei de DEUS vigorava e havia "tolerância zero", enquanto que a partir do Novo Testamento passamos a viver a "dispensação da Graça", em que supostamente a Lei foi totalmente abolida e, pela Graça, cabe a nós vivermos em amor baseados na redefinição que Cristo teria dado para a Lei e que gravou nos nossos corações
Os perigos desse tipo de pensamento são enormes...

Primeiramente, ela troca a segurança das Escrituras como padrão para nossa santificação pela "confiança" em nossos corações como fruto de nossa regeneração.
Por mais que de fato todo convertido tenha um coração regenerado, ele não é perfeito. Mais do que isso, continua imensamente enganoso (Jeremias 17:9), e portanto não há como ser a base para o julgamento.
"Sentir" que está certo não é o caminho. A Palavra de DEUS tem que ser nossa referência. Sola Scriptura.

Em segundo lugar, afirmar que Jesus corrige a Lei dada por DEUS seria torná-Lo de fato um transgressor ou blasfemo. Seria isso ou teríamos que pensar que DEUS atua de forma "esquizofrênica", que é sujeito ao tempo-espaço e os atos de Suas Criaturas ou que brinca com elas.

Vejamos por partes:



- Se Jesus surgisse dizendo que a Lei de Deus precisava ser corrigida, estaria contradizendo o Pai, que foi o autor que a entregou a Israel.


Quando lemos com cuidado Jesus corrigindo o que os judeus tinham como certo, notamos que Ele contrasta o que eles ouviram com o que Ele tinha a dizer. Porém, em nenhum momento Ele diz que aquilo que eles ouviram (e entendiam ser a correta interpretação da Lei) era o que de fato a Lei dizia.
Jesus em nenhum momento diz algo como "A Lei diz (...) mas eu vos digo". Ele afirma veementemente que não veio abolir a Lei e sim cumpri-la (Mateus 5:17). Não há qualquer palavra sobre correção da Lei.
Ou seja, o que eles ouviram e criam eram interpretações errôneas da Lei, da parte dos "doutores", que a pervertiam pelo próprio interesse da classe religiosa.

Certamente que a observação de parte da Lei cai por terra com a obra sacrificial de Cristo em prol de Seu povo (como o livro de Hebreus esclarece), mas nada referente aos princípios morais da Lei é alterado.

Caso pensássemos que Cristo estava alterando princípios da Lei em nome de DEUS (sendo DEUS), qual garantia teríamos de que isso não poderia ocorrer (ou já ocorreu) outras vezes?? Mais que isso, se DEUS mudasse de ideia com o passar do tempo então a segurança na Sua Palavra seria maculada.
E se fosse esse o caso (de Cristo mudando a Lei), não faria total sentido que os religiosos o acusassem?? Se eles já faziam o possível para tentar invalidar Sua autoridade, o fato dEle "tentar mudar" o que DEUS lhes disse não seria uma prova cabal das suas más intenções??
Enfim, os problemas seriam muitos...


Para um melhor entendimento quanto ao tema "Lei e Graça", recomendo o livro de mesmo nome de autoria do pastor Mauro Meister, pela editora Cultura Cristã. Nesse livro o pastor explica muito bem como a Graça não substitui a Lei, e "Lei É Graça", não havendo contradição entre ambas unidas.

Mas voltando ao tema do artigo, se não há mesmo (e não há) contradições entre os ensinos da Lei de DEUS e os ensinos de Cristo, como entender as passagens contrastantes já mencionadas??

Primeiramente, é necessário entender o que elas de fato dizem. Para isso, vamos analisar o trecho no chamado "Sermão do Monte" onde Cristo faz a comparação entre o conceitos de "olho por olho e dente por dente" e "dar a outra face":

Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente.
Eu, porém, vos digo que não resistais ao mau; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; e, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; e, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes.
Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo.
Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus; porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos. Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim?
Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus.

(Mateus 5:38-48 - grifos meus)
Nesse trecho, Jesus faz comparações entre o que eles ouviram e o que Ele tinha a lhes dizer. No primeiro caso, de fato, a Lei dada por DEUS instruía a prática do olho por olho e dente por dente:
Mas se houver morte, então darás vida por vida,Olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé,Queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe.
(Êxodo 21:23-25)
Quebradura por quebradura, olho por olho, dente por dente; como ele tiver desfigurado a algum homem, assim se lhe fará.
(Levítico 24:20)
O teu olho não perdoará; vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé.
(Deuteronômio 19:21)

Cada um desses textos possui um contexto específico, mas todos tem algo em comum: são instruções para legislação civil. Ou seja, tanto para a mulher grávida agredida, quanto para a pessoa que foi desfigurada por alguém, quanto para a testemunha que mente no julgamento, a pena civil aplicada deveria ser proporcional ao dano que eles causaram ou intentavam causar (no caso da falsa testemunha, a pena que seria do acusado era transferida para ela, caso comprovado que a acusação é falsa).
Voltando à expressão "Olho por olho, dente por dente", em todos os casos é aplicada para apontar para o princípio da proporcionalidade na aplicação da punição. Ou seja, não se deveria, por exemplo, punir com morte quem quebrou o dente de outro, nem se punir com algo inferior à morte aquele que cometeu homicídio. Trata-se portanto de instruções para aplicação da justiça civil.
Para uma explicação mais detalhada, recomendo a leitura:
O que Jesus corrige aqui não é essa aplicação civil (ou estaria contradizendo o conceito de justiça dado por DEUS) mas sim a perversão feita por eles, assumindo a vingança por conta própria. A bíblia condena em muitas passagens a vingança pessoal, mas afirma que cabe às autoridades serem ministras de DEUS para aplicação da justiça (Romanos 13:4). Logo, o que Cristo faz não é destruir o conceito de justiça e sim combater a vingança.
Mais que isso, Ele os instrui a revidar o mal com o bem.



Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem. (Romanos 12:21)


Alguém poderia então sugerir que, se devemos revidar o mal com o bem, então a legítima defesa não seria aceitável pois estaríamos fazendo mal ao agressor para nos defendermos. Para responder isso, primeiro vale a pena observar os exemplos que o próprio Cristo dá nas instruções mencionadas anteriormente (Mateus 5:38-42) :
  • se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra;
  • ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa;
  • se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas.
  • Repare que em nenhum desses casos há uma ação imediata do "inimigo" que coloca em risco a vida da pessoa. Existe menção à ofensa (bater na face direita), acusação e julgamento (pleitear contigo) e abuso de poder (obrigar a caminhar), e sobre tais coisas Cristo os ensina a reagir com mansidão ao invés de "comprar briga". Depois ainda os instrui sobre a aplicação da misericórdia de forma mais clara: "dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes."

    Uma prova de que Jesus estava corrigindo as tradições deles e não a Lei de Deus está na própria sequência do texto (Mateus 5:43-48), quando Ele diz: "Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos (...)". A Lei de DEUS não diz que inimigo deveria ser odiado, tratando-se obviamente de algo que os religiosos passaram a transmitir como Palavra de DEUS e não o sendo.
    Jesus então reforça ensinos já presentes no Antigo Testamento (Êxodo 23:4-5,9, Levítico 19:17-18, I Samuel 24:18Provérbios 25:21-22), e contrasta a mentira que eles ouviram sobre o ódio aos inimigos com o dever de amar os inimigos, bendizer os que nos maldizem, fazer bem aos que nos odeiam, e orar pelos que nos maltratam e nos perseguem. E como modelo para essa atitude, Cristo fala do amor de DEUS, que "faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos".

    Portanto, os ensinos de Cristo em nada contradizem o que a Lei de DEUS já dizia. A propósito, conforme eu já havia mencionado no texto "A bíblia me permite ter uma arma??", o princípio da autodefesa não vem desacompanhado do conceito de proporcionalidade e, portanto, haveria pena para quem reagisse com força letal contra quem não oferecesse risco real à vida.
    Então o que Cristo faz aqui não é aprimorar ou mudar o que a Lei já dizia, mas sim interpretá-la da forma correta, e lembrar a seus ouvintes que assim como DEUS é misericordioso eles também deveriam ser.

    Mas se existe um direito à autodefesa, por que muitos do povo de DEUS (incluindo profetas, apóstolos e o próprio Cristo) perderam suas vidas ao invés de reagirem contra as autoridades que os perseguiram??

    O martírio como testemunho

    “O martírio é o supremo testemunho prestado à verdade da fé; designa um testemunho que vai até a morte”.
    O parágrafo 2473 do Catecismo da Igreja) descreve muito bem o que representa o martírio.

    A palavra "mártir" vem do grego (μαρτυς), e originalmente significa "testemunha". O termo passa a ter seu sentido atrelado à morte justamente porque muitos do povo de DEUS tiveram suas vidas tomadas pelo testemunho insistente da Sua Palavra. A morte era uma consequência por não negarem a Verdade, mesmo perante torturas.

    As Escrituras apresentam alguns casos de martírio, que incluem o próprio sacrifício de Cristo - o martírio mais importante da História, os martírios de João Batista (decapitado por sua profissão de fé - Marcos 6:14-29), Estevão (que também menciona os profetas martirizados no passado - Atos 7) e Tiago (morto a mando de Herodes - Atos 12:1-2). 

    Em Hebreus 11:35-38 (grifos meus) lemos:
    Houve mulheres que, pela ressurreição, tiveram de volta os seus mortos. Alguns foram torturados e recusaram ser libertados, para poderem alcançar uma ressurreição superior.Outros enfrentaram zombaria e açoites, outros ainda foram acorrentados e colocados na prisão, apedrejados, serrados ao meio, postos à prova, mortos ao fio da espada. Andaram errantes, vestidos de pele de ovelhas e de cabras, necessitados, afligidos e maltratados.O mundo não era digno deles. Vagaram pelos desertos e montes, pelas cavernas e grutas.
    Esse capítulo é famoso por relacionar grandes "heróis da fé", e listar alguns de seus feitos. O trecho acima faz menção a ressurreições ocorridas no tempo do Antigo Testamento (1 Reis 17:22 eReis 4:36) e depois fala sobre muitos "anônimos", que sofreram na pele por serem testemunhas do Senhor em suas épocas.
    Apocalipse 6:11 e 7:9-14 ainda faz menção à visão de João quanto aos que "vieram da grande tribulação e lavaram as suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro". No capítulo anterior lemos uma descrição ainda mais completa, revelando que além daquelas almas haveria mais outros mártires cujas almas viriam se juntar a elas:
    Quando ele abriu o quinto selo, vi debaixo do altar as almas daqueles que haviam sido mortos por causa da palavra de Deus e do testemunho que deram.Eles clamavam em alta voz: "Até quando, ó Soberano santo e verdadeiro, esperarás para julgar os habitantes da terra e vingar o nosso sangue? "Então cada um deles recebeu uma veste branca, e foi-lhes dito que esperassem um pouco mais, até que se completasse o número dos seus conservos e irmãos, que deveriam ser mortos como eles.
    (Apocalipse 6:9-11  - grifos meus)
    Se considerarmos a História do povo de Deus, desde seu início até então, seria impossível tentarmos calcular o tamanho da multidão total vitimada por causa da fé. Até hoje essa perseguição que resulta em execuções ocorre em larga escala em alguns países, mas algo a ser considerado é que, apesar de haver tantos textos bíblicos falando sobre a perseguição como algo inevitável em algum grau. Por exemplo:
    "Bem-aventurados serão vocês quando, por minha causa os insultarem, perseguirem e levantarem todo tipo de calúnia contra vocês.Alegrem-se e regozijem-se, porque grande é a recompensa de vocês nos céus, pois da mesma forma perseguiram os profetas que viveram antes de vocês".
    (Mateus 5:11,12)
    Se vocês são insultados por causa do nome de Cristo, felizes são vocês, pois o Espírito da glória, o Espírito de Deus, repousa sobre vocês.Se algum de vocês sofre, que não seja como assassino, ladrão, criminoso ou como quem se intromete em negócios alheios.Contudo, se sofre como cristão, não se envergonhe, mas glorifique a Deus por meio desse nome.
    (1 Pedro 4:14-16
    Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou forte.
    (2 Coríntios 12:10)
    Não tenham medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes, tenham medo daquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno.
    (Mateus 10:28)
    Quem acha a sua vida a perderá, e quem perde a sua vida por minha causa a encontrará.
    (Mateus 10:39)

    Há mais e mais textos exaltando a perseverança nas tribulações e dando exemplos de personagens bíblicos que se tornaram modelos nessa prática. Além disso, pelas palavras de Cristo, fica claro que morrer pela Sua causa vale mais que viver O negando. E que devemos temer o nosso destino eterno muito mais que o fim da nossa vida terrena.
    Em outras palavras, é virtuoso e digno de honra (Romanos 13:7) perder a vida em nome do testemunho da Verdade, mas é um erro desperdiçar a vida visando os bens celestiais ou qualquer outra coisa. Lembrando que não tentar evitar tal situação é um sinal de desprezo ao valor da vida como dom de DEUS e, além disso, é permitir (e facilitar para) que uma injustiça seja praticada e que o pecado de homicídio seja imputado a quem aplicar a pena (até por isso Jesus e Estevão oraram pedindo que tal culpa não fosse imputada a seus algozes).


    Podemos fugir da perseguição??


    Mesmo que as chances de passarmos por perseguições sejam previstas, não há qualquer encorajamento para que busquemos essa condição. Podemos sim vir a sermos vítimas de perseguição extrema, devendo buscar forças em DEUS para lidar com isso, mas jamais perseguir "masoquistamente" essa realidade.

    Quando Cristo enviou os apóstolos para pregar aos judeus, lhes alertou:
    Eu os estou enviando como ovelhas entre lobos. Portanto, sejam prudentes como as serpentes e simples como as pombas.
    (Mateus 10:16)
    Posteriormente, o apóstolo Paulo escreveu algo semelhante:
    Como está escrito: "Por amor de ti enfrentamos a morte todos os dias; somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro".
    (Romanos 8:36)

    O que podemos entender é que há sim o risco iminente, quando aqueles que nos rodeiam odeiam o evangelho, mas não há sugestão para que abramos mão de nossas vidas se isso puder ser evitado.
    Na própria bíblia há exemplos claros de como o povo de DEUS fugia da perseguição física conforme seu alcance (Atos 8:1; 9:25, 30; 14:6; 17:10, 14). Há também a prova de que essa não é uma atitude covarde e sim a vontade de seu cabeça, Jesus Cristo; tanto por ordem direta (Mateus 10:23) como por exemplo próprio (Lucas 4,29-30; João 8,59). A fuga pode ser considerada então uma forma de autodefesa "passiva", ou seja, para evitar o pior a pessoa escapa para não ser atacada.

    Podemos "atacar" os perseguidores??

    Ainda assim, há situações em que a reação contra o mal pode ser ativa, em prol de um bem maior que a própria segurança. Isto é, quando terceiros oferecem riscos a inocentes, a legítima defesa do outro é um bem superior a poupar a vida do agressor.
    Por exemplo, durante a Segunda Guerra Mundial, Hitler comandava a Alemanha e gradativamente passava a dominar a Europa. Como parte seus atos desumanos, instituiu perseguição a certos grupos, a fim de reforçar a suposta supremacia ariana. Povos dominados passaram a ser aliados nessas práticas e todos (incluindo alemães) que discordavam da prática eram considerados traidores.
    Nesse contexto, um pastor luterano se destacou historicamente por participar ativamente de atentados contra o tirano Hitler. Seu nome era Dietrich Bonhoeffer.
    Diante da grande opressão nazista e da  covardia de muitos cristãos (que se aliaram ao tirano), Bonhoeffer fez parte de um movimento cristão de resistência a o Partido Nazista, chamado "Igreja Confessante", que insistia que:
    Jesus Cristo, e não homem algum ou o Estado, é o nosso único Salvador.
    Além do discurso, efetivamente lutaram para ocultar e salvar judeus das garras dos nazistas, e de fato tentaram matar o próprio Hitler, porém sem êxito.
    Pelas palavras de Bonhoeffer: "É melhor fazer um mal do que ser mau."

    Antes de prosseguir, é importante dizer que Bonhoeffer chegou ao extremo de atentar contra a vida de Hitler depois que as demais tentativas de impedi-lo por meios "não-letais" não tiveram resultados. Quero dizer, intencionar matar o tirano não foi a primeira, nem a segunda coisa que lhe veio em mente, mas sim a última alternativa.

    O grande dilema que aqui se apresenta é: "matar um tirano ou permitir que ele continue matando inocentes??" E se o bom senso nos levar a escolher a primeira opção, a próxima pergunta é: "para proteger inocentes é legítimo matar um tirano??"

    É importante ressaltar aqui que, não proteger inocentes (tendo isso ao alcance) é pecado:
    Erga a voz em favor dos que não podem defender-se, seja o defensor de todos os desamparados.
    (Provérbios 31:8)
    A omissão perante a injustiça é pecado. 
    Fato.

    Matar alguém é pecado. 
    Fato??

    Nem sempre... Conforme demonstrado na postagem anterior, uma pessoa é inocentada de pecado caso mate quem lhe oferece risco real de morte.

    No caso da omissão, é geralmente causada por comodismo e/ou covardia, logo não pode ser defendida. Dessa forma, se para impedir a opressão extrema for inevitável o extremo do assassinato do opressor, esse será um mal menor a ser escolhido. 
    Claro, lembrando sempre do princípio de proporcionalidade... Ninguém deve, por exemplo, pensar em matar seu chefe por não ser devidamente valorizado no trabalho. O extremo só deve ser cogitado (por exemplo, se esse chefe tentasse te matar) depois que todos meios legítimos de impedimento foram tentados ou não resolveriam.

    Dito tudo isso, por que muitos escolhem o martírio ao invés da legítima defesa??
    Por que os cristãos não reagem perante os que querem matar por causa da fé que professam??

    Bom, creio que possa existir muitas repostas, inclusive aquelas que são baseadas em motivações errôneas. Vimos que não devemos "caçar" o martírio, nem crer que através do mérito por essa obra receberemos recompensas celestiais, mas quais seriam as motivações corretas??

    Fatores a serem considerados:

    Primeiramente, é importante distinguir se o ataque motivado pela nossa profissão de fé vem de autoridades legalmente instituídas ou de "civis comuns". A distinção é importante considerando nosso dever de submissão às autoridades (enquanto isso não significar desobediência a DEUS) e a ausência de qualquer dever semelhante perante outras pessoas. Sendo assim, enquanto no caso de "não-autoridades" não há qualquer dever de rendição, perante a perseguição vinda de autoridades a não-rendição poderia se tornar motivo para calúnias, por exemplo. 
    Além disso, uma reação violenta poderia gerar a morte imediata pelo ataque dos perseguidores, enquanto que a rendição poderia dar mais tempo de vida, e com isso haver alguma esperança de escapar da punição final (seja por fuga, seja por reviravolta em um julgamento, etc.).

    Isso leva a um segundo fator a ser considerado, que é o da possibilidade de êxito na resistência. Da mesma forma que deve caber a uma pessoa a decisão sobre reagir ou não em uma situação de risco (por exemplo, tentar aproveitar uma chance para sacar uma arma e atirar em alguém que já lhe aponta uma arma ou apenas seguir ordens esperando que sua vida seja poupada), em uma situação em que é abordada por perseguidores ela pode "medir" quais chances tem de sobreviver caso se renda ou reaja. E lembrando sempre do princípio da proporcionalidade, a pessoa só poderia reagir letalmente se os ataques que sofresse fossem também visando sua morte.

    Por fim, lembrando do que significa a palavra "mártir" em sua origem, pode ser visto como uma grande chance de testemunho a rendição perante os perseguidores, ao invés da reação física ou armada. Lembrando aqui que, "rendição" se refere apenas a não atacar o agressor, mas a profissão de fé jamais deve ser negada.
    Perante a ameaça de morte, um cristão deve persistir na convicção do que crê, jamais negando sua fé em DEUS e em Jesus Cristo como Senhor e Salvador. Desta forma, a pena para essa perseverança na Verdade pode ser a morte pelas mãos assassinas dos seus perseguidores, seja após a rendição física ou após alguma tentativa de se defender dos ataques.

    Entregar a vida na defesa da fé, tem o efeito negativo de não evitar a injustiça e a culpa de homicídio da parte dos assassinos, porém é uma forma extrema de reafirmar a certeza da ressurreição (I Coríntios 15) e que a gratidão e o amor a DEUS estão acima do amor à própria vida aqui neste mundo.
    Nisso se aplicam bem textos já mencionados, como Mateus 10:39: "Quem acha a sua vida a perderá, e quem perde a sua vida por minha causa a encontrará"
    . Ou Filipenses 1:20-21: "Aguardo ansiosamente e espero que em nada serei envergonhado. Pelo contrário, com toda a determinação de sempre, também agora Cristo será engrandecido em meu corpo, quer pela vida quer pela morte; porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro".

    O amor aos algozes, leva ao desejo de suas conversões.
    O reconhecimento da Graça de Deus sobre Seu povo, leva ao entendimento que antes todos nós éramos também inimigos de Deus e de Seus filhos. Portanto, se fomos resgatados, nossos algozes também o podem ser.
    Esse testemunho extremo pode ser um meio de graça para que a semente do evangelho seja plantada e germinada nesses corações.

    Neste caso, faz mais sentido que um cristão entregue sua vida caso a motivação dos agressores seja o ódio do evangelho do que a defenda ao custo de possíveis mortes de seus inimigos. Se a causa do ataque é o evangelho, justifica-se a não reação.

    Na minha opinião, essa entrega deve dizer respeito à própria vida, não a vida de terceiros. Não faz sentido, a meu ver, que o cristão apoie e não resista à tortura contra inocentes devido à causa, ao invés de fazer o possível para impedir. Mas no caso da outra vítima também estar aplicando seu desejo de entrega voluntária por essa causa, passa a fazer sentido o respeito a essa decisão.


    Que DEUS nos fortaleça e conceda sabedoria para que perante situações que exigem decisões difíceis possamos ser firmes e justos, conforme Sua Palavra nos ensina.


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