sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Uma teologia do vinho (por por Joe Thorn)



O vinho precisa contratar uma nova agência de relações públicas para ajudar com sua imagem junto às igrejas evangélicas, visto que ele é frequentemente ignorado por muitos cristãos americanos hoje. Não tenho tempo ou interesse em analisar por que o vinho caiu em maus lençóis entre muitas igrejas que creem na Bíblia, mas estou interessado em ajudar a pintar um quadro mais biblicamente fiel dele na esperança de conseguir encorajar meus irmãos e irmãs a entendê-lo como um dom, uma imagem usada na Escritura para ensinar a verdade sobre Deus e como um elemento da nossa fé e prática cristãs.

O que é o vinho?

O vinho é o suco fermentado de uvas prensadas; uma bebida alcóolica que pode levar à embriaguez, caso consumida em excesso. A maioria de nós sabe o que o vinho é, embora alguns professores tenham tentado explicar que o vinho na Escritura às vezes é vinho e, outras, suco de uva. A verdade pura é que os melhores estudiosos bíblicos argumentam, de forma consistente e clara, que não apenas o "vinho" na Bíblia é alcoólico, como também afirmam que o suco não-fermentado de uva seria praticamente uma impossibilidade. D. F. Watson declara isso com toda franqueza em The Dictionary of Jesus and the Gospels, em seu artigo Wine [Vinho], quando ele diz que "todo vinho mencionado na Bíblia é suco de uva fermentado com teor alcoólico. Nenhuma bebida não-fermentada era chamada de vinho".

Quem bebia vinho na Bíblia?

Quase todo mundo. Beber vinho era normativo para os judeus (Gn 14.18; Jz 19.19; 1 Sm 16.20), embora os sacerdotes levitas no serviço do templo (Lv 10.8:9), os nazireus (Nm 6.3) e os recabitas (Jr 35.1:3) se abstivessem dele. No Novo Testamento, João Batista também se absteve.
A despeito do que alguns alegam hoje, o próprio Jesus bebeu vinho (Lc 22.18; Mt 11.18:19; 26.27:29), e foi acusado de beberrão por seus acusadores.
Pois veio João, que não comia nem bebia, e dizem: Tem demônio! Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem: Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores! Mas a sabedoria é justificada por suas obras (Mt 11.18:19).

Como o vinho é descrito na Escritura?

O vinho era a bebida comum dos judeus, usufruído com refeições e compartilhado com amigos (Gn 14.18; Jo 2.3). Era também uma parte essencial da adoração do povo de Deus em ambos os Testamentos.
A "oferta de bebida" consistia de vinho (Êx 29.40; LV 23.13), e o povo de Deus trazia vinho por ocasião dos sacrifícios de oferta (1 Sm 1.24). Os judeus, inclusive, guardavam vinho no templo (1 Cr 9.29). Em Isaías 62.9, o povo é abençoado pelo Senhor de tal maneira que é descrito bebendo vinho no santuário diante da presença de Deus. Em Deuteronômio 14.22:27, lemos o seguinte:
Certamente, darás os dízimos de todo o fruto das tuas sementes, que ano após ano se recolher do campo. E, perante o SENHOR, teu Deus, no lugar que escolher para ali fazer habitar o seu nome, comerás os dízimos do teu cereal, do teu vinho, do teu azeite e os primogênitos das tuas vacas e das tuas ovelhas; para que aprendas a temer o SENHOR, teu Deus, todos os dias. Quando o caminho te for comprido demais, que os não possas levar, por estar longe de ti o lugar que o SENHOR, teu Deus, escolher para ali pôr o seu nome, quando o SENHOR, teu Deus, te tiver abençoado, então, vende-os, e leva o dinheiro na tua mão, e vai ao lugar que o SENHOR, teu Deus, escolher. Esse dinheiro, dá-lo-ás por tudo o que deseja a tua alma, por vacas, ou ovelhas, ou vinho, ou bebida forte, ou qualquer coisa que te pedir a tua alma; come-o ali perante o SENHOR, teu Deus, e te alegrarás, tu e a tua casa; porém não desampararás o levita que está dentro da tua cidade, pois não tem parte nem herança contigo.
O vinho foi usado na celebração da páscoa e é usado na celebração da Ceia do Senhor no Novo Testamento (Lc 22.7:23; 1 Co 11.17:32). Para mais informações, leia o meu post Wine or Welch’s?
Ele também é usado com fins medicinais, para ajudar o fraco e o doente (2 Sm 16.2; Pv 31.6; 1 Tm 5.23).
Não é forçado dizer que Deus gosta de vinho. Ele estava associado com a vida, as bênçãos divinas e o reino de Deus. Em Juízes 9.13, lemos que o vinho é aquilo que "agrada a Deus e aos homens". O Salmo 104.15 retrata o vinho de modo semelhante, dizendo que ele "alegra o coração do homem" (Ec 10.19; Is 55.1:2; Zc 10.7). (Ver Walter A. Elwell and Barry J. Beitzel, Baker Encyclopedia of the Bible). Até mesmo o cumprimento futuro do reino de Deus é caracterizado pela abundância de vinho (Is 25.6:8; Amós 9.13).
Naturalmente, nem toda referência ao vinho na Bíblia é positiva. A bebedice é condenada, e o povo de Deus é advertido contra os perigos da embriaguez (Is 28.1:7; Ef 5.18; Is 5.11; Tt 2.3).
Em seu livro What Would Jesus Drink [O que Jesus beberia[1]], Brad Whittington divide as referências bíblicas ao álcool em três tipos. Ao todo, existem 247 referências ao álcool na Escritura. 40 são negativas (advertências sobre a bebedice, perigos potenciais do álcool etc.), 145 são positivas (sinal da benção divina, uso no culto etc.) e 62 são neutras (pessoas acusadas falsamente de estarem bêbadas, votos de abstinência etc.). A Bíblia é tudo, menos silenciosa sobre a questão do vinho. Ele, como todo álcool, deve ser tratado com cuidado, visto como uma bênção e recebido com ações de graças entre aqueles que o bebem. Não deve ser consumido excessivamente.

O vinho na Bíblia era misturado com água?

De acordo com F. S. Fitzsimmonds, em seu artigo "Wine and Strong Drink" [Vinho e bebida forte] no New Bible Dictionary, a resposta é "não". Pelo menos, não no Antigo Testamento. No Novo Testamento, o vinho provavelmente era misturado com duas partes de água para uma de vinho. Alguns que se opõem ao uso do vinho como uma bebida argumentam que o vinho na Escritura era tão diluído com água que era difícil ficar bêbado. Parece que o vinho no Novo Testamento, caso misturado, teria o mesmo teor alcoólico que as cervejas de hoje. (Ver, também, a Baker Encyclopedia of the Bible).

Qual deve ser a atitude cristã para com o vinho?

É importante que os cristãos entendam o quadro completo. O vinho é visto como uma bênção divina e como um meio potencial pelo qual as pessoas trazem destruição sobre si mesmas.
Esses dois aspectos do vinho - seu uso e seu abuso, seus benefícios e sua maldição, sua aceitação à vista de Deus e sua aversão - estão entrelaçados na estrutura do Antigo Testamento para que possa alegrar o coração do homem (Sl 104.15) ou levar sua mente ao engano (Is 28.7); ele pode ser associado com o festim (Ec 10.19) ou com a ira (Is 5.11); pode ser usado para encobrir a vergonha de Noé (Gn 9.21) ou, nas mãos de Melquisedeque, para honrar Abraão (Gn 14.18).: F. S. Fitzsimmonds, "Wine and Strong Drink", no New Bible Dictionary.
Os cristãos devem ser cautelosos com o vinho e a bebida forte, exercendo moderação e domínio próprio. E em relação ao outro, é importante que levemos em conta a liberdade sem sermos julgados nem por beber nem por se abster. Pode-se beber para a glória de Deus, enquanto o outro pode se abster para a glória de Deus.

O que é o vinho?

O vinho é um dom de Deus. Nele vemos o amor de Deus em proporcionar vida e alegria para todas as pessoas. Mas também enxergamos um sentido mais profundo. No vinho vemos o amor de Deus no sacrifício de Jesus Cristo, que remove nossa culpa, satisfaz a ira de Deus e salva a todos os que creem.

Notas:
[1] Não confundir com o livro homônimo de Joel McDurmon, publicado em português pela Editora Monergismo. [Nota do Tradutor.]

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Fonte: Doctrine and Devotion.

Traduzido por Leonardo Bruno Galdino.


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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

CRIACIONISMO E PSICOLOGIA (por R. J. Rushdoony)


A psicologia humanista nos dá uma doutrina do homem em desacordo radical com as Escrituras. Para os clérigos, tornou-se rotina olhar para psicologias humanistas como guias para o aconselhamento pastoral, e livros aplicando essas psicologias para os problemas pastorais têm tido um mercado receptivo e uma ampla influência. O resultado tem sido a constante infiltração nociva do humanismo em círculos cristãos e a erosão paulatina das doutrinas bíblicas do homem e da salvação.

Ao analisarmos a doutrina bíblica do homem e da psicologia do homem, é necessário, em primeiro lugar, reconhecer que do homem é declarado ser uma criatura, criado pelo ato soberano de Deus no sexto dia da criação (Gênesis 1: 26-31). Este fato nos dá um quadro radicalmente diferente do homem do que o fornecido pela evolução. Ao invés de emergir do caos e de uma ancestralidade animal, o homem é o trabalho direto e imediato de Deus.

Isto significa, em segundo lugar, que o homem tem uma história curta, não um passado longo e desconhecido. Essa história curta é muito amplamente documentada pela Escritura, bem como pelos registros do próprio homem. O homem é, portanto, sujeito à explicação por um registro documentado, não um passado longo e hipotético. Este registro documentado faz toda desculpa e evasão menos sustentável, enquanto um passado desconhecido corrói a responsabilidade e introduz confusão e incerteza. Assim, para o cristão, a psicologia do homem é um registro documentado.

Em terceiro lugar, em virtude do fato da criação seguir um padrão, o eterno propósito e conselho de Deus, (e à sua imagem), a psicologia do homem não é um fato em evolução, mas uma realidade fixa. O homem é mais do que um ser existente que está em processo de elaboração e definição de si mesmo; ele já foi feito e definido por Deus. Assim, a psicologia do homem posta por Freud, [1] ou por Sartre, [2] e outros, é falaciosa. A natureza do homem não é fixada por um passado evolutivo, nem por uma questão em aberto a ser determinada pelo homem. É um fato dado por Deus.

Em quarto lugar, o homem foi criado um ser maduro, não uma criança. Este é um fato de importância central. Nós, portanto, não podemos fazer psicologia infantil como base para a compreensão do homem. De acordo com Jastrow,
"O que podemos aceitar é o princípio de que a criança é uma autêntica encarnação da mais antiga, racialmente mais velha, mais persistente, mais autêntica natureza, guardiã da psicologia comportamentalista (behaviorista) natural." [3]

A psicologia humanista olha para trás, para um passado primitivo, a fim de explicar o homem, ao passo que a psicologia bíblica não olha nem para a criança nem para um passado primitivo para explicar o homem, mas para uma criatura madura, Adão, e para o propósito de Deus na criação do homem. Se o homem em sua origem é um produto de um passado evolutivo longo, o homem é, então, melhor compreendido em termos do animal, o selvagem e a criança. No entanto, desde que o homem era em sua origem uma criação madura, sua psicologia é melhor compreendida em termos de fato. Os pecados e falhas do homem não representam um primitivismo persistente ou uma reversão para a infância, mas uma deliberada revolta contra a maturidade e contra os requisitos da maturidade. Atribuir ao homem, como psicologias humanistas fazem, um substrato básico de primitivismo e infantilidade racial, é dar a essa revolta contra a maturidade uma justificativa ideológica; a estudada e desenvolvida imaturidade do homem é incentivada e justificada de forma madura. Se o homem é lembrado, sim, de que foi criado em Adão para a maturidade e responsabilidade e que sua revolta é contra a maturidade e responsabilidade, sua auto-justificação é quebrada. Tornou-se comum para as pessoas procurarem aconselhamento para discutir, não o seu problema, mas sua infância, seus pais e seu ambiente, a fim de "explicar" a sua presente "situação", isto é, o seu fracasso. O fato de uma criação madura é um dos fatos básicos e mais importantes de uma psicologia bíblica. É um fato de importância incalculável.

Em quinto lugar, o homem foi criado um ser maduro nos termos do propósito soberano de Deus, de modo que o sentido da vida do homem transcende o homem. O homem nunca pode ser entendido em termos de si mesmo, mas apenas por referência ao propósito soberano de Deus. A psicologia humanista sempre nega essa transcendência e, portanto, nega ao homem o sentido da sua existência. O Existencialismo é mais honesto aqui do que a maioria das filosofias e psicologias humanistas; mas ele nem define o homem nem atribui um significado à vida e do homem: "O homem é." Para o Existencialismo, se o homem é qualquer coisa, é porque o homem molda e define a si mesmo. Esta auto-definição é essencialmente um processo anarquista, em que cada homem é seu próprio universo e o deus daquele universo privado. Segundo as Escrituras, entretanto, o homem foi criado, e todo homem nasce dentro de um já definido universo feito por Deus, e cada um tem uma responsabilidade específica para com o Deus Triúno e aos homens e ao universo feito por Deus. Não apenas a existência do homem é um fato criado e definido, mas as condições de sua vida também são. Em nenhum ponto de sua vida ou a imaginação pode o homem pular fora de ordem ordenada de Deus para um reino de liberdade humanista ou liberdade feita pelo homem. A liberdade do homem é em si uma condição da Criação de Deus. Cada fio de cabelo na cabeça do homem, toda a imaginação de seu coração, e cada fibra de sua vida e experiência, é um aspecto da Criação de Deus e de Seu propósito soberano.

Em sexto lugar, o homem foi criado à Imagem de Deus. Como Van Til apontou,
"Ele é portanto como Deus em tudo em que uma criatura pode ser como Deus. Ele é como Deus no fato de que ele também é uma personalidade. Isto é o que queremos dizer quando falamos da Imagem de Deus no sentido mais geral e mais amplo. Em seguida, quando queremos enfatizar o fato de que o homem se assemelha a Deus especialmente no esplendor de seus atributos morais, dizemos que quando o hoemem tinha conhecimento verdadeiro quando foi criado, verdadeira justiça e verdadeira santidade. Esta  doutrina é baseada no fato de que nos é dito no Novo Testamento que Cristo veio para nos restaurar ao verdadeiro conhecimento, justiça e santidade (Colossenses 3: 10; Ef. 4: 24). Chamamos isso de Imagem de Deus no sentido mais restrito. Estes dois sentidos não podem ser completamente separados um do outro. Seria realmente impossível pensar que o homem foi criado apenas com a Imagem de Deus no sentido mais amplo; cada ato do homem primeiramente tem que ser um ato moral, um ato de escolha contra ou a favor de Deus. Portanto, o homem, em cada ato de conhecimento, deveria mesmo manifestar verdadeira justiça e santidade verdadeira. 
Então, depois de enfatizar que o homem era como Deus e na natureza do caso, tinha que ser como Deus, devemos salientar o ponto de que o homem deve ser sempre diferente de Deus. O homem foi criado à Imagem de Deus. Nós vimos que alguns dos atributos de Deus são incomunicáveis. O homem nunca pode em qualquer sentido superar sua condição de criatura. Isso coloca uma conotação definida na expressão de que o homem é como Deus. Ele é como Deus, com certeza, mas sempre em uma escala de criatura. Ele nunca pode ser como Deus em asseidade, imutabilidade, infinitude e  unidade. Por essa razão, a Igreja tem encravada no coração de suas confissões a doutrina da incompreensibilidade de Deus. O Ser e o conhecimento de Deus são absolutamente abrangentes; tal conhecimento é maravilhoso demais para o homem; ele não pode alcançá-lo. O homem não foi criado com conhecimento abrangente. O homem era finito e sua finitude não era originalmente fardo algum para ele. Nem poderia o homem jamais esperar atingir um conhecimento abrangente no futuro. Não podemos esperar ter um conhecimento abrangente, mesmo no céu. É verdade que muito que agora é mistério para nós nos será revelado, mas na natureza do caso, Deus não pode revelar-nos aquilo que como criaturas nós não podemos compreender; teríamos de ser nós mesmos Deus, a fim de entender Deus na profundidade do seu ser." [4]
O homem foi criado bom, porque ele foi criado à Imagem de Deus. Portanto, justiça, santidade, conhecimento e domínio são normativos para o homem. Pecado não é natural, é uma deformação da natureza do homem, um câncer e uma doença até a morte. "Assim, nós sustentamos que o homem apareceu originalmente com uma consciência moral perfeita." [5] O homem, criado à imagem de Deus, "teve que viver por revelação." Desde que o homem é criatura de Deus, todas as condições de vida do homem e cada fibra do seu ser deve responder à Palavra lei de Deus para a sua saúde.
"Essa é, então, a diferença básica e fundamental entre epistemologia cristã e não-cristã, na medida em que tem uma influência direta sobre questões de ética, que, no caso da atividade moral do homem de pensamento não-cristão é considerada como criativamente construtiva, enquanto no caso do pensamento cristão a atividade moral do homem é considerada como sendo receptivamente reconstrutiva. De acordo com o pensamento não-cristão, não há personalidade moral absoluta a quem o homem seja responsável e de quem ele tenha recebido sua concepção do bem, enquanto de acordo com o pensamento cristão, Deus é a personalidade moral infinita que revela ao homem a verdadeira natureza da moralidade." [6]
Em sétimo lugar, tendo Deus criado o homem à Sua Imagem, ordenou-lhe que exercesse domínio e subjugasse a terra. Este é o chamado básico do homem e um aspecto básico de sua natureza. Assim, não só a natureza do homem é criada por Deus, mas a vocação do homem para o domínio está escrita na natureza do homem. Inevitavelmente, o homem é aquela criatura que foi criada para exercer domínio sobre a terra e sujeitá-la, para criar ferramentas e instituições cujo propósito é capacitar o homem para trazer todas as coisas ao seu desenvolvimento apropriado no Reino de Deus. O homem foi criado maduro para que ele pudesse exercer domínio com sua primeira respiração, e a vocação para o domínio é uma parte do seu sangue vital. "Fazes com que ele tenha domínio sobre as obras das tuas mãos; tudo puseste debaixo de seus pés" (Sl 8:6). Este fato do domínio condiciona a vida do homem, sua obediência, bem como sua desobediência. Não pode haver compreensão da psicologia do homem fora de uma consciência dessa inescapável vocação ao domínio, o que, no homem pecador, torna-se uma forma de guerra contra Deus. Nenhuma psicologia pode começar a compreender o homem fora deste aspecto da natureza do homem, o chamado para o domínio. O fato é, porém, que as psicologias humanistas negam a criação do homem em maturidade e deixam de reconhecer o significado da sua vocação para o domínio. Como resultado, eles não só não conseguem entender o homem, mas eles também dão uma falsa ilustração do próprio homem.

Em oitavo lugar, somos informados de que "homem e mulher os criou" (Gn 1:27). O caráter sexual de homens e mulheres não é um produto cego e acidental da evolução, mas o propósito de Deus e base para qualquer entendimento do homem. As tentativas de negar a validade dos regulamentos sexuais bíblicos, para interpretar a homossexualidade como uma expressão de um desenvolvimento primitivo ou como outra forma de livre expressão sexual do homem, ou para negar as diferenças psicológicas entre um homem e uma mulher, são, portanto, moralmente, bem como psicologicamente erradas. Os fatos da masculinidade e da feminilidade são básicos e constitutivos do propósito de Deus para a humanidade, e qualquer psicologia que nega-os é assim estéril e carente de entendimento. Ironicamente, os humanistas, que condenam os padrões bíblicos como puritanos e repressores, são eles próprios culpados dos piores repressões em sua negação das diferenças sexuais e de sua validade psicológica. O igualitarismo de psicologias humanistas provoca uma castração básica da natureza sexual do homem e da mulher e é uma grande força repressora na sociedade moderna.

Em nono lugar, básico para a psicologia do homem é o mandato da Criação, "Sede fecundos, multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a" (Gn 1:28). Este mandamento é precedido, no mesmo versículo pela declaração: "E Deus os abençoou." O mandamento em si é uma bênção, e o ato de obediência a todos os mandamentos de Deus é, em si, uma fonte de bênção.

Básico para a natureza do homem criado por Deus, originalmente totalmente bom, é o desejo de ser fecundo e multiplicar. A psicologia do homem como criado por Deus é, portanto, regulada pelo presente motivo, e, ainda que pervertido, este motivo não pode ser destruído sem destruir o homem. A hostilidade à esta fertilidade marcará assim uma era suicida.

O mandamento deixa claro que esta fertilidade é um aspecto do domínio do homem: "Enchei a terra e sujeitai-a." Das crianças, o Salmo 127: 3 diz que elas "são herança do Senhor." Uma herança significa duas coisas: Qualquer coisa recebida dos pais ou predecessores, e também o estado ou condição em que nascemos. Como uma "herança do Senhor" as crianças são, portanto, a nossa herança de Deus, bem como uma condição feliz da vida na Aliança. "Bem-aventurado é o homem que enche deles a sua aljava; não serão confundidos, quando falarem com os seus inimigos à porta" (Sl 127: 5). Não só a Escritura, mas a experiência da história deixa claro que a fertilidade tem sido vista como um aspecto de domínio e como um aspecto da glória do homem.

Em décimo lugar, é duas vezes indicado no relato da Criação (Gn 1: 26, 28) que um aspecto do domínio do homem é sobre o mundo animal, "sobre toda coisa vivente." O homem foi criado, assim, com um relacionamento com os animais estabelecido como normativo para sua psicologia saudável. A relação do homem para com os animais não é, portanto, de guerra, mas de domínio. O fato de que homens pecadores têm tratado animais meramente como um obstáculo a ser destruído não conseguiu apagar eficazmente a vocação do homem para um domínio normativo sobre eles. Os homens têm domesticado e aproveitado animais, utilizados como animais de estimação, protetores, e servos, e eles têm muitas vezes reconhecido que os animais selvagens têm uma função dada por Deus para trazer a terra sob o domínio.

Em décimo primeiro lugar, o homem foi criado para viver em um mundo perfeito e para cultivá-lo e mantê-lo (Gn 2:15). Assim, a psicologia do homem tem como básica uma relação com a própria terra, que é reforçada pelo fato de que o homem foi formado a partir do "pó da terra" (Gênesis 2:7) e depois feito alma vivente. O homem é portanto ligado à terra, física e psicologicamente. A terra é a área do seu domínio, o lugar para que sua fertilidade seja manifestada, e seu tesouro para desenvolver a ordem que Deus exige dele.

Estes são alguns dos aspectos elementais e elementares da psicologia do homem. O homem foi criado na maturidade, e seu pecado é uma tentativa resoluta e fútil de fugir da maturidade. No entanto, enquanto o homem pode falhar em cumprir suas responsabilidades, ele nunca pode escapar delas.



(Artigo extraído de "Revolt Against Maturity", de Rushdoony. Págs. 5-12)
1. Ver RJ Rushdoony: Freud. Philadelphia: Presbyterian & Reformed Publ. Co., 1965. [Publicado no Brasil pela Editora Monergismo] 
2. Jean-Paul Sartre: Being and Nothingness. New York: Philosophical Library, 1956.
3. Joseph Jastrow, "The Reconstruction of Psychology," in The Psychological Review, #3, 1927, p. 169, cited in Cornelius Van Til: Psychology in Religion, p. 58. Philadelphia: Westminster Theological Seminary, 1935.
4. Cornelius Van Til: The Defense of the Faith, p. 29f. Philadelphia: Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1955.
5. Ibid., p. 70.
6. Idem.




Rev. R. J. Rushdoony (1916-2001) foi o fundador do Chalcedon e um teólogo influente, especialista na relação entre Igreja e Estado, e autor de numerosos trabalhos relacionados à aplicação da Lei Bíblica na sociedade.

Tradução por Antonio Vitor.


Essa tradução foi autorizada por Mark Rushdoony, filho de Rousas John Rushdoony.


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quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

[OFF] SevenOne Revenge



Pessoal, em julho de 2016 iniciei um curso superior na área de Jogos Digitais. Tenho em mente, se possível, criar jogos educacionais e inclusive teológicos, conforme tiver mais conhecimentos no futuro.

Na descrição coloquei um link com a instalação do meu primeiro jogo. Ele não tem nada a ver com teologia, e por isso foge da proposta principal do blog, mas se alguém se interessar e quiser me ajudar a testar ou até mesmo dar um feedback sobre ele será muito bem-vindo(a). rs

Essa versão é para 1 jogador, e estou trabalhando em uma que permita que sejam 2 se enfrentando em rede. Usei também efeitos sonoros especiais e montagens para reforçar o lado cômico. E o visual é meio "retrô", o que pode alegrar alguns jogadores das antigas. rs

O jogo é um pebolim (vulgo "totó" em algumas regiões), mas com um objetivo especial apresentado na abertura. Funciona em desktop e notebook (talvez não funcione no touchpad), utilizando-se mouse e teclado.

Valeu!!

Link para download:


Instruções:

1) Para jogar utiliza-se teclado e mouse;

2) Para selecionar qual fileira mexer, segure uma tecla numérica de 1 a 4.
(1 = goleiro; 2 = defesa; 3 = meio-campo, 4 = ataque);

3) Pressionada a tecla numérica, mova o mouse verticalmente para mexer a fileira;

4) Para chutar ou posicionar a fileira para frente, pressione o botão esquerdo do mouse (lembrando dos itens 2 e 3);

5) Para recuar a fileira, pressione o botão direito do mouse (lembrando dos itens 2 e 3);

6) Pressionando a tecla numérica, a barra de espaço e um botão do mouse (recuo ou avanço), tanto o recuo quanto o avanço são mais rápidos, e no caso do chute, fica mais potente).

7) Para cancelar o replay, pular as instruções no jogo ou pausá-lo, basta pressionar a tecla Enter.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

A Eternidade dos Tormentos do Inferno (por Jonathan Edwards) - parte 03 de 03


Traduzido do original em inglês: The Eternity of Hell's Torments
Jonathan Edwards © Domínio Público
Original disponível em: www.APURITANSMIND.com
Tradução e Produção: www.FirelandMissions.com
Primeira edição: Setembro de 2013.


IV. Diversos Fins Excelentes e Importantes Serão Obtidos Por Meio do Castigo Eterno dos Ímpios.

Primeiro, por este meio Deus vindica Sua majestade ofendida. Aonde os pecadores lançam seu desprezo e pisoteiam, Deus vindica honra e faz Sua majestade aparecer, uma vez que ela é realmente infinita, mostrando que é infinitamente terrível rejeitá-la ou ofendê-la.

Segundo, Deus glorifica a Sua justiça. A glória de Deus é o maior bem. A Sua glória é o fim principal da criação. É mais importante do que qualquer outra coisa. Mas este único caminho onde Deus glorificará a Si mesmo, como por exemplo na destruição eterna dos ímpios, Ele glorificará a Sua justiça. Ali, Ele aparecerá como o justo Governador do mundo. A justiça vingativa de Deus se mostrará terminante, precisa, temível e terrível, e portanto, gloriosa.

Terceiro, por meio disso, Deus indiretamente glorifica a Sua graça nos vasos de misericórdia. Os santos no céu contemplarão os tormentos dos condenados: "A fumaça do tormento de tais pessoas sobe para todo o sempre" - Ap 14:11. "Sairão e verão os cadáveres dos que se rebelaram contra mim; o seu verme não morrerá, e o seu fogo não se apagará, e causarão repugnância a toda a humanidade" - Is 66:24. E em Apocalipse 14:10 é dito, que eles serão atormentados na presença dos santos anjos e na presença do Cordeiro. Logo, eles serão atormentados na presença também dos santos glorificados.

Por meio disto os santos serão mais conscientizados de quão grande é a sua salvação. Quando eles verem quão grande é o tormento do qual Deus os salvou, e quão grande diferença há entre o seu estado e o estado dos outros, os quais não eram por natureza e, talvez, por algum tempo na prática mais pecaminosos e imerecedores do que eles, isto os dará um senso maior das maravilhas da graça de Deus para com eles. Sempre que eles olharem para os condenados, isto os incitará a um senso vivo de admiração pela graça de Deus, em tê-los dado tal graça para os diferenciar. O apóstolo nos diz que esta é uma das finalidades da condenação dos ímpios: "E se Deus, querendo mostrar a Sua ira e tornar conhecido o Seu poder, suportou com grande paciência os vasos de Sua ira, preparados para destruição? Que dizer, se Ele fez isto para tornar conhecidas as riquezas de Sua glória aos vasos de Sua misericórdia, que preparou de antemão para glória?" - Rm 9:22-23visão do tormento dos condenados fará dobrar o ardor do amor e da gratidão dos santos no céu.

Quarto, a visão dos tormentos do inferno exaltará a felicidade dos santos eternamente. Eles não somente estarão mais conscientes da grandeza e da gratuidade da graça de Deus em sua felicidade, mas isso realmente aumentará a felicidade deles, uma vez que os fará mais cientes de sua própria felicidade. Isto os dará um deleite mais vívido do mesmo: os fará atribuir grande valor à felicidade.
Quando eles verem outros, que tinham a mesma natureza e nasceram sob as mesmas circunstâncias que eles, mergulhados em tal tormento, e em uma posição tão distinta, oh, isso os conscientizará de quão felizes eles são. Um senso do tormento de outro, em todos os casos, aumenta grandemente o deleite de qualquer alegria ou prazer.

A visão do poder maravilhoso, da grande e temível majestade, e da terrível justiça e santidade de Deus, manifestos no castigo eterno dos ímpios, os fará apreciar o Seu favor e amá-Lo muito mais. E, eles serão muito mais felizes na satisfação do mesmo.

Aplicação Prática

  1. A partir do que foi dito, podemos aprender a insensatez e a loucura da maior parte da humanidade, em que, por causa da atual satisfação momentânea, correm o risco de sofrerem todos esses tormentos eternos. Eles preferem um pequeno prazer, ou um pouco de riqueza, ou um pouco de honra e grandeza terrena os quais duram apenas por um momento à uma fuga desta punição. Se é verdade que os tormentos do inferno são eternos, do que valeria ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou o que dará o homem em troca da sua alma? O que existe neste mundo, que não seja tão frívolo e passageiro quanto a vaidade, em comparação com essas coisas eternas? (cf. Mc 8:36-37; Sl 62:9).Quão loucos são os homens, que tantas vezes ouvem essas coisas e fingem acreditar nelas; os quais vivem apenas um pouco de tempo alguns anos; que nem ao menos esperam viver aqui mais do que outros de sua espécie normalmente vivem; e que mesmo assim estão desatentos sobre o que será deles no outro mundo, onde não há mudança nem fim!

    Quão loucos são eles, quando ouvem que se permanecerem no pecado eles serão eternamente miseráveis que não são movidos por isso, mas ouvem com tanta descuido e frieza, como se não estivessem de jeito nenhum preocupados com o assunto quando não reconhecem, senão que este pode ser o seu caso, e que eles podem sofrer esses tormentos antes que uma semana chegue ao fim!

    Como pode os homens serem tão descuidados sobre tão importante assunto como a sua própria destruição e tormento eterno?

    Que estranha insensibilidade sem sentido possuem os corações dos homens!

    Que coisa comum é esta, ver homens, que são avisados de domingo a domingo do tormento eterno, e que são tão mortais quanto outros homens, serem tão descuidados quanto a isso que eles não aparentam, de forma alguma, restringidos de qualquer coisa que suas almas cobicem! O cuidado deles em escapar do tormento eterno, não é nem a metade do cuidado que eles têm com coisas como obter dinheiro e posses, ser notável no mundo e gratificar sua inteligência. Seus pensamentos são muito mais exercitados nessas coisas, e eles têm muito mais cuidado e preocupação com elas. Embora eles sejam diariamente expostos ao tormento eterno, este é algo negligenciado. O tormento eterno é só ocasionalmente considerado, e considerado com uma grande quantidade de estupidez, e não com uma preocupação suficiente para levá-los a fazer algo considerável para escapar dele. Eles não estão cientes de que vale a pena, durante sua vida, fazer todos os esforços consideráveis p ara isso. E se eles, de fato, se esforçam por um pouco de tempo, logo deixam de lado, e outra coisa ocupa seus pensamentos e preocupações.

    Assim se vê entre jovens e velhos. Multidões de jovens levam uma vida descuidada, tendo pouca preocupação por sua salvação. Assim, você pode ver entre as pessoas de meia-idade, com muitos que já são mais velhos, e que certamente se aproximam da sepultura. No entanto, essas mesmas pessoas parecem reconhecer que a maior parte dos homens que vão para o inferno e sofrem o tormento eterno não têm nenhuma preocupação com isso. No entanto, eles farão o mesmo!

    Quão estranho é que os homens se divertem e repousam, enquanto estão, desta maneira, suspensos sobre as chamas eternas: ao mesmo tempo, não tendo nenhuma posse de suas vidas e não sabendo quão logo o fio, em que estão suspensos, vai arrebentar. Aliás, eles nem fingem saber. E se o fio arrebentar, eles se foram: eles estão perdidos para sempre, e não há solução! No entanto, eles não se incomodam muito com isso, nem darão ouvidos àqueles que os alertam, rogando-lhes que cuidem de si mesmos e trabalhem para sair dessa condição perigosa. Eles não estão dispostos a fazer tanto esforço. Eles não escolhem se desviar de entreter a si mesmos com brinquedos e vaidades. Portanto, o homem sábio pode muito bem dizer: "O coração dos homens, além do mais, está cheio de maldade e de loucura durante toda a vida; e por fim eles se juntarão aos mortos" Ec 9:3. Quão mais sábios são aqueles poucos, que fazem disto o seu maior interesse a fim de estabelecer uma base para a eternidade, a fim de garantirem a sua salvação!

  2. Irei aprimorar este assunto dando uma exortação aos pecadores, para tomarem cuidado de escapar destes tormentos eternos. Se eles forem eternos, alguém poderia pensar que seria suficiente despertar o interesse e incitar a diligência. Se o castigo for eterno, ele é infinito, como alegamos anteriormente. E portanto, nenhum outro mal, nenhuma morte, nenhum tormento temporário que você já tenha ouvido falar, ou que você pode conceber, é nada em comparação com este castigo; mas ele é muito menos concebível não apenas como um grão de areia é menor do que todo o universo, mas como ele é menor que o espaço ilimitado que engloba o universo.Portanto, aqui: 

    Primeiro, suplicarei a considerarem atentamente quão grande e terrível é a 
    eternidade. Embora não seja possível compreendê-la mais através da consideração, ainda assim você pode se tornar mais consciente de que a eternidade não deve ser desconsiderada. Considere o que é sofrer extremo tormento para todo o sempre: sofrer dia e noite de um ano a outro, de uma era à outra, e de mil eras à outra (e assim acrescentando era à era, e milhares aos milhares), na dor, no choro e no lamento, gemendo e gritando, e rangendo os dentes com as suas almas cheias de terrível agonia e espanto, e com os seus corpos e cada membro, cheios de exorbitante tortura sem qualquer possibilidade de obter conforto; sem qualquer possibilidade de fazer Deus se compadecer por meio de seus gritos; sem qualquer possibilidade de esconder-se d'Ele; sem qualquer possibilidade de desviar seus pensamentos de sua dor; sem qualquer possibilidade de obter qualquer tipo de alívio, ajuda ou mudança para melhor.

    Segundo, considere quão terrível será o desespero em tal tormento. Quão triste será, 
    quando você estiver sob estes excessivos tormentos, ter a certeza que você nunca, nunca ficará livre deles. Não haveria nenhuma esperança: embora você desejasse ser transformado em nada, você não teria nenhuma esperança disso; embora você desejasse ser transformado em um sapo ou uma serpente, você não teria nenhuma esperança disso; embora você se alegrasse se pudesse ter algum alívio, depois de ter sofrido esses tormentos milhões de eras, você não teria nenhuma esperança disso. Depois de ter acabado a era do sol, da lua e das estrelas, em seus dolorosos gemidos e lamentações, sem descanso nem de dia nem de noite, nem sequer um minuto de alívio, ainda assim você não teria nenhuma esperança de um dia ser liberto. Depois de ter se passado mais de mil eras semelhantes, você não teria nenhuma esperança, mas você saberia que não estaria nem um pouco mais perto do fim de seu tormento. Mas ainda haveria os mesmos gemidos, os mesmos gritos, os mesmos lamentos, incessantemente vindos de você, e que a fumaça do seu tormento continuaria a subir para todo o sempre. A sua alma, a qual estaria sendo afligida pela ira de Deus todo esse tempo, ainda existiria para suportar mais ira. O seu corpo, que estaria sendo queimado todo esse tempo nestas chamas ardentes, não seria consumido, mas permaneceria para ser queimado por toda a eternidade, que não seria, de maneira alguma, reduzida pelo que aconteceu no passado.

    Você pode através da consideração se tornar mais consciente do que normalmente 
    você é. Mas você apenas pode conceber um pouquinho do que é não ter nenhuma esperança em tais tormentos. Quão avassalador isso seria para você, suportar tamanha dor assim como você tem sentido neste mundo sem qualquer esperança e saber que você nunca ficará livre dela, nem sequer terá um minuto de descanso!


    Neste momento, você apenas consegue, de forma bem escassa, conceber quão 
    doloroso isso seria. Quão maior será suportar o grande peso da ira de Deus, sem esperança!

    Quanto mais os condenados no inferno pensarem na eternidade de seus tormentos, 
    mais assombroso estes parecerão a eles. E ai deles, pois não serão capazes de manter a eternidade fora de sua mente! Sua tortura não os desviará de pensarem nela, mas fixarão sua atenção nela.

    Oh, quão terrível a eternidade parecerá para eles depois de terem pensado sobre ela 
    por eras e mais eras, e já tendo experimentado por tanto tempo seus tormentos!

    Os condenados no inferno terão dois infinitos para perpetuamente assombrá-los 
    consumi-los: um é o Deus infinito, cuja ira eles suportarão, e em quem eles verão o seu perfeito inimigo irreconciliável; e o outro é a infinita duração dos seus tormentos.

    Se fosse possível aos condenados no inferno terem um conhecimento abrangente 
    da eternidade, sua tristeza e dor teriam um grau infinito. A visão abrangente de tanta tristeza, a qual eles irão suportar, causaria uma tristeza infinita no presente. Embora eles não terão um conhecimento abrangente do mesmo, ainda assim, sem dúvida, eles terão uma apreensão muito mais viva e forte do que podemos ter neste mundo.

    Seus tormentos irão dar-lhes 
    uma impressão dela. Um homem em seu estado atual, sem qualquer ampliação de sua capacidade, teria uma impressão muito mais viva da eternidade do que ele tem, se ele apenas estivesse sob uma dor bem forte em algum membro de seu corpo, e tivesse ao mesmo tempo certeza de que ele suportaria essa dor para sempre. Sua dor lhe daria um maior senso da eternidade do que os outros homens têm.

    Quão maior efeito terá aqueles excruciantes tormentos, que o condenado há de 
    sofrer!

    Além de provavelmente a capacidade deles ser aumentada, seu entendimento será 
    mais rápido e mais forte no estado futuro, e Deus poderá lhes dar um senso tão grande e uma impressão tão forte da eternidade, quanto Lhe aprouver, a fim de aumentar a sua dor e tormento.

    Oh, eu lhes imploro, vocês os que estão em um estado sem Cristo e estão indo a 
    caminho do inferno, que estão diariamente expostos a condenação, considerem estas coisas. Se você não fizer isso, certamente isso será um pouco antes de você experimentá-los, e então você saberá quão terrível é se desesperar no inferno. E isso pode acontecer antes deste ano, ou deste mês, ou desta semana, ou estar por um fio: antes de outro sábado, ou até mesmo, talvez você jamais tenha oportunidade de ouvir outro sermão.

    Terceiro, que você efetivamente escape esses terríveis e pavorosos tormentos. Eu 
    lhes suplico, fujam e abracem Aquele que veio ao mundo justamente com o propósito de salvar os pecadores destes tormentos; que pagou toda a dívida para com a lei divina, e eliminou o eterno em Seus sofrimentos temporais.

    Que grande incentivo é este, para aqueles de vocês que estão conscientes de que 
    estão expostos ao castigo eterno, que há um Salvador, que é capaz e que livremente se oferece para salvá-los daquele castigo, e que o faz de uma forma que é perfeitamente consistente com a glória de Deus: sim, o que glorifica mais a Deus do que seria se você sofresse o castigo eterno no inferno. Pois, se você fosse sofrer aquele castigo, você nunca pagaria a totalidade da dívida. Aqueles que são enviados para o inferno nunca pagarão a totalidade da dívida que devem a Deus, nem sequer uma fração, a qual não se compara com o todo. Eles nunca pagarão uma fração que se compare a grande proporção do todo, como um centavo de dez mil talentos. Portanto, a justiça jamais pode ser efetivamente satisfeita em sua condenação. Mas é efetivamente satisfeita em Cristo. Pois Ele é aceito pelo Pai, e por consequência, todos os que creem são aceitos e justificados n'Ele.

    Portanto, creia n'Ele, venha a Ele, confie a sua alma a Ele para que seja salvo por 
    Ele. Nele, você estará seguro dos eternos tormentos do inferno. E isso não é tudo, mas através d'Ele você herdará inconcebível bem-aventurança e glória, que terão a mesma duração que os tormentos do inferno. Pois, assim como no último dia os ímpios irão para o castigo eterno, assim o justo, ou aqueles que confiam em Cristo, irão para a vida eterna.


Extraído de:
https://docs.google.com/file/d/0ByMRQ3bAxEvTT0JrODlONHhiUkU/


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