quinta-feira, 16 de novembro de 2017

A religião chamada futebol


Todo ano a mesma coisa.. Basta terminar um campeonato ou até mesmo um clássico ou jogo emocionante, e as pessoas começam a zombar umas das outras e exibir com orgulho o quanto o seu time é superior ao do outro.

Não vou dizer que nunca fiz e nem que discordo quando se fazem brincadeiras saudáveis entre torcedores, mas o que mais vemos são os limites sendo deixados de lado, e as ofensas se tornando o padrão do discurso.
Isso sem falar nos (comuns) extremos quando esses torcedores partem para a violência e se digladiam em defesa do clube (na verdade parece mais que são "torcedores da torcida" do que do próprio time).

Obviamente não quero dizer com essa crítica que o esporte devesse ser rejeitado ou que em outros esportes não possa ocorrer casos similares, mas questiono qual a motivação de quem se entrega a uma paixão dessas, muitas vezes colocando o time acima da própria família..

Alguém poderia inclusive zombar de mim dizendo que estou "fazendo mimimi" só porque o meu time vai muito mal das pernas atualmente e porque o time merecidamente campeão de 2017 é aquele que eu mesmo zombei (exageradamente) no passado, mas o meu desejo de escrever algo a esse respeito vem de anos atrás.

São Paulo bi-campeão mundial
interclubes em Tóquio (1993)
Se Deus me der filhos, com certeza vou influenciá-los a serem são-paulinos, contando do passado do time e do que eu pude assistir, mas não vou forçá-los a sofrer caso eles tenham uma opção melhor no momento.
Eu mesmo passei a torcer pelo São Paulo pela mistura da influência de um amigo e do próprio momento do time, que foi campeão de quase todos campeonatos ou torneios disputados no começo da década de 90.[1]

Se esses filhos tiverem interesse em futebol, pretendo mostrar os distintivos e uniformes dos times e falar de cada equipe, inclusive sobre as falcatruas.
Mas se não tiverem interesse, talvez eu até fique feliz, sabendo que vão evitar o fanatismo.

E acima de tudo quero ensinar a eles que a defesa à justiça deve estar acima da defesa ao seu time. Que eles não devem relativizar a justiça por causa de um time de futebol.
Se o time deles ganhar roubado, que não se resumam a dizer "chora mais" para quem faz a acusação, nem a dizer que o time do outro também foi ajudado ou o deles prejudicado em outros momentos, mas que assumam a realidade.

Apesar de muitos reclamarem que as pessoas tem defendido política como se fosse time de futebol, que meus descendentes saibam que nem time de futebol é algo acima de questionamento (como política e religião também não são). 
Aliás, nem tem porque ser tão supervalorizado assim.

Afinal, o que é um time de futebol??
Muitos poderiam filosofar bastante falando de experiências como torcedores, mas na prática o time é uma empresa (com diretoria, folha de pagamentos, infra-estrutura, etc.) que é valorizada quando a sua marca está em alta. Ou seja, se o time tem bons resultados e ganha títulos, pode se manter disputando campeonatos com mais visibilidade e assim pagar suas contas com menos dificuldade.

E de onde vem a renda dessa empresa??
De diferentes fontes, mas a força-motriz é a torcida, de modo direto ou indireto.
Diretamente ao pagar por ingressos para os jogos ou por produtos oficiais do clube
Indiretamente sendo o alvo das outras fontes...
Ela impulsiona o investimento de outras empresas naquele clube: os patrocinadores. Se o time vai bem, é lucrativo para uma empresa estampar no uniforme dele a sua marca, pagando por isso a esse clube.
Além disso, os próprios veículos de mídia conseguem grandes audiências transmitindo os jogos para que a torcida assista em casa (ou outro lugar que não o local do jogo), e por isso também pagam para esses clubes..

Enfim, pode haver outras fontes, mas a torcida é a responsável direta pelo clube prosperar (apesar das diretorias de muitos times conseguirem estragar isso), pois se não houver mais audiência e interesse por ele, ninguém pensará em investir no mesmo.
E o que vemos é bem o oposto do desprezo, quando determinadas torcidas  chegam até a gritar atributos de Deus a seus times (ex: Soberano, Todo Poderoso).
Outros afirmam que o time "é a sua vida", e por aí vai..

Claro que muitos vão alegar que são apenas hipérboles que as pessoas acabam usando devido à emoção, mas será que é só isso mesmo?? E se for, isso deveria acontecer??



O futebol é incrível!! Pra mim o melhor esporte existente!! 
Mas procuro cada vez mais não me deixar a justiça em segundo plano levado por emoções. E minha crítica não é tanto sobre o esporte em si, mas sobre o "sistema" criado em torno dele...

Voltando aos meus futuros desejados filhos, espero que eles sejam equilibrados e possam aproveitar o lado bom de tudo, mas que não sejam cegos a toda a manipulação evidente que existe nesse esporte, e principalmente que desde cedo percebam como a mídia ama isso.
Que jamais tratem o time ou mesmo o esporte como uma religião.
Que não idolatrem jogadores nem ninguém.
Que não 'canonizem' o domingo como o dia do Futebol, mas que o tenham como o Dia do Senhor.
E que o Senhor nos ajude a sermos os modelos de Sua obra, ao invés de mais uns que tentam servir dois senhores.



[1] Isso aconteceu em 1992, e outros fatores que influenciaram a minha escolha foram eu ter achado o distintivo e as cores bonitos e o time ter o nome do estado. Eu pensava que deveria torcer pro time da minha cidade, mas na época o time do São Bernardo não disputava nada.. Bônus: Tendo o nome do estado, faz alusão também ao apóstolo Paulo.


>>> LER A POSTAGEM...

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O mito da Terra plana (por Michelson Borges)



O livro Inventando a Terra Plana (São Paulo: Editora Unisa, 1999), de Jefrey Burton Russel, historiador e pesquisador da Universidade da Califórnia, mostra convincentemente que a ideia da Terra plana foi uma elaboração mais ou menos recente. Embora hoje se saiba que os europeus renascentistas tenham supervalorizado a ideia de que houve um período de mil anos de trevas intelectuais entre o mundo clássico e o moderno, Russel acredita que o erro da Terra plana não havia sido incorporado à ortodoxia moderna antes do século 19. "[Russel] descobriu o fio da meada nos escritos do americano Washington Irving e do francês Antoine-Jean Letronne [responsáveis pela posterior propagação do mito da Terra plana]. Mas sua disseminação no pensamento convencional ocorreu entre 1870 e 1920, como consequência da ‘guerra entre a ciência e a religião", quando para muitos intelectuais na Europa e nos Estados Unidos toda religião tornou-se sinônimo de superstição e a ciência tornou-se a única fonte legítima da verdade. Foi durante os últimos anos do século 19 e os primeiros anos do século 20 que a viagem de Colombo tornou-se então um símbolo amplamente divulgado da futilidade da imaginação religiosa e do poder libertador do empirismo científico. ... os pensadores medievais, da mesma forma que os clássicos que os antecederam, criam na redondeza da Terra" (p. 10).



Irving (1783-1859) retocou a história para parecer que a oposição à viagem de Colombo se deveu ao pensamento de que a Terra fosse plana . Isso foi provado falso. A oposição se deveu, na verdade, à preocupação com a distância que os navegadores teriam que percorrer. A esfericidade da Terra não foi tema de discussão naquela ocasião.

O fato é que nem Cristóvão Colombo, nem seus contemporâneos pensavam que a Terra fosse plana. Não há uma referência sequer nos diários do navegador (e de outros exploradores) que levante a questão da redondeza da Terra, o que indica que não havia contestação alguma a esse respeito, na época. Assim, segundo Russel, é comum a regra de Edward Grant de que no século 15 não havia pessoas cultas que negassem a redondeza da Terra. No entanto, esse mito permanece até hoje, firmemente estabelecido com a ajuda dos meios de comunicação e dos livros didáticos. Com que interesse?

Para Russel, o mito da Terra plana pode ser rastreado até o século 19, especialmente a partir de 1870, à medida que autores de livros-textos se envolveram na controvérsia em torno do darwinismo. "No início do século [20] a força dominante subjacente ao erro [da Terra plana] foi o anticlericalismo do Iluminismo no seio da classe média na Europa, e o anticatolicismo nos Estados Unidos" (p. 35).

Antes disso, na Divina Comédia, o poeta Dante Alighieri (1265-1321) já apresentava o conceito de uma Terra redonda. Os filósofos escolásticos, incluindo o maior deles, Tomás de Aquino (1225-1275), conhecedores de Aristóteles, igualmente afirmavam a esfericidade da Terra.

No entanto, como os escolásticos e filósofos medievais se baseavam em Aristóteles e este defendia a esfericidade da Terra, os iluministas tiveram que arranjar outros referenciais para dizer que o mito se baseava neles. E os encontraram em Lactâncio (245-325 d.C.) e Cosme Indicopleustes, autor de Topografia Cristã (escrito entre 547 e 549 d.C.). Só que, segundo Russel, Lactâncio tinha ideias muito estranhas sobre Deus e não foi levado em consideração na Idade Média (na verdade, foi considerado herege) - até que os humanistas da Renascença o "ressuscitassem", apregoando sua suposta influência. Indicopleustes, partindo de escritos de filósofos pagãos e interpretando erroneamente textos bíblicos poéticos, defendeu a ideia da Terra plana. Era ignorado, ao invés de seguido.

Detalhe: a primeira tradução de Cosme para o latim não foi feita senão em 1706. Portanto, como poderia ele ter tido influência sobre o pensamento ocidental medieval?

Russel arremata:

"[Lactâncio e Cosme] foram símbolos convenientes a serem uados como armas contra os antidarwinistas. Em torno de 1870, o relacionamento entre a ciência e a teologia estava começando a ser descrito através de metáforas bélicas. Os filósofos (propagandistas do Iluminismo), particularmente [David] Hume, haviam plantado uma semente ao implicar que estavam em conflito os pontos de vista científicos e cristãos. Augusto Comte (1798-1857) havia argumentado que a humanidade estava laboriosamente lutando para ascender em direção ao reinado da ciência; seus seguidores lançaram o corolário de que era retrógrado tudo o que impedisse o advento do reino da ciência. Seu sistema de valores percebia o movimento em direção à ciência como ‘bom’, de tal forma que o que atrapalhasse esse movimento era ‘mau’. (...) O erro [da Terra plana] foi, desta forma, incluído no contexto de uma controvérsia muito maior - a alegada guerra entre ciência e religião" (p. 67, 77).

O próprio Copérnico, no prefácio de seu clássico trabalho De Revolutionibus, usou Lactâncio para ilustrar como a ignorância dos opositores à ideia da Terra esférica era comparável à dos que insistiam no geocentrismo. Curiosamente, Copérnico não diz que Lactâncio era típico do pensamento medieval. Esse prefácio foi enviado para o papa a fim de obter aprovação eclesiástica. Copérnico não atacaria Lactâncio e sua ideia da Terra plana, se a igreja estivesse de acordo com esse pensamento. O problema, como já vimos, teve que ver com o geocentrismo aristotélico versus heliocentrismo, e não com o formato da Terra.

Extraído de:


>>> LER A POSTAGEM...

domingo, 5 de novembro de 2017

(um pouco) Sobre Censura, Boicotes, Legalismo e Isenção


Charles Cunningham Boycott (12 de março de 1832 - 19 de junho de 1897) foi um inglês que trabalhou na Irlanda como capataz para Lorde Erne. Em 1880, ativistas locais da Irish Land League incentivaram os funcionários de Boycott (incluindo os trabalhadores sazonais que colhiam nas fazendas de Lord Erne) a pararem de trabalhar, e iniciaram uma campanha de isolamento contra o Boycott na comunidade local. Nessa campanha lojas também se recusaram a atendê-lo.

Um tema que de tempos em tempos é trazido à tona e colocado em destaque, geralmente devido a convocações públicas ou rejeições a essas convocações, é o do boicote.

É muito comum que, devido a atitudes de indivíduos ou entidades que desagradem a outros indivíduos ou entidades, estes últimos se mobilizem para protestar através de boicotes.

Por outro lado, há os que se queixam desse tipo de mobilização, e o taxam de censura.
  • Quem estaria correto nessa discussão??
  • Como identificar o que é de fato censura do que é boicote??
  • Há algo inerentemente mal em qualquer tipo de boicote??
Para tentarmos chegar a respostas convincentes a tais questões, antes é necessário analisarmos o que de fato significam, no nosso idioma: censura boicote.

CENSURA:

cen·su·ra
1. Ato ou efeito de censurar.
2. Crítica severa, repreensão.
3. Exame oficial de certas obras ou escritos.
4. Corporação a que compete esse exame.
5. Pena eclesiástica que priva os fiéis dos bens espirituais.

"censura", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://priberam.pt/dlpo/censura [consultado em 27-10-2017].
BOICOTE:
boi·co·te |ôi| (inglês boycott, de [Charles C.] Boycott [proprietário irlandês que, no século XIX, viu os seus arrendatários recusarem trabalhar devido à sua severidade e exigências desmedidas])
1. Ato ou efeito de boicotar. = BOICOTAGEM
2. Cessação voluntária de todas as relações com um indivíduo, uma empresa ou uma nação. = BLOQUEIO

boi·co·tar(inglês to boycott, recusar-se a cooperar)

1. Recusar, como forma de protesto ou represália, qualquer colaboração ou relação.
2. Fazer guerra comercial (a determinados produtos).
3. Impedir a realização ou o desenvolvimento de algo.Sinônimo Geral: BOICOTEAR

"boicote", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://priberam.pt/dlpo/boicote [consultado em 27-10-2017].
Por mais que alguém possa confundir as definições por ambas trazerem a ideia de rejeição a algo praticado ou disseminado, não é tão difícil perceber a diferença entre ambos conceitos.

A censura está relacionada a um juízo negativo (uma crítica, repreensão) quanto a algo, e principalmente com proibição coerciva do acesso a tal coisa.
Já no caso do boicote, existe também um juízo negativo, mas geralmente está relacionado com o desejo voluntário do(s) indivíduo(s) e a mobilização para que mais ajam da mesma forma, mas sem coerção que impeça o autor daquilo que gerou o protesto.

Uma boa definição de boicote foi dada por Murray N. Rothbard em seu livro "A ética da liberdade":
"Um boicote é uma tentativa de persuadir outras pessoas a não se envolverem com alguma pessoa ou firma específica - seja suspendendo as relações sociais ou concordando em não comprar os produtos da firma. Moralmente, um boicote pode ser usado por motivos absurdos, repreensíveis, louváveis ou neutros. Ele pode ser usado, por exemplo, para tentar persuadir as pessoas a não comprar as uvas de produtores não sindicalizados ou a não comprar as uvas de produtores sindicalizados. Do nosso ponto de vista, a questão importante a respeito do boicote é que ele é puramente voluntário, um ato de tentativa de persuasão, e, portanto, que ele é um instrumento de ação perfeitamente legal e lícito."[1]
Ou seja, apesar de alguns se queixarem de atos de boicote, atrelando isso à censura (e seu aspecto social reprovável), a única semelhança entre ambos se dá no direito que cidadãos livres têm de demonstrar sua reprovação a algo. Isso porque qualquer pessoa deve ter o direito de livre consciência e, portanto, não deve ser impedido coercivamente de expressar sua opinião sobre algo, considerando tal coisa certa ou errada, boa ou má, etc.

Porém, a censura ganha outros contornos quando imposta por autoridades.
Quando o juízo negativo quanto a algo se transforma em proibição legal ao acesso àquilo, qualquer semelhança com a ideia de boicote "morre".

Poderíamos dizer que qualquer lei proibitiva é uma censura a algo condenável civilmente. Por exemplo, se é proibido roubar, entende-se que o roubo é inerentemente mau e portanto impede-se através de punição quem o pratica.
Dessa forma o roubo é socialmente censurado, mas a garantia disso está no poder das autoridades de punir quem age contrariamente a essa norma.

Sendo assim, aquele que se apresenta contra qualquer tipo de censura, é (por estupidez e/ou ignorância) um louco, que nega a necessidade de leis e ordem. Só terá a razão se for contra censura injusta, ou seja, a censura contra algo que não deveria ser censurado.

Por sua vez, um boicote representa apenas a intenção de alguém ou um grupo de não "financiar" certas práticas. Não sendo portanto uma proibição legal que torna tal coisa um crime, mas simplesmente uma atitude que visa não dar apoio àquilo.

Partindo desse pressuposto, qualquer pessoa deve ser livre (perante as leis) para boicotar qualquer coisa que em sua consciência julgue ser desagradável, indevida ou até imoral. Sendo também válido que tal pessoa tenha a liberdade de convocar mais pessoas para protestar da mesma forma, e infligirem um impacto maior.

Tomando um exemplo concreto, se uma empresa fornece determinado produto e em seu marketing abraça ideologias condenadas por parte de seus consumidores, é totalmente válido que tal grupo de consumidores se reúna e deixe de consumir tal produto dessa empresa e passe a consumir de outra, gerando então um prejuízo que pode levar essa empresa a repensar e até abandonar seu apoio aberto a tais ideologias. Afinal, se não fosse assim, por que o bordão "o cliente sempre tem razão" seria tão respeitado pelas empresas??

Tento então em mente a distinção entre censura e boicote, e considerando nosso dever cristão de submeter nossas consciências à Palavra de Deus, existiriam situações em que temos o dever de realizar um boicote??


BOICOTE É BÍBLICO??

Ao tentar localizar textos na Escritura em que a prática foi realizada, não me recordei de nenhum, e acredito que não haja exemplos mesmo disso acontecendo plenamente. Até me recordei de uma instrução divina dada por intermédio de Paulo, alertando os crentes a não comerem alimentos que foram oferecidos a ídolos, mas o motivo era evitar o escândalo de terceiros e não o de gerar prejuízo ao vendedor idólatra...

Mas apesar de ser um bom indicativo de não ser algo obrigatório, a falta de exemplos bíblicos não significa necessariamente que a prática seja incorreta. Do contrário, usar a internet ou jogar futebol seriam coisas proibidas a um cristão (para dar exemplos).

Sendo assim, legalmente ninguém deveria ser punido por boicotar qualquer um por qualquer motivo, mas para validar a prática de boicote moralmente é necessário identificarmos os princípios que tal prática poderia estar infringindo e também se a motivação da mesma estaria correta ou não. E ao fazermos tal análise podermos constatar que 1) não há impedimento bíblico para um cristão voluntariamente optar por deixar de consumir algum produto ou serviço e 2) se a intenção for de não colaborar com a disseminação do que a bíblia condena (e não meramente por 'vingança' ou desejo de prejudicar alguém); então é possível sim realizar boicote sem pecar.

Mas como proceder em um mundo caído?? 
Um cristão deveria boicotar "tudo"??

Aliás, além de uma opção, o boicote é uma obrigação aos cristãos??


O BOICOTE E O LEGALISMO

"Todos devem parar de comprar a 'marca X'".

Troque 'marca X' por alguma outra que tenha gerado uma polêmica recente e talvez se recorde de algum apelo desse tipo. Usualmente pessoas influentes (especialmente no meio gospel) adotam postura semelhante, convocando evangélicos a protestarem contra determinadas marcas.

Isso é válido para um cristão??

Eu diria que sim, mas se (e somente se), for algo sugestivo e não impositivo.

A partir do momento que algum "entusiasta" do boicote sugerisse que todos temos a obrigação de participar ou emitisse qualquer tipo de ameaça da parte de Deus caso não façamos, configura-se claramente o legalismo.
Esse "entusiasta" poderia até se esforçar em convencer pessoas a aderirem ao boicote através de argumentos lógicos, mas jamais deveria tentar forçar alguém a isso. A voluntariedade é um ponto-chave na validade do boicote.


O EXTREMO DA ISENÇÃO

Se por um lado há o erro do legalismo, no extremo oposto temos o erro da isenção (para não dizer "frouxidão"), quando as pessoas desconsideram a ideia de protestar alegando que isso não tem qualquer efeito prático, mas geralmente o fazem apenas para não saírem das suas zonas de conforto.

Reitero que boicotar deve ser um ato voluntário, e portanto ninguém deve ser "demonizado" caso opte não fazê-lo, mas como eu também disse, a motivação é sempre um requisito essencial no julgamento de tudo aquilo que fazemos. Dessa forma, se a motivação que leva a pessoa a deixar de protestar é meramente evitar algum desconforto, mesmo havendo motivos fortes para ela demonstrar sua insatisfação, certamente está errada.

Esse tipo de motivação comodista se apoia muitas vezes na ideia de que "o mundo jaz no maligno" (I João 5:19), e geralmente traz consigo um pensamento "entreguista", onde a pessoa acredita que não adianta fazer nada tendo em vista que "o mundo é do diabo".. Esse pensamento despreza na prática o chamado "mandato cultural", e ignora que mesmo que o mundo (sistema) esteja corrompido e cegado pelo mal, temos sim o dever cristão de desejar transformação.
Para mais textos relacionados, acessar:
Outro texto (mal) usado como base para o "entreguismo" está em 1 Pedro 2:11Amados, peço-vos, como a peregrinos e forasteiros, que vos abstenhais das concupiscências carnais, que combatem contra a alma. Muitos se apegam ao fato de sermos peregrinos neste mundo, mas desconsideram que ainda assim somos cidadãos dele.
O apóstolo Paulo vivenciou situações em que não abriu mão de sua "cidadania terrena", e temos isso registrado nas Escrituras. Diante das injustiças sofridas, ele se aproveitou dos benefícios de sua cidadania romana:
O tribuno mandou que o levassem para a fortaleza, dizendo que o examinassem com açoites, para saber por que causa assim clamavam contra ele. E, quando o estavam atando com correias, disse Paulo ao centurião que ali estava: É-vos lícito açoitar um romano, sem ser condenado?
E, ouvindo isto, o centurião foi, e anunciou ao tribuno, dizendo: Vê o que vais fazer, porque este homem é romano.
E, vindo o tribuno, disse-lhe: Dize-me, és tu romano? E ele disse: Sim.
E respondeu o tribuno: Eu com grande soma de dinheiro alcancei este direito de cidadão. Paulo disse: Mas eu o sou de nascimento.
E logo dele se apartaram os que o haviam de examinar; e até o tribuno teve temor, quando soube que era romano, visto que o tinha ligado. E no dia seguinte, querendo saber ao certo a causa por que era acusado pelos judeus, soltou-o das prisões, e mandou vir o principais dos sacerdotes, e todo o seu conselho; e, trazendo Paulo, o apresentou diante deles.
(Atos 22:24-30)
Se o apóstolo abrisse mão de sua cidadania, não sabemos o que poderia lhe ocorrer, mas havia a possibilidade de ter sido morto mediante a acusação dos judeus (como aconteceu com Jesus Cristo). Mas ele se aproveitou desse recurso para garantir seus direitos e com isso teve oportunidades de pregar o evangelho no seu próprio julgamento. Portanto, temos no exemplo do apóstolo uma base para negarmos que nossos direitos civis devem ser deixados de lado.

E tendo tais direitos, nos dias atuais garantidos pela Constituição e leis de forma geral, faz todo o sentido recorrermos quando eles são infligidos. Assim como é justo que usemos nosso direito de sermos ouvidos, quando decisões forem tomadas pelas autoridades, visto sermos parte de um sistema democrático.


Quando a isenção é pecaminosa

Conforme mencionei anteriormente, qualquer tipo de lei civil punitiva contem em si um tipo de censura, proibindo que algo seja feito. No cristianismo, sabemos que tudo aquilo que Deus condena deve ser evitado, logo, para um cristão tudo aquilo que é pecaminoso não deve ser praticado.

Além do "entreguismo" já exposto, a isenção também ocorre em pensar que é impossível se abster do mal devido ao mundo estar corrompido. Mas faria sentido pensar assim mesmo lembrando das palavras de Cristo??
Dei-lhes a Tua palavra, e o mundo os odiou, porque não são do mundo, assim como eu não sou do mundo.

Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal.

Não são do mundo, como eu do mundo não sou.
(João 17:14-16)
Portanto, se a tua mão ou o teu pé te escandalizar, corta-o, e atira-o para longe de ti; melhor te é entrar na vida coxo, ou aleijado, do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno.E, se o teu olho te escandalizar, arranca-o, e atira-o para longe de ti; melhor te é entrar na vida com um só olho, do que, tendo dois olhos, seres lançado no fogo do inferno.
(Mateus 18:8-9)
Da mesma forma que Cristo reconhece que 'o mundo é mau' mas que precisamos permanecer aqui com a condução do Pai, Ele instrui Seus seguidores a fazerem o necessário para combater o pecado. Sendo assim não há base para "afrouxar a santidade"...
Por exemplo, José e Daniel, foram figuras de destaque em meio a sociedades pagãs, mas nem por isso abriram mão de seus princípios com a desculpa de que era inevitável pecar. Da mesma forma, estamos todos no mundo, mas o mundo (mundanismo) não deve estar em nós (Romanos 12:1-2).

Aplicando isso ao contexto de consumo, se um crente sabe que ao fazer isso estará pecando, seu "boicote" não se torna uma opção. Por exemplo, se um filme ou série traz cenas impróprias e o crente sabe disso, ele não deve consumir com a desculpa de que "o mundo jaz no maligno" e que "teria que sair do mundo" pra evitar o pecado, deve sim deixar de assistir. E tal regra valeria pra qualquer tipo de produto ou serviço.

Por outro lado, mesmo ciente de intenções pecaminosas daquele que fornece o produto ou o serviço, o cristão pode consumir caso possa usar como ferramenta para fazer o bem. Em tese, alguns poderiam questionar que tal cristão estaria ainda assim dando lucro a quem está disseminando o pecado, mas na verdade esse cristão pode ter em mente redimir o uso. Por exemplo, mesmo que pessoas por trás de redes sociais apoiem causas anti-bíblicas e até a disseminem, cristãos podem usar sabiamente essas redes (e a internet em geral) para disseminar o evangelho. Talvez um exemplo dessa "redenção do uso" seja encontrada no livro de Êxodo, quando os judeus saíram do Egito levando bens dos egípcios que outrora eram usados para idolatria, e viriam a ser usados para fins puros.
E eu darei graça a este povo aos olhos dos egípcios; e acontecerá que, quando sairdes, não saireis vazios, porque cada mulher pedirá à sua vizinha e à sua hóspeda jóias de prata, e jóias de ouro, e vestes, as quais poreis sobre vossos filhos e sobre vossas filhas; e despojareis os egípcios.
(Êxodo 3:21-22)
Fala agora aos ouvidos do povo, que cada homem peça ao seu vizinho, e cada mulher à sua vizinha, jóias de prata e jóias de ouro. E o Senhor deu ao povo graça aos olhos dos egípcios; também o homem Moisés era mui grande na terra do Egito, aos olhos dos servos de Faraó e aos olhos do povo. 

(Êxodo 11:2-3)
Outra situação a ser considerada é quando, mesmo que não estiver pecando ao consumir o produto ou serviço, o próprio serviço ou produto seja realizado de forma pecaminosa.
Tomando o mesmo exemplo de filmes e séries, mesmo que alguém alegue que não peca ao assistir cenas indevidas ou que evita ver essas partes e se atem ao resto, se quem contracenou pecou a pessoa está apoiando ou ao menos tolerando isso sem qualquer protesto.
Se um filme apresenta por exemplo cenas de nudez e sexo, independentemente da reação do expectador, aqueles que realizaram a cena pecaram, e certamente estarão levando outros a pecar...
Sugestão de leitura: Devo/posso assistir nudez deliberadamente?

CONCLUSÃO

Penso que esse não é um texto exaustivo que "fecha" todas as possíveis questões sobre o tema, mas espero que ele pelo menos esclareça alguns pontos e conduza os interessados num caminho mais lógico e bíblico.

Se você tende ao legalismo, baseando-se nas suas fortes fome e sede de justiça, cuide para não impor a terceiros aquilo que Deus não cobra delas. Aplique primeira na sua vida aquilo que você crê contribuir para sua santidade, mas sempre colocando a própria providência de Deus como o fator crucial para conseguir crescer na caminhada.

Se você tende à "frouxidão", analise suas motivações e o quanto se dedica às causas do Reino. Avalie se sua "abstenção" está relacionada com um julgamento justo da causa ou com um comodismo que visa evitar qualquer desconforto na sua vida, incluindo conflitos com quem pensa diferente. Pense que se os antigos cristãos pensassem todos assim, a nossa sociedade seria eternamente pagã nos mesmos moldes que era antes do cristianismo ser espalhado pelo mundo. "Post Tenebras Lux" nunca seria algo conhecido por nós.

Sejamos todos equilibrados, e julguemos tudo segundo a reta justiça (João 7:24).

E que DEUS nos ajude!!



[1] « O Boicote ». A ética da liberdade. São Paulo. Instituto Mises Brasil 2010. p. 199


>>> LER A POSTAGEM...

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Ser presbiteriano é pertencer a uma igreja que é uma comunidade (por pr. Valdinei Aparecido Ferreira)

Wittenberg. Berço da Reforma e palco das comemorações dos 500 anos J Foto: Jamil Chade/Estadão
João Calvino (1509-1564) era ainda criança quando Martinho Lutero (1483-1546) afixou as 95 teses à porta da Catedral de Wittenberg, em 1517. A conversão de Calvino ao protestantismo se deu somente em 1533, quando a Reforma Luterana já avançava para a sua segunda década de existência. Coube a esse francês bastante reservado, em 1536, apresentar a sistematização mais ampla e didática dos insights doutrinários de Martinho Lutero na obra intitulada Instituição da Religião Cristã. Refugiado em Genebra, ao lado de outros refugiados das perseguições movidas pela Igreja Católica Romana, João Calvino deu forma à doutrina e ao modo de organizar a igreja cristã reformada.

As igrejas presbiterianas são descendentes da Reforma da Igreja de Genebra, liderada por João Calvino. Entretanto, foi na Escócia que esse ramo reformado adotou a designação presbiteriana. O nome é proveniente do modo de tomar decisões e governar a igreja. Os membros da igreja elegem, dentre os próprios leigos, pelo voto direto, seus representantes para o Conselho da Igreja. As decisões administrativas, disciplinares e doutrinárias são tomadas por esse conselho de presbíteros. Daí serem chamadas de presbiterianas, ou seja, igrejas que são governadas não por bispos, mas pelos presbíteros. John Knox (1514-1572), um discípulo de João Calvino, foi o principal reformador da igreja na Escócia. Francis Makemie (1658-1708) levou o presbiterianismo para os Estados Unidos quando este ainda era uma colônia inglesa. Aliás, o único clérigo a assinar a Declaração da Independência dos EUA foi o pastor presbiteriano John Whiterspoon.
Em 1859 chegou ao Brasil o missionário presbiteriano Ashbel Green Simonton. A Primeira Igreja Presbiteriana no Brasil foi organizada no Rio de Janeiro, em 1862. Caberia à Alexander Blackford organizar, na cidade de São Paulo, em 1865, a Primeira Igreja Presbiteriana. Os missionários presbiterianos foram recebidos com entusiasmo pela elite intelectual brasileira, quase sempre em conflito com o obscurantismo da Igreja Romana da época.

Afinal, em que creem os presbiterianos? Como vivenciam sua fé? O que significa ser presbiteriano? Ser presbiteriano é pertencer a uma igreja que é uma comunidade. Os presbiterianos não são uma corporação religiosa, igreja composta apenas pelo clero, ou uma empresa religiosa, dirigida por "pastores-proprietários", para atender as necessidades de consumidores religiosos. Presbiterianos não querem ser "a única igreja verdadeira" sobre a terra. Presbiterianos não querem que a igreja cresça a qualquer custo, mas almejam que as pessoas cresçam em bondade e misericórdia.
Presbiterianos lembram-se a cada dia do que Cristo disse: "...tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso e fostes ver-me" (Mt 25.35-36). Ser presbiteriano implica viver a fé cristã de forma madura e coerente. O presbiteriano não foge das complexidades da vida com respostas prontas. Menos ainda se vale o presbiteriano da infantilização por meio do cultivo do pensamento positivo, chavões e superstições, mascarada sob a designação imprecisa de fé. A fé presbiteriana possui um fundamento – Cristo. Antes e acima de tudo, trata-se de fé em Cristo, o Salvador.



Valdinei Aparecido Ferreira é pastor titular da Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo e doutor em Sociologia


Extraído de: 


>>> LER A POSTAGEM...

terça-feira, 24 de outubro de 2017

O maior dos Reformadores


Outubro é tradicionalmente chamado por protestantes de "Mês da Reforma". Isso se dá porque foi em outubro de 1517 que Martinho Lutero fixou na porta da Catedral de Wittenberg o que chamamos de "95 teses", e a partir desse feito se disseminou o movimento que teve um impacto mundial histórico.
Antes de Lutero, muitos outros já identificavam e condenavam práticas da igreja católica romana, porém foram calados pela morte em seu tempo. Mesmo com o martírio, seus legados ecoaram, e posteriormente frutos foram colhidos.

Apesar do sistema doutrinário católico romano não ter sido corrigido, a centralização do cristianismo foi quebrada, e aqueles que tiveram seus olhos abertos quanto aos graves erros romanistas se tornaram dissidentes, para uma nova visão de cristianismo, que na verdade apontava para as origens.
A hegemonia suprema da igreja romana foi derrubada, e o protestantismo se disseminou, influenciando reis e nações na formação e transformação de suas culturas. O papa perdia gradativamente seus poderes seculares, e o povo passava a ter acesso direto às Escrituras, ao invés de dependerem exclusivamente da mediação de sacerdotes, e com isso receberem uma mensagem deturpada e diversas obrigações morais que não passavam de acréscimos interesseiros feitos por aquele sistema.

Nesse período da Reforma, em diferentes nações surgiram homens levantados por Deus, que através das Escrituras chegaram às mesmas conclusões que Lutero e os seus antecessores em relação á salvação das almas dos pecadores. Eles compartilhavam o pensamento de que:
  • Sola Scriptura: Somente as Escrituras são a base autoritativa para fé e prática dos cristãos;
  • Sola Fide: Somente mediante a Fé uma pessoa é salva;
  • Solus Christus: Somente pela obra de Cristo a salvação nos é conferida;
  • Sola Gratia: Somente devido à Graça de Deus ganhamos a salvação;
  • Soli Deo Gloria: Somente a Deus deve ser dada toda a Glória;
São os famosos "5 SOLAS". Termos em latim para designar a exclusividade a) das Escrituras e não de papas, sacerdotes e tradições vindas de um sistema humana como fonte da vontade divina; b) da Fé como meio para justificação perante Deus; c) da obra de Cristo em obediência ao Pai, ao cumprir plenamente Sua vontade e nos resgatar do pecado com Seu sacrifício substitutivo; d) da Graça (o favor imerecido de Deus) como motivo da nossa salvação, em contraste com a ideia errônea de salvação por merecimento dos pecadores; e) da glorificação apenas de Deus por Sua obra perfeita, em contraste com a exaltação de supostos mediadores humanos (na verdade usurpadores) necessários no processo da salvação.

Os reformadores tinham suas divergências em diferentes temas bíblicos, mas concordavam essencialmente nesses "5 Solas" e muitas outras doutrinas que naturalmente culminavam da aceitação deles, além daquilo em que havia concordância com os próprios católicos romanos, em relação à Trindade.
Dentre os mais conhecidos reformadores, pode-se mencionar: Martinho Lutero, Úlrico Zwinglio, Martin Bucer, Guillherme Farel, João Calvino, John Knox, dentre outros nomes que foram essenciais em suas nações como instrumentos de Deus para trazer as pessoas de volta às Escrituras. Há muita literatura contando seus legados (inclusive alguns artigos aqui neste blog), além dos seus próprios escritos preservados, nos quais estruturaram as doutrinas cristãs para exposição a autoridades, teólogos e leigos.

Todos eles foram importantíssimos para a História da Igreja de Cristo, mas, se fôssemos eleger qual o maior reformador da História do Cristianismo, quem levaria o título??

"Quem reformou mais??"

Talvez a resposta para esta questão pudesse ser um meio de definir a quem se refere o título desse artigo. E talvez você tenha estranhado o título e agora tenha se assustado mais ainda com essa questão, mas para te acalmar, eu já digo que não vou criar um "ranking" dentre os reformadores mencionados e julgar quem foi "o melhor" sob quaisquer critérios.

Na verdade, a resposta correta para essa questão encontra-se naquilo que eles mesmo defenderam: SOLUS CHRISTUS.

Jesus Cristo foi e é o maior dos reformadores, em todos os aspectos possíveis, e demonstrar um pouco disso é o verdadeiro objetivo desse artigo.


PALAVRA DE DEUS X Tradições Humanas

O contexto histórico do ministério de Cristo envolve Sua relação com a Lei de Deus vigente em Israel em seus três aspectos (Moral, Civil e Cerimonial). Todos eles estavam debaixo da obrigação de seguirem todos os preceitos da Lei, e isso incluía então tudo aquilo que os caracterizava como povo separado de Deus. Muitos hábitos cerimoniais eram exigidos, e eram sinais externos da fé de uma pessoa ao cumpri-los, mas poderiam por outro ser meramente atos mecânicos e não testemunharem o que realmente havia no coração daquelas pessoas. Logo, mesmo que muitos se esforçassem em cumprir aquilo que era externo e que podia servir para vanglória perante outros, eles estavam condenados porque em seus corações possuíam motivações erradas.

A Lei de Deus exigia uma obediência que vinha de dentro pra fora. Não bastava fazer algo que fosse testemunhado pelos homens, na verdade o mais importante era que a motivação interna fosse glorificar a Deus e isso fosse externalizado para que outros também testemunhassem o ato genuíno de fé.

E naquele tempo, dentre os religiosos haviam aqueles que se esforçavam em demonstrar "ao público" que eram tementes a Deus e inclusive superiores devido à suas grandes devoções, mas que internamente estavam longe de conhecer a esse Deus.

E Cristo apontou dura e veementemente essa hipocrisia:
Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia.Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniquidade.
(Mateus 23:27:28)
Mas além de serem hipócritas quanto à obediência à Lei de Deus, eles acrescentavam a ela hábitos que deveriam ser seguidos, criando tradições com quais julgavam os demais.
Em certa ocasião eles questionaram a Cristo o motivo de seus discípulos não seguirem certas tradições, e ouviram:
E Ele, respondendo, disse-lhes: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim; em vão, porém, me honram, ensinando doutrinas que são mandamentos de homens. Porque, deixando o mandamento de Deus, retendes a tradição dos homens; como o lavar dos jarros e dos copos; e fazeis muitas outras coisas semelhantes a estas.E dizia-lhes: Bem invalidais o mandamento de Deus para guardardes a vossa tradição.
(Marcos 7:5-9)
É importante notar que Cristo não diz que esses religiosos estavam alterando, aprimorando ou adicionando algo ao que já era bom, mas sim que estavam invalidando o que Deus havia ordenado, colocando em troca o que homens resolveram determinar.

Ou seja, eram legalistas:
Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; eles, porém, nem com seu dedo querem movê-los;
(Mateus 23:4)
Além da própria hipocrisia, eles atrapalhavam a caminhada dos demais fazendo exigências que o próprio Deus não fez. Eles deturparam a verdadeira religião.

Exatamente o mesmo que fez a igreja católica romana em seu período de domínio religioso no mundo. Adaptaram e inseriram ensinos sem amparo bíblico, e ataram fardos pesados em todos aqueles que já se sentiam devedores perante Deus.

E assim, como reformadores combateram essa opressão em sua época, Jesus Cristo antes deles já havia condenado esse desvio de propósito, e foi a referência dos mesmos.

O capítulo 23 do livro de Mateus concentra vários "AIS" correspondentes aos alertas de Cristo sobre a gravidade dos atos desses grupos religiosos. Todo o capítulo apresenta exemplos da hipocrisia e iniquidade desses homens, e também os condena por serem pedra de tropeço para aqueles que desejavam ser sinceros servos de Deus.

Jesus não poupou palavras, e lhes deu o veredicto:
Serpentes, raça de víboras! como escapareis da condenação do inferno?
(Mateus 23:33)
Posteriormente, o apóstolo Paulo recorda aos crentes em Colossus que não deveriam se deixar levar por ensinos que não tivessem sua fonte nas Escrituras:
Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo CristoPorque nEle habita corporalmente toda a plenitude da divindade; 
(Colossenses 2:8,9)
Em Cristo está toda a plenitude da divindade. Nada deve ser considerado além daquilo que se baseia nas Suas palavras, no que Ele nos ensinou interpretando a Lei de Deus.

Mas, teria sido Cristo, além de um reformador da religião prática dos judeus, um reformador da própria Lei de Deus??

"Ouvistes que foi dito aos antigos"

Em Mateus 5:21-48, encontramos uma série de ensinos de Cristo em que Ele faz um contraste com aquilo que seus ouvintes estavam familiarizados e o que eles deveriam de fato praticar.
Por exemplo:
Ouvistes que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério.

Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela.
(Mateus 5:27,28)
Nesse trecho Jesus aponta para a proibição existente no 6º Mandamento, e explica a seus ouvintes que essa Lei moral não se referia apenas ao ato físico consumado de adultério, mas que a própria intenção no coração já caracterizava o pecado em si.
Com isso Ele não estava dizendo que o ato consumado e a intenção no coração sejam sinônimos, mas afastando a falsa ideia de que o erro estaria somente na consumação.

Apesar de alguns acreditarem que Jesus estivesse "reformando a Lei", percebemos que fato não há uma alteração do Mandamento, mas sim uma explicação mais esclarecedora, que possivelmente muitos não consideravam.
Uma prova clara de que tal noção não era uma novidade pode ser lida em Jó 31:9-10:
Se o meu coração se deixou seduzir por uma mulher, ou se eu armei traições à porta do meu próximo,
Então moa minha mulher para outro, e outros se encurvem sobre ela,
(Jó 31:9,10)
Nesse conhecido texto em que Jó clama por sua integridade, ele faz uma menção às suas 'intenções puras'. Revela que sequer cogitou em seu coração praticar tal pecado, nem sequer maquinou que algo se concretizasse..

Enfim, a ciência sobre o pecado começar no interior já existia milênio antes do dizeres de Cristo, mas Ele estava deixando isso mais claro do que nunca.
Da mesma forma ele trata outros conceitos, como o "olho por olho e o dente por dente". E deixa claro que tal aplicação não dizia respeito ao cristão comum (que deve ser apto a perdoar e confiar em Deus e nas autoridades), mas sim a autoridades instituídas por Deus para aquela função específica.
Enquanto reformador, Cristo não inseriu novidades (como os homens tem o hábito de fazer), mas justamente trouxe luz àquilo que Deus realmente havia deixado como instruções aos homens. 

Em todo o decorrer de Seu ministério, Jesus Cristo não alterou nem sequer aprimorou o que a Lei moral de Deus já ensinava aos judeus. O que Ele fez foi cumprir tudo o que a Lei exigia e Se tornar o próprio modelo para todos nós em relação a obediência.
Tanto é assim, que o grande novo mandamento que Ele nos deixou em relação ao Antigo Testamento, foi justamente que O imitássemos:
Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como Eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis. 
(João 13:34)
Cristo foi, é e será o único homem cumpridor de toda a Lei de Deus, e portanto é nosso modelo.


"Reformador de Vidas"

Muito mais que um reformador de costumes, Jesus Cristo é um reformador de almas.
Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus?

Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus.

E é o que alguns têm sido; mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito do nosso Deus.
(1 Coríntios 6:9-11)
Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo
(2 Coríntios 5:17)

Jesus Cristo é o único homem que pode transformar o coração de uma pessoa.
Através de Sua obra perfeita e salvadora, todos aqueles que nEle creem tem seus passados como escravos do pecado apagados perante Deus, e recebem a justiça de Cristo gratuitamente (Romanos 3:26). Mais ainda, os pecadores justificados passam por um processo de santificação, para que sejam gradativamente conformados à própria imagem de Cristo (Romanos 8:28-33).

SOLUS CHRISTUS!!

Muitas pessoas podem até servir de inspiração para que outras corrijam certos hábitos, mas somente Cristo dá um novo coração a um pecador, e com isso uma nova natureza disposta a se render a Deus.
Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie;Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas.
(Efésios 2:8-10)
Se você ainda não reconheceu Jesus Cristo como Senhor e Salvador da sua vida, e como único capaz de reformá-la para a glória do Pai e para o seu próprio bem, não deixe isso para o futuro. Busque-o enquanto é tempo. Dedique-se em conhecê-lO.


"Reformador da Criação"

Por fim, Cristo é também o grande reformador de toda a Criação.

Ele participou do gênesis do universo e também é o responsável pelos novos céus e nova terra, a nova criação.
No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada do que foi feito se fez.
(João 1:1-3)
Dando graças ao Pai que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz; O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do Seu amorEm quem temos a redenção pelo Seu sangue, a saber, a remissão dos pecados; O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; Porque nEle foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por Ele e para EleE Ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por Ele.
(Colossenses 1:12-17)

E o que estava assentado sobre o trono disse: Eis que faço novas todas as coisas. E disse-me: Escreve; porque estas palavras são verdadeiras e fiéis.
(Apocalipse 21:5)

Ele é o Alfa e o Omega, Sustentador na nossa existência (Atos 17:28).

Tudo foi criado para Ele, e por Ele a Criação será regenerada e purificada.

A Criação foi contaminada pelo pecado e será "reformada", e a nós cabe esperar pela transformação plena realizada por Ele a fim de vivermos nesse paraíso.
Mas o dia do Senhor virá como o ladrão de noite; no qual os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se desfarão, e a terra, e as obras que nela há, se queimarão.Havendo, pois, de perecer todas estas coisas, que pessoas vos convém ser em santo trato, e piedade,Aguardando, e apressando-vos para a vinda do dia de Deus, em que os céus, em fogo se desfarão, e os elementos, ardendo, se fundirão?Mas nós, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra, em que habita a justiça.
(2 Pedro 3:10-13)

CONCLUSÃO

Jesus Cristo foi, é e será o maior dos Reformadores.
Em Seu ministério foi o modelo de como o ser humano deve ser e agir, e ativamente se opôs à deturpação cometida pelos religiosos de sua época em relação à Lei que Ele veio cumprir e interpretar.
Mas mais do que isso, Ele tem o poder pleno e soberano de transformar vidas, e ser o grande restaurador da Criação.

Não há como comparar qualquer outro ser humano a Cristo.
E os próprios reformadores do século XVI concordariam com João Batista (Marcos 1:7) que nenhum deles estaria sequer apto a descalçar a sandália dEle.

Então acima de qualquer outra lembrança no mês da Reforma, celebre a Cristo!!


>>> LER A POSTAGEM...

Ver o artigo ou a parte anterior Ver a página principal
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...