quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Andando na Verdade (por Charles H. Spurgeon)

Fiquei sobremodo alegre pela vinda de irmãos e pelo seu testemunho da tua verdade, como tu andas na verdade. (3João 3)
A verdade estava em Gaio; e ele andava na verdade. Se a primeira afirmação fosse diferente, a segunda jamais poderia ocorrer; e se a segunda afirmação não pudesse ser dita sobre ele, a primeira teria sido mera pretensão. A verdade tem de entrar na alma, penetrá-la e saturá-la; pois, do contrário, não terá valor algum. Doutrinas sustentadas como uma questão de credo são como pão na mão, o qual não proporciona nutrição ao corpo. Mas a doutrina que aceitamos no coração é como alimento digerido, que, por assimilação, nutre e sustenta o corpo. 
Em nós, a verdade tem de ser uma força viva, uma energia ativa, uma realidade que habita em nosso íntimo, uma parte da essência de nosso ser. Se a verdade está em nós, não podemos separá-la de nós. Um homem pode até perder as suas vestes ou os membros de seu corpo, mas as suas partes internas são vitais e não podem ser removidas sem o comprometimento da vida. Um crente pode morrer, mas ele não pode negar a verdade. 
Ora, é uma regra da natureza que o interior afeta o exterior, assim como brilha luz do centro da lanterna através do vidro. Quando a verdade é acendida no íntimo, o seu resplendor logo se irradia na vida e no comportamento exterior. 
Afirma-se que o alimento de certas lagartas transmite cor ao casulo de seda que elas tecem. Da mesma forma, o alimento que sustenta a vida de um homem transmite cor a toda palavra e a todos os atos que procedem dele. 
Andar na verdade implica uma vida de integridade, santidade, fidelidade e simplicidade - o resultado natural dos princípios da verdade que o evangelho ensina e que o Espírito de Deus nos capacita a receber. Podemos julgar os segredos da alma por meio de sua manifestação no proceder do homem. 
Ó Espírito gracioso, que hoje sejamos governados por tua autoridade divina. Que nada falso ou pecaminoso reine em nosso coração, a fim de que não estenda sua influência maligna sobre o nosso andar diário entre os homens.




Extraído de "Dia A Dia Com Spurgeon - Manhã e Noite" (28/11)

*Título adaptado por mim.


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terça-feira, 28 de novembro de 2017

Tecnologia e Teologia, de Gutemberg a Zuckerberg (por Raniere Menezes)


Tudo foi criado por Ele e para Ele.
(Colossenses 1:16)

A tecnologia, o trabalho e o domínio do homem sobre a natureza, estão interconectados; o domínio e o trabalho geram inevitavelmente tecnologias desde os primórdios. O domínio humano por meio do trabalho sob Deus é uma grande benção, promove potencialidades da vida, energia social construtiva, material e espiritual. Em Gênesis, no relato inicial da criação, no primeiro capítulo, versículo 28, destaca-se que Criador deu ao homem o poder de “sujeitar e dominar” sobre a terra. Assim nasceu a capacidade da escrita como tecnologia da comunicação e todas as outras potencialidades tecnológicas, até hoje, usadas para o bem ou para o mal.

Este “domínio” bíblico transcorre todas as gerações humanas sobre a terra e sedimenta a cosmovisão teísta sobre o trabalho. O avanço tecnológico é uma consequência do trabalho e do domínio humano.

No desenrolar do processo das reformas do século XVI, há um destaque para a tecnologia da comunicação ou da informação, através da prensa tipográfica e da libertação religiosa imposta pelo jugo papal sobre o século XVI (e pela estrutura Medieval), especialmente a partir de Martinho Lutero. O reformador alemão e outros reformadores, especialmente João Calvino, são atribuídos importantes contribuições ao nosso mundo ocidental de hoje, contribuições das mais diversas; ideias impulsionadas pelo poder do compartilhamento dos textos impressos.

A Reforma inicialmente não trouxe alguns benefícios imediatos como conhecemos hoje, mas contribuiu para a geração de valores de nossos tempos, como por exemplo, a liberdade de expressão, abertura de debates e diálogos religiosos e acadêmicos, novas ideias, resgates de ideias antigas, questionamentos sobre ensinos, ciências, cosmovisões em choques, surgimento de universidades protestantes, as quais deram início a novas ciências. 
As reformas protestantes encapsularam muitos dos valores que temos hoje. Progressos tecnológicos não são exclusividades da influência protestante, mas consequências do domínio humano sobre a natureza, porém alguns períodos se destacam como curvas ascendentes em gráficos. E certamente o legado do período protestante contribui grandemente para o formato do Ocidente, hoje.

Lutero, Calvino e outros reformadores desafiaram governos e poderes hostis, e abriram caminho para a democracia que conhecemos hoje. Os protestantes ora apoiavam, ora derrubavam monarquias, e lançaram novas bases para a futura democracia moderna, diferentemente da democracia grega, esta mais elitista.

O princípio da separação da influência estatal sobre a Igreja é uma herança protestante. Um dos legados mais famosos e distorcidos atribuído ao protestantismo foi o capitalismo, através da popularmente difundida “ética protestante do trabalho”, que contribuiu para a formação da economia moderna. O capitalismo inglês, holandês, enfim Europeu e dos EUA, moldou a economia mundial como temos hoje. -- A antiga Genebra de Calvino não era um paraíso democrático, mas é fato que aí nasceu a semente da democracia moderna, a liberdade da América deve muito aos pioneiros colonizadores protestantes calvinistas.

Efeitos econômicos e acadêmicos associados trouxeram inevitavelmente resultados tecnológicos e novas ideias nos mais diversos campos da sociedade Ocidental. Há contribuição protestante ao mundo nas áreas acadêmicas, politicas, sociais e culturais. O campo educacional, por exemplo, é bem marcante que o protestantismo rompeu com a educação medieval, a qual o acesso era para uma minoria rica. A Genebra protestante dos tempos de Calvino é uma precursora da educação pública moderna, os avanços culturais e políticos derivados são inestimáveis.

O poder de publicar ideias derivado das reformas que sucederam a Reforma Protestante, somado à tecnologia da imprensa do século XVI, ofereceram um avanço singular para a história humana. A Reforma iniciada por Lutero é um ponto convergente que lançou as bases para outras reformas. A produção literária em escala crescente após a invenção da prensa tipográfica nesses 500 anos, a abundância de pesquisas, ferramentas e tecnologias, são crescentes a cada geração. De Gutemberg a Zuckerberg, a tecnologia da informação deu grandes saltos e atualmente estamos vivendo uma era de armazenamentos em chips, fluxo de dados monstruosos e arquitetura de nuvens. Para onde nos levará esta transformação digital?

O problema da antibiblioteca


O primeiro problema que se apresenta em nosso século é filtrar o imenso volume de informação disponível, -- que um escritor da atualidade chamou de “antibiblioteca”. Este termo é usado por Nassim Taleb, que narra uma ilustração muito interessante sobre a biblioteca de Umberto Eco. É conhecido no meio acadêmico que o escritor italiano Umberto Eco tem uma biblioteca de cerca de 30 mil livros, e conta Nassim Taleb, que os visitantes da biblioteca do Umberto Eco são divididos em duas categorias: Os que reagem com “UAU! que biblioteca é esta?! Quantos livros desses o senhor já leu?” -- E outros, que entendem que uma biblioteca não é um prolongamento para elevar o próprio ego e sim uma ferramenta de pesquisa. O Nassim Taleb é muito perceptivo nesta ilustração sobre a biblioteca do Umberto Eco, e diz: “Você acumulará mais conhecimento e mais livros à medida que for envelhecendo, e o número crescente de livros não lidos nas prateleiras olhará para você ameaçadoramente. Na verdade, quanto mais você souber, maiores serão as pilhas de livros não lidos. Vamos chamar essa coleção de livros não lidos de antibiblioteca”.

Na revista Época, em entrevista em 30/12/2011, o Umberto Eco diz que "o excesso de informação provoca amnesia", ele diz que a Internet é perigosa para o ignorante e útil para o sábio, porque ela não filtra o conhecimento e congestiona a memória. Ainda segundo Eco, "a internet não seleciona informação... é um mundo selvagem e perigoso... A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. Conhecer é cortar, é selecionar”.

Sem dúvida o conhecimento está se tornando mais acessível via computadores e Internet. A alta conectividade fez o mundo se transformar numa grande cidade de regiões interligadas. Estamos todos integrados através de várias mídias. 
As maiores universidades do mundo estão oferecendo acesso aos seus bancos de dados, o que por si só é algo extraordinário. Porém, juntamente com esta maravilha, há um estrondoso volume de ruídos, de conteúdos irrelevantes, distrações e Fake News. Temos excessos de informações boas e ruins. O bom conhecimento está espalhado como garrafas de mensagens em meio à poluição marinha.

Tecnologia para o Reino de Cristo


Porque dEle e por Ele, e para Ele, são todas as coisas; glória, pois, a Ele eternamente. Amém. (Romanos 11.36). -- Todas as coisas procedem de Deus, todas as coisas são feitas ou forjadas por Ele, e todas as coisas existem para a Sua glória e para realizar os Seus fins. A tecnologia ficaria de fora?

O mundo contemporâneo é complexo em conflitos crescentes, e sem dúvida, bons conteúdos em informação são ferramentas excelentes. Podemos examinar melhor o passado e projetar melhores estratégias para o futuro. 
Precisamos reavaliar as bases que foram lançadas (ao longo da história da Igreja), e ampliar uma visão de missões, de Reino e avançar em justiça e misericórdia, precisamos resgatar a pregação do pecado, do arrependimento e da salvação, como antigos profetas e reformadores. Não precisamos de grandes reformas, mas de muitas pequenas reformas. Precisamos reformar nosso conforto, comodismo, nosso consumismo, nosso trabalho, nosso bolso, nossa mão fechada que não se estende aos pobres, necessitados, vulneráveis, oprimidos e marginalizados. Reformar a visão de missão e de Reino, e avançar; fortalecer a Igreja financeiramente para que suas agências missionárias funcionem com menos penúria. Temos bibliotecas suficientes para encher muitos estádios de futebol, precisamos colocar em prática todas as coisas boas e úteis em ação. – “Examinai tudo. Retende o bem”. (1 Tessalonicenses 5.21). Coloquemos tudo à prova, como um ourives que submete o metal ao fogo. Devemos rejeitar tudo que é falso. Deus deu a sua Igreja o discernimento da verdade. -- ...tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai. (Filipenses 4.8).

Em meio a tanta informação disponível precisamos de três coisas: Saber filtrar (discernir), compartilhar e impulsionar. Este é o desafio missionário do século 21.

Desafio missionário


Se formos compactar a linha do tempo desses últimos 500 anos de produção teológica de qualidade, teremos como resultado uma excelente mega biblioteca para equipar um exército de missionários cristãos. Mas onde estão estes missionários? Não exatamente os missionários transculturais, que são em menor número, mas os missionários do cotidiano, das famílias, dos ambientes de trabalho, acadêmico, das igrejas locais, de leigos? A Igreja nunca foi estática, mas dinâmica. Jesus e os apóstolos e discípulos eram a própria Igreja em movimento. Aspiramos os Céus, porém não podemos ser meramente contemplativos.

Precisamos reformar a nossa adoração para que ela não seja simplesmente contemplativa mas ativa, cheia de ação no mundo real, que ao adorarmos não possamos esquecer de fugir das injustiças e impiedades. Independentemente de pontos de vistas teológicos diversos, precisamos rever o passado e não repetir seus erros. 
Há muitos erros no passado que devemos não esconder, mas aprender. Erros da Igreja e cristãos individualmente, temos uma tendência de tentar evitar as biografias negativas de nossos “heróis”, mas Deus não faz isto em sua Palavra, ele mostra a fidelidade de homens como Abraão, Moisés, Davi e outros, mas também mostra e expõe suas fraquezas.

Na Reforma e reformas posteriores, temos disputas de poderes religiosos e políticos, guerras, ódios e outros aspectos negativos. Após a Reforma de 1517 temos cerca de 200 anos de guerras religiosas. Teólogos e evangelistas protestantes, que trouxeram valiosas contribuições para teologia cristã, em suas épocas apoiavam a escravidão. Os calvinistas holandeses no Caribe praticaram opressão escravagista no passado. Devemos desconstruir a história para torná-la mais positiva e palatável? Não! Devemos aprender com nossos erros e buscar redenção dos fracassos. A cada geração Deus oferece oportunidades para expansão do Seu Reino.

A grande luta dos 500 anos para frente não é produzir mais teologia, embora ela continuará sendo produzida, mas lutar contra as inconsistências que acompanham os movimentos evangélicos desde sempre; a batalha é não comprometer a pureza doutrinária com uma vida antiética. Nossa árvore está gigante, mas precisamos dar frutos de arrependimento em nossa geração. -- Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus? (Miquéias 6.8). Amar a Deus não de palavra, praticar a misericórdia e justiça. -- Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento. (Mateus 9:13).

Deus quer filhos missionários, e não pessoas como num piquenique prolongado, como escreveu Ronald J. Sider: “Para os primeiros cristãos, koinonia não era a 'comunhão' enfeitada de passeios quinzenais patrocinados pela igreja. Não era chá, biscoitos e conversas sofisticadas no salão social depois do sermão. Era um compartilhar incondicional de suas vidas com os outros membros do corpo de Cristo”. Nossa comunhão está fraca em pleno século da alta conectividade, como reverter este quadro?

Estratégias missionárias


Nada conseguiu parar a Reforma do século XVI e as reformas posteriores por causa do compartilhamento de informação. Agora, 500 anos depois estamos diante de outro salto em informação, na era dos chips e bytes infinitos. Podemos ouvir uma pregação, um estudo, um louvor, em tempo real ou no tempo que quisermos em casa e em qualquer lugar, e na palma da mão podemos ter uma biblioteca imensa. Temos condições de nos conectar por vídeo com qualquer pessoa em qualquer lugar do planeta, e isto é algo maior que a revolução da prensa tipográfica. Se há 500 anos era possível pregar sobre a graça de Deus e somente a fé em Cristo, e compartilhar o Evangelho além-mar, hoje muito mais.

O rabino Jonathan Sacks, escreveu ao The Washington Post (30/10/2017), que os jihadistas estão sabendo explorar mais as ferramentas digitais e internet do que qualquer outro grupo religioso, embora estejam usando para o mal - espalhando o medo e o terror global -, como tem feito o ISIS. E o que o cristianismo tem feito com a alta conectividade virtual?

Precisamos reformar o foco das missões cristãs, e não perder tempo com ódios banais de Internet, fofocas e fake news. O futuro não é amanhã, é hoje. Não precisamos de uma mirabolante estratégia missionária ou de grandes missionários, mas compreender a Grande Comissão dada pelo Senhor Jesus Cristo, e a partir dela coordenar todos os recursos que temos disponíveis, sejam financeiros, organizacional, obreiros etc.

Precisamos em meio ao caos e ruído de informações retornar à simplicidade do Evangelho do Senhor Jesus Cristo, estamos em alta conectividade, mas não unidos; devemos trabalhar por uma unidade mínima e razoável para uma boa convivência com a cristandade. E com isso compartilhar o Evangelho livremente. Devemos voltar para as bases da reforma; precisamos colocar Cristo no centro de toda nossa comunicação, começando em casa e na igreja.

A tecnologia da informação muda o mundo, a tecnologia de comunicação disponível hoje é uma ferramenta de benção para o crescimento do Reino do Senhor Jesus Cristo. Façamos dela benção para muitos outros. Filtrar, compartilhar e impulsionar através de diversas mídias e ações.

Temos uma grande necessidade de evangelismo hoje. 
Qual o seu ministério? Como você pode servir melhor ao reino de Deus? 
Como você pode fazer diferença neste mundo em sua geração? 
Lembremo-nos sempre das palavras do Senhor: “Se me amais, guardais os meus mandamentos”. Jo 14.15. “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele”. Jo 14.21
O mesmo Senhor que ordenou: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. Mateus 28.19. – Evangelizar é ir, avançar, conquistar em nome do Senhor Jesus Cristo. 
Ele venceu o mundo e toda autoridade é dEle.

Extraído de:


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quinta-feira, 16 de novembro de 2017

A religião chamada futebol


Todo ano a mesma coisa.. Basta terminar um campeonato ou até mesmo um clássico ou jogo emocionante, e as pessoas começam a zombar umas das outras e exibir com orgulho o quanto o seu time é superior ao do outro.

Não vou dizer que nunca fiz e nem que discordo quando se fazem brincadeiras saudáveis entre torcedores, mas o que mais vemos são os limites sendo deixados de lado, e as ofensas se tornando o padrão do discurso.
Isso sem falar nos (comuns) extremos quando esses torcedores partem para a violência e se digladiam em defesa do clube (na verdade parece mais que são "torcedores da torcida" do que do próprio time).

Obviamente não quero dizer com essa crítica que o esporte devesse ser rejeitado ou que em outros esportes não possa ocorrer casos similares, mas questiono qual a motivação de quem se entrega a uma paixão dessas, muitas vezes colocando o time acima da própria família..

Alguém poderia inclusive zombar de mim dizendo que estou "fazendo mimimi" só porque o meu time vai muito mal das pernas atualmente e porque o time merecidamente campeão de 2017 é aquele que eu mesmo zombei (exageradamente) no passado, mas o meu desejo de escrever algo a esse respeito vem de anos atrás.

São Paulo bi-campeão mundial
interclubes em Tóquio (1993)
Se Deus me der filhos, com certeza vou influenciá-los a serem são-paulinos, contando do passado do time e do que eu pude assistir, mas não vou forçá-los a sofrer caso eles tenham uma opção melhor no momento.
Eu mesmo passei a torcer pelo São Paulo pela mistura da influência de um amigo e do próprio momento do time, que foi campeão de quase todos campeonatos ou torneios disputados no começo da década de 90.[1]

Se esses filhos tiverem interesse em futebol, pretendo mostrar os distintivos e uniformes dos times e falar de cada equipe, inclusive sobre as falcatruas.
Mas se não tiverem interesse, talvez eu até fique feliz, sabendo que vão evitar o fanatismo.

E acima de tudo quero ensinar a eles que a defesa à justiça deve estar acima da defesa ao seu time. Que eles não devem relativizar a justiça por causa de um time de futebol.
Se o time deles ganhar roubado, que não se resumam a dizer "chora mais" para quem faz a acusação, nem a dizer que o time do outro também foi ajudado ou o deles prejudicado em outros momentos, mas que assumam a realidade.

Apesar de muitos reclamarem que as pessoas tem defendido política como se fosse time de futebol, que meus descendentes saibam que nem time de futebol é algo acima de questionamento (como política e religião também não são). 
Aliás, nem tem porque ser tão supervalorizado assim.

Afinal, o que é um time de futebol??
Muitos poderiam filosofar bastante falando de experiências como torcedores, mas na prática o time é uma empresa (com diretoria, folha de pagamentos, infra-estrutura, etc.) que é valorizada quando a sua marca está em alta. Ou seja, se o time tem bons resultados e ganha títulos, pode se manter disputando campeonatos com mais visibilidade e assim pagar suas contas com menos dificuldade.

E de onde vem a renda dessa empresa??
De diferentes fontes, mas a força-motriz é a torcida, de modo direto ou indireto.
Diretamente ao pagar por ingressos para os jogos ou por produtos oficiais do clube
Indiretamente sendo o alvo das outras fontes...
Ela impulsiona o investimento de outras empresas naquele clube: os patrocinadores. Se o time vai bem, é lucrativo para uma empresa estampar no uniforme dele a sua marca, pagando por isso a esse clube.
Além disso, os próprios veículos de mídia conseguem grandes audiências transmitindo os jogos para que a torcida assista em casa (ou outro lugar que não o local do jogo), e por isso também pagam para esses clubes..

Enfim, pode haver outras fontes, mas a torcida é a responsável direta pelo clube prosperar (apesar das diretorias de muitos times conseguirem estragar isso), pois se não houver mais audiência e interesse por ele, ninguém pensará em investir no mesmo.
E o que vemos é bem o oposto do desprezo, quando determinadas torcidas  chegam até a gritar atributos de Deus a seus times (ex: Soberano, Todo Poderoso).
Outros afirmam que o time "é a sua vida", e por aí vai..

Claro que muitos vão alegar que são apenas hipérboles que as pessoas acabam usando devido à emoção, mas será que é só isso mesmo?? E se for, isso deveria acontecer??



O futebol é incrível!! Pra mim o melhor esporte existente!! 
Mas procuro cada vez mais não me deixar a justiça em segundo plano levado por emoções. E minha crítica não é tanto sobre o esporte em si, mas sobre o "sistema" criado em torno dele...

Voltando aos meus futuros desejados filhos, espero que eles sejam equilibrados e possam aproveitar o lado bom de tudo, mas que não sejam cegos a toda a manipulação evidente que existe nesse esporte, e principalmente que desde cedo percebam como a mídia ama isso.
Que jamais tratem o time ou mesmo o esporte como uma religião.
Que não idolatrem jogadores nem ninguém.
Que não 'canonizem' o domingo como o dia do Futebol, mas que o tenham como o Dia do Senhor.
E que o Senhor nos ajude a sermos os modelos de Sua obra, ao invés de mais uns que tentam servir dois senhores.



[1] Isso aconteceu em 1992, e outros fatores que influenciaram a minha escolha foram eu ter achado o distintivo e as cores bonitos e o time ter o nome do estado. Eu pensava que deveria torcer pro time da minha cidade, mas na época o time do São Bernardo não disputava nada.. Bônus: Tendo o nome do estado, faz alusão também ao apóstolo Paulo.


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quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O mito da Terra plana (por Michelson Borges)



O livro Inventando a Terra Plana (São Paulo: Editora Unisa, 1999), de Jefrey Burton Russel, historiador e pesquisador da Universidade da Califórnia, mostra convincentemente que a ideia da Terra plana foi uma elaboração mais ou menos recente. Embora hoje se saiba que os europeus renascentistas tenham supervalorizado a ideia de que houve um período de mil anos de trevas intelectuais entre o mundo clássico e o moderno, Russel acredita que o erro da Terra plana não havia sido incorporado à ortodoxia moderna antes do século 19. "[Russel] descobriu o fio da meada nos escritos do americano Washington Irving e do francês Antoine-Jean Letronne [responsáveis pela posterior propagação do mito da Terra plana]. Mas sua disseminação no pensamento convencional ocorreu entre 1870 e 1920, como consequência da ‘guerra entre a ciência e a religião", quando para muitos intelectuais na Europa e nos Estados Unidos toda religião tornou-se sinônimo de superstição e a ciência tornou-se a única fonte legítima da verdade. Foi durante os últimos anos do século 19 e os primeiros anos do século 20 que a viagem de Colombo tornou-se então um símbolo amplamente divulgado da futilidade da imaginação religiosa e do poder libertador do empirismo científico. ... os pensadores medievais, da mesma forma que os clássicos que os antecederam, criam na redondeza da Terra" (p. 10).



Irving (1783-1859) retocou a história para parecer que a oposição à viagem de Colombo se deveu ao pensamento de que a Terra fosse plana . Isso foi provado falso. A oposição se deveu, na verdade, à preocupação com a distância que os navegadores teriam que percorrer. A esfericidade da Terra não foi tema de discussão naquela ocasião.

O fato é que nem Cristóvão Colombo, nem seus contemporâneos pensavam que a Terra fosse plana. Não há uma referência sequer nos diários do navegador (e de outros exploradores) que levante a questão da redondeza da Terra, o que indica que não havia contestação alguma a esse respeito, na época. Assim, segundo Russel, é comum a regra de Edward Grant de que no século 15 não havia pessoas cultas que negassem a redondeza da Terra. No entanto, esse mito permanece até hoje, firmemente estabelecido com a ajuda dos meios de comunicação e dos livros didáticos. Com que interesse?

Para Russel, o mito da Terra plana pode ser rastreado até o século 19, especialmente a partir de 1870, à medida que autores de livros-textos se envolveram na controvérsia em torno do darwinismo. "No início do século [20] a força dominante subjacente ao erro [da Terra plana] foi o anticlericalismo do Iluminismo no seio da classe média na Europa, e o anticatolicismo nos Estados Unidos" (p. 35).

Antes disso, na Divina Comédia, o poeta Dante Alighieri (1265-1321) já apresentava o conceito de uma Terra redonda. Os filósofos escolásticos, incluindo o maior deles, Tomás de Aquino (1225-1275), conhecedores de Aristóteles, igualmente afirmavam a esfericidade da Terra.

No entanto, como os escolásticos e filósofos medievais se baseavam em Aristóteles e este defendia a esfericidade da Terra, os iluministas tiveram que arranjar outros referenciais para dizer que o mito se baseava neles. E os encontraram em Lactâncio (245-325 d.C.) e Cosme Indicopleustes, autor de Topografia Cristã (escrito entre 547 e 549 d.C.). Só que, segundo Russel, Lactâncio tinha ideias muito estranhas sobre Deus e não foi levado em consideração na Idade Média (na verdade, foi considerado herege) - até que os humanistas da Renascença o "ressuscitassem", apregoando sua suposta influência. Indicopleustes, partindo de escritos de filósofos pagãos e interpretando erroneamente textos bíblicos poéticos, defendeu a ideia da Terra plana. Era ignorado, ao invés de seguido.

Detalhe: a primeira tradução de Cosme para o latim não foi feita senão em 1706. Portanto, como poderia ele ter tido influência sobre o pensamento ocidental medieval?

Russel arremata:

"[Lactâncio e Cosme] foram símbolos convenientes a serem uados como armas contra os antidarwinistas. Em torno de 1870, o relacionamento entre a ciência e a teologia estava começando a ser descrito através de metáforas bélicas. Os filósofos (propagandistas do Iluminismo), particularmente [David] Hume, haviam plantado uma semente ao implicar que estavam em conflito os pontos de vista científicos e cristãos. Augusto Comte (1798-1857) havia argumentado que a humanidade estava laboriosamente lutando para ascender em direção ao reinado da ciência; seus seguidores lançaram o corolário de que era retrógrado tudo o que impedisse o advento do reino da ciência. Seu sistema de valores percebia o movimento em direção à ciência como ‘bom’, de tal forma que o que atrapalhasse esse movimento era ‘mau’. (...) O erro [da Terra plana] foi, desta forma, incluído no contexto de uma controvérsia muito maior - a alegada guerra entre ciência e religião" (p. 67, 77).

O próprio Copérnico, no prefácio de seu clássico trabalho De Revolutionibus, usou Lactâncio para ilustrar como a ignorância dos opositores à ideia da Terra esférica era comparável à dos que insistiam no geocentrismo. Curiosamente, Copérnico não diz que Lactâncio era típico do pensamento medieval. Esse prefácio foi enviado para o papa a fim de obter aprovação eclesiástica. Copérnico não atacaria Lactâncio e sua ideia da Terra plana, se a igreja estivesse de acordo com esse pensamento. O problema, como já vimos, teve que ver com o geocentrismo aristotélico versus heliocentrismo, e não com o formato da Terra.

Extraído de:


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domingo, 5 de novembro de 2017

(um pouco) Sobre Censura, Boicotes, Legalismo e Isenção


Charles Cunningham Boycott (12 de março de 1832 - 19 de junho de 1897) foi um inglês que trabalhou na Irlanda como capataz para Lorde Erne. Em 1880, ativistas locais da Irish Land League incentivaram os funcionários de Boycott (incluindo os trabalhadores sazonais que colhiam nas fazendas de Lord Erne) a pararem de trabalhar, e iniciaram uma campanha de isolamento contra o Boycott na comunidade local. Nessa campanha lojas também se recusaram a atendê-lo.

Um tema que de tempos em tempos é trazido à tona e colocado em destaque, geralmente devido a convocações públicas ou rejeições a essas convocações, é o do boicote.

É muito comum que, devido a atitudes de indivíduos ou entidades que desagradem a outros indivíduos ou entidades, estes últimos se mobilizem para protestar através de boicotes.

Por outro lado, há os que se queixam desse tipo de mobilização, e o taxam de censura.
  • Quem estaria correto nessa discussão??
  • Como identificar o que é de fato censura do que é boicote??
  • Há algo inerentemente mal em qualquer tipo de boicote??
Para tentarmos chegar a respostas convincentes a tais questões, antes é necessário analisarmos o que de fato significam, no nosso idioma: censura boicote.

CENSURA:

cen·su·ra
1. Ato ou efeito de censurar.
2. Crítica severa, repreensão.
3. Exame oficial de certas obras ou escritos.
4. Corporação a que compete esse exame.
5. Pena eclesiástica que priva os fiéis dos bens espirituais.

"censura", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://priberam.pt/dlpo/censura [consultado em 27-10-2017].
BOICOTE:
boi·co·te |ôi| (inglês boycott, de [Charles C.] Boycott [proprietário irlandês que, no século XIX, viu os seus arrendatários recusarem trabalhar devido à sua severidade e exigências desmedidas])
1. Ato ou efeito de boicotar. = BOICOTAGEM
2. Cessação voluntária de todas as relações com um indivíduo, uma empresa ou uma nação. = BLOQUEIO

boi·co·tar(inglês to boycott, recusar-se a cooperar)

1. Recusar, como forma de protesto ou represália, qualquer colaboração ou relação.
2. Fazer guerra comercial (a determinados produtos).
3. Impedir a realização ou o desenvolvimento de algo.Sinônimo Geral: BOICOTEAR

"boicote", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://priberam.pt/dlpo/boicote [consultado em 27-10-2017].
Por mais que alguém possa confundir as definições por ambas trazerem a ideia de rejeição a algo praticado ou disseminado, não é tão difícil perceber a diferença entre ambos conceitos.

A censura está relacionada a um juízo negativo (uma crítica, repreensão) quanto a algo, e principalmente com proibição coerciva do acesso a tal coisa.
Já no caso do boicote, existe também um juízo negativo, mas geralmente está relacionado com o desejo voluntário do(s) indivíduo(s) e a mobilização para que mais ajam da mesma forma, mas sem coerção que impeça o autor daquilo que gerou o protesto.

Uma boa definição de boicote foi dada por Murray N. Rothbard em seu livro "A ética da liberdade":
"Um boicote é uma tentativa de persuadir outras pessoas a não se envolverem com alguma pessoa ou firma específica - seja suspendendo as relações sociais ou concordando em não comprar os produtos da firma. Moralmente, um boicote pode ser usado por motivos absurdos, repreensíveis, louváveis ou neutros. Ele pode ser usado, por exemplo, para tentar persuadir as pessoas a não comprar as uvas de produtores não sindicalizados ou a não comprar as uvas de produtores sindicalizados. Do nosso ponto de vista, a questão importante a respeito do boicote é que ele é puramente voluntário, um ato de tentativa de persuasão, e, portanto, que ele é um instrumento de ação perfeitamente legal e lícito."[1]
Ou seja, apesar de alguns se queixarem de atos de boicote, atrelando isso à censura (e seu aspecto social reprovável), a única semelhança entre ambos se dá no direito que cidadãos livres têm de demonstrar sua reprovação a algo. Isso porque qualquer pessoa deve ter o direito de livre consciência e, portanto, não deve ser impedido coercivamente de expressar sua opinião sobre algo, considerando tal coisa certa ou errada, boa ou má, etc.

Porém, a censura ganha outros contornos quando imposta por autoridades.
Quando o juízo negativo quanto a algo se transforma em proibição legal ao acesso àquilo, qualquer semelhança com a ideia de boicote "morre".

Poderíamos dizer que qualquer lei proibitiva é uma censura a algo condenável civilmente. Por exemplo, se é proibido roubar, entende-se que o roubo é inerentemente mau e portanto impede-se através de punição quem o pratica.
Dessa forma o roubo é socialmente censurado, mas a garantia disso está no poder das autoridades de punir quem age contrariamente a essa norma.

Sendo assim, aquele que se apresenta contra qualquer tipo de censura, é (por estupidez e/ou ignorância) um louco, que nega a necessidade de leis e ordem. Só terá a razão se for contra censura injusta, ou seja, a censura contra algo que não deveria ser censurado.

Por sua vez, um boicote representa apenas a intenção de alguém ou um grupo de não "financiar" certas práticas. Não sendo portanto uma proibição legal que torna tal coisa um crime, mas simplesmente uma atitude que visa não dar apoio àquilo.

Partindo desse pressuposto, qualquer pessoa deve ser livre (perante as leis) para boicotar qualquer coisa que em sua consciência julgue ser desagradável, indevida ou até imoral. Sendo também válido que tal pessoa tenha a liberdade de convocar mais pessoas para protestar da mesma forma, e infligirem um impacto maior.

Tomando um exemplo concreto, se uma empresa fornece determinado produto e em seu marketing abraça ideologias condenadas por parte de seus consumidores, é totalmente válido que tal grupo de consumidores se reúna e deixe de consumir tal produto dessa empresa e passe a consumir de outra, gerando então um prejuízo que pode levar essa empresa a repensar e até abandonar seu apoio aberto a tais ideologias. Afinal, se não fosse assim, por que o bordão "o cliente sempre tem razão" seria tão respeitado pelas empresas??

Tento então em mente a distinção entre censura e boicote, e considerando nosso dever cristão de submeter nossas consciências à Palavra de Deus, existiriam situações em que temos o dever de realizar um boicote??


BOICOTE É BÍBLICO??

Ao tentar localizar textos na Escritura em que a prática foi realizada, não me recordei de nenhum, e acredito que não haja exemplos mesmo disso acontecendo plenamente. Até me recordei de uma instrução divina dada por intermédio de Paulo, alertando os crentes a não comerem alimentos que foram oferecidos a ídolos, mas o motivo era evitar o escândalo de terceiros e não o de gerar prejuízo ao vendedor idólatra...

Mas apesar de ser um bom indicativo de não ser algo obrigatório, a falta de exemplos bíblicos não significa necessariamente que a prática seja incorreta. Do contrário, usar a internet ou jogar futebol seriam coisas proibidas a um cristão (para dar exemplos).

Sendo assim, legalmente ninguém deveria ser punido por boicotar qualquer um por qualquer motivo, mas para validar a prática de boicote moralmente é necessário identificarmos os princípios que tal prática poderia estar infringindo e também se a motivação da mesma estaria correta ou não. E ao fazermos tal análise podermos constatar que 1) não há impedimento bíblico para um cristão voluntariamente optar por deixar de consumir algum produto ou serviço e 2) se a intenção for de não colaborar com a disseminação do que a bíblia condena (e não meramente por 'vingança' ou desejo de prejudicar alguém); então é possível sim realizar boicote sem pecar.

Mas como proceder em um mundo caído?? 
Um cristão deveria boicotar "tudo"??

Aliás, além de uma opção, o boicote é uma obrigação aos cristãos??


O BOICOTE E O LEGALISMO

"Todos devem parar de comprar a 'marca X'".

Troque 'marca X' por alguma outra que tenha gerado uma polêmica recente e talvez se recorde de algum apelo desse tipo. Usualmente pessoas influentes (especialmente no meio gospel) adotam postura semelhante, convocando evangélicos a protestarem contra determinadas marcas.

Isso é válido para um cristão??

Eu diria que sim, mas se (e somente se), for algo sugestivo e não impositivo.

A partir do momento que algum "entusiasta" do boicote sugerisse que todos temos a obrigação de participar ou emitisse qualquer tipo de ameaça da parte de Deus caso não façamos, configura-se claramente o legalismo.
Esse "entusiasta" poderia até se esforçar em convencer pessoas a aderirem ao boicote através de argumentos lógicos, mas jamais deveria tentar forçar alguém a isso. A voluntariedade é um ponto-chave na validade do boicote.


O EXTREMO DA ISENÇÃO

Se por um lado há o erro do legalismo, no extremo oposto temos o erro da isenção (para não dizer "frouxidão"), quando as pessoas desconsideram a ideia de protestar alegando que isso não tem qualquer efeito prático, mas geralmente o fazem apenas para não saírem das suas zonas de conforto.

Reitero que boicotar deve ser um ato voluntário, e portanto ninguém deve ser "demonizado" caso opte não fazê-lo, mas como eu também disse, a motivação é sempre um requisito essencial no julgamento de tudo aquilo que fazemos. Dessa forma, se a motivação que leva a pessoa a deixar de protestar é meramente evitar algum desconforto, mesmo havendo motivos fortes para ela demonstrar sua insatisfação, certamente está errada.

Esse tipo de motivação comodista se apoia muitas vezes na ideia de que "o mundo jaz no maligno" (I João 5:19), e geralmente traz consigo um pensamento "entreguista", onde a pessoa acredita que não adianta fazer nada tendo em vista que "o mundo é do diabo".. Esse pensamento despreza na prática o chamado "mandato cultural", e ignora que mesmo que o mundo (sistema) esteja corrompido e cegado pelo mal, temos sim o dever cristão de desejar transformação.
Para mais textos relacionados, acessar:
Outro texto (mal) usado como base para o "entreguismo" está em 1 Pedro 2:11Amados, peço-vos, como a peregrinos e forasteiros, que vos abstenhais das concupiscências carnais, que combatem contra a alma. Muitos se apegam ao fato de sermos peregrinos neste mundo, mas desconsideram que ainda assim somos cidadãos dele.
O apóstolo Paulo vivenciou situações em que não abriu mão de sua "cidadania terrena", e temos isso registrado nas Escrituras. Diante das injustiças sofridas, ele se aproveitou dos benefícios de sua cidadania romana:
O tribuno mandou que o levassem para a fortaleza, dizendo que o examinassem com açoites, para saber por que causa assim clamavam contra ele. E, quando o estavam atando com correias, disse Paulo ao centurião que ali estava: É-vos lícito açoitar um romano, sem ser condenado?
E, ouvindo isto, o centurião foi, e anunciou ao tribuno, dizendo: Vê o que vais fazer, porque este homem é romano.
E, vindo o tribuno, disse-lhe: Dize-me, és tu romano? E ele disse: Sim.
E respondeu o tribuno: Eu com grande soma de dinheiro alcancei este direito de cidadão. Paulo disse: Mas eu o sou de nascimento.
E logo dele se apartaram os que o haviam de examinar; e até o tribuno teve temor, quando soube que era romano, visto que o tinha ligado. E no dia seguinte, querendo saber ao certo a causa por que era acusado pelos judeus, soltou-o das prisões, e mandou vir o principais dos sacerdotes, e todo o seu conselho; e, trazendo Paulo, o apresentou diante deles.
(Atos 22:24-30)
Se o apóstolo abrisse mão de sua cidadania, não sabemos o que poderia lhe ocorrer, mas havia a possibilidade de ter sido morto mediante a acusação dos judeus (como aconteceu com Jesus Cristo). Mas ele se aproveitou desse recurso para garantir seus direitos e com isso teve oportunidades de pregar o evangelho no seu próprio julgamento. Portanto, temos no exemplo do apóstolo uma base para negarmos que nossos direitos civis devem ser deixados de lado.

E tendo tais direitos, nos dias atuais garantidos pela Constituição e leis de forma geral, faz todo o sentido recorrermos quando eles são infligidos. Assim como é justo que usemos nosso direito de sermos ouvidos, quando decisões forem tomadas pelas autoridades, visto sermos parte de um sistema democrático.


Quando a isenção é pecaminosa

Conforme mencionei anteriormente, qualquer tipo de lei civil punitiva contem em si um tipo de censura, proibindo que algo seja feito. No cristianismo, sabemos que tudo aquilo que Deus condena deve ser evitado, logo, para um cristão tudo aquilo que é pecaminoso não deve ser praticado.

Além do "entreguismo" já exposto, a isenção também ocorre em pensar que é impossível se abster do mal devido ao mundo estar corrompido. Mas faria sentido pensar assim mesmo lembrando das palavras de Cristo??
Dei-lhes a Tua palavra, e o mundo os odiou, porque não são do mundo, assim como eu não sou do mundo.

Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal.

Não são do mundo, como eu do mundo não sou.
(João 17:14-16)
Portanto, se a tua mão ou o teu pé te escandalizar, corta-o, e atira-o para longe de ti; melhor te é entrar na vida coxo, ou aleijado, do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno.E, se o teu olho te escandalizar, arranca-o, e atira-o para longe de ti; melhor te é entrar na vida com um só olho, do que, tendo dois olhos, seres lançado no fogo do inferno.
(Mateus 18:8-9)
Da mesma forma que Cristo reconhece que 'o mundo é mau' mas que precisamos permanecer aqui com a condução do Pai, Ele instrui Seus seguidores a fazerem o necessário para combater o pecado. Sendo assim não há base para "afrouxar a santidade"...
Por exemplo, José e Daniel, foram figuras de destaque em meio a sociedades pagãs, mas nem por isso abriram mão de seus princípios com a desculpa de que era inevitável pecar. Da mesma forma, estamos todos no mundo, mas o mundo (mundanismo) não deve estar em nós (Romanos 12:1-2).

Aplicando isso ao contexto de consumo, se um crente sabe que ao fazer isso estará pecando, seu "boicote" não se torna uma opção. Por exemplo, se um filme ou série traz cenas impróprias e o crente sabe disso, ele não deve consumir com a desculpa de que "o mundo jaz no maligno" e que "teria que sair do mundo" pra evitar o pecado, deve sim deixar de assistir. E tal regra valeria pra qualquer tipo de produto ou serviço.

Por outro lado, mesmo ciente de intenções pecaminosas daquele que fornece o produto ou o serviço, o cristão pode consumir caso possa usar como ferramenta para fazer o bem. Em tese, alguns poderiam questionar que tal cristão estaria ainda assim dando lucro a quem está disseminando o pecado, mas na verdade esse cristão pode ter em mente redimir o uso. Por exemplo, mesmo que pessoas por trás de redes sociais apoiem causas anti-bíblicas e até a disseminem, cristãos podem usar sabiamente essas redes (e a internet em geral) para disseminar o evangelho. Talvez um exemplo dessa "redenção do uso" seja encontrada no livro de Êxodo, quando os judeus saíram do Egito levando bens dos egípcios que outrora eram usados para idolatria, e viriam a ser usados para fins puros.
E eu darei graça a este povo aos olhos dos egípcios; e acontecerá que, quando sairdes, não saireis vazios, porque cada mulher pedirá à sua vizinha e à sua hóspeda jóias de prata, e jóias de ouro, e vestes, as quais poreis sobre vossos filhos e sobre vossas filhas; e despojareis os egípcios.
(Êxodo 3:21-22)
Fala agora aos ouvidos do povo, que cada homem peça ao seu vizinho, e cada mulher à sua vizinha, jóias de prata e jóias de ouro. E o Senhor deu ao povo graça aos olhos dos egípcios; também o homem Moisés era mui grande na terra do Egito, aos olhos dos servos de Faraó e aos olhos do povo. 

(Êxodo 11:2-3)
Outra situação a ser considerada é quando, mesmo que não estiver pecando ao consumir o produto ou serviço, o próprio serviço ou produto seja realizado de forma pecaminosa.
Tomando o mesmo exemplo de filmes e séries, mesmo que alguém alegue que não peca ao assistir cenas indevidas ou que evita ver essas partes e se atem ao resto, se quem contracenou pecou a pessoa está apoiando ou ao menos tolerando isso sem qualquer protesto.
Se um filme apresenta por exemplo cenas de nudez e sexo, independentemente da reação do expectador, aqueles que realizaram a cena pecaram, e certamente estarão levando outros a pecar...
Sugestão de leitura: Devo/posso assistir nudez deliberadamente?

CONCLUSÃO

Penso que esse não é um texto exaustivo que "fecha" todas as possíveis questões sobre o tema, mas espero que ele pelo menos esclareça alguns pontos e conduza os interessados num caminho mais lógico e bíblico.

Se você tende ao legalismo, baseando-se nas suas fortes fome e sede de justiça, cuide para não impor a terceiros aquilo que Deus não cobra delas. Aplique primeira na sua vida aquilo que você crê contribuir para sua santidade, mas sempre colocando a própria providência de Deus como o fator crucial para conseguir crescer na caminhada.

Se você tende à "frouxidão", analise suas motivações e o quanto se dedica às causas do Reino. Avalie se sua "abstenção" está relacionada com um julgamento justo da causa ou com um comodismo que visa evitar qualquer desconforto na sua vida, incluindo conflitos com quem pensa diferente. Pense que se os antigos cristãos pensassem todos assim, a nossa sociedade seria eternamente pagã nos mesmos moldes que era antes do cristianismo ser espalhado pelo mundo. "Post Tenebras Lux" nunca seria algo conhecido por nós.

Sejamos todos equilibrados, e julguemos tudo segundo a reta justiça (João 7:24).

E que DEUS nos ajude!!



[1] « O Boicote ». A ética da liberdade. São Paulo. Instituto Mises Brasil 2010. p. 199


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