terça-feira, 24 de abril de 2018

Liberdade Religiosa (por R. J. Rushdoony)


Frequentemente a liberdade religiosa é vista pelos historiadores como uma finalidade beneficente na história, por meio da qual os vários estados na Europa cessaram de perseguir protestantes ou católicos. Destarte, a intolerância deu lugar à tolerância. Há, superficialmente, uma medida limitada de verdade nisso. Após 1660, na Europa, a intolerância religiosa começou a declinar. Já por volta de 1598, com o Édito de Nantes, a França concedeu liberdade religiosa aos huguenotes após muito derramamento de sangue. A Polônia também chegou a uma situação semelhante sem os mesmos conflitos. 

Contudo, a falácia nessa visão popular do crescimento da sabedoria em forma de tolerância é que esta tolerância não se baseou numa crença na liberdade, mas numa indiferença crescente ao cristianismo. Em lugar da igreja, o Estado tornou-se, então, central à vida, silenciando, pois, as dissidências com relação a si mesmo. O mundo ocidental se encontrava num processo de transposição de seus fundamentos intelectuais do cristianismo para o humanismo, e, como resultado, o espaço da intolerância também mudou. Não há tolerância, por exemplo, nas escolas estatais e nas universidades para criacionistas confessos, e a perseguição e eliminação destes são justificadas na base do “aprendizado sadio”. Em países marxistas, que são os mais consistentemente humanistas, esse tipo de dissidência aberta conduz a campos de trabalho forçado. 

A tolerância e o establishment  permanecem, portanto, com seu controle. E, ao mesmo tempo, quanto mais importante o Estado se torna, mais insignificante e subserviente se torna a igreja estabelecida. 

As colônias americanas tiveram início com semi-establishments. Tecnicamente, a Igreja da Inglaterra possuía o direito de establishment  em todos eles. Na prática, cada colônia, ou em alguns casos as áreas dentro das colônias, possuíam seu próprio establishment, assentamento ou autonomia. Bridenbaugh, em sua obra Mitre and Sceptre [A Mitra e o Cetro], demonstrou que o receio de bispos serem enviados às colônias, com o dever de seguir um establishment rigoroso, contribuiu grandemente com a ruptura com a coroa e a Guerra de Independência. Essa ameaça levou a mais do que uma simples reconfiguração do tema nas colônias. Ao mesmo tempo, o líder batista Isaac Backus, muito se empenhou para desenvolver a doutrina da liberdade religiosa. A maior consequência disso foi a Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos:  
O Congresso não poderá fazer nenhuma lei concernente ao estabelecimento de uma religião ou proibindo o seu livre exercício, restringindo a liberdade de palavra e da imprensa, ou o direito dos cidadãos de reunir-se pacificamente e de dirigir petições ao Governo para a reparação dos seus agravos. [1]

O clero das colônias apoiou vigorosamente essa Emenda. O padrão de tolerância do establishment também foi reconhecido como arriscado, embora tenha permanecido em Massachusetts por um tempo. Embora uma igreja estabelecida pudesse evidentemente ser poderosa, seria, ao mesmo tempo, subserviente ao Estado, na maior parte dos casos, se não em todos os casosHavia ainda dois outros problemas graves comum a igreja estabelecida: era tanto uma igreja sem voz quanto uma igreja mais facilmente corrompida. Na maior parte da história dos Estados Unidos, a Primeira Emenda e sua restrição foi aplicável somente ao Governo Federal, e não aos estados. Nos anos recentes, valendo-se da Décima Quarta Emenda como justificativa, a Suprema Corte dos Estados Unidos, em nome da “não promoção de establishments”, pôs abaixo coisas como as orações nas escolas públicas. A Primeira Emenda, em si mesma, possui apenas duas ênfases. A primeira: é vedado o establishment de uma religião. Para os redatores da Constituição, isso significava a proibição de establishment de uma igreja, ou de um padrão doutrinário específico (tal como o calvinismo ou arminianismo). Visto que não havia outras religiões cuja relevância fosse considerável, o que estava em mente era a exclusão da possibilidade de qualquer igreja se tornar a igreja federalmente estabelecida. 

Quando o Internal Revenue Service[2] arroga, como o faz hoje, o poder de determinar qual grupo religioso será isento da taxação, ele está estabelecendo uma igreja ou religião. Até pouco tempo atrás, uma igreja era uma igreja porque simplesmente era, e não porque o Internal Revenue Service assim dizia!

Em segundo lugar, o Congresso, bem como o Governo Federal, estão impedidos de qualquer interferência para com o livre exercício da religião. Essa provisão especifica que liberdade pertence à igreja e a todas as suas formas de livre exercícios, nas sociedades com fins religiosos, exercícios públicos e afins. 

Visto que a Constituição foi projetada para ser um documento somente de poderes explícitos, todos os poderes que não são nela especificamente concedidos foram, portanto, barrados ao Governo Federal. Os redatores, portanto, não viram necessidade para a Primeira Emenda. Um governo federal limitado não possui qualquer jurisdição sobre a esfera das igrejas. Contudo, a comoção em prol de uma garantia explícita das áreas de imunidade em relação ao controle estatal foi tão forte que a Declaração de Direitos de 1689 [Bill of Rights] foi lavrada. 

Alguns estudiosos acreditam que teria sido melhor que a Declaração de Diretos jamais tivesse sido exarada, visto que a doutrina dos poderes explícitos significaria apenas que o Governo Federal não possui jurisdição exceto onde especificado pela Constituição. Entretanto, a Constituição não dá poderes ao Governo Federal no tocante à educação, medicina, bem-estar econômico, e vários outras coisas - todos os campos que o Governo Federal invadiu. Nenhuma lei é salvaguarda suficiente contra uma mudança de fé e caráter. 

Todo sistema jurídico é uma sanção e um establishment da religião. A lei inescapavelmente moral: ela estabelece ideias ou conceitos daquilo que é mal e proibido, e daquilo que é bom e permitido. A lei reflete, pois, uma biocosmovisão religiosa. Mudar natureza de um sistema jurídico significa alterar as religiões. Por sua própria natureza, alei não pode ser moralmente neutra, visto que condena certas formas de comportamento e protege outras. Ora, os redatores da Constituição estavam cientes desse fato, já que alei estatutária era, então, incomum, quando comparada com a common law

A common law, conforme assinalou Rosenstock-Huessy, “não reivindica uma origem nacional, antes, era o dote do batismo cristão”. A common law incluía alguns elementos da lei romana, no entanto, era, em essência, a lei bíblica e eclesiástica. Quando nos debruçamos para a jovem república, damo-nos conta de que a common law teve esse sentido. Mesmo Thomas Jefferson reconheceu tal fato. “No princípio de que o cristianismo era parte da common law, ‘Jefferson viu a transposição desse aforismo das costas inglesas para as americanas como se fosse o transplante das sementes do establishment”. Precisamente. Jefferson desejou não um fundamento bíblico, mas, sim, um fundamento iluminista. Algum tipo de establishment  é inevitável. 

No nível da Suprema Corte dos Estados Unidos nos seus primeiros anos, o juiz Joseph Story foi enfático ao dizer que o cristianismo e a common law eram os fundamentos da União, da liberdade e da ordem social. Story enxergou no ataque de Jefferson ao lugar do cristianismo como parte da common law como indicativo da deslealdade para com a União e uma posição intelectualmente insustentável. É preciso lembrar que Story foi um líder unitarianista, politicamente um democrata e um liberal moderado, e não um defensor da antiga ortodoxia. Na Inglaterra, em 1676, o juiz Matthew Hale resumiu a questão da common law da seguinte maneira: “A religião cristã é uma parte da própria lei”. Kent, em sua obra Commentaries on American Law [Comentários Sobre a Lei Americana], falou eloquentemente da common law como o tecido da vida. Ele citou as comoventes palavras de De Ponceau: 
Vivemos no meio da common law, inalamo-la a cada inspiração, assimilamo-la em cada um de nossos poros; deparamos com ela ao acordarmos e ao deitarmo-nos para dormir, quando viajamos e quando permanecemos em casa; e está entrelaçada no próprio idioma que falamos; e não podemos aprender outro sistema jurídico sem aprender, ao mesmo tempo, outra língua. 

Devido à natureza religiosa da lei e sociedade, homens como Story eram capazes de aceitar e defender uma separação institucional da igreja e Estado, embora reconhecessem, nas palavras de Mc Clellan, que “no fundo, igreja e Estado estão sempre unidos; sua separação total é impossível”. Não se deve dar preferência a nenhuma “seita” ou denominação em particular, Story dizia, porém, que a neutralidade com relação à religião é impossível. O cristianismo, acreditava o juiz, deveria ser apoiado pelo Estado, não com fundos, nem por meio da subjugação da consciência do indivíduo, mas reconhecendo-o como o fundamento da lei e da ordem social. Leis contra blasfêmia, leis sabáticas e semelhantes eram para Story parte desse apoio estatal. Somente em 1947 e 1952 que a Suprema Corte dos Estados Unidos se moveu abertamente em prol de privar o cristianismo de seu status oficial e estabelecer o humanismo como o fundamento da lei americana.

Story, em seu livro Commentaries on the Constitution of the United States [Comentários sobre a Constituição dos Estados Unidos] (volume II, página 591, 2ª edição), sumarizou a questão deste modo, e as cortes concordaram com isto durante um século e meio: 
O real objeto da Primeira Emenda não foi tolerar, muito menos promover, o islamismo, ou o judaísmo, ou a infidelidade mediante subjugação do cristianismo; antes, foi excluir toda rivalidade entre os grupos cristãos, e prevenir qualquer establishment eclesiástico nacional que concederia a determinada hierarquia o patronato do governo nacional. Isto, portanto, rompe os meios de perseguição religiosa (o vício e peste das épocas anteriores), bem como a subversão dos direitos de consciência em questões de religião, sobre os quais tem-se insistido desde os dias dos apóstolos até a presente época. 

Cord cita outros três propósitos da Primeira Emenda. Primeiramente, estabeleceu-se uma limitação aos poderes do Governo Federal, negando-lhe a prerrogativa de estabelecer uma igreja ou religião nacional. Em segundo lugar, o foi barrada ao Governo Federal a invasão da liberdade de consciência. Em terceiro lugar, a Primeira Emenda deixou a relação da igreja e Estado sob o controle dos estados individuais. Esta última restrição tanto reconheceu a questão dentro da jurisdição dos estados quanto, ao mesmo tempo, deu liberdade aos establishments locais e/ou disposições existentes nos vários estados. 

Deve-se notar que o livre exercício da religião foi interpretado pelas cortes, ao longo de várias gerações, com base no cristianismo da common law. O caso Reynolds vs. Estados Unidos lidou com a poligamia mórmon; Reynold sentiu que seus direitos garantidos pela Primeira Emenda foram violados com a proibição da poligamia. A Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu contra Reynolds. Ela percebeu que, virtualmente, todos os crimes são, em algum lugar, praticados por determinado grupo religioso. Dentre os aspectos de algumas religiões estão ou estiveram o sacrifício humano, canibalismo, prostituição ritual, bestialidade, assassinato, homossexualismo e outros. A liberdade absoluta de consciência e de prática religiosa destruiria toda ordem jurídica e social, impossibilitando, pois, o governo civil. Tal visão da liberdade religiosa, afirmou o Chefe de Justiça Morrison Waite (1879), “com efeito, permitiria todos os cidadãos a se tornarem uma lei para si mesmos. Sob essas circunstâncias, o governo poderia existir somente nominalmente”.

Podemos, pois, dizer que a liberdade religiosa se encontra dentro do contexto de uma religião e tradição moral particulares. A liberdade de religião absoluta significa a licença total de praticar todo tipo de crime e perversão. Uma estrutura jurídica incorpora um código moral e uma religião implícita. A liberdade que essa estrutura legal fornece se encontra dentro dos limites dessa religião: ela não pode permitir práticas que são criminosas com base em seus pressupostos. 

Contudo, a colonização americana não permite que qualquer igreja em particular receba status privilegiado por parte do Governo Federal, nem que algum tipo particular de teologia seja preferido. O cristianismo de common law  significa que a estrutura jurídica do condado seja bíblica, não budista, nem islâmica, nem demais religiões. A questão é simplesmente: qual religião fundamentará a lei e a sociedade?



Notas:
[2] Trata-se do serviço de receita do governo federal dos Estados Unidos, que, semelhante à Receita Federal no Brasil, é responsável pela tributação e coleta de impostos (Nota do Tradutor).


Extraído do livro "Cristianismo e Estado" (Editora Monergismo), cujo conteúdo está disponível em PDF em: https://chalcedon.edu/resources/books/cristianismo-e-estado.
A primeira versão desse livo foi publicada em 1986, no Estado da Califórnia.


>>> LER A POSTAGEM...

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Pacifista ou Pacificador?? (por Peter Hammond)



Me espanta como muitas pessoas interpretam erroneamente a Bíblia, mesmo quando a memorizam. Talvez elas queiram que a Bíblia diga o que eles acham o que é a verdade, e não o que ela realmente diz.

Em Mateus 5, Jesus se dirige aos seus discípulos mais próximos durante O Sermão da Montanha, dizendo; "Bem-aventurados os (pacificadores ou pacifistas], porque eles serão chamados filhos de Deus". Mas, qual destas duas coisas Ele realmente disse?

Hoje em dia muitos cristãos pensam que Jesus disse "pacifistas". Um dos maiores problemas na Igreja Cristã de hoje é que a maioria quer ser pacifista e não pacificadora. A mesma verdade aplica-se à sociedade secular. Existem aqueles políticos que pensam que manter a paz é mais importante que construir a paz.

Um recente presidente norte-americano achou que deveria receber o Premio Nobel da Paz porque ele se achava um grande estadista. Ele pensava assim porque tinha "mantido a paz" em várias partes do mundo. Como ele conseguiu isso? Ele enviava tropas para atuarem junto com tropas de outros países e ficar posicionadas entre duas facções rivais em guerra, impedindo de se matar, como foi em Kosovo, por exemplo.

Qual é o problema com a forma de pensar de um pacifista? O problema é que quando aquelas tropas são retiradas de lá, aquelas mesmas facções começar a se matar novamente.

Porque?

A resposta é simples. Aquelas tropas não "construíram a paz", mas apenas "mantiveram a paz". Aquilo foi uma situação temporária, uma prevenção artificial contra algumas matanças, mas o problema, a causa daquela guerra não foi tratada. As questões profundamente arraigadas das guerras não foram devidamente abordadas e eliminadas. Um lacre foi colocado na tampa de uma panela de pressão, mas todo o vapor está preso lá dentro. Isso vai eventualmente explodir quando o "impedimento" artificial for removido.

A mesma coisa vemos acontecer na Igreja de Cristo. Determinadas situações se desenvolvem numa igreja local onde você "vê" os canhões apontados através dos corredores. Pessoas que tem opiniões decididamente diferente uma das outras se sentam em lugares distantes e procuram não olhar naquela direção para evitar qualquer contato visual.

Quantos pastores, pregadores, diáconos, presbíteros, mestres e membros do ministério da música dizem algo assim:

"Olha, nós não deveríamos tocar nesse assunto porque fulano ou sicrano pode se ofender."
"Olha, nós não deveríamos tocar nesse assunto porque fulano ou sicrano pode sair da igreja."
"Olha, não podemos mudar isso, porque foi a tia do fulano que doou isso para a igreja."

Um pacifista sempre leva a conversa para longe do motivo que está causando a confusão. Os pacifistas evitam confrontos à qualquer custo. Ele são os inventores regra do "deixa disso". Eles são especialistas em mudar de assunto, evitar argumentações e redirecionar ou confundir a conversa. A paz conseguida por um pacifista é uma paz falsa e momentânea. Essa paz é externa, superficial e incapaz de mudar o coração e a mente de qualquer pessoa.

O resultado do "deixa disso" na verdade permite que a doença e a fraqueza continuem. Essa regra mantém famílias doentes e disfuncionais à continuarem vivendo seus ciclos destrutivos. A pacificação faz com as igrejas evitem questionar e tratar condutas pecaminosas e nocivas ao Corpo.

A cura para tudo isso é que os pacificadores tem que se posicionar e dizer: "Existe um problema aqui e nós precisamos resolver isso agora!" Os pacificadores enxergam o problema e imediatamente entram em ação para consertar, reconciliar e restaurar. Eles promovem soluções à longo prazo.

Quando os pacificadores fazem isso, são, via de regra acusados de serem insensíveis, sem amor, julgadores, acusadores, causadores de problemas, legalistas e INTOLERANTES. Quando um pacificador aponta para um comportamento impróprio de alguém, ele é totalmente demonizado e o verdadeiro culpado é desculpado, tolerado e segue sem correção. João Batista foi um pacificador e perdeu sua cabeça porque chamou o pecado DE pecado. Jesus é o Príncipe da Paz mas chamou os fariseus de raça de víboras, e eles o crucificaram. Onze dos doze apóstolos do Cordeiro foram martirizados porque fizeram a consciência dos homens doer.

Os pacificadores não ficam com suas bocas fechadas quando percebem um comportamento errado, mas ao contrário disso eles são justamente aqueles dispostos à pagar o preço de expor aquele problema. Disse disse aos seus discípulos em Mateus 5:9:
"Bem-aventurados (afortunados) são os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus."
Ele também disse em Mateus 5:14:
"Vocês são a Luz do mundo. Não é possível esconder uma cidade construída sobre um monte."
Jesus disse que os filhos e filhas de Deus não escondem sua Luz dentro de uma cesta, mas a coloca no topo de uma montanha como um farol de justiça. Ele disse, "deixem vossa Luz brilhar a tal ponto que os homens possam ver as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está no céu."

Em João 9 Jesus disse que Ele era a Luz do mundo enquanto estivesse aqui, mas agora que ele voltou ao Céu, NÓS temos que ser a Luz do mundo. Nós somos Luz da mesma forma que Ele foi Luz. Luz e trevas (escuridão) não podem coabitar. A luz sempre preenche o vazio das trevas, porque a treva é apenas ausência de luz. A treva (ou escuridão) não tem substância, portanto, porque deveríamos ter medo dela? Nós precisamos brilhar a Luz Dele, no meio das trevas para que aqueles que estão sendo enganados possam receber a Verdade.

Em Mateus 5:13, Jesus fala sobre aqueles que não querem brilhar Sua Luz da Verdade:
"Vós sois o sal da terra; se o sal se tiver tornado insípido, como se poderá restaurar-lhe o sabor? para nada mais presta, senão para ser lançado fora e pisado pelos homens.
O sal é bom. Ele impede a deterioração provocada por bactérias, fungos, etc. A luz ultravioleta também mata bactérias. O sal e a luz são inimigos das bactérias porque impedem a deterioração.

Os pacifistas são amados por todos porque saem por aí declarando amor à todo mundo, dizendo que Deus é amor, etc,. Os pacifistas se esquecem de dizer (ou não querem) que o mesmo Deus que ama à todos, também é Juiz de todos.

Em Ezequiel 3:18-19, Deus disse que os crentes pacifistas serão chamados para prestar contas dos pecados dos iníquos porque eles não os alertaram sobre isso, enquanto os pacificadores não serão responsabilizados pelos pecados dos iníquos, porque obedeceram ao que Deus mandou fazer e alertaram os pecadores de suas iniquidades.

Os pacificadores confrontam, mas uma forma amorosa. A verdade sem amor é cruel MAS amor sem a verdade é comprometedor, perigoso. O apóstolo Paulo disse as coisas que ele ensinou à homens fiéis, estes deveriam ensinar à outros. Paulo disse que a mensagem não muda. (Veja também Mateus 5:19)

Paz é algo muito maior do que apenas ausência de conflito. Paz é a presença de retidão, justiça, integridade. A verdadeira paz produz relacionamentos que aproximam e unem antigos inimigos. A integridade, retidão, colocam um fim no desejo de causar danos ou dor aos outros. Ela ministra o amor que produz harmonia. Quando uma pessoa é redimida através do perdão de Deus e realmente experimenta o amor genuíno em seu coração, a paz verdadeira vem fazer morada nela.

Quando uma pessoa lê as beatitudes (bem-aventuranças) e aprende que aqueles que as praticam são abençoados, percebe que eles (os pacificadores) se destacam, se excedem dos demais. Deve ser muito difícil ser um pacificador, porque de outra forma, porque ele seria citado nominalmente e ser merecedor de uma benção especial, exclusiva?

Ser um pacificador é fazer parte de uma processo difícil mas necessário, porque estamos lidando com os corações de homens e mulheres.

As pessoas não querem morrer para seus próprios desejos e não gostam de ser confrontadas.

Os pacificadores são puros em suas intenções. Isaías disse "ai de mim" antes de dizer "ai de vós." Eles estão dispostos a se envolver em conflitos, mesmo que sua carne não queira, porque amam à Deus e Sua Palavra acima de qualquer outra coisa. Os pacificadores exortam e repreendem com muita longanimidade, "em tempo e fora de tempo" (2 Timóteo 4:2-5). Eles não são apaziguadores bajuladores. Eles ficam firmes e inabaláveis, quando os demais já se corromperam e comprometeram seus princípios, para que tenham a chance de trazer uma última oportunidade às pessoas. Eles estão dispostos à denunciar heresias e incredulidades. Calebe e Josué foram pacificadores.

Em João 15:18-20, Jesus falou que "se o mundo o odiava e o perseguia, também odiaria e perseguiria aqueles que o seguissem". Quando não estamos sendo perseguidos (pelo mundo), talvez é porque não estamos seguindo os ensinamentos Dele.

A questão é... nós amamos as pessoas o suficiente para dizer a verdade à elas? Jesus amou, e seu único crime foi dizer a verdade ao mundo.

Os pacificadores levam outros a ter paz (acertar as contas) com Deus. Os pacificadores estão dispostos à cumprir missões pesadas. As pessoas que ensinam a verdade e conseguem aplicar isso na vida dos seus ouvintes são os verdadeiros pacificadores.

Esse ministério vai sempre lutar para ser uma missão pacificadora no mundo.


>>> LER A POSTAGEM...

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Baal e Leviatã - Mitos e a Bíblia (por Brian Godawa)


O panteão dos deuses se reúne para combater o monstro do caos e proteger seu território e reino. Quando as águas dos céus se separam, o dragão do mar do caos rompe e deixa destruição em seu rastro. O panteão luta contra o dragão do mar e seus monstros aliados até que ele é parado em seu caminho pelo poderoso deus da tempestade.

Aqueles que são instruídos sobre a antiga mitopéia do Oriente Próximo reconhecerão este enredo como o épico cananeu de Baal e Leviatã ou o épico babilônico de Marduk e Tiamat, o dragão do mar. Mas o que eles podem não saber é que também é o enredo do filme blockbuster da Marvel de 2012: Os Vingadores. O propósito de trazer à tona este ponto é chamar a atenção para a relevância moderna dessa antiga narrativa antes de descermos ao turbulento mar de antigos memes e motivos mitológicos que são rapidamente descartados como uma obsessão mesquinha de minúcias arcaicas obscuras que não conseguem se conectar às nossas vidas no mundo moderno. Leviatã vs. o deus da tempestade ainda é um conto que estamos recontando hoje em culturas religiosas e seculares.

O objetivo desta postagem será examinar mais de perto a narrativa antiga do Oriente Próximo sobre o combate divino, uma vez que ambos foram apropriados e subvertidos pelos autores hebreus da Bíblia como uma polêmica para a visão de mundo deles.

Por subversão, queremos dizer o ato de transformar uma narrativa cultural oposta em sua própria narrativa com novas definições e novos significados.

Com a descoberta nos séculos 19 e 20 de textos religiosos de culturas do antigo Oriente Próximo (ANE), como Babilônia, Assíria e Ugarit, a erudição bíblica descobriu muitos paralelos literários entre as Escrituras e a literatura dos antigos inimigos de Israel. Como todos no mundo de hoje, os hebreus compartilhavam muitas palavras, imagens, conceitos e gêneros narrativos em comum com seus vizinhos. E como fazemos hoje, aqueles hebreus incorporaram elementos literários semelhantes e às vezes mudaram os significados dentro de seu próprio contexto de cosmovisão.

Com relação a esses paralelos literários bíblicos e antigos do Oriente Próximo, os estudos críticos tendem a enfatizar as semelhanças, minimizar as diferenças e construir uma teoria da evolução da religião de Israel do politeísmo ao monoteísmo. Em outras palavras, o conhecimento crítico é antropocêntrico, centrado no homem. Os estudos confessionais tendem a enfatizar as diferenças, minimizam as semelhanças e interpretam as evidências como indicativos da alteridade radical da religião israelita. Em outras palavras, o conhecimento confessional é teocêntrico, centrado em Deus. Dessa maneira, tanto a hermenêutica crítica quanto a confessional erram em extremos opostos.

Baal em Canaã

Em 1929, uma escavação arqueológica em um monte no norte da Síria chamado Ras Shamra desenterrou os remanescentes de uma importante cidade portuária chamada Ugarit, cuja cultura desenvolvida remonta a 3000 a.C.[1]. Entre os achados importantes estavam as tábuas literárias que abriram as portas para uma compreensão mais profunda da cultura do antigo Oriente Próximo e da Bíblia. Essas tábuas incluíam textos religiosos siro-cananitas de divindades pagãs mencionadas no Antigo Testamento. Uma dessas divindades era Baal (ortografia alternada de Ba'al).

Embora o substantivo semítico baal signifique “senhor” ou “mestre”, também foi usado como o nome próprio do deus da tempestade cananeu.[2] No ciclo narrativo de Baal de Ugarit, El era o supremo "pai dos deuses", que vivia em uma montanha cósmica. Um conselho divino de deuses chamado “Filhos de El” o cercou, disputando posição e poder. Quando Yam* é coroado por El e recebe um palácio, Baal se levanta e mata Yam, tomando o lugar de Yam como "Altíssimo" sobre os outros deuses (exceto El). Um templo é construído e uma festa é celebrada. A morte então insulta Baal, que desce ao submundo para ser derrotado pela morte. Mas Anat, a irmã violenta de Baal, busca a Morte e a corta em pedaços e traz o corpo de Baal de volta à terra onde ele é trazido de volta à vida, apenas para combater a Morte a um impasse.[3]


* Yam (ים) é a palavra hebraica para "Mar". O autor preferiu traduzir em seu texto como "Sea".


O Dicionário de Deidades e Demônios na Bíblia explica Baal:
"Sua posição elevada se mostra no seu poder sobre as nuvens, tempestades e raios, e se manifesta em sua voz trovejante. Como o deus do vento e do tempo, Baal concede orvalho, chuva e neve e a consequente fertilidade do solo. O domínio de Baal garante o retorno anual da vegetação; como o deus desaparece no submundo e retorna no outono, a vegetação morre e ressuscita com ele."[4]

Baal e a Bíblia

Na Bíblia, Baal é usado tanto como o nome de uma divindade específica[5] quanto como um termo genérico para múltiplos ídolos adorados pelo Israel apóstata.[6] Ele também foi usado em conjunto com os nomes de cidades e localidades, como Baal-Hermon e Baal-Zafon, indicando manifestações da única divindade adorada em uma variedade de diferentes situações cananeias.[7] Simplificando, em Canaã, Baal estava em todo lugar. Ele era o deus principal da terra.

Ao entrar em Canaã, o Senhor deu instruções específicas aos israelitas para destruir todos os lugares onde os cananeus adoravam, juntamente com seus altares e imagens (Deuteronômio 12:1-7). Eles deveriam "destruir os nomes" dos ídolos estrangeiros e substituí-los pelo nome e habitação de Yahweh (vs. 3-4). Deus os avisou: “Guardai-vos, que o vosso coração não se engane, e vos desvieis, e sirvais a outros deuses, e vos inclineis perante eles” (Deut. 11:16).

No entanto, voltar-se para outros deuses na adoração é exatamente o que os israelitas fizeram - repetidas vezes. Assim que o povo se estabeleceu em Canaã, eles começaram a adotar o culto a Baal em sua cultura. O livro de Juízes descreve esse ciclo de idolatria sob sucessivos líderes.[8] No século IX aC, Elias lutou contra a adoração desenfreada de Baal em todo o Israel (1 Reis 18). No oitavo século, Oséias condenou a intimidade adúltera que tanto Judá quanto Israel tinham com Baal (Os 2:13, 16-17), e no século VII, Jeremias lutou com uma infestação dela em Judá (Jer. 2: 23; 32:35).

O culto de Baal foi tão canceroso em toda a história de Israel que Jeová teria que intervir periodicamente com demonstrações dramáticas de autoridade a fim de conter a infecção que poluía a congregação do Senhor. As libertações milagrosas de Gideão dos midianitas amantes de Baal (Juízes 6-8) e o encontro de Elias com os profetas de Baal (1 Reis 18) são apenas alguns exemplos da polêmica do mundo real de Jeová contra Baal. Mas batalhas físicas e sinais milagrosos e maravilhas não são a única maneira pela qual Deus fez uma guerra contra Baal na antiga Canaã. Ele também usou história, imagem e metáfora. Ele usou a imaginação literária.

Jeová versus Baal

A subversão literária era comum no mundo antigo para afetar a derrubada ou obscurecimento de uma divindade e visão de mundo com outra. Por exemplo, a alta deusa Inana, considerada a Rainha do Céu na antiga Suméria, foi substituída por sua contraparte babilônica, Ishtar. Um texto sumério importante, A Descendência de Inanna no Mundo Inferior, foi reescrito pelos babilônios como A Descida de Ishtar para o Submundo para acomodar sua deusa Ishtar.[9] O épico da criação da Babilônia, Enuma Elish, conta a história da divindade babilônica Marduk e sua ascensão ao poder no panteão da Mesopotâmia.[10] E então, quando o rei Senaqueribe da Assíria conquistou a Babilônia por volta de 689 a.C., os escribas assírios reescreveram o Enuma Elish e substituíram o nome de Marduk por Assur, seu deus principal.[11]

Imagine este cenário: Os israelitas deixaram o Egito, onde o Senhor literalmente zombou e derrotou os deuses do Egito através das dez pragas (Êxodo 12:12; Núm. 33:4). Faraó alegou ser um deus, que de acordo com textos egípcios, era o "possuidor de um braço forte" e uma "mão forte".[12] Então, quando Yahweh repetidamente martela a mensagem de que Israel será libertado pelo "braço forte" de Yahweh ”e "mão forte", a ironia polêmica não é difícil de detectar. Yahweh usava imagens literárias subversivas, que na verdade diziam: "Faraó não é Deus, eu sou Deus". Nada como um braço de ferro para mostrar quem é mais forte.

Mas agora, Deus está levando Israel para a Terra Prometida, que é muito diferente de onde eles vieram, com deuses muito diferentes. "Porque a terra que passas a possuir não é como a terra do Egito, de onde saíste, em que semeavas a tua semente, e a regavas com o teu pé, como a uma horta. Mas a terra que passais a possuir é terra de montes e de vales; da chuva dos céus beberá as águas" (Deuteronômio 11:10-11). E o deus da chuva do céu nesta nova terra acreditava-se ser o deus da vegetação e da tempestade, Baal [13].

Agora, o texto bíblico começa a refletir a linguagem do deus da tempestade em sua referência ao Deus de Israel, Jeová. Vamos dar uma olhada em alguns textos ugaríticos que nos darão uma descrição literária do Baal que Israel enfrentou em Canaã. Uma amostragem lado a lado desses textos ugaríticos com as Escrituras ilustram um forte reflexo dos ecos cananitas na narrativa bíblica.

TEXTOS UGARÍTICOS[14]
VELHO TESTAMENTO
Baal senta-se ... no meio de 
sua montanha divina, 
Saphon, 
no meio da montanha 
da vitória. 
Sete relâmpagos, 
oito feixes de trovão  
uma árvore-de-relâmpago 
na mão direita. 
Sua cabeça é magnífica.
Sua testa está encharcada 
de orvalho.
Seus pés são eloquentes 
na ira. 
(KTU 1.101:1-6) [15] 

A estação de suas as chuvas 

pode Baal de fato nomear, 
a estação da sua 
carruagem de tempestade. 
E o som de sua voz 
das nuvens, 
lançando para a terra 
dos relâmpagos  
(KTU 1.4:5.5-9) 

Em sua voz sagrada 

a terra tremeu; 
na questão de seus lábios 
as montanhas estavam 
com medo
... 
as colinas da 
terra cambaleavam. 
(KTU 1.4: 7.30-35) 

agora seu inimigo, Baal, 

agora seu inimigo Yamm
você deve ferir; 
agora você deve destruir 
seu adversário! 
Tome seu reino eterno 
seu domínio eterno! 
(KTU 1.2:4.9-10)
O Senhor veio de Sinai ....
à sua direita havia para eles 
o fogo da lei...

Não há outro, ó Jesurum, 

semelhante a Deus, 
que cavalga sobre os céus 
para a tua ajuda, 
e com a sua majestade 
sobre as mais altas nuvens.
....
e Ele lançará o inimigo 
de diante de ti, 
e dirá: Destrói-o.
Israel, pois, habitará só, 
seguro, 
na terra da fonte de Jacó, 
na terra de grão e de mosto; 
e os seus céus gotejarão orvalho.
(Deuteronômio 33:2, 26-28)

A voz do Senhor ouve-se 

sobre as suas águas; 
o Deus da glória troveja; 
o Senhor está 
sobre as muitas águas. 
...
A voz do Senhor quebra 
os cedros; 
sim, o Senhor quebra os cedros 
do Líbano. 
...
A voz do Senhor separa 
as labaredas do fogo. 
A voz do Senhor faz tremer 
o deserto; 
o Senhor faz tremer 
o deserto de Cades. 
...
e no seu templo 
todos falam da Sua glória. 
O Senhor se assentou entronizado 
sobre o dilúvio; 
o Senhor é entronado como Rei, 
perpetuamente. 
 (Salmos 29:3-11)


Como o uso do “braço forte” de Jeová para argumentar poeticamente contra o chamado “braço forte” de Faraó, Jeová inspira Seus autores a usar a linguagem da água e da tempestade para refletir a polêmica de Deus contra o chamado deus da tempestade, Baal.

Comparar os textos produz palavras, memes e metáforas idênticas que sugerem que Deus está envolvido em polêmicas contra Baal por meio de imagens bíblicas e narrativas. Não é Baal que monta sua carruagem de nuvens de sua montanha divina Saphon (Sapan); é Jeová quem cavalga as nuvens como uma carruagem do monte Sinai. Não é Baal quem lança relâmpagos em fúria; é o Senhor cujos relâmpagos destroem os seus inimigos. Não é Baal cuja testa encharcada de orvalho rega a terra de Canaã; é o Senhor que deixa cair o orvalho do céu para Canaã. Não é a voz de Baal que troveja e conquista as águas, resultando em sua eterna entronização no templo; é Jeová cuja voz troveja e conquista as águas, resultando na eterna entronização do templo.

O salmo 29 (citado em parte acima) é tão repleto de poesia em comum com a poesia cananéia que muitos estudiosos da ANE concluíram que é um hino cananeu a Baal que foi reescrito com o nome Baal substituído pelo nome Jeová.[16] Deus não estava apenas fisicamente desapropriando Canaã de seus habitantes; Ele estava literalmente desapropriando os deuses cananeus também. A apropriação da cultura cananeia no Antigo Testamento é um caso de subversão, não de sincretismo - derrubando narrativas culturais em oposição a misturar-se com elas. 


O Dragão e o Mar

Nas antigas mitologias religiosas do Oriente Próximo, o mar e o dragão do mar eram símbolos do caos que precisavam ser superados para trazer ordem ao universo, ou, mais precisamente, à ordem política mundial da cultura originária do mito. Alguns estudiosos chamam essa batalha de Chaoskampf - a luta divina para criar ordem a partir do caos.[17] Os relatos de criação eram muitas vezes polêmicas veladas para o estabelecimento de uma reivindicação de soberania do rei ou do reino.[18] Richard Clifford cita: "Na Mesopotâmia, Ugarit e Israel, o Chaoskampf aparece não apenas em contextos cosmológicos, mas com a mesma freqüência - e isso era fundamentalmente verdadeiro desde o início - em contextos políticos. A repulsa e a destruição do inimigo e, portanto, a manutenção da ordem política, constituem sempre uma das principais dimensões da batalha contra o caos."[19]

Por exemplo, os sumérios tinham três histórias em que os deuses Enki, Ninurta e Inanna destruíram monstros marinhos em sua busca de estabelecer a ordem. O monstro marinho em duas dessas versões, de acordo com o especialista sumeriano Samuel Noah Kramer, é "concebido como uma grande serpente que vivia no fundo do 'grande embaixo' onde este entrava em contato com as águas primitivas".[20] No mito da criação da Babilônia, Enuma Elish, Marduk luta contra a deusa dragão do mar Tiamat e divide seu corpo em duas partes, criando os céus e a terra, a ordem mundial sobre a qual Marduk governou a divindade de Babilônia.


Arte do filme da Marvel, "Os Vingadores". Ei, espere um minuto.
É o Hulk ou Baal esmagando a cabeça do Leviatã?
Os artistas da Marvel até chamaram a fera de "Leviatã".

Outra comparação lado-a-lado dessas mesmas passagens ugaríticas que consideramos acima com outras passagens do Antigo Testamento revela outra narrativa comum: Jeová, o cocheiro das nuvens, metaforicamente batalha com o Mar (hebraico: yam) e o Rio (hebraico: nahar). Assim como Baal lutou com Yam e Nahar, que também está ligado à vitória sobre um dragão/serpente do mar.

TEXTOS UGARÍTICOS
VELHO TESTAMENTO
"Seque-o. Ó Valente Baal!
Seca-o, ó Cocheiro das Nuvens!
O nosso cativo é 
o príncipe Yam [Mar],
porque nosso cativo é 
o Comandante Nahar [Rio]!
(KTU 1.2:4.8-9) [21]

Que tipo de inimigo 
surgiu contra Baal,
de inimigo contra 
o Cocheiro das Nuvens?
Certamente eu feri o Amado de El, Yam [Mar]?
Certamente eu exterminei Nahar [Rio], o poderoso deus?
Certamente eu ergui o dragão
Eu o dominei?
Eu feri a serpente que retorce,
Rodeadora com sete cabeças!
(KTU 1.3:3.38-41)
Acaso é contra os rios, Senhor, que estás irado? É contra os ribeiros a tua ira, ou contra o mar o teu furor, visto que andas montado sobre os teus cavalos, e nos teus carros de salvação?
(Habacuque 3:8)

Naquele dia o SENHOR castigará com a sua dura espada, grande e forte, o leviatã, serpente veloz, e o leviatã, a serpente tortuosa, e matará o dragão, que está no mar.

(Isaías 27:1)

Tu dividiste o mar pela tua força; quebrantaste as cabeças das baleias nas águas.
Fizeste em pedaços as cabeças do leviatã, e o deste por mantimento aos habitantes do deserto.

(Salmos 74:13,14)

Baal luta contra o mar e o rio para estabelecer sua soberania como cocheiro das nuvens. Ele ganha bebendo o Mar e o Rio, secando-os e estabelecendo assim sua supremacia sobre o panteão e a ordem mundial cananeia.[22] Da mesma forma, a Bíblia descreve o Senhor como furioso contra o Mar e o Rio em sua carruagem de nuvem. Na segunda passagem cananeia, a batalha de Baal com o Mar e o Rio é recontada em outras palavras como uma batalha com um "dragão", a "serpente que retorce" com sete cabeças.[23] Outro texto de Baal chama esse mesmo dragão, "Lotan, a serpente que retorce".[24] Os equivalentes hebraicos das palavras ugaríticas tannin (dragão) e lotan são tannin (dragão) e liwyatan (Leviatã), respectivamente.[25] Esta é exatamente a mesma descrição que a Bíblia usa de Jeová lutando contra a serpente do mar Leviatã "fugindo e retorcendo", cujos múltiplos chefes (plural), Jeová esmagou no incidente do Mar Vermelho.[26]


E observe também a referência ao evento do Mar Vermelho, também associada ao Leviatã no texto bíblico. No Salmo 74 acima, a separação de Deus das águas está ligada ao motivo da aliança mosaica como a criação de uma nova ordem mundial, da mesma forma que a vitória de Baal sobre as águas e o dragão são emblemáticos de seu estabelecimento de autoridade no reino no panteão cananeu. Este tema da aliança é descrito como uma batalha de Chaoskampf com o Mar e Leviatã (também chamado de Raabe) em várias outras referências bíblicas significativas também.[27]


Traduzido e adaptado de:


Notas:

[1] Avraham Negev, “Ugarit,” The Archaeological Encyclopedia of the Holy Land, 3rd ed. (New York: Prentice Hall Press, 1996).

[2] Karel van der Toorn, Bob Becking, and Pieter Willem van der Horst, Dictionary of Deities and Demons in the Bible (DDD), 2nd ext. rev. ed. (Grand Rapids: Eerdmans, 1999), 132.

[3] N. Wyatt, Religious Texts from Ugarit, 2nd ed., The Biblical Seminar, vol. 53 (London: Sheffield Academic Press, 2002), 36-39.

[4] “Baal,” DDD, 134.

[5] Juízes 6; 1 Reis 18; 2 Reis 10.

[6] Juízes 2:13; 1 Samuel 12:10; Jeremias 2:23.

[7] "Baal", DDD, 136.

[8] Juízes 2:11; 3: 7; 8:33.

[9] Stephanie Dalley, trans., Myths from Mesopotamia: Creation, The Flood, Gilgamesh and Others (New York: Oxford University Press, 1989, 2000, 2008), 154-62. A versão suméria pode ser encontrada em Jeremy Black, trans., The Literature of Ancient Sumer (New York: Oxford University Press 2004, 2006), 65-76.

[10] Alexander Heidel, trans., The Babylonian Genesis (Chicago: University of Chicago, 1942, 1951, 1963), 14.

[11] C. Jouco Bleeker and Geo Widengren, eds., Historia Religionum I: Religions of the Past (Leiden, Netherlands: E. J. Brill, 1969), 134.

[12] John D. Currid, Ancient Egypt and the Old Testament (Grand Rapids: Baker; 1997), 83.

[13] Fred E. Woods, Water and Storm Polemics against Baalism in the Deuteronomic History, American University Studies, Series VII, Theology and Religion (New York: Peter Lange Publishing, 1994), 32-35.

[14] A abreviação KTU significa "Keilalphabetische Texte aus Ugarit", a coleção padrão deste material da Ugarit.

[15] Todos estes textos ugaríticos podem ser encontrados em N. Wyatt, Religious Texts from Ugarit, 2nd ed., The Biblical Seminar, vol. 53 (London: Sheffield Academic Press, 2002).

[16] Aloysius Fitzgerald, "A Note on Psalm 29," Bulletin of the American Schools of Oriental Research, no. 215 (October 1974), 62. Uma interpretação mais conservadora reivindica um discurso poético semítico comum.

[17] Hermann Gunkel first suggested this theme in Schöpfung und Chaos in Urzdt und Endzeit(1895).
[18] Bruce R. Reichenbach, “Genesis 1 as a Theological-Political Narrative of Kingdom Establishment,” Bulletin for Biblical Research 13, 1 (2003).
[19] Clifford, Creation Accounts, 8, n. 13.
[20] Samuel Noah Kramer, Sumerian Mythology: A Study of Spiritual and Literary Achievement in the Third Millennium B.C. (Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1944, 1961, 1972), 77-78.
[21] “Cocheiro das Nuvens” também aparece nestes textos: KTU 1.3:4:4, 6, 26; 1.4:3:10, 18; 1.4:5:7, 60; 1.10:1:7; 1.10:3:21, 36; 1.19:1:43; 1.92:37, 39.
[22] KTU 1.2:4:27-32.
[23] Veja KTU 1.5:1:1-35.
[24] KTU 1.5:1:1-4.
[25] Walter C. Kaiser, Jr., The Ugaritic Pantheon (dissertation) (Ann Arbor, MI: Brandeis University, 1973), 212.
[26] Veja também Isaías 51:9; Ezequiel 32:2; Apocalipse 12:9, 16, 17.
[27] Salmos 89:9-10; Isaías 51:9-10; Jó 26:12-13. Salmos 18, 29, 24, 29, 65, 74, 77, 89, 93, e 104 todos refletem chaoskampf. Veja também Êxodo 15, Jó 9, 26, 38, e Isaías 51:14-16; 2 Samuel 22.


>>> LER A POSTAGEM...

Ver o artigo ou a parte anterior Ver a página principal
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...