sábado, 9 de janeiro de 2016

*A serpente no Éden era o diabo? (por Tim Chaffey)


Nota: Adaptei livremente o título desse artigo ao traduzir, sendo que o original era: The Devil Is in the Details … or Is He?




A maioria dos cristãos sabe tudo sobre a serpente no Jardim do Éden e o fruto que ele ofereceu a Eva. Sério? Pare por um minuto e veja atentamente. O que a Bíblia realmente revela sobre aquela criatura astuta cuja tentação trouxe a ruína sobre a humanidade?

Estamos todos familiarizados com a cena triste quando o primeiro homem e a primeira mulher se rebelaram contra o seu Criador. Em um dia ensolarado, Eva vagou por entre as árvores examinando os frutos saborosos que Deus tinha colocado ao longo do Jardim do Éden, quando de repente ela ouviu uma voz. Virando-se, viu que as palavras vieram de uma serpente. Nada demais. Muitos animais falavam. Eva era inocente, então ela nunca suspeitou de uma conspiração sinistra e facilmente se envolveu na conversa.

Nós precisamos separar a Palavra de Deus
de nossas conjecturas.

Espere. Pare. Segura aí. Não foi isso que aconteceu, não exatamente.  Você vê, enquanto Eva caminhava pelo jardim admirando as saborosas variedades, um ser angelical poderoso chamado de querubim se aproximou dela e iniciou uma discussão. Dado que Eva tinha visto regularmente anjos em sua casa imaculada no Éden, ela não tinha motivos para ser cautelosa.

Uau! Isso não está na Bíblia também. Eva estava ajudando Adão a cuidar do jardim quando ela acidentalmente se desviou de Adão e chegou muito perto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Satanás aproveitou a oportunidade para enganar a mulher ao possuir uma serpente, que se arrastou para baixo da árvore para falar com ela. Certo?

Quando falamos de famosos eventos bíblicos, assim como Davi e Golias, muitas vezes assumimos que sabemos o que aconteceu com riqueza de detalhes, até que alguém pergunta: "Mas onde é que na Bíblia?" Então percebemos como muitos detalhes vieram de professores, livros ou filmes que nos defrontamos ao longo dos anos, e não das Escrituras.[1] Neste caso, onde é que Gênesis realmente identifica o enganador de Eva como o diabo? Que tipo de serpente fala? Era a serpente na árvore? E por que Eva não ficou chocada ao ouvir uma criatura falando?

Em nosso esforço para dar sentido a essas cenas estranhas (e únicas) da história - baseada na perspectiva limitada de nossas próprias vidas - a maioria dos leitores, naturalmente, tentar preencher os detalhes. Mas temos de ter cuidado. Deus tem um motivo para cada palavra que diz. . . e não diz. Precisamos separar a Palavra de Deus de nossas conjecturas.

Portanto, qualquer uma desses três releituras representam de perto o que aconteceu? O que realmente sabemos sobre os detalhes? As respostas dependem em grande parte de quem você perguntar. Então, vamos examinar quem promoveu cada um destas três visões para ver se eles tinham algum apoio bíblico para nos ajudar a identificar esta criatura. Uma vez que as respostas lancem luz sobre a interação entre os seres humanos e os "poderes" malignos que tentam nos atrair para o pecado, a nossa compreensão adequada é de vital importância para a nossa caminhada com Deus (cf. Efésios 5:152 Coríntios 2:11).

A serpente era apenas um animal?


Alguns escritores judeus antigos não achavam que Satanás estava por trás da tentação. Afinal de contas, o nome de Satanás não aparece no Gênesis. Eles acreditavam que a própria serpente tentou Eva. Para tal coisa incrível ser possível (uma serpente falando), eles assumiram que esta criatura, juntamente com muitos outros animais, era originalmente capaz de falar. A astúcia deste animal específico levou à queda de Eva em pecado.

O Livro dos Jubileus, escrito antes do Novo Testamento e de interesse histórico (embora não faça parte da Palavra de Deus), afirma que no dia em que Adão e Eva foram expulsos do jardim, Deus fechou a boca de todas as coisas vivas "de modo que eles não puderam mais falar: porque eles todos falavam uns com os outros com um lábio [um sotaque] e um idioma." (Jubileus 3:28).

Josefo, um contemporâneo dos apóstolos, repetiu essa ideia popular judaica, escrevendo que Deus "também privou a serpente de falar, por indignação ao sua disposição maliciosa em relação a Adão. Além disso, Ele inseriu veneno debaixo da sua língua, e fez dela um inimigo para os homens."[1]

Esta interpretação era bastante comum antes do primeiro século d.C. Nada em Gênesis indica que Satanás esteve envolvido aqui. O texto se refere apenas a um animal do campo, uma astuta "serpente", que tentou Eva. Precisamos lembrar que a maior parte do que sabemos sobre Satanás vem de escritos do Novo Testamento. Intérpretes judeus não teriam conectado facilmente Satanás à serpente no jardim.

Esta posição tem alguns pontos fracos, no entanto. O Novo Testamento relaciona "a serpente" a Satanás várias vezes (Apocalipse 12:9 e 20:2; ver também 2 Coríntios 11: 3-15). Além disso, Gênesis não indica que todos os animais, incluindo outras serpentes, tinha a capacidade de falar. Nem a Maldição incluía uma declaração sobre os animais perdendo sua capacidade de fala. Embora a serpente seja descrita como sendo "astuta" (Gênesis 3:1), este ponto de vista requer que a criatura seja má antes do pecado, independentemente da influência externa de Satanás. Finalmente, se o agressor era apenas uma serpente, então a maldição de Deus sobre a serpente em Gênesis 3:14-15 meramente profetiza que as cobras e os seres humanos não gostam um do outro.

A serpente era Satanás encarnado?


Outra visão é que Satanás foi capaz de manifestar fisicamente no jardim, provavelmente sob a forma de uma serpente (ou dragão). Alguns defensores dessa posição leem Gênesis 3:1 ("A serpente era o mais astuto de todos os animais do campo") e acreditam que isso significa que a serpente não era como os animais do campo. Ou seja, ele não era um deles ou então o texto teria dito "qualquer outro animal do campo." Ezequiel 28:12-17, visto por muitos cristãos como referindo-se, de alguma forma a Satanás, afirma que ele era um "querubim ungido" e estava no "Éden, o jardim de Deus". Esta posição faz um trabalho superior do que a visão anterior em explicar por que a serpente era capaz de falar, por que ele iria tentar Eva, e como a maldição de Deus sobre a serpente afetou mais que apenas a relação entre cobras e pessoas.

No entanto, esta visão tem sua própria cota de dificuldades. Por que Genesis sequer se preocupa em mencionar uma serpente, usando uma palavra hebraica comum para a serpente (nachash) e associá-la com os animais do campo, se nenhum animal foi realmente envolvido? Se o culpado não era uma serpente física, por que a praga se aplica à serpente e sua semente? E o que significaria que Satanás teria de rastejar sobre seu ventre? Este ponto de vista também levanta uma questão muito contestada sobre a habilidade de Satanás de se manifestar fisicamente.

A serpente foi possuída por Satanás?


A visão mais popular entre os cristãos hoje é que Satanás possuiu uma serpente. Esta posição combina os pontos fortes dos outros dois pontos de vista, minimizando as dificuldades. Uma serpente real estava envolvidq na tentação, assim como Gênesis 3 declara, mas Satanás também foi responsável, como o Novo Testamento parece indicar (João 8:44).

O Novo Testamento fornece um exemplo de espíritos malignos que possui animais (porcos, em Lucas 8:33)[2], então os cristãos não contestam a capacidade de Satanás realizar uma ação semelhante a esta. Como o ponto de vista anterior, este oferece uma explicação razoável para a capacidade da serpente de falar de forma inteligível e seu desejo de tentar Eva. Se você tomar este ponto de vista, então a primeira metade da Maldição de Deus (Gênesis 3:14) sobre a serpente pode aplicar-se à criatura existente, enquanto a segunda metade (Gênesis 3:15) pode ter sido dirigida apenas ou principalmente ao ser maligno que a possuiu.

No entanto, existem algumas objeções a esta posição que precisam de explicação. Por que Deus culpa a serpente, uma criatura não racional, em Gênesis 3:14 ("Porque fizeste isso...") e amaldiçoa a serpente e sua prole se Satanás tinha sido realmente o culpado? Se foi uma serpente real que estava sendo amaldiçoada a andar sobre seu ventre, isso significa que originalmente se movia de uma forma diferente? Será que ela tinha asas ou pernas? Embora existam respostas plausíveis para essas perguntas, não podemos ter certeza, dado o quão pouco a Escritura nos diz sobre esta situação.

Conclusão


As coisas não são sempre como parecem à primeira vista. Isso muitas vezes torna-se evidente quando estudamos as Escrituras em detalhe. No caso de a serpente no jardim, muitas perguntas permanecem sem resposta, e devemos estar hesitantes em responder a eles. Ou nós não temos conhecimento suficiente, ou o Espírito Santo escolheu não divulgar informação suficiente a nós para sermos conclusivos. O ponto de vista da possessão parece fazer mais sentido nas Escrituras e tem menos problemas do que as outras posições, mas nossa cápsula não está hermeticamente fechada.

Enquanto é intrigante pensar sobre a aparência da serpente e é importante considerar as maneiras que o diabo trabalha (2 Coríntios 2:11), uma preocupação muito mais importante é a forma como ele foi capaz de enganar a primeira mulher e como Satanás continua a seduzir as pessoas a duvidar da Palavra de Deus hoje. Assim como em Gênesis 3:1, onde liderou Eva a questionar a confiabilidade das demonstrações de Deus ("... Deus realmente disse ... ?"), o inimigo atualmente está atacando a confiabilidade dos primeiros capítulos de Gênesis, com resultados fatais semelhantes. Muitos crentes caíram nesse engano e optaram por ignorar ou reinterpretar a visão bíblica da origem do primeiro homem e o primeiro pecado. Este ataque tem tido resultados devastadores porque enfraquece a nossa compreensão da autoridade bíblica e a base da mensagem de salvação da alma do evangelho. Aprendendo com os erros de Eva, precisamos tomar uma posição firme na Palavra de Deus, a partir de Gênesis. Ele quis dizer o que Ele disse, e nós precisamos acreditar.


A serpente — Símbolo do Mal . . . e o Evangelho?

Desprezada. Detestada. Abominada. Desde que a serpente tentou Eva no jardim, serpentes foram odiadas como nenhuma outra criatura. 

Talvez o ponto baixo da serpente seja a sua ligação com Satanás. Prestando atenção de volta a Gênesis 3, o apóstolo João escreveu: "O grande dragão foi lançado fora. Ele é a antiga serpente chamada diabo ou Satanás, que engana o mundo todo." (Apocalipse 12: 9; 20: 2).

Jesus castigou os escribas e fariseus por sua hipocrisia, chamando-os de "serpentes" e uma "raça de víboras" (Mateus 23:33). João Batista usou esta mesma figura para descrever fariseus e saduceus (Mateus 3:7).

Salomão comparou vinho intoxicante à picada de uma serpente e veneno de uma víbora (Provérbios 23:32). Davi disse que homens maus "afiam a língua como a da serpente; veneno de víbora está em seus lábios" (Salmo 140:3). Os profetas retrataram serpentes como símbolos de julgamento (Jeremias 8:17; Amós 9:3).

Independentemente de suas conotações negativas, Deus ocasionalmente usado serpentes para fins dignos. Ele transformou as varas de Moisés e Arão em serpentes como sinais de que o Deus Todo-Poderoso tinha enviado aqueles homens para libertar os israelitas (Êxodo 4: 3-5; 7:9). Depois que cada mágico egípcio "jogou ao chão uma vara, e estas se transformaram em serpentes", Deus demonstrou Seu poder superior pela vara de Arão engolir as outras varas (Êxodo 7:12).

Mais tarde, o Senhor usou "serpentes ardentes" para julgar os israelitas murmuradores (Números 21:6). Deus instruiu Moisés a "fazer uma serpente de bronze, e colocá-la em um poste" de modo que qualquer um mordido por aquelas cobras de fogo pudessem olhar ela e ser curado (Números 21:8). Infelizmente, nos últimos séculos muitos judeus cometeram idolatria vergonhosa com esta serpente de bronze. Quando o rei Ezequias quebrou em pedaços essa imagem transformada em ídolo, chamada Nehushtan, a Escritura elogiou-o (2 Reis 18:4).

Deus tinha um último e surpreendente papel para essa serpente de bronze. Numa estranha reviravolta, o Criador referenciou a serpente insultada como uma imagem de Sua morte sacrificial na cruz. Imediatamente antes dEle dizer as palavras bem conhecidas nas Escrituras (João 3:16), Jesus comparou a Si mesmo com a serpente de bronze: "Da mesma forma como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também é necessário que o Filho do homem seja levantado, para que todo o que nEle crer tenha a vida eterna." (João 3:14-15).

A serpente no jardim levou a humanidade à rebelião contra o seu Criador, mas o Filho de Deus se referiu depois a uma imagem de bronze desta criatura em desgraça para explicar o glorioso evangelho. Jesus foi levantado na cruz e morreu por nossos pecados, para que "todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (João 3:16).

[1] Flávio Josefo, traduzido por William Whiston, Antiquities of the Jews, 1.50.
[2] 
Embora, neste caso, os porcos não tenham falado, os demônios aparentemente controlaram o comportamento dos porcos, levando-os à sua morte no mar.


Traduzido de:


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