domingo, 10 de janeiro de 2016

Poligamia (por John Frame e Ra McLaughlin)


Nota: A discussão deste tema não é tão simples como possa parecer, e provavelmente haverá aqui em breve mais artigos relativos a ele.

O texto a seguir é um 'enxerto' de 2 artigos encontrados no site do Monergismo relativos a esse tema:


  • A Poligamia é Aceitável? (por Ra McLaughlin)
  • Poligamia (por John Frame)


  • A poligamia é aceitável??


    Pergunta:

    Tenho observado que a Bíblia não fala muito sobre o fato dos patriarcas do Antigo Testamento terem várias esposas, embora Deuteronômio pareça proibir tal prática. Por que a Bíblia parece defender um homem e uma mulher em uma parte e mesmo assim não condena aqueles que tiverem diversas esposas? Ela até mesmo diz que Davi era um homem segundo o coração de Deus, e ele teve várias mulheres.


    Resposta:

    Você está certo, a Bíblia parece não criticar os patriarcas do Antigo Testamento por terem várias esposas. De fato, em Crônicas parece ter sido uma bênção um rei ter muitas esposas, provavelmente por multiplicar os seus descendentes. Em Deuteronômio 17.17[1] Moisés instruiu os reis para não multiplicarem suas esposas, mas com o propósito do coração deles não se desviar. Provavelmente, Moisés quis dizer que se os reis multiplicassem as esposas estrangeiras, em particular, o coração deles se voltaria para a idolatria (como aconteceu com Salomão [1 Reis 11.4]). Em Levítico 18.18 ele proíbe o casar-se com várias irmãs, mas parece indicar que o problema em quebrar essa lei teria sido a rivalidade entre as irmãs, não a multiplicidade de esposas em geral. O exemplo de Davi, contudo, não é muito útil. Davi era um homem segundo o coração de Deus (1Sm 13.14; Atos 13.22), mas fez muitas coisas que não estavam de acordo com o coração de Deus. Por exemplo, ele assassinou Urias o hitita após cometer adultério com a esposa dele, Bate-Seba (2Sm 11; veja especialmente 2Sm 11.27). 

    Todavia, o Antigo Testamento, e os escritos de Moisés em particular, não apresentam a poligamia como o ideal. Gênesis é muito instrutivo nesse respeito. No antigo Oriente Próximo, as narrativas da criação eram usadas não apenas para demonstrar o que era, mas também o que deveria ser. Era geralmente entendido e aceito que o mundo foi criado com ordem e propósito, e que desviar-se dessa ordem era pecado. 
    Ao escrever a narrativa da criação de Gênesis, Moisés adotou essa mesma perspectiva, e usou a narrativa da criação para motivar Israel a voltar para o Éden, isto é, a Terra Prometida, com o intuito de desfrutar as bênçãos de Deus na criação restaurada. Era um retorno real ao Éden. Jesus mesmo adotou essa leitura de Gênesis, e com referência específica ao casamento, em Mateus 19.1-9. Ali, Jesus argumentou que a lei de Moisés que permitia o divórcio não era o ideal. Antes, o ideal era a ordem que Deus estabeleceu na criação. Da mesma forma, a lei permitia a poligamia, mas Gênesis 1-3 demonstra que esse não era o ideal que as pessoas deveriam buscar. O ideal era o modelo da criação: um homem e uma mulher num relacionamento monogâmico. É digno de nota que o primeiro polígamo mencionado na Bíblia é o assassino Lameque (Gn 4.19-24).

    Como Jesus indicou em Mateus 19, Deus nem sempre promulgou leis que representavam perfeitamente os seus ideais. Antes, ele acomodou em certo grau a sua lei ao seu povo (compare Dt 30.10-14). Até mesmo o Novo Testamento não contém nenhuma declaração clara proibindo a poligamia — embora não contenha também nenhum registro de poligamia, e liste a monogamia como o ideal (1Tm 3.2[2]; Tt 1.6[3]). Essa introdução da poligamia após a queda, e a progressão em direção à monogamia à medida que nos movemos em direção à plena restauração do reino de Deus, índica que a poligamia não é o ideal, e menos e menos permissível à medida que o reino de Deus avança.

    Polígamos podem ser cristãos??

    A poligamia não é um grande problema nos países ocidentais, principalmente por causa da influência do Cristianismo. (Poligamia no ocidente tende a ser serial, não simultânea!) Mas em outras partes do mundo, igrejas jovens encontram isso como uma das principais questões éticas. Quando uma sociedade tem uma tradição de poligamia, como a igreja deve trata aqueles polígamos que se tornam cristãos?

    Algumas igrejas tomam a posição de que os polígamos que professam a fé não devem ser admitidos aos sacramentos; todavia, eles procuram dar cuidado pastoral a essas pessoas, embora elas não possam ser reconhecidas como membros oficiais de igrejas. Através dessa regra, eles procuram defender a visão bíblica da família e dar um claro testemunho da fé em Cristo à culturas dessas pessoas.

    Embora admirando as motivações dessa regra, devo dizer que em minha opinião ela é anti-escriturística. O Novo Testamento foi escrito numa cultura poligâmica, e sua própria postura, creio, é clara. Aos polígamos foi negado o ofício na igreja (1 Timóteo 3:2); mas não há evidência de que lhes foi negado a membresia da igreja ou os sacramentos. O Antigo Testamento, certamente, é mais tolerante para com a poligamia, e muitos dos grandes santos do Antigo Testamento tiveram mais de uma esposa. Jesus deixou claro que a intenção original de Deus para o casamento era de um homem e uma mulher (Mateus 19:1-12); assim, podemos inferir que a tolerância do Antigo Testamento para com a poligamia, como sua tolerância para com o divórcio, foi por causa da “dureza do coração” das pessoas. Mas embora a Escritura sustente a monogamia com o padrão de Deus, ela não nega aos polígamos o reino da graça.

    A razão é óbvia. A poligamia não é como os outros pecados. Um ladrão pode parar de ser um ladrão imediatamente após sua conversão; e se ele não parar após um período razoável de atenção pastoral, ele pode e deve ser removido da igreja. Mas um polígamo não pode simplesmente parar de ser um polígamo. Ele tem grandes obrigações para com suas esposas, e não pode simplesmente abandoná-las. Um divórcio pecaminoso não remedia o pecado da poligamia.


    [1] “Tampouco para si multiplicará mulheres, para que o seu coração se não desvie; nem multiplicará muito para si prata ou ouro.” 
    [2] “É necessário, portanto, que o bispo seja irrepreensível, esposo de uma só mulher, temperante, sóbrio, modesto, hospitaleiro, apto para ensinar.”
    [3] “Alguém que seja irrepreensível, marido de uma só mulher, que tenha filhos crentes que não são acusados de dissolução, nem são insubordinados.”


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