quarta-feira, 2 de julho de 2014

Algumas recomendações quanto ao estudo da Predestinação e a Providência de Deus. (de João Calvino)


Consideremos agora o seguinte: Tendo-se em vista o fato de que a Aliança da Vida não é pregada igualmente a todos, e também que onde é pregada não é recebida igualmente por todos, vê-se nessa diversidade um admirável mistério do juízo de Deus. Não há dúvida nenhuma de que essa variedade atende ao Seu beneplácito, agrada ao Seu querer. Pois bem, como é evidente que isto é feito pela vontade de Deus – que a salvação é oferecida a uns e os outros são deixados de lado – daí decorrem grandes e altas questões, as quais só se resolvem ensinando aos crentes o que eles podem compreender da eleição e da predestinação de Deus.

Divisão da matéria

Esta matéria compõe-se de duas partes. Primeiramente, devemos resolver a questão sobre o motivo pelo qual uns são predestinados para a salvação e outros para a condenação. Depois é preciso demonstrar como o mundo é governado pela providência de Deus, visto que tudo o que se faz depende da Sua ordenação e do Seu comando.

Antes, porém, de tratar desse argumento, devo fazer um estudo preliminar sobre duas classes de pessoas. Porque, além de o presente tema ser em si mesmo um tanto obscuro, a curiosidade dos homens o torna complexo e complicado, e mesmo perigoso. Por quê? Porque o entendimento humano não pode refrear-se e conter-se, mas sempre tende a desgarrar-se, metendo-se em grandes desvios e rodeios, e a subir alto demais em suas pretensões. Seu desejo é, se possível, não deixar nenhum segredo de Deus sem a sua investigação minuciosa. Pois vemos muitos caírem nessa audácia e nessa presunção. Além disso, muitos há que não são maus, mas que carecem da nossa admoestação no sentido de se dominarem e se controlarem nesta área.

Em primeiro lugar, então, quando os homens quiserem fazer pesquisa sobre a predestinação, é preciso que se lembrem de entrar no santuário da sabedoria divina. Nesta questão, se a pessoa estiver cheia de si e se intrometer com excessiva autoconfiança e ousadia, jamais irá satisfazer a sua curiosidade. Entrará num labirinto do qual nunca achará saída. Porque não é certo que as coisas que Deus quis manter ocultas e das quais Ele não concede pleno conhecimento sejam esquadrinhadas dessa forma pelos homens. Também não é certo sujeitar a sabedoria de Deus ao critério humano e pretender que este penetre a Sua infinidade eterna. Pois Ele quer que a Sua altíssima sabedoria seja mais adorada que compreendida (a fim de que seja admirada pelo que é). Os mistérios da vontade de Deus que Ele achou bom comunicar-nos, Ele nos testificou em Sua Palavra. Ora, Ele achou bom comunicar-nos tudo o que viu que era do nosso interesse e que nos seria proveitoso.

Se alguma vez nos ocorreu ou nos ocorrer este pensamento: que a Palavra de Deus é o único caminho que nos leva a inquirir tudo quanto nos é lícito conhecer sobre Ele; e mais, que ela é a única luz que nos ilumina para contemplarmos tudo quanto nos é lícito ver – ela nos poderá manter afastados de toda atitude temerária. Porque saberemos que, saindo dos limites próprios, caminharemos fora do caminho e vagaremos na escuridão total. E assim só poderemos errar, tropeçar e nos ferir a cada passo. Tenhamos, pois, em mente que será uma loucura querer conhecer todas as coisas relacionadas com a predestinação, exceto o que nos é dado na Palavra de Deus. Estejamos igualmente apercebidos de que, se alguém quiser caminhar por entre as rochas inacessíveis, irá mergulhar nas trevas.

Certa ignorância é mais douta que o saber E não nos envergonhemos por ignorar algo deste assunto, no qual há certa ignorância mais douta que o saber. Melhor faremos em dispor-nos a abster-nos de um conhecimento cuja exibição é estulta e perigosa, e até mesmo perniciosa. Se a curiosidade da nossa mente nos solicitar que investiguemos tudo, sempre temos em mãos esta sentença para rebater essa pretensão: “Quem esquadrinhar a majestade
de Deusa será oprimido por sua glória”. Muito bom será que nos desenterremos dessa audácia, pois vemos que ela não nos pode fazer outra coisa senão precipitar-nos na desgraça.


O outro extremo: omissão negligente

Por outro lado, há outros que, desejando remediar esse mal, esforçam-se para fazer com que a lembrança da predestinação seja enterrada; quando menos, eles nos advertem de que tomam cuidado para não inquirir nada a respeito dela, considerando-a uma coisa perigosa. Embora seja louvável a modéstia de querermos abordar os mistérios de Deus com grande sobriedade, descer tão baixo nisso não dá bom resultado para os espíritos humanos, porque estes não se deixam domar tão facilmente.

O equilíbrio da Escritura

Por isso, para que tenhamos aqui bom equilíbrio, devemos examinar a Palavra de Deus, na qual temos excelente regra para o entendimento firme e correto. Porquanto, a Escritura é a escola do Espírito Santo, na qual, assim como nada que seja útil e salutar conhecer é omitido, assim também não há nada que nela seja ensinado que não seja válido e proveitoso saber.

Portanto, devemos ter o cuidado de não impedir os crentes de procurarem saber o que há na Escritura sobre a predestinação, para não parecer que desejamos fraudá-los negando-lhes o bem que Deus lhes comunicou, ou que pretendemos discutir com o Espírito Santo, como se Ele tivesse divulgado coisas que faria bem em suprimir.

Permitamos, pois, que o cristão abra os ouvidos e o entendimento para toda doutrina dirigida a ele por Deus. Isso com a condição de que ele sempre mantenha este equilíbrio, esta moderação: Quando vir fechada a santa boca de Deus, feche também o caminho da inquirição. Eis um bom marco memorial da sobriedade: se em nossa aprendizagem ou em nosso ensino seguirmos a Deus, tenhamo-lo sempre adiante de nós. Contrariamente, se Ele parar de ensinar, paremos de querer continuar a ouvir e a entender.8 Então, o perigo que a boa gente que citei teme não é tão importante que deva levar-nos a deixar de prestar atenção em Deus, em tudo quanto Ele diz. Reconheço que os homens maus e blasfemos depressa encontram na doutrina da predestinação coisas para acusar, torcer, remoer e zombar. Mas, se cedermos à sua petulância, eles darão fim aos artigos da nossa fé, dos quais não deixarão um só que não fique contaminado por suas blasfêmias. Um espírito rebelde se porá a campo e, tanto ousará negar que numa só essência de Deus há três Pessoas, como também que, quando Deus criou o homem, previu o que lhe aconteceria no futuro. Semelhantemente, esses maus elementos não se absterão de rir-se quando lhes for dito que não faz muito mais que cinco mil anos que o mundo foi criado. Por que vão querer que lhes expliquemos como é que Deus ficou ocioso por tão longo tempo. Para reprimir tais sacrilégios, devemos deixar de falar da divindade de Cristo e do Espírito Santo? Devemos calar-nos sobre a criação do mundo?

Antes, muito ao contrário, a verdade de Deus é tão poderosa, tanto nesta questão como em tudo mais, que não teme a maledicência dos ímpios. O que Agostinho confirma muito bem em sua pequena obra intitulada Sobre o Benefício da Perseverança (“Du bien de persévérance”). Porque vemos que os falsos apóstolos, ridicularizando e difamando a doutrina do apóstolo Paulo, nada mais puderam fazer do que se tornarem objeto de vergonha.



Extraído das Institutas da Religião Cristã (edição especial, editora Cultura Cristã) - Volume 3 - Capítulo VIII (A predestinação e a providência de Deus)


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