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terça-feira, 25 de agosto de 2026

As Crônicas de Nárnia: Virtudes, Alegoria e Discernimento Cristão

As Crônicas de Nárnia — virtudes, alegoria e discernimento cristão

Uma menina abre a porta de um guarda-roupa e encontra neve, árvores, um poste aceso e um mundo que não deveria caber dentro de uma casa. A partir dessa imagem simples, C. S. Lewis construiu uma das séries infantis mais influentes do século XX.

As Crônicas de Nárnia reúnem sete livros capazes de atravessar criação, queda, sacrifício, ressurreição, guerra, apostasia, juízo, morte e renovação do mundo. Ao mesmo tempo, conservam humor, aventura, animais falantes, banquetes, castelos, viagens marítimas e crianças que nem sempre compreendem a grandeza da história da qual passaram a fazer parte.[1]

A série merece elogio generoso. Lewis possuía extraordinária capacidade de explicar ideias morais e espirituais por imagens concretas. A sedução pode ter gosto de manjar turco. A incredulidade pode fazer alguém enxergar apenas um estábulo escuro onde outros encontram um país luminoso. O orgulho pode transformar um menino em dragão. A criação pode surgir de uma canção. A presença de Aslan pode produzir temor, alegria e desejo de ser melhor sem jamais se tornar domesticável.

Mas justamente porque a relação com o cristianismo é mais direta que em O Senhor dos Anéis, os problemas teológicos também exigem atenção maior. Lewis não era reformado. Em temas como Escritura, criação, Adão, expiação, purgatório, inclusivismo e destino dos que não professam conscientemente a fé cristã, sustentou posições difíceis ou incompatíveis com a teologia reformada.

Nárnia pode despertar amor pela verdade, coragem, arrependimento e esperança. Não pode, porém, ocupar o lugar da Escritura nem servir como resumo confiável de toda a doutrina cristã.

Sete livros, uma história maior

Lewis escreveu os sete volumes durante cerca de quatro a cinco anos. O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa foi o primeiro a ser publicado, em 1950, e Lewis não tinha certeza inicial de que escreveria outros. A série cresceu até A Última Batalha, publicada em 1956.[2]

As edições modernas frequentemente organizam os livros pela cronologia interna de Nárnia, começando com O Sobrinho do Mago. A ordem de publicação, porém, começa pelo guarda-roupa e preserva melhor algumas descobertas, mistérios e ampliações do mundo.

Ordem de publicaçãoContribuição principal
O Leão, a Feiticeira e o Guarda-RoupaApresenta Nárnia, Aslan, a traição de Edmundo, o sacrifício e a derrota da Feiticeira.
Príncipe CaspianMostra uma Nárnia que esqueceu sua própria verdade e precisa recuperar memória, fé e legitimidade.
A Viagem do Peregrino da AlvoradaTransforma a jornada marítima em exame de ganância, medo, orgulho, vocação e desejo pelo país de Aslan.
A Cadeira de PrataEnfatiza memória, obediência a sinais recebidos e resistência a uma realidade falsa imposta por encantamento.
O Cavalo e seu MeninoDesenvolve providência, identidade, orgulho, responsabilidade régia e libertação.
O Sobrinho do MagoRelata a criação de Nárnia, a entrada do mal, a tentação, a árvore e as origens do guarda-roupa.
A Última BatalhaTrata de falsificação religiosa, apostasia, juízo, morte e entrada na Nárnia verdadeira.

A força literária da simplicidade

Lewis não busca a profundidade histórica e linguística de Tolkien. Sua construção é mais rápida, flexível e, às vezes, deliberadamente improvisada. Criaturas de mitologias diferentes convivem lado a lado. Faunos, centauros, anões, dríades, gigantes, Papai Noel e animais falantes podem aparecer no mesmo universo.

Essa mistura seria defeito numa mitologia que pretendesse reconstruir rigorosamente uma tradição antiga. Em Nárnia, ela funciona como linguagem de conto de fadas. Lewis quer produzir reconhecimento e espanto, não um sistema antropológico completo.

Sua maior habilidade está na economia. Edmundo mastigando um doce que aumenta a fome mostra como o pecado promete satisfação enquanto amplia o domínio do desejo. Eustáquio descobrindo que se tornou dragão revela a forma exterior de uma alma já deformada pela avareza e pelo egoísmo. Os anões sentados num país luminoso, convencidos de que estão num estábulo, tornam visível a escravidão de uma incredulidade que já não consegue receber o bem.

Lewis não escreve apenas para que a criança entenda uma ideia. Escreve para que ela sinta o gosto, o frio, o medo ou a beleza daquilo que a ideia significa.

Aslan não é um simples símbolo de Cristo

É comum dizer que Aslan “representa Jesus”. A afirmação é compreensível, mas incompleta. Lewis rejeitava a ideia de que tivesse criado uma alegoria rígida na qual um leão figuraria Cristo da mesma maneira que uma personagem abstrata pode representar o desespero ou a esperança.

Em carta, explicou sua proposta por meio de uma suposição imaginativa: se existisse um mundo como Nárnia e esse mundo precisasse de redenção, que forma a encarnação e a paixão do Filho de Deus poderiam assumir ali? Em outra formulação, perguntou o que Cristo poderia se tornar se entrasse num mundo de animais falantes como entrou no nosso mundo tornando-se homem.[3]

Dentro da intenção de Lewis, Aslan não é apenas uma criatura que aponta para Cristo. É a forma narniana imaginária do próprio Filho de Deus. Ele é filho do Imperador de Além-Mar, criador de Nárnia, rei acima dos reis, juiz, sacrificado, ressuscitado e presente em todos os sete livros.

Isso torna a correspondência muito mais direta que as aproximações cristológicas feitas com Frodo, Gandalf ou Aragorn. Também aumenta a responsabilidade teológica da narrativa: quando Aslan fala ou age de modo relacionado à redenção, o leitor naturalmente aprende algo sobre Cristo.

Criação pela palavra e pela canção

Em O Sobrinho do Mago, Nárnia surge enquanto Aslan canta. Estrelas aparecem, a terra desperta, plantas crescem e animais recebem vida e fala. A cena é uma das mais belas representações literárias da criação como obra ordenada, alegre e pessoal.

“Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, e todo o exército deles pelo espírito da sua boca.”

Salmo 33.6

A canção de Aslan também contrasta com a reação das personagens. Digory, Polly, o cocheiro e os animais ouvem beleza. Tio André é incapaz de admitir que os animais falam e reinterpreta tudo segundo suas categorias. Jadis escuta a mesma música e a odeia.

A diferença não está na ausência de revelação externa, mas na condição moral de quem a recebe. O mesmo ato produz alegria, temor ou repulsa.

Edmundo e a anatomia da tentação

Edmundo não começa como monstro. Está ressentido, deseja superioridade sobre os irmãos e encontra alguém que alimenta exatamente essas fraquezas.

A Feiticeira oferece calor, atenção, promessa de importância e manjar turco encantado. O prazer inicial não satisfaz. Produz necessidade crescente, dependência e disposição para mentir.

EtapaComo a tentação avança
RessentimentoEdmundo já deseja diminuir Pedro e Lúcia.
Prazer imediatoO doce oferece satisfação sem exigir reflexão moral.
Promessa de grandezaA Feiticeira promete fazê-lo príncipe e depois rei.
SegredoEle aceita ocultar o encontro e conduzir os irmãos à armadilha.
MentiraNega a existência de Nárnia e humilha Lúcia para proteger a si mesmo.
EscravidãoDescobre que a promessa de poder terminou em medo, frio e submissão.

“Cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência.”

Tiago 1.14

A Mesa de Pedra e a antiga crítica do Barrabás Livre

Um texto anterior deste blog chamou atenção para um possível problema na cena em que a Feiticeira reivindica a vida de Edmundo: a impressão de que o diabo possuiria direito autônomo sobre a alma do pecador e receberia a morte de Cristo como pagamento.[4]

A advertência continua importante. A Bíblia não ensina que a cruz seja pagamento oferecido a Satanás. Cristo oferece a si mesmo a Deus, suporta a maldição da lei, satisfaz a justiça divina e, justamente por isso, derrota o acusador.

“Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós.”

Gálatas 3.13

Entretanto, a narrativa de Lewis é um pouco mais complexa do que a crítica inicial podia sugerir. A Feiticeira não inventou a Magia Profunda nem possui autoridade independente. Ela apela a uma lei gravada na Mesa de Pedra e estabelecida pelo Imperador de Além-Mar. A traição pertence à Feiticeira no sentido de que a ordem jurídica de Nárnia determina morte para o traidor.

Aslan não paga um preço porque reconhece a Feiticeira como soberana. Ele se entrega para que a lei seja cumprida e Edmundo seja poupado. A Magia Mais Profunda mostra que a morte retrocede quando uma vítima voluntária e inocente morre no lugar do traidor.

Há, portanto, elementos de satisfação, substituição, resgate e vitória sobre o mal. A Feiticeira executa a sentença, mas não é a fonte última da justiça. A ressurreição revela uma sabedoria que o mal desconhecia.

Avaliação reformada: a cena comunica poderosamente inocência, substituição, morte e ressurreição. Contudo, sua distribuição de papéis é imprecisa. A Feiticeira aparece como acusadora, beneficiária imediata do acordo e executora. A Escritura ensina com maior clareza que a propiciação se dirige à justiça de Deus, ainda que a cruz também desarme Satanás e liberte seus cativos.

Por isso, não devemos chamar a cena de retrato fiel da substituição penal. Também não devemos reduzi-la à ideia simplista de que Aslan “pagou a Feiticeira”. Lewis combinou imagens antigas da expiação e afirmou em outros textos que nenhuma teoria humana esgota o significado da cruz.[5]

A morte e a ressurreição de Aslan

Apesar das limitações doutrinárias, a sequência da Mesa de Pedra possui enorme força emocional e cristológica. Aslan escolhe entregar-se. É humilhado, amarrado, tosquiado, ridicularizado e morto enquanto seus seguidores parecem derrotados.

Susan e Lúcia permanecem próximas, choram e acompanham o corpo. Pela manhã, a Mesa de Pedra se rompe e Aslan retorna vivo. A morte, que parecia consumar a vitória da Feiticeira, torna-se o caminho de sua derrota.

“Ao qual Deus ressuscitou, soltas as ânsias da morte, pois não era possível que fosse retido por ela.”

Atos 2.24

Aslan é bom, mas não é domesticado

Uma das frases mais conhecidas da série afirma que Aslan não é seguro, mas é bom. A formulação combate a ideia de um deus controlável, previsível e subordinado às expectativas humanas.

Aslan consola, brinca, cura e acolhe. Também ordena, repreende, desaparece, exige coragem e conduz personagens por caminhos que eles não escolheriam.

A bondade de Aslan não significa que ele seja inofensivo. Significa que todo o seu poder, inclusive quando fere o orgulho, está a serviço do que é verdadeiro e bom.

Eustáquio e a transformação que ele não consegue realizar

Eustáquio entra em A Viagem do Peregrino da Alvorada como menino egoísta, pedante e incapaz de perceber a própria desagradabilidade. Ao dormir sobre o tesouro de um dragão com pensamentos de dragão, torna-se exteriormente aquilo que já cultivava interiormente.

Ele tenta retirar as próprias escamas, mas cada pele arrancada revela outra. Somente Aslan consegue feri-lo profundamente o bastante para remover a natureza de dragão e devolvê-lo à forma humana.

“Dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo.”

Ezequiel 36.26

A imagem comunica de forma memorável que reforma moral superficial não alcança a raiz do pecado. O pecador não precisa apenas de orientação. Precisa de transformação que não consegue produzir em si mesmo.

A Cadeira de Prata e a obrigação de lembrar

Antes de Jill iniciar sua missão, Aslan lhe entrega sinais. Ela deverá repeti-los, memorizá-los e obedecer-lhes mesmo quando a aparência das circunstâncias sugerir outra coisa.

O fracasso começa quando os sinais deixam de ser lembrados com precisão. Cansaço, conforto, expectativa e interpretação conveniente interferem na obediência.

A Feiticeira Verde procura depois destruir não apenas a memória de Nárnia, mas a própria possibilidade de que exista um mundo acima do subterrâneo. Luz, sol, Aslan e céu são reinterpretados como fantasias derivadas de lâmpadas, tetos e gatos.

Paulama resiste com uma das mais fortes confissões da série: mesmo que o mundo de Aslan fosse apenas sonho, seria um sonho melhor que a realidade reduzida oferecida pela Feiticeira. Sua fala não é prova filosófica suficiente da verdade, mas expressa fidelidade quando a mente está sob pressão.

A falsificação religiosa em A Última Batalha

Manhoso veste Confuso com uma pele de leão e o apresenta como Aslan. A falsificação funciona porque muitos perderam familiaridade com o verdadeiro Aslan e aceitam uma autoridade fabricada que legitima exploração.

Depois surge a tentativa de fundir Aslan e Tash no nome “Tashlan”. A operação religiosa afirma que duas realidades moralmente opostas seriam apenas nomes diferentes da mesma divindade.

“Não criais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus.”

1 João 4.1

Emeth e o grave problema do inclusivismo

Uma das passagens mais controversas ocorre quando Emeth, um calormano que serviu sinceramente a Tash, é recebido por Aslan. Aslan afirma que todo serviço verdadeiro feito a Tash era, na realidade, aceito como serviço a ele, enquanto ações perversas praticadas em nome de Aslan pertenciam a Tash.

A cena contém uma verdade importante: usar o nome de Cristo não transforma maldade em serviço cristão. A hipocrisia religiosa não engana o Juiz.

O problema está no movimento inverso. Emeth serviu conscientemente a um falso deus, mas sua sinceridade moral é reinterpretada como serviço implícito a Aslan. Isso comunica uma forma de inclusivismo: alguém poderia pertencer salvificamente a Cristo sem conhecê-lo ou professá-lo, desde que buscasse sinceramente o bem dentro de outra religião.

Lewis não ensina universalismo simples. Outros personagens rejeitam Aslan e permanecem fora. Mas a cena de Emeth sugere que fé explícita no verdadeiro Cristo não seria necessária em todos os casos.[6]

“E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos.”

Atos 4.12
Este é um dos pontos em que o leitor reformado deve discordar claramente de Lewis. A cena é bela como afirmação de que Aslan conhece perfeitamente o coração; é perigosa quando transforma sinceridade moral dentro da idolatria em serviço inconsciente aceito por Cristo.

A morte e a Nárnia verdadeira

A Última Batalha apresenta a morte das personagens como passagem para um mundo mais sólido, amplo e verdadeiro. A velha Nárnia era semelhante à nova como sombra, cópia ou antecipação.

A expressão “mais para dentro e mais para cima” comunica crescimento interminável em beleza, alegria e conhecimento. O céu não aparece como nuvem abstrata nem como repouso sem história, mas como criação renovada, comunhão, reconhecimento e descoberta.

“Nós, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra, em que habita a justiça.”

2 Pedro 3.13

C. S. Lewis foi um grande escritor cristão, não um teólogo seguro

Outro artigo antigo deste blog reuniu críticas severas às posições teológicas de Lewis e alertou contra a tendência evangélica de citá-lo como se estivesse naturalmente dentro de qualquer tradição doutrinária.[7]

O alerta é justo. Lewis possuía grande capacidade apologética, imaginação moral e habilidade para expor orgulho, autoengano e redução materialista da realidade. Mas divergiu da fé reformada em pontos importantes.

TemaPosição ou tendência de LewisAvaliação reformada
Evolução e origem humanaAceitou a evolução como explicação possível e imaginou a humanidade surgindo de organismos animais preparados por Deus.Enfraquece a historicidade especial da criação do homem e sua relação federal com Adão.
Adão e a quedaTratou o relato de modo não necessariamente ligado a um único casal histórico conforme a leitura tradicional.Entra em tensão com Romanos 5.12–19 e 1 Coríntios 15.21–22.
Antigo TestamentoAdmitiu elementos lendários ou míticos em partes antigas das Escrituras.Compromete uma doutrina robusta de inspiração, veracidade e historicidade bíblica.
ExpiaçãoRecusou fazer de uma teoria específica a essência obrigatória do cristianismo e apreciou diferentes imagens.A riqueza das imagens bíblicas não permite minimizar propiciação, satisfação e substituição penal.
PurgatórioDefendeu uma purificação consciente após a morte.Incompatível com a suficiência da justificação e com o destino imediato dos que morrem em Cristo.
InclusivismoAdmitiu possibilidade de pessoas pertencerem a Cristo sem reconhecê-lo explicitamente, ilustrada por Emeth.Enfraquece a necessidade da fé no Cristo revelado e a urgência missionária.

Lewis deve ser lido como Lewis: um escritor cristão anglicano, brilhante e profundamente influente, mas não como porta-voz da teologia reformada nem como intérprete infalível do evangelho.

A adaptação cinematográfica de 2005

As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, dirigido por Andrew Adamson e lançado em 2005, conseguiu apresentar Nárnia a uma nova geração com grande beleza visual, elenco infantil convincente e uma adaptação acessível do núcleo da história.

A transição do mundo em guerra para o guarda-roupa é eficaz. O inverno de Nárnia possui textura e atmosfera. Tilda Swinton cria uma Feiticeira Branca fria, controlada e ameaçadora. A voz de Liam Neeson oferece a Aslan gravidade e ternura.

O filme amplia batalhas e ação, mas conserva a traição de Edmundo, a caminhada de Aslan para a Mesa de Pedra, a humilhação, a morte, a ressurreição e a derrota da Feiticeira.

Príncipe Caspian e A Viagem do Peregrino da Alvorada

Príncipe Caspian, lançado em 2008, aumenta o tom de guerra, introduz conflitos entre Pedro e Caspian e cria uma tentativa de trazer a Feiticeira Branca de volta. Algumas mudanças produzem tensão cinematográfica, mas militarizam a narrativa e alteram significativamente Pedro, Caspian e Susana.

A Viagem do Peregrino da Alvorada, lançado em 2010, preserva Eustáquio, Ripchip e parte do encanto marítimo. O problema é que o livro funciona como jornada episódica e espiritual, enquanto o filme cria uma ameaça comum e uma missão com espadas para produzir unidade externa.

AdaptaçãoMaior virtudeMaior limitação
O Leão, a Feiticeira e o Guarda-RoupaPreserva o coração da primeira história e apresenta Nárnia com grande impacto visual.A estrutura da expiação pode parecer ainda mais próxima de um pagamento feito à Feiticeira.
Príncipe CaspianPossui escala, ação e alguns bons conflitos sobre fé e liderança.Militariza a narrativa e altera significativamente os protagonistas.
A Viagem do Peregrino da AlvoradaConserva o encanto marítimo, Eustáquio, Ripchip e o desejo pelo país de Aslan.Substitui a unidade espiritual do livro por uma missão artificial e genérica.

Como um cristão pode aproveitar Nárnia

Pode admirar a habilidade narrativa, o humor, a imaginação e a clareza moral.

Pode conversar sobre tentação, mentira, arrependimento, transformação, providência, falsificação religiosa, coragem e esperança.

Pode usar as imagens como ponto de partida para apresentar doutrinas bíblicas, mostrando tanto as aproximações quanto as diferenças.

Pode aprender a desejar um bem que não é mera ausência de sofrimento, mas presença do Rei.

Também pode reconhecer graça comum: um autor com erros graves pode escrever coisas verdadeiras, belas e moralmente úteis.

“Examinai tudo. Retende o bem. Abstende-vos de toda a aparência do mal.”

1 Tessalonicenses 5.21–22

Cuidados necessários

O primeiro cuidado é não substituir a Bíblia por Nárnia. As imagens de Lewis são mais fáceis de lembrar que muitas formulações doutrinárias, mas devem ser corrigidas pela revelação.

O segundo é não chamar toda correspondência de alegoria. Aslan possui relação intencional e direta com Cristo; outros personagens e acontecimentos podem apenas desenvolver analogias.

O terceiro é explicar a expiação. Cristo não pagou Satanás. Sua morte satisfez a justiça de Deus, levou a maldição devida ao seu povo e derrotou o diabo.

O quarto é rejeitar o inclusivismo de Emeth. Sinceridade não salva, e serviço a falsos deuses não é secretamente culto cristão.

O quinto é distinguir fantasia e ocultismo real. Criaturas mágicas numa história não tornam lícitas práticas espirituais proibidas.

O sexto é não tratar Lewis como teólogo reformado. Sua utilidade não elimina suas posições sobre evolução, Adão, Escritura, purgatório e salvação.

Conclusão

As Crônicas de Nárnia estão entre as obras mais valiosas da fantasia cristã moderna. Lewis reuniu aventura, humor, beleza e seriedade moral numa linguagem capaz de alcançar crianças sem tratar a infância com desprezo.

Aslan é uma criação literária extraordinária. Sua bondade indomável, sua autoridade, seu sacrifício, sua ressurreição e o desejo que desperta ajudam o leitor a imaginar dimensões verdadeiras da glória de Cristo.

Mas Aslan não é a revelação normativa de Cristo. A Mesa de Pedra mistura imagens da expiação sem expressar com clareza a propiciação e a substituição penal. Emeth manifesta um inclusivismo incompatível com a necessidade da fé no Cristo revelado. E as posições teológicas de Lewis sobre criação, Adão, Escritura e purgatório exigem rejeição.

A leitura madura não precisa escolher entre veneração e censura. Pode agradecer pela beleza, rir do humor, emocionar-se com a fidelidade, ensinar por meio das imagens e, ao mesmo tempo, corrigir aquilo que não corresponde à Palavra.

Aslan pode ajudar o leitor a desejar Cristo. Mas é o Cristo das Escrituras — não o leão da ficção — quem salva pecadores, satisfaz a justiça de Deus e reina para sempre.

Notas

1 O site oficial de C. S. Lewis informa que as Crônicas venderam mais de cem milhões de exemplares e foram adaptadas em três grandes filmes. About C. S. Lewis.

2 Lewis iniciou a série com O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa e escreveu sete livros ao longo de aproximadamente quatro a cinco anos. Ver “The Narnian Order of Things”.

3 Lewis explicou que Aslan não surgiu como simples representação alegórica de Jesus, mas como resposta imaginativa à pergunta sobre o que o Filho de Deus poderia se tornar num mundo como Nárnia. Ver “A Letter from C. S. Lewis” e a exposição do C. S. Lewis Institute.

4 BARRABÁS LIVRE. “O Leão, a Bruxa e a falha”, 7 de dezembro de 2010. O texto identificou corretamente o perigo de interpretar a cruz como pagamento ao diabo. Comentários posteriores no próprio post observaram que, no livro, a reivindicação da Feiticeira depende das leis estabelecidas pelo Imperador de Além-Mar.

5 Em Cristianismo Puro e Simples, Lewis afirma que a morte de Cristo é central, mas que as teorias destinadas a explicar como ela opera não devem ser confundidas com o próprio fato salvador. A cena da Mesa de Pedra tem sido interpretada como combinação de resgate, satisfação, substituição e Christus Victor. Ver Joshua Ruud, “Aslan’s Sacrifice and the Doctrine of Atonement”.

6 A recepção de Emeth em A Última Batalha é amplamente discutida como manifestação do inclusivismo de Lewis. Ver “For the Sake of the Story”.

7 BARRABÁS LIVRE. “C. S. Lewis — O mais amado de todos os hereges”, 3 de junho de 2016. O artigo reúne citações sobre evolução, Adão, caráter mítico de partes do Antigo Testamento, expiação, purgatório e outras posições.

Fontes e referências

BÍBLIA SAGRADA. Referências principais: Salmo 33.6; Ezequiel 36.26; Atos 2.24; Atos 4.12; Gálatas 3.13; Tiago 1.14; 2 Pedro 3.13.

LEWIS, C. S. As Crônicas de Nárnia.

LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples.

LEWIS, C. S. O Problema do Sofrimento.

LEWIS, C. S. Cartas a Malcolm: Reflexões sobre a Oração.

LEWIS, C. S. Sobre Histórias.

C. S. LEWIS OFFICIAL WEBSITE. “The Narnian Order of Things”.

C. S. LEWIS INSTITUTE. “Biblical Truths in C. S. Lewis’s The Chronicles of Narnia”.

BARRABÁS LIVRE. “O Leão, a Bruxa e a falha”.

BARRABÁS LIVRE. “C. S. Lewis — O mais amado de todos os hereges”.

ADAMSON, Andrew, dir. The Chronicles of Narnia: The Lion, the Witch and the Wardrobe. Walt Disney Pictures/Walden Media, 2005.

ADAMSON, Andrew, dir. The Chronicles of Narnia: Prince Caspian. Walt Disney Pictures/Walden Media, 2008.

APTED, Michael, dir. The Chronicles of Narnia: The Voyage of the Dawn Treader. 20th Century Fox/Walden Media, 2010.