Na primeira parte, examinamos alguns dos principais episódios bíblicos relacionados ao mundo invisível: Satanás acusando Jó, o exército celestial visto pelo servo de Eliseu, o conflito descrito em Daniel, a tentação de Cristo, os exorcismos dos Evangelhos e a derrota do acusador.
Esses relatos mostram que a batalha espiritual é real.
Mas como o cristão deve enfrentá-la?
Essa pergunta exige cuidado. Em muitos ambientes, a expressão “batalha espiritual” tornou-se sinônimo de sessões de libertação, confrontos verbais com demônios, quebra de maldições, investigação de espíritos territoriais, uso de objetos ungidos ou busca de experiências sobrenaturais.
As instruções dadas pelo Novo Testamento às igrejas seguem outro caminho.
O cristão é chamado a submeter-se a Deus, resistir ao diabo, permanecer firme na fé, vestir a armadura divina, vigiar, orar, conhecer a Palavra, mortificar o pecado e perseverar na comunhão da Igreja.
A batalha é espiritual, mas os meios estabelecidos por Deus são, em grande parte, ordinários.
Não precisamos descobrir segredos sobre o mundo invisível.
Precisamos permanecer em Cristo.
A batalha acontece sob o governo de Deus
O primeiro fundamento para enfrentar a batalha espiritual é reconhecer que Satanás não é soberano.
Ele possui poder real, mas limitado. É uma criatura caída, e não um segundo deus. Não é onipotente, onisciente nem onipresente. Não pode estar pessoalmente em todos os lugares, conhecer todos os pensamentos ou agir fora dos limites da providência divina.
No livro de Jó, Satanás precisou receber permissão para afligir o servo de Deus e não pôde ultrapassar os limites estabelecidos pelo Senhor.
“Disse o Senhor a Satanás: Eis que ele está em teu poder; mas poupa-lhe a vida.”
Isso não significa que Deus seja o autor moral da maldade praticada pelo diabo. As intenções de Satanás são perversas. Os propósitos de Deus são santos.
Entretanto, nem mesmo a ação das criaturas rebeldes consegue escapar do governo divino.
João Calvino ensinava que os demônios se opõem a Deus em desejo e intenção, mas continuam sujeitos ao Seu poder. Eles não fazem tudo o que desejam, mas somente aquilo que a providência divina lhes permite.1
Essa doutrina produz sobriedade e segurança.
O cristão não deve desprezar o inimigo, mas também não deve viver aterrorizado por ele.
A batalha espiritual não acontece em um universo dividido entre dois poderes equivalentes.
Há um só Deus, um só governo e um só Senhor sobre todas as coisas visíveis e invisíveis.
Cristo já venceu
O cristão não luta para decidir se Cristo vencerá.
Ele luta a partir da vitória que Cristo já conquistou.
Na cruz, Jesus não apenas pagou a dívida de Seu povo. Ele também desarmou os poderes espirituais que o acusavam.
“E, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz.”
A morte de Cristo destruiu o fundamento da acusação contra os eleitos. A dívida foi cancelada, a culpa foi satisfeita e a justiça divina foi cumprida.
O autor de Hebreus declara que Cristo participou de nossa humanidade para derrotar aquele que tinha o poder da morte.
“Para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo, e livrasse todos que, pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida.”
Satanás continua ativo, mas age como inimigo condenado.
Seu destino já foi determinado. Sua autoridade foi quebrada. Seu tempo é limitado.
A segurança do cristão não está em conhecer todos os movimentos do inimigo, mas em pertencer ao Rei vitorioso.
“Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor.”
O cristão não está tentando escapar do domínio das trevas por meio de uma técnica. Em Cristo, já foi transferido para outro Reino.
O mundo, a carne e o diabo
A tradição cristã frequentemente resume os inimigos espirituais do crente em três expressões: o mundo, a carne e o diabo.2
O mundo, nesse contexto, não é a criação material. É a ordem humana organizada em rebelião contra Deus: valores, hábitos, desejos, instituições e sistemas de pensamento que chamam o mal de bem e tratam a obediência como atraso ou opressão.
A carne é a corrupção pecaminosa que ainda permanece no cristão. Embora regenerado, o crente continua enfrentando desejos desordenados, inclinações perversas e hábitos que precisam ser mortificados.
O diabo é o adversário pessoal que tenta, acusa, engana, persegue e procura explorar as fraquezas humanas.
Esses três inimigos frequentemente trabalham juntos.
O mundo oferece ocasiões e justificativas para o pecado.
A carne deseja aquilo que é oferecido.
O diabo estimula a mentira, embeleza a desobediência e tenta esconder suas consequências.
Isso significa que nem todo pecado deve ser atribuído diretamente à ação de um demônio.
“Cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz.”
O coração humano caído não precisa ser forçado por Satanás para desejar o mal.
Atribuir todos os pecados ao diabo pode se tornar uma maneira religiosa de fugir da responsabilidade pessoal.
Satanás tenta.
Mas o homem peca voluntariamente.
A batalha começa com submissão a Deus
Tiago apresenta uma das instruções mais diretas do Novo Testamento sobre resistência espiritual.
“Sujeitai-vos, portanto, a Deus; mas resisti ao diabo, e ele fugirá de vós.”
É importante observar a ordem.
Primeiro: sujeitai-vos a Deus.
Depois: resisti ao diabo.
A resistência cristã não começa com autoconfiança, agressividade verbal ou tentativa de demonstrar poder. Começa com submissão ao Senhor.
O contexto fala de humildade, arrependimento, purificação e aproximação de Deus.
“Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós outros. Purificai as mãos, pecadores; e vós que sois de ânimo dobre, limpai o coração.”
Resistir ao diabo é recusar suas mentiras, abandonar o pecado que ele procura estimular e permanecer debaixo da autoridade de Deus.
Não é necessário provocar Satanás.
É necessário obedecer ao Senhor.
A armadura de Deus
A passagem mais conhecida sobre batalha espiritual é Efésios 6:10–18.
Paulo começa ordenando que os cristãos encontrem força no Senhor.
“Quanto ao mais, sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder.”
A força não vem da personalidade do cristão, de sua coragem natural nem de sua experiência com o mundo espiritual.
Ela vem do Senhor.
Em seguida, Paulo ordena:
“Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra as ciladas do diabo.”
A armadura não é formada por objetos ungidos, palavras secretas ou conhecimentos ocultos.
Ela é composta por realidades centrais da vida cristã:
- o cinturão da verdade;
- a couraça da justiça;
- a preparação do evangelho da paz;
- o escudo da fé;
- o capacete da salvação;
- a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus;
- a oração perseverante.
A verdade combate a mentira.
A justiça protege contra a sedução e a condenação.
O evangelho firma os pés do cristão.
A fé apaga os dardos da dúvida, da acusação e do medo.
A certeza da salvação protege a mente.
A Palavra expõe o engano.
A oração confessa dependência de Deus.
Vestir a armadura não significa imaginar cada peça durante uma oração ritual.
Significa viver diariamente na verdade, na justiça, no evangelho, na fé, na certeza da salvação, na Palavra e na oração.
O cinturão da verdade
A primeira peça mencionada por Paulo é a verdade.
“Estai, pois, firmes, cingindo-vos com a verdade.”
Satanás é chamado de pai da mentira. Desde o Éden, sua principal estratégia consiste em distorcer aquilo que Deus disse.
Por isso, o cristão precisa conhecer a verdade revelada.
Não basta possuir opiniões religiosas, repetir frases motivacionais ou confiar em impressões interiores. É necessário conhecer o caráter de Deus, a obra de Cristo, a doutrina do pecado, as promessas do evangelho e os mandamentos das Escrituras.
A verdade também deve marcar a conduta.
O cristão que tolera mentira, dissimulação e duplicidade enfraquece sua própria resistência espiritual.
A batalha contra o pai da mentira exige uma vida comprometida com a verdade.
A couraça da justiça
Paulo também fala da couraça da justiça.
Ela pode ser compreendida tanto em relação à justiça de Cristo recebida pela fé quanto à vida de justiça produzida pela santificação. Essas duas realidades não devem ser separadas.
O cristão permanece diante de Deus revestido da justiça de Cristo, não de seus próprios méritos.
“Não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé.”
Ao mesmo tempo, aquele que foi justificado é chamado a viver em obediência.
O pecado tolerado fere a consciência, enfraquece a comunhão com Deus e oferece ocasião para novas tentações.
A justiça de Cristo responde à acusação.
A santidade prática resiste à sedução.
O escudo da fé
Paulo afirma que o escudo da fé é capaz de apagar todos os dardos inflamados do maligno.
“Embraçando sempre o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do maligno.”
Esses dardos podem incluir dúvidas, acusações, medos, pensamentos blasfemos, tentações repentinas e mentiras contra o caráter de Deus.
A fé não é confiança em nossa própria força.
É confiança em Deus, em Suas promessas e na suficiência de Cristo.
Quando o inimigo afirma que Deus abandonou Seu povo, a fé responde com a promessa de Sua presença.
Quando afirma que o pecado é irresistível, a fé recorda que o crente já não está sob seu domínio.
Quando acusa o cristão de maneira desesperadora, a fé olha para a justificação em Cristo.
Quando apresenta a desobediência como vantajosa, a fé crê que os caminhos de Deus são melhores.
A espada do Espírito
A única arma ofensiva mencionada explicitamente é a espada do Espírito, identificada como a Palavra de Deus.
“Tomai também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus.”
Jesus enfrentou o tentador no deserto respondendo com as Escrituras.
Mas o próprio Satanás também citou a Bíblia.
Isso demonstra que não basta repetir versículos. É necessário compreender corretamente a Palavra e aplicá-la com fidelidade.
Textos arrancados de seu contexto podem ser usados para justificar presunção, ganância, orgulho e superstição.
A espada do Espírito não é uma frase mágica.
É a Palavra de Deus corretamente conhecida, crida, obedecida e proclamada.
A oração perseverante
A descrição da armadura conduz imediatamente à oração.
“Com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito e para isto vigiando com toda perseverança.”
A oração não aparece como peça isolada, mas como a atmosfera em que toda a armadura é utilizada.
O cristão ora porque reconhece que não pode vencer pela própria força.
Jesus ordenou aos discípulos:
“Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca.”
John Owen distinguiu entre ser tentado e entrar em tentação. A tentação pode se apresentar sem dominar imediatamente o coração. Entrar nela significa permitir que ganhe força, ocupe a mente e conduza o homem para dentro de seu poder.3
Por isso, a oração deve começar antes que o desejo pecaminoso se torne dominante.
Não devemos esperar a tentação amadurecer para procurar auxílio.
Vigiar as primeiras aproximações do pecado
A tentação raramente apresenta de início toda a destruição que pretende produzir.
Ela começa pequena.
Um pensamento alimentado.
Uma conversa indevida.
Uma justificativa aparentemente razoável.
Uma concessão que parece sem importância.
Uma ofensa guardada.
Um desejo secreto.
Uma oportunidade que ninguém descobrirá.
Thomas Brooks descreveu várias estratégias pelas quais Satanás apresenta a isca e esconde o anzol, mostra o prazer do pecado e oculta suas consequências, ou pinta a desobediência com aparência de virtude.4
Por isso, a vigilância cristã deve começar nos movimentos iniciais do coração.
“Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida.”
É mais sábio fugir da ocasião de pecado do que tentar provar que somos fortes o suficiente para permanecer perto dela.
Mortificar o pecado
A batalha espiritual não se limita a manifestações extraordinárias.
Na maior parte da vida cristã, ela acontece no conflito diário contra o pecado que ainda habita em nós.
“Porque, se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte; mas, se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente vivereis.”
Mortificar significa fazer morrer, negar alimento e recusar domínio ao pecado.
John Owen resumiu a urgência dessa tarefa afirmando que o cristão deve estar continuamente matando o pecado, ou o pecado estará procurando matá-lo.5
A mortificação não acontece por mera força de vontade.
Ela é realizada pelo Espírito, mediante os recursos que Deus concedeu: Palavra, oração, fé, arrependimento, comunhão e disciplina.
Quando o cristão combate orgulho, inveja, imoralidade, avareza, ira, preguiça, mentira e amargura, está participando de uma batalha verdadeiramente espiritual.
Uma espiritualidade que procura demônios em toda parte, mas não combate os pecados comuns do coração, perdeu o centro da santificação bíblica.
A acusação e a consciência
Satanás é chamado de acusador.
Uma de suas estratégias consiste em usar o pecado para conduzir o cristão ao desespero.
É necessário distinguir entre a convicção produzida pelo Espírito Santo e a acusação destrutiva.
O Espírito mostra o pecado com clareza, conduz ao arrependimento e direciona o pecador para Cristo.
A acusação satânica procura produzir uma culpa vaga, permanente e sem esperança. Ela esconde a suficiência da cruz e sugere que não existe mais perdão.
O evangelho não responde à acusação afirmando que o cristão é inocente em si mesmo.
Responde afirmando que Cristo morreu, ressuscitou e intercede por Seu povo.
“Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós.”
Quando há pecado real, o cristão deve confessá-lo.
Quando o pecado foi confessado, deve crer na promessa do perdão.
“Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.”
Permanecer se condenando depois de correr sinceramente para Cristo não é humildade.
É deixar de descansar na suficiência do Salvador.
O cristão pode dar lugar ao diabo
Paulo adverte que determinados pecados podem oferecer oportunidade ao inimigo.
“Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira, nem deis lugar ao diabo.”
Essa passagem é frequentemente associada à expressão “brecha espiritual”.
Entretanto, o próprio contexto mostra o que Paulo quer dizer.
Dar lugar ao diabo é permitir que mentira, ira, roubo, linguagem destrutiva, amargura, malícia e falta de perdão se instalem na vida.
O remédio apresentado não é um ritual para fechar uma brecha.
É arrependimento e obediência.
Paulo manda abandonar a mentira, trabalhar honestamente, usar palavras que edifiquem, remover a amargura e perdoar como Deus perdoou em Cristo.
O cristão não precisa descobrir uma fórmula oculta.
Precisa confessar o pecado, reparar o mal quando possível e voltar aos caminhos de Deus.
O cristão pode ser possuído por demônios?
O Novo Testamento apresenta o cristão como alguém que foi libertado do domínio das trevas, unido a Cristo e habitado pelo Espírito Santo.
“Acaso, não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos?”
O crente pode ser tentado, acusado, perseguido e gravemente perturbado pelo inimigo.
Pode dar lugar ao diabo por meio do pecado tolerado.
Pode sofrer consequências espirituais, emocionais e relacionais de sua desobediência.
Isso, porém, não significa que Satanás possa tornar-se proprietário daquele que pertence a Cristo.
Não existe base bíblica suficiente para ensinar que uma pessoa regenerada e habitada pelo Espírito possa ser possuída no sentido de ser habitada e dominada por um demônio.6
A segurança do cristão não está em sua força pessoal.
Está em sua união com Cristo.
“Maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo.”
Doenças e atividade demoníaca
A Bíblia registra casos em que determinadas enfermidades estavam associadas à ação demoníaca.
Também registra muitas doenças sem estabelecer qualquer ligação com demônios.
Portanto, é antibíblico afirmar que toda doença é causada por um espírito maligno.
A criação está submetida à corrupção por causa da queda.
“Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora.”
Pessoas adoecem porque vivem em um mundo caído e possuem corpos frágeis.
Também é imprudente atribuir automaticamente transtornos psíquicos, crises emocionais, deficiências ou doenças neurológicas à ação demoníaca.
O cristão pode orar pela cura, buscar acompanhamento pastoral e utilizar os recursos legítimos da medicina.
Não existe oposição necessária entre oração e tratamento.
Reconhecer a providência divina inclui reconhecer os meios ordinários pelos quais Deus preserva a vida.
Maldições hereditárias
A Bíblia ensina que os pecados de uma geração podem produzir consequências profundas para as seguintes.
Filhos podem aprender os pecados dos pais.
Famílias podem transmitir hábitos destrutivos.
Sociedades podem institucionalizar injustiças e idolatrias.
Isso é diferente de ensinar que um cristão continua preso a uma maldição demoníaca hereditária que precisa ser quebrada por uma fórmula especial.
“A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai, a iniquidade do filho.”
Em Cristo, o crente foi resgatado da maldição da Lei.
“Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar.”
Padrões familiares de pecado devem ser reconhecidos, confessados e abandonados.
Traumas podem exigir cuidado, acompanhamento e tempo.
Crimes devem ser tratados com justiça.
Vícios podem produzir consequências prolongadas.
Nada disso exige a criação de uma doutrina segundo a qual aqueles que pertencem a Cristo permanecem juridicamente presos a demônios por causa dos pecados de seus antepassados.
Objetos amaldiçoados
A Escritura apresenta objetos usados diretamente na idolatria e no ocultismo como coisas que deveriam ser abandonadas ou destruídas.
Em Éfeso, convertidos queimaram seus livros de magia como expressão pública de arrependimento.
“Também muitos dos que haviam praticado artes mágicas, reunindo os seus livros, os queimaram diante de todos.”
Isso não significa que todo objeto usado por uma pessoa pecadora carregue automaticamente uma presença demoníaca.
O cristão não deve viver aterrorizado por roupas, móveis, presentes, símbolos decorativos ou imóveis de procedência desconhecida.
Ídolos e instrumentos ligados diretamente a práticas ocultistas devem ser rejeitados por fidelidade a Deus.
Mas não há fundamento para uma superstição cristianizada segundo a qual demônios ficam aprisionados em objetos e precisam ser expulsos por rituais.
“Ao Senhor pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam.”
Espíritos territoriais e mapeamento espiritual
Daniel 10 revela que acontecimentos políticos e imperiais podem possuir uma dimensão espiritual invisível.
O texto menciona o príncipe da Pérsia e o príncipe da Grécia.
Entretanto, Daniel não recebe ordem para identificar, nomear ou expulsar esses poderes.
Ele ora a Deus.
O conflito invisível é conduzido por mensageiros celestiais sob a autoridade divina.
O Novo Testamento também não manda a Igreja mapear demônios associados a cidades, bairros, montanhas ou instituições.
Quando Paulo entra em cidades dominadas pela idolatria, ele prega o evangelho, confronta falsas crenças com a verdade, chama os homens ao arrependimento e estabelece igrejas.
“Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando nós sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus.”
As fortalezas mencionadas incluem raciocínios, argumentos e pretensões levantadas contra o conhecimento de Deus.
A resposta apostólica é a proclamação da verdade.
A Igreja não precisa conhecer o nome de um espírito supostamente associado a uma cidade.
Precisa anunciar o nome que está acima de todo nome.
Devemos falar diretamente com Satanás?
A Escritura ordena que oremos a Deus, resistamos ao diabo e permaneçamos firmes na fé.
Ela não estabelece longos discursos dirigidos a Satanás como prática ordinária da vida cristã.
Mesmo Miguel, o arcanjo, ao contender com o diabo, não pronunciou contra ele um juízo insultuoso.
“O Senhor te repreenda!”
A autoridade pertence ao Senhor.
Os apóstolos expulsaram demônios em situações concretas e pela autoridade concedida por Cristo.
Entretanto, as epístolas, ao instruírem a vida ordinária das igrejas, não ensinam sessões de provocação, interrogatórios de espíritos ou fórmulas de repreensão como meios regulares de santificação.
O cristão não precisa manter conversas com o diabo.
Precisa falar com Deus.
Quando tentado, deve orar, recordar a Palavra, fugir da ocasião de pecado, procurar auxílio dos irmãos e submeter-se ao Senhor.
Os meios ordinários da graça
Na tradição reformada, Deus fortalece ordinariamente Seu povo por meio da Palavra, dos sacramentos e da oração.7
Esses meios podem parecer simples para quem procura experiências extraordinárias.
Entretanto, é por meio deles que Cristo alimenta, corrige, protege e preserva Sua Igreja.
A pregação fiel destrói mentiras.
O batismo assinala que pertencemos a Cristo.
A Ceia anuncia Sua morte e fortalece a fé.
A oração confessa dependência.
A comunhão combate o isolamento em que a tentação frequentemente prospera.
A disciplina da Igreja chama o pecador ao arrependimento.
O canto congregacional enche a mente e o coração com a verdade.
Martinho Lutero descreveu a ocupação da mente com a Palavra — ouvindo-a, falando, cantando e meditando nela — como uma poderosa defesa contra o diabo, o mundo, a carne e os maus pensamentos.8
O inimigo trabalha pela mentira.
Deus santifica Seu povo pela verdade.
A importância da Igreja
A batalha espiritual não foi planejada para ser enfrentada em isolamento.
O Novo Testamento foi escrito para igrejas.
Suas instruções sobre perseverança, vigilância e santificação pressupõem vida comunitária.
“Exortai-vos mutuamente cada dia, durante o tempo que se chama Hoje, a fim de que nenhum de vós seja endurecido pelo engano do pecado.”
O pecado engana.
Por isso, o cristão precisa de irmãos que o admoestem, encorajem, orem por ele e o ajudem a perceber aquilo que sozinho não consegue enxergar.
O isolamento alimenta a tentação.
Uma das estratégias mais eficientes do inimigo é convencer o cristão de que não precisa da Igreja, de pastores, da Ceia, de correção ou de prestação de contas.
Participar fielmente da congregação é parte da batalha espiritual.
A batalha contra falsas doutrinas
Satanás não atua apenas por meio de tentações morais.
Ele também trabalha por meio do erro religioso.
“Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios.”
Uma doutrina pode parecer espiritual, utilizar vocabulário cristão, citar versículos e ainda assim conduzir os homens para longe do evangelho.
Satanás pode disfarçar-se de anjo de luz.
Por isso, experiências impressionantes, sonhos, visões, profecias e manifestações devem ser examinados pela Palavra de Deus.
“Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus.”
Conhecer boa doutrina não é luxo intelectual.
É proteção espiritual.
A batalha também é cultural
A guerra espiritual também se manifesta em ideias, leis, instituições, costumes e padrões culturais que desafiam o governo de Deus.
Quando uma sociedade chama o mal de bem e o bem de mal, celebra a injustiça, destrói a família, promove a imoralidade ou transforma o Estado, o dinheiro, o prazer e a vontade individual em absolutos, há uma dimensão espiritual nessa rebelião.
A Igreja combate essas fortalezas não com violência, manipulação ou métodos carnais.
Ela combate com a verdade da Palavra, a pregação do evangelho, a formação de famílias fiéis, a educação cristã, a prática da justiça, a misericórdia e o testemunho público do senhorio de Cristo.
A batalha espiritual não se limita ao interior da mente.
Cristo reivindica obediência em todas as áreas da vida.
Deus pode usar a tentação para nos tornar vigilantes
A Confissão de Fé de Westminster ensina que Deus pode permitir que Seus filhos sejam expostos, por algum tempo, a tentações e à corrupção ainda presente em seus corações.9
Ele não faz isso para destruí-los.
Pode fazê-lo para humilhá-los, revelar fraquezas que ainda não percebiam, levá-los a depender mais constantemente de Sua graça e torná-los mais vigilantes.
A tentação continua sendo má na intenção do tentador.
Mas Deus pode governar até mesmo essa experiência para amadurecer Seus filhos.
“Não vos sobreveio tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças.”
O texto não promete que a batalha será fácil.
Promete que Deus é fiel.
O perigo da obsessão pelo mundo demoníaco
Existe uma forma de falar sobre batalha espiritual que parece piedosa, mas acaba deslocando o centro da fé cristã.
Cristo passa a ocupar menos espaço do que Satanás.
O evangelho se torna menos importante do que supostas revelações sobre demônios.
A santificação é substituída por sessões contínuas de libertação.
A responsabilidade pessoal desaparece sob uma sucessão de culpas atribuídas a espíritos.
A Bíblia nos chama à vigilância, não à fascinação.
Quando os discípulos voltaram alegres porque os demônios se submetiam a eles, Jesus corrigiu o centro de sua alegria.
“Não obstante, alegrai-vos, não porque os espíritos se vos submetem, e sim porque o vosso nome está arrolado nos céus.”
A maior alegria do cristão não é possuir conhecimento sobre demônios.
É pertencer a Cristo.
Um roteiro bíblico para a batalha espiritual
Sem transformar a vida cristã em uma fórmula mecânica, as Escrituras apresentam orientações claras:
- submeta-se diariamente a Deus;
- conheça e medite na Palavra;
- ore para não entrar em tentação;
- vigie as próprias fraquezas;
- fuja das ocasiões de pecado;
- confesse rapidamente os pecados cometidos;
- creia na suficiência da obra de Cristo;
- perdoe para não alimentar amargura;
- participe fielmente da Igreja;
- receba os sacramentos;
- procure aconselhamento pastoral quando necessário;
- examine toda doutrina pela Escritura;
- resista ao diabo com firmeza na fé;
- lembre que o inimigo já foi derrotado por Cristo.
Essas práticas podem parecer menos impressionantes do que relatos extraordinários.
Mas são os meios pelos quais Deus preserva ordinariamente Seus filhos.
Vigilância sem medo
A visão reformada da batalha espiritual combina seriedade e segurança.
Existe um inimigo real.
Ele é astuto, mentiroso e destrutivo.
O cristão não deve ser ingênuo, negligente ou autoconfiante.
Mas esse inimigo não é soberano.
Cristo intercede por Seu povo.
O Espírito habita nos santos.
O Pai governa todas as coisas.
“O Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de terdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar.”
O cristão pode sofrer, ser perseguido, enfrentar tentações terríveis e atravessar períodos de escuridão.
Pode tropeçar e precisar ser restaurado.
Mas não está abandonado no campo de batalha.
Aquele que começou a boa obra também a completará.
Conclusão
A batalha espiritual não é uma técnica reservada a especialistas.
É a realidade cotidiana da vida cristã em um mundo caído.
Ela acontece quando o cristão rejeita uma mentira e permanece na verdade.
Quando mortifica um desejo pecaminoso.
Quando perdoa em vez de cultivar amargura.
Quando ora em meio à tentação.
Quando confessa o pecado e corre novamente para Cristo.
Quando permanece na Igreja apesar das dificuldades.
Quando cria seus filhos na disciplina do Senhor.
Quando examina falsas doutrinas pela Palavra.
Quando proclama o evangelho em meio a uma cultura rebelde.
Quando suporta o sofrimento sem negar o nome de Jesus.
Nossa esperança não está em descobrir todos os movimentos do inimigo.
Está em conhecer, obedecer e seguir o Rei vitorioso.
Satanás é real, mas não é soberano.
A batalha continua, mas seu resultado não está em dúvida.
O Cordeiro venceu.
Cristo reina.
E aquele que pertence a Ele será guardado até o fim.
Notas
1 CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã, Livro I, capítulo 14, especialmente as seções 13–18; capítulos 16–18. Calvino afirma a existência e a atividade real dos demônios, mas insiste que eles não podem agir independentemente da providência de Deus. Sua malícia é própria e moralmente culpável; o governo dos acontecimentos pertence ao Senhor. ↩
2 A expressão “o mundo, a carne e o diabo” tornou-se uma síntese tradicional dos principais inimigos espirituais do cristão. Ela corresponde ao ensino de Efésios 2:1–3, que menciona o curso deste mundo, o príncipe da potestade do ar e as inclinações da carne; ver também Gálatas 5:16–17, 1 João 2:15–17 e 1 Pedro 5:8–9. ↩
3 OWEN, John. Of Temptation: The Nature and Power of It. Ao desenvolver a ordem de Mateus 26:41, Owen distingue a simples presença da tentação de “entrar em tentação”. O perigo aumenta quando a tentação passa a dominar a imaginação, os afetos e a vontade. Por isso, a vigilância e a oração devem ocorrer antes que ela alcance plena força. ↩
4 BROOKS, Thomas. Precious Remedies Against Satan’s Devices. Brooks descreve estratégias como apresentar a isca e esconder o anzol, pintar o pecado com cores virtuosas, mostrar apenas a misericórdia de Deus sem Sua santidade, comparar o pecador somente com pessoas piores e conduzir o cristão ao desespero depois da queda. ↩
5 OWEN, John. Of the Mortification of Sin in Believers, especialmente o desenvolvimento de Romanos 8:13. Owen insiste que a mortificação é uma tarefa contínua do cristão e que somente pode ser realizada pelo Espírito. Ela não consiste em mera repressão exterior, mas no enfraquecimento dos desejos pecaminosos e no cultivo de obediência. ↩
6 A conclusão de que o cristão regenerado não pode ser possuído no sentido de pertencer ou ser habitado por um demônio decorre do ensino bíblico sobre sua união com Cristo, sua transferência do domínio das trevas e a habitação do Espírito Santo. Ver 1 Coríntios 6:19–20; Colossenses 1:13; Efésios 1:13–14; 4:30 e 1 João 4:4. Isso não elimina a possibilidade de tentação, perseguição, opressão externa ou grave perturbação espiritual. ↩
7 O Breve Catecismo de Westminster, Pergunta 88, ensina que os meios exteriores e ordinários pelos quais Cristo comunica os benefícios da redenção são Suas ordenanças, especialmente a Palavra, os sacramentos e a oração. O Catecismo Maior de Westminster, Pergunta 154, apresenta a mesma estrutura. Esses meios são centrais para o fortalecimento e a preservação espiritual da Igreja. ↩
8 LUTERO, Martinho. Catecismo Maior, explicação do Terceiro Mandamento. Lutero afirma que ocupar-se com a Palavra de Deus, falar sobre ela, cantá-la e meditar nela constitui poderoso auxílio contra o diabo, o mundo, a carne e os maus pensamentos. Na explicação da sexta petição do Pai Nosso, também ensina que o cristão pede não a ausência de toda tentação, mas força para não ser vencido por ela. ↩
9 A Confissão de Fé de Westminster 5.5 ensina que Deus pode deixar Seus filhos, por algum tempo, sujeitos a múltiplas tentações e à corrupção de seus próprios corações para castigá-los por pecados anteriores, revelar-lhes a força oculta da corrupção, humilhá-los, levá-los a uma dependência mais íntima e constante de Seu auxílio e torná-los mais vigilantes contra futuras ocasiões de pecado. ↩
10 Sobre a armadura de Deus e a resistência cristã, ver Efésios 6:10–18, Tiago 4:6–10 e 1 Pedro 5:6–10. As armas mencionadas são verdade, justiça, evangelho, fé, salvação, Palavra e oração. As passagens não oferecem fundamento para técnicas esotéricas, fórmulas verbais, objetos consagrados ou conhecimentos secretos destinados a manipular o mundo espiritual. ↩
11 Sobre a vitória de Cristo e a segurança de Seu povo, ver Romanos 8:31–39; Colossenses 1:13; 2:13–15; Hebreus 2:14–15; 1 João 4:4 e Apocalipse 12:7–11. A perseverança do cristão não se apoia em sua força autônoma, mas na intercessão de Cristo, na habitação do Espírito e na fidelidade do Pai. ↩