Fullmetal Alchemist: Brotherhood é uma série de fantasia ambientada em um mundo no qual a alquimia funciona como uma disciplina sistemática de conhecimento e transformação da matéria. Seus praticantes estudam fórmulas, realizam pesquisas, desenham círculos de transmutação e obedecem ao princípio da troca equivalente: para obter alguma coisa, seria necessário oferecer algo de valor correspondente.
No centro da história estão os irmãos Edward e Alphonse Elric. Ainda crianças, depois da morte da mãe, eles tentaram utilizar a alquimia para trazê-la de volta à vida. A experiência fracassou de maneira terrível. Edward perdeu uma perna e depois sacrificou um braço para prender a alma do irmão a uma armadura; Alphonse perdeu todo o corpo. Desde então, os dois viajam procurando uma forma de recuperar aquilo que perderam e reparar o erro que cometeram.
Edward, o irmão mais velho, torna-se um Alquimista Federal: um pesquisador oficialmente ligado ao governo e autorizado a utilizar seus conhecimentos em missões do Estado. Alphonse, embora pareça uma enorme armadura vazia, continua sendo um jovem gentil, sensível e profundamente humano. Juntos, eles conhecem tanto o poder da alquimia quanto as consequências de utilizá-la sem compreender seus limites.
Essa apresentação é importante porque os irmãos não observam os acontecimentos seguintes como pessoas estranhas à religião, ao sofrimento ou à ciência. Eles também foram movidos pela dor, acreditaram que o conhecimento poderia vencer a morte e pagaram um preço alto por ultrapassar uma fronteira que não compreendiam.
A partir deste ponto, o texto revela acontecimentos decisivos dos episódios 3 e 4 de Fullmetal Alchemist: Brotherhood, incluindo o desfecho das histórias de Cornello, Shou Tucker, Nina e Alexander. Recomenda-se assistir a esses episódios antes de prosseguir.
Já nos episódios 3 e 4, a série coloca os protagonistas diante de dois abusos aparentemente opostos, mas moralmente semelhantes.
No terceiro episódio, eles chegam à cidade de Reole e encontram uma população dominada por um falso líder religioso. Cornello afirma realizar milagres, promete a ressurreição dos mortos e utiliza a esperança dos fiéis para construir poder político.
No episódio seguinte, Edward e Alphonse conhecem Shou Tucker, um alquimista reconhecido pelo Estado por suas pesquisas com quimeras, criaturas produzidas pela combinação alquímica de diferentes formas de vida. Pressionado para conservar sua certificação e provar o valor de seu trabalho, Tucker utiliza a própria filha em um experimento monstruoso.
As duas histórias parecem inicialmente opostas. De um lado está a religião; do outro, uma disciplina que ocupa naquele universo uma posição semelhante à ciência. De um lado, um sacerdote que engana os fiéis; do outro, um pesquisador que destrói uma criança em nome do conhecimento e da validação profissional.
Entretanto, os dois episódios revelam o mesmo problema moral. Nos dois casos, uma autoridade deixa de ser examinada. Nos dois casos, pessoas são transformadas em instrumentos. Nos dois casos, a aparência de sucesso encobre uma mentira. E, nos dois casos, a tragédia acontece quando fé, razão e consciência são separadas.
A obra não ensina simplesmente que toda religião seja falsa ou que toda ciência conduza à crueldade. Sua advertência é mais precisa: qualquer sistema se torna perigoso quando exige confiança sem investigação, poder sem responsabilidade e conhecimento sem limites morais.
Uma cidade governada por milagres
No terceiro episódio, Edward e Alphonse chegam a Reole, cidade dominada pela influência do padre Cornello, líder da Igreja de Leto. Seus sermões são transmitidos pelo rádio, sua imagem está associada à esperança da população e seus feitos parecem ultrapassar os limites conhecidos da alquimia.
Para os moradores, os milagres confirmam automaticamente a autoridade do sacerdote. Se Cornello realiza sinais extraordinários, então deve falar em nome de Deus. Se fala em nome de Deus, suas promessas não precisam ser examinadas. E, se não precisam ser examinadas, qualquer dúvida pode ser classificada como falta de fé.
Essa lógica permite que Cornello controle mais do que a religião da cidade. Ele controla suas esperanças, seus medos e sua compreensão da realidade.
O falso líder não precisa demonstrar que sua doutrina é verdadeira. Basta produzir sinais impressionantes e convencer os seguidores de que investigá-los seria uma forma de incredulidade.
Rose e a esperança transformada em instrumento
Rose representa de maneira especial as pessoas manipuladas por Cornello. Ela havia perdido o homem que amava e se agarrava à promessa de que ele poderia ser trazido de volta à vida.
Sua confiança não nasce de uma investigação cuidadosa sobre o caráter do sacerdote, sobre a origem de seu poder ou sobre a coerência de sua mensagem. Ela nasce da dor.
Cornello compreende essa fragilidade e oferece exatamente aquilo que Rose mais deseja ouvir.
O falso líder não inventa o sofrimento de seus seguidores. A dor é real, a saudade é real e o desejo de reencontrar uma pessoa amada é real. Sua perversidade consiste em utilizar sentimentos verdadeiros para sustentar uma promessa falsa.
Esse é um dos métodos mais eficientes da manipulação religiosa. O enganador identifica uma necessidade legítima e se apresenta como o único caminho para satisfazê-la. Ele não precisa oferecer provas suficientes porque a vítima deseja desesperadamente que a promessa seja verdadeira.
Existe diferença entre confiar em Deus e acreditar cegamente em qualquer pessoa que afirme falar em nome de Deus.
“Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo afora.”
A advertência bíblica não considera o exame uma forma de incredulidade. Pelo contrário, o discernimento é apresentado como obrigação espiritual.
O falso profeta precisava controlar a informação
Cornello não governa apenas por meio de discursos religiosos. Ele controla aquilo que a população conhece. Sua voz domina as transmissões, sua interpretação dos acontecimentos ocupa o espaço público e seus seguidores recebem uma explicação pronta para qualquer oposição.
Quando Edward questiona seus poderes, Cornello não convida a cidade a examinar serenamente as evidências. Ele transforma os irmãos em inimigos da fé.
Esse movimento é característico de sistemas autoritários. A crítica ao líder é transformada em ataque à religião. A investigação de uma alegação é apresentada como perseguição aos fiéis. A pessoa que pergunta deixa de ser tratada como alguém em busca da verdade e passa a ser classificada como inimiga.
O falso profeta precisa impedir que seus seguidores distingam entre Deus e o homem que afirma representá-lo.
Enquanto essa distinção não existe, defender Cornello parece ser o mesmo que defender a própria fé.
Os milagres não provavam a mensagem
Os feitos realizados por Cornello pareciam extraordinários porque ele possuía uma Pedra Filosofal incompleta. Ela permitia que o sacerdote ultrapassasse temporariamente limitações comuns da alquimia e criasse a aparência de poder sobrenatural.
Os moradores enxergavam o resultado, mas não conheciam sua causa. A conclusão religiosa era construída sobre informação incompleta.
Isso revela uma distinção importante: um acontecimento impressionante não valida automaticamente a interpretação oferecida por quem o realiza.
Mesmo dentro da perspectiva bíblica, sinais extraordinários não são suficientes para provar que alguém representa Deus.
“Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos.”
Cornello possuía sinais, mas não possuía verdade. Prometia vida, mas preparava violência. Falava em esperança, mas desejava poder. Apresentava-se como servo de Deus, mas tratava pessoas como peças de um projeto político.
Religião transformada em poder político
O objetivo de Cornello não era apenas receber admiração religiosa. Ele pretendia utilizar seus seguidores para provocar uma rebelião e conquistar poder.
A fé da população havia sido convertida em força política controlada por um homem.
O problema não está somente nos seguidores que não investigam. Está também no líder que constrói deliberadamente um sistema no qual investigar parece pecado.
Cornello não desejava formar pessoas maduras, capazes de discernir o verdadeiro e o falso. Desejava seguidores emocionalmente dependentes de suas promessas.
Uma religião saudável não precisa esconder seus fundamentos. Não considera toda pergunta uma ameaça. Não exige que a razão seja destruída para que a fé sobreviva.
“Santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós.”
Edward investigou aquilo que os outros apenas contemplavam
Edward não aceita os supostos milagres de Cornello apenas porque parecem inexplicáveis. Ele observa, formula hipóteses e procura a origem do poder apresentado.
Essa postura não significa que Edward possua todas as respostas. Ele mesmo carrega as consequências de uma tentativa fracassada de transmutação humana. Sua inteligência não o torna moralmente infalível.
Entretanto, diante de Cornello, ele faz aquilo que os moradores de Reole haviam deixado de fazer: separa o acontecimento de sua interpretação oficial.
O sacerdote afirma que realiza milagres em nome de Deus. Edward pergunta se existe outra explicação. Cornello promete ressuscitar os mortos. Edward confronta essa promessa com aquilo que conhece sobre a alquimia e com sua própria experiência dolorosa.
A investigação revela que o poder de Cornello não vinha da divindade que ele proclamava. A suposta prova de sua missão religiosa era uma fraude alquímica.
Do falso sacerdote ao alquimista reconhecido
O quarto episódio muda completamente o ambiente. Edward e Alphonse deixam a cidade dominada por Cornello e conhecem Shou Tucker, o Alquimista da Trama Vital.
Tucker não se apresenta como profeta. Não promete milagres religiosos nem afirma falar em nome de Deus. É um pesquisador credenciado pelo Estado, especializado na criação de quimeras.
Seu prestígio profissional foi construído depois que apresentou uma criatura capaz de falar. A realização garantiu sua certificação como Alquimista Federal.
Quando os irmãos o conhecem, ele parece um homem gentil, dedicado aos estudos e afetuoso com sua filha Nina. Entretanto, enfrenta uma nova avaliação. Caso não demonstre resultados, poderá perder sua posição, seu financiamento e o reconhecimento alcançado.
A pressão profissional revela aquilo que seu comportamento aparentemente calmo escondia.
Uma ciência que deixou de enxergar pessoas
Shou Tucker transforma Nina e o cachorro Alexander em uma única quimera. A própria filha é utilizada como matéria-prima para que o pesquisador apresente um novo resultado e preserve sua certificação.
Essa cena está entre as mais chocantes que já vi em um anime. Mesmo conhecendo o que acontecerá, o momento em que se revela que Nina e Alexander foram fundidos ainda mexe comigo quando revejo o episódio. A simplicidade da descoberta, a voz da quimera e a incapacidade dos irmãos de desfazer imediatamente o horror tornam a sequência especialmente difícil de esquecer.
O horror do episódio não está apenas na aparência da criatura. Está no raciocínio que tornou o ato possível.
Tucker deixou de enxergar Nina como filha, pessoa e vida confiada aos seus cuidados. Passou a enxergá-la como recurso experimental.
Sua inteligência não desapareceu. Sua capacidade técnica não foi reduzida. Ele compreendia perfeitamente o processo alquímico. O que havia desaparecido era o limite moral.
Isso demonstra que conhecimento e virtude não são a mesma coisa.
Uma pessoa pode dominar procedimentos complexos e ainda utilizar esse domínio para praticar o mal. A capacidade de fazer algo não responde à pergunta sobre se aquilo deve ser feito.
A ciência descreve mecanismos, formula hipóteses, testa resultados e amplia o domínio humano sobre a natureza. Entretanto, o método científico, isoladamente, não produz todos os valores necessários para decidir quais experiências são moralmente legítimas.
O experimento não era busca desinteressada pela verdade
Tucker poderia tentar justificar seu ato como compromisso extremo com o avanço do conhecimento. Porém, sua motivação imediata era ainda mais baixa: preservar a carreira.
Ele precisava demonstrar resultados para continuar reconhecido pelo Estado. A filha tornou-se o preço de sua validação profissional.
Isso aproxima Tucker de Cornello mais do que inicialmente parece.
| Cornello | Shou Tucker |
|---|---|
| Utiliza a religião para conservar poder. | Utiliza a alquimia para conservar prestígio. |
| Explora a dor e a esperança dos seguidores. | Explora a confiança e a vulnerabilidade da própria filha. |
| Produz sinais para validar sua autoridade. | Produz uma quimera para validar sua certificação. |
| Esconde a verdadeira origem de seus milagres. | Esconde a verdadeira origem de seus experimentos. |
| Transforma fiéis em instrumentos políticos. | Transforma pessoas em material de pesquisa. |
| Promete vida enquanto prepara destruição. | Estuda a vida enquanto destrói sua própria família. |
Os dois homens procuram legitimação. Cornello deseja ser reconhecido como profeta. Tucker deseja continuar reconhecido como alquimista.
Para manter essa posição, ambos produzem uma aparência de sucesso e escondem o custo humano de suas obras.
O Estado validou a competência, não o caráter
A certificação de Tucker demonstra que uma instituição pode reconhecer capacidade técnica sem conhecer ou avaliar adequadamente o caráter de quem a possui.
Ele havia cumprido determinado requisito profissional. Produzira uma quimera capaz de falar e recebera um título oficial.
O selo do Estado confirmava que Tucker alcançara um resultado considerado relevante. Não significava que fosse bom pai, homem virtuoso ou pesquisador moralmente confiável.
Da mesma maneira, títulos acadêmicos, cargos religiosos e posições institucionais não transformam automaticamente seus ocupantes em pessoas dignas de confiança absoluta.
Uma credencial pode indicar treinamento. Não prova sabedoria. Pode demonstrar habilidade. Não garante caráter. Pode autorizar alguém a exercer uma função. Não torna tudo o que essa pessoa faz moralmente legítimo.
A crença cega na ciência frequentemente não se manifesta como confiança em dados ou métodos, mas como submissão irrestrita a pessoas e instituições consideradas científicas.
Nesse momento, deixa-se de perguntar se uma alegação foi demonstrada, se o procedimento respeitou limites éticos ou se os interesses do pesquisador influenciaram suas conclusões.
O título passa a substituir o argumento.
Edward não rejeita a alquimia
A reação de Edward ao crime de Tucker impede uma interpretação anticientífica do episódio.
Edward não conclui que toda alquimia seja perversa. Ele próprio é alquimista. Continua estudando, investigando e utilizando seus conhecimentos durante toda a história.
O que ele rejeita é uma alquimia separada da responsabilidade moral.
Tucker tenta diminuir a distância entre eles, lembrando que Edward também ultrapassou limites ao tentar realizar uma transmutação humana. A acusação atinge Edward porque existe um ponto de contato real: os irmãos também buscaram aquilo que não deveriam tentar alcançar.
Entretanto, existe uma diferença essencial. Edward e Alphonse reconhecem sua ação como erro, sofrem suas consequências e procuram reparar aquilo que fizeram. Tucker conhece o custo de seus experimentos e volta a praticá-los deliberadamente para proteger sua carreira.
A semelhança técnica não produz equivalência moral.
O conhecimento sem amor transforma o próximo em objeto
A tragédia de Nina pode ser compreendida como resultado de uma inteligência desligada do amor.
Tucker conhecia processos alquímicos, anatomia e criação de quimeras. Porém, deixou de cumprir o dever mais elementar que possuía: amar e proteger sua filha.
Quando o outro deixa de ser reconhecido como pessoa dotada de dignidade, torna-se possível tratá-lo como número, material, caso clínico, objeto de estudo ou obstáculo.
Esse perigo não pertence exclusivamente à ciência. Governos, empresas, igrejas e movimentos políticos também podem reduzir pessoas a instrumentos.
Entretanto, a ciência fornece um poder técnico especialmente amplo. Quanto maior o poder disponível, maior deve ser a responsabilidade moral de quem o exerce.
“O saber ensoberbece, mas o amor edifica.”
Religião cega e ciência cega
Os episódios 3 e 4 funcionam como narrativas complementares.
Em Reole, pessoas religiosas deixam de investigar porque acreditam que a fé exige submissão ao profeta. Na casa de Tucker, o pesquisador deixa de reconhecer limites porque acredita que o resultado científico justifica o procedimento.
Em um caso, a razão é silenciada em nome da religião. No outro, a consciência é silenciada em nome da ciência.
| Separação | Consequência |
|---|---|
| Fé sem investigação | O falso profeta controla aquilo que seus seguidores acreditam. |
| Conhecimento sem moral | O pesquisador considera legítimo tudo aquilo que consegue realizar. |
| Autoridade sem prestação de contas | O líder transforma sua posição em prova de que está correto. |
| Esperança sem verdade | A dor das pessoas torna-se instrumento de manipulação. |
| Técnica sem amor | Seres humanos são reduzidos a objetos e recursos. |
A religião cega diz: “Não examine; apenas creia em quem fala em nome de Deus”.
A ciência cega diz: “Não questione moralmente; o especialista sabe o que está fazendo”.
As duas formas de cegueira exigem que a consciência individual seja entregue a uma autoridade considerada superior.
A crítica à religião não é defesa do materialismo
Seria possível interpretar o episódio de Cornello como uma simples afirmação de que a religião é falsa e a alquimia oferece a verdadeira explicação do mundo.
Entretanto, o episódio seguinte destrói essa leitura simplista.
Assim que a fraude religiosa é exposta, a obra apresenta um alquimista capaz de cometer uma atrocidade em nome de sua atividade científica.
O problema de Cornello não era apenas falar sobre Deus. Era mentir, manipular e impedir a investigação. O problema de Tucker não era estudar alquimia. Era utilizar conhecimento sem reconhecer a dignidade humana e os limites morais.
A sequência impede que um dos sistemas se apresente como automaticamente puro por oposição ao outro.
A religião pode ser corrompida. A ciência também pode ser corrompida. A fé pode ser manipulada. A razão pode ser instrumentalizada. Nenhuma atividade humana está imune ao pecado de quem a pratica.
A fé cristã não exige cegueira
A expressão “fé cega” é frequentemente utilizada como se toda fé religiosa exigisse aceitar afirmações sem evidência, sem exame e sem possibilidade de correção.
Essa descrição pode se aplicar ao sistema de Cornello, mas não corresponde necessariamente ao conceito bíblico de fé.
A fé cristã possui conteúdo. Ela confia em uma pessoa, responde a uma revelação e se relaciona com acontecimentos proclamados como históricos.
Os bereanos foram elogiados por examinar as Escrituras para verificar se aquilo que ouviam correspondia à verdade.
“Ora, estes de Bereia eram mais nobres que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim.”
O exame não destruiu a fé dos bereanos. Foi parte do caminho pelo qual receberam o ensino.
Uma autoridade religiosa que proíbe toda investigação não está protegendo a fé. Está protegendo a si mesma contra a verdade.
A ciência também depende de pressupostos morais
A ciência pode investigar o funcionamento do corpo, da matéria e da natureza. Pode avaliar consequências, medir riscos e comparar resultados.
Entretanto, afirmar que uma criança não deve ser sacrificada para preservar a carreira de um pesquisador não é apenas uma conclusão produzida por instrumentos de laboratório.
Essa afirmação depende de uma compreensão moral sobre a dignidade humana, o dever dos pais, o valor da vida e os limites da experimentação.
O laboratório pode demonstrar que determinado procedimento funciona. Não pode, sozinho, estabelecer que toda aplicação possível desse procedimento seja justa.
Por isso, sociedades desenvolvem princípios de ética médica, consentimento informado, proteção de pessoas vulneráveis e revisão independente de pesquisas.
Esses limites não são inimigos da ciência. São necessários justamente porque o conhecimento científico concede poder real a seres humanos moralmente falíveis.
O mesmo desejo de ocupar o lugar de Deus
Cornello e Tucker também estão unidos pelo desejo de exercer domínio sobre a vida.
Cornello promete ressuscitar os mortos. Tucker combina vidas humanas e animais para produzir uma nova criatura. Ambos utilizam promessas relacionadas à vida para estabelecer sua importância.
Esse tema atravessa toda a história dos irmãos Elric. Edward e Alphonse perderam seus corpos porque tentaram trazer a mãe de volta à vida. A transmutação humana representava o desejo de ultrapassar uma fronteira que não compreendiam plenamente.
A obra não apresenta essa busca apenas como erro técnico. Trata-se também de orgulho: a pretensão de que conhecimento e poder suficientes permitirão ao ser humano dominar aquilo que lhe escapa.
O sofrimento não torna toda promessa verdadeira
Rose deseja reencontrar o homem que perdeu. Edward e Alphonse desejam recuperar seus corpos. Tucker teme perder a posição que sustenta sua vida profissional.
Todos estão marcados por necessidades reais.
Entretanto, a intensidade de um desejo não prova que exista um meio legítimo de realizá-lo.
A dor pode tornar uma mentira mais atraente, mas não a transforma em verdade. A necessidade de uma cura não valida qualquer tratamento. O medo de perder a carreira não torna legítimo qualquer experimento. O desejo de rever alguém que morreu não concede poder a quem promete ressuscitá-lo.
Uma das funções da verdade é impedir que a dor nos entregue àquele que oferece a promessa mais confortável.
O líder e o especialista também precisam ser examinados
Cornello possui autoridade religiosa. Tucker possui autoridade técnica. Ambos esperam que seus títulos reduzam a disposição das pessoas para questioná-los.
O sacerdote deseja que seus seguidores pensem: “Ele realiza milagres e fala em nome de Deus; portanto, deve estar correto”.
O alquimista deseja que os outros pensem: “Ele é certificado pelo Estado e domina sua área; portanto, seus experimentos devem ser legítimos”.
Em ambos os casos, o argumento é substituído pela posição.
A autoridade legítima possui valor. Pastores podem ensinar. Pesquisadores podem falar com competência sobre suas áreas. Reconhecer especialização, porém, não exige transformá-la em infalibilidade.
Uma pessoa pode possuir conhecimento superior em determinado campo e ainda ser influenciada por ambição, medo, pressão institucional, ideologia ou interesse financeiro.
Por isso, instituições saudáveis estabelecem prestação de contas, revisão, transparência e possibilidade de contestação.
Uma advertência para igrejas
O episódio de Cornello deve ser recebido como advertência por comunidades religiosas.
Um pastor pode utilizar sofrimento, promessas de cura, profecias e relatos de milagres para construir dependência emocional. Pode tratar qualquer pergunta como rebeldia e qualquer investigação como falta de fé.
Pode ainda confundir sua própria liderança com a autoridade de Deus, fazendo com que discordar dele pareça equivalente a rejeitar o Senhor.
Quando isso acontece, a religião deixa de conduzir as pessoas à verdade e passa a protegê-las do exame que revelaria a mentira.
“Pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho.”
Uma advertência para a ciência e para o Estado
O episódio de Tucker também apresenta uma advertência às instituições de pesquisa e ao poder público.
O Estado desejava resultados. Tucker precisava demonstrar produtividade. A avaliação estava concentrada no sucesso experimental, enquanto a origem da quimera anterior não havia sido investigada adequadamente.
A instituição possuía critérios técnicos, mas falhou em perceber o custo humano escondido por trás do resultado.
Não basta perguntar se uma pesquisa produziu algo novo. É necessário perguntar como esse resultado foi obtido, quem assumiu os riscos, quem sofreu os custos e quais limites foram ultrapassados.
O pesquisador deve prestar contas porque a ciência não é praticada por seres moralmente neutros.
Os irmãos Elric também precisam aprender humildade
Edward e Alphonse não ocupam simplesmente a posição de juízes externos dos dois episódios.
Eles também foram vítimas do próprio orgulho. Tentaram realizar uma transmutação humana, acreditando que conhecimento suficiente lhes permitiria recuperar a mãe.
Perderam partes de seus corpos e criaram uma existência deformada em vez de restaurar a vida desejada.
Por isso, o encontro com Cornello e Tucker também confronta os irmãos com aspectos de sua própria história.
A diferença é que eles ainda podem aprender. Sua jornada inclui reconhecer os limites do poder humano, assumir responsabilidade por seus erros e rejeitar soluções que exigem o sacrifício de outras pessoas.
A verdadeira sabedoria não consiste apenas em acumular conhecimento, mas em reconhecer os limites morais e existenciais daquele que conhece.
Conclusão
Os episódios 3 e 4 de Fullmetal Alchemist: Brotherhood apresentam duas histórias diferentes que formam uma única advertência.
Em Reole, Cornello manipula pessoas religiosas que deixaram de investigar a origem de seus milagres, o conteúdo de suas promessas e o caráter de seu líder.
Na casa de Shou Tucker, um alquimista sacrifica a própria filha para produzir um resultado capaz de preservar sua carreira e sua certificação.
O primeiro caso mostra a religião sem verdade. O segundo mostra a ciência sem consciência.
Cornello transforma fé em instrumento de poder. Tucker transforma conhecimento em instrumento de destruição. Um explora a esperança dos fiéis; o outro explora a confiança da própria filha.
A obra não exige que escolhamos entre religião e ciência como se uma fosse necessariamente irracional e a outra automaticamente virtuosa.
Ela mostra que ambas podem ser corrompidas por seres humanos.
A religião precisa ser examinada à luz da verdade. A ciência precisa permanecer submetida à moral. A fé não deve eliminar o discernimento. O conhecimento não deve abolir o amor. A autoridade não pode substituir a prestação de contas.
O falso profeta pede que ninguém investigue.
O cientista sem consciência pede que ninguém imponha limites.
Ambos desejam uma sociedade na qual sua autoridade seja suficiente para encerrar qualquer pergunta.
O caminho correto não é a fé sem razão nem a razão sem moral. É a busca da verdade acompanhada de humildade, responsabilidade e amor ao próximo.
“Julgai todas as coisas, retende o que é bom; abstende-vos de toda forma de mal.”
Rose precisava examinar o profeta que prometia devolver a vida.
O Estado precisava examinar o alquimista que afirmava criar vida.
E todos nós precisamos lembrar que nenhuma veste religiosa, título acadêmico, credencial pública ou demonstração de poder torna alguém incapaz de mentir, errar ou praticar o mal.
A verdade não teme investigação.
E o conhecimento que destrói o próximo não pode ser chamado de sabedoria.
Notas
1 “A Cidade da Heresia” é o terceiro episódio de Fullmetal Alchemist: Brotherhood. Nele, Edward e Alphonse chegam a Reole e confrontam o padre Cornello, líder da Igreja de Leto.
2 “A Angústia de um Alquimista” é o quarto episódio. Os irmãos conhecem Shou Tucker, pesquisador de quimeras que transforma sua filha Nina e o cachorro Alexander para conservar sua certificação como Alquimista Federal.
3 A expressão “ciência” é utilizada neste texto de maneira analógica em relação à alquimia da obra. No universo de Fullmetal Alchemist, a alquimia é apresentada como disciplina sistemática, experimental, institucionalizada e submetida a regras, embora contenha elementos fantásticos inexistentes na ciência real.
4 A crítica à “fé cega” não significa que toda fé seja irracional. No cristianismo histórico, a fé possui conteúdo revelado e não elimina o dever de discernimento.
5 A crítica à ciência sem consciência não é rejeição do conhecimento científico. Normas de consentimento, comitês de ética, revisão e proteção de pessoas vulneráveis existem justamente para impedir que o avanço técnico transforme seres humanos em instrumentos.
Fontes e referências
ARAKAWA, Hiromu. Fullmetal Alchemist. Mangá publicado originalmente pela Square Enix entre 2001 e 2010.
BONES. Fullmetal Alchemist: Brotherhood. Episódio 3, “A Cidade da Heresia”; episódio 4, “A Angústia de um Alquimista”. Série de animação exibida originalmente a partir de 2009.
BÍBLIA SAGRADA. Referências utilizadas: Mateus 24:24; Atos 17:11; 1 Coríntios 8:1; 1 Tessalonicenses 5:21–22; 1 Pedro 3:15; 1 Pedro 5:2–3; 1 João 4:1.
CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER. Especialmente os capítulos I, “Da Escritura Sagrada”; IV, “Da Criação”; V, “Da Providência”; e XXI, “Do culto religioso e do domingo”.