Entre as declarações de Jesus que mais causam dificuldade está aquela registrada no discurso do Monte das Oliveiras:
A dificuldade é evidente. A Escritura ensina que o Filho é verdadeiramente Deus. Ele não é uma criatura superior, um intermediário entre Deus e os homens ou alguém que apenas recebeu uma dignidade divina. Ele é o Verbo eterno, por meio de quem todas as coisas foram feitas, aquele que conhece o Pai e que, em sua natureza divina, possui todos os atributos próprios de Deus. Como, então, o próprio Cristo poderia afirmar que não sabia o dia de sua volta?
A resposta cristã histórica não consiste em enfraquecer a divindade de Cristo nem em fingir que suas palavras não significam o que dizem. Ela começa pela doutrina da encarnação: o Filho eterno de Deus assumiu uma natureza humana verdadeira e completa. Desde a encarnação, ele é uma única pessoa em duas naturezas distintas — divina e humana — sem confusão, sem mudança, sem divisão e sem separação.
O Filho não deixou de ser onisciente. Ele assumiu, sem deixar de ser Deus, uma natureza humana verdadeira, com uma mente humana finita.
Uma pessoa, duas naturezas
Jesus Cristo não é duas pessoas colocadas lado a lado. O homem Jesus não é alguém diferente do Filho eterno. Aquele que nasceu de Maria, cresceu, aprendeu, sofreu, morreu e ressuscitou é a mesma pessoa divina que estava com o Pai antes da criação do mundo. Contudo, essa única pessoa subsiste em duas naturezas completas.
Segundo sua natureza divina, o Filho é eterno, infinito, imutável e onisciente. Segundo sua natureza humana, ele possui corpo e alma humanos, mente humana, vontade humana e todas as limitações próprias de uma humanidade verdadeira, exceto o pecado. Sua humanidade não foi uma aparência, um disfarce ou um instrumento sem vida usado pela divindade. O Filho realmente se fez homem.
Essa distinção é indispensável. A natureza divina não foi transformada em natureza humana, e a natureza humana não foi absorvida ou divinizada. A onisciência pertence à natureza divina; a capacidade humana de aprender e crescer em conhecimento pertence à natureza humana. As duas realidades estão unidas na mesma pessoa, mas não são misturadas.
Por isso, a Escritura pode afirmar que Jesus “crescia em sabedoria” (Lucas 2:52) sem negar que o Filho, segundo sua divindade, conhece todas as coisas. O crescimento em sabedoria foi real em sua experiência humana. Sua mente humana não era infinita. Ela se desenvolveu de maneira santa e perfeita, conforme a condição humana que ele voluntariamente assumiu.
Cristo não deixou de ser onisciente
Quando Jesus diz que o Filho não sabe o dia e a hora, ele não está afirmando que sua natureza divina perdeu a onisciência. Deus não pode deixar de ser Deus, e um atributo divino não pode ser temporariamente desligado. O Filho não abandonou aquilo que ele é eternamente.
Também não é adequado imaginar que, durante sua humilhação, a pessoa de Cristo estivesse separada de sua própria natureza divina ou precisasse “acessá-la” ocasionalmente. A natureza divina nunca esteve ausente, inativa ou distante da pessoa do Filho. Desde a concepção no ventre de Maria, o mesmo Cristo é plenamente Deus e plenamente homem.
O que a passagem revela é que o Filho encarnado, segundo sua verdadeira condição humana e no exercício de seu ofício de Mediador, não possuía em sua mente humana o conhecimento daquele dia e daquela hora. Essa ignorância não era pecaminosa nem defeituosa. Uma mente humana não precisa ser onisciente para ser perfeita; na verdade, se fosse onisciente por natureza, deixaria de ser verdadeiramente humana.
Assim, não há contradição em afirmar que Cristo conhecia todas as coisas segundo sua natureza divina e, ao mesmo tempo, que não conhecia o dia de sua volta segundo sua natureza humana. A afirmação é feita a respeito da única pessoa do Filho, mas deve ser entendida conforme a natureza segundo a qual aquela propriedade lhe pertence.
A ignorância pertence à experiência humana de Cristo; a onisciência pertence eternamente à sua natureza divina. O sujeito de ambas as afirmações é a mesma pessoa: o Filho de Deus.
O conhecimento humano do Mediador
Durante seu ministério terreno, Jesus demonstrou possuir conhecimentos que não poderiam ser obtidos pelos meios humanos comuns. Ele conhecia pensamentos, intenções e acontecimentos ocultos. Isso não transforma sua mente humana em uma mente onisciente. Mostra que, no cumprimento de sua missão, Deus lhe comunicava verdadeiro conhecimento conforme a vontade divina e as exigências de seu ofício profético.
A humanidade de Cristo foi plenamente capacitada para tudo o que o Pai lhe confiou. Ele conheceu perfeitamente tudo quanto precisava conhecer para revelar Deus, anunciar o evangelho, obedecer à lei, cumprir as profecias, oferecer-se como sacrifício e conduzir seus discípulos. Mas perfeição de conhecimento para o exercício de sua missão não é o mesmo que infinitude de conhecimento.
Marcos 13:32 estabelece precisamente um limite: o dia e a hora não pertenciam ao conteúdo comunicado à sua consciência humana naquele estado de humilhação. O texto não apresenta uma falha na missão de Cristo. Pelo contrário, mostra que o Mediador assumiu verdadeiramente nossa condição e nela obedeceu ao Pai.
A ordem entre o Pai e o Filho
A frase “senão o Pai” também deve ser entendida dentro da obra da redenção. Ela não ensina que o Pai seja mais divino que o Filho ou que possua uma natureza superior. Pai, Filho e Espírito Santo são um só Deus, iguais em essência, poder e glória.
Entretanto, na economia da salvação, o Filho foi enviado pelo Pai, assumiu a forma de servo e cumpriu sua missão em perfeita obediência. Como Mediador, ele fala e age na posição daquele que foi enviado. A distinção de funções não estabelece desigualdade de essência. O Filho é igual ao Pai quanto à divindade e subordinado ao Pai quanto ao ofício que voluntariamente assumiu para realizar nossa redenção.
Por isso, a declaração de Jesus deve ser recebida como parte de sua humilhação mediadora. O Filho não está negando sua divindade. Está falando como o Cristo encarnado, o Servo do Senhor, que vive e cumpre sua missão em perfeita sujeição à vontade do Pai.
Não se trata apenas de recusar-se a revelar
Alguns intérpretes procuram resolver a dificuldade dizendo que “não saber” significaria apenas “não tornar conhecido”. Essa explicação pretende preservar a onisciência de Cristo, mas não é necessária e dificilmente expressa toda a força natural da passagem. Jesus não diz apenas que não revelará a data. Ele inclui o Filho entre aqueles que não a conhecem, em contraste com o Pai.
A cristologia reformada não precisa diminuir o sentido dessas palavras para defender a divindade de Cristo. A verdadeira humanidade do Salvador oferece uma resposta mais sólida. O Filho podia dizer realmente que não sabia, porque sua mente humana era finita, ao mesmo tempo que permanecia eternamente onisciente segundo sua natureza divina.
Isso não divide Cristo. Não existem dois sujeitos falando: um humano e outro divino. Existe uma só pessoa, o Filho de Deus, a quem podem ser atribuídas propriedades de qualquer uma de suas naturezas. O mesmo Cristo que, segundo a humanidade, teve fome, sofreu e morreu é aquele que, segundo a divindade, sustenta todas as coisas pela palavra de seu poder.
A exaltação não corrigiu uma divindade incompleta
Também não devemos dizer que, depois da ressurreição, Cristo recuperou uma onisciência que havia perdido. Sua natureza divina jamais sofreu redução. A ressurreição e a exaltação não restauraram uma divindade enfraquecida; elas encerraram o estado de humilhação e inauguraram o exercício público e glorioso de sua autoridade messiânica.
O Cristo exaltado continua sendo verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Sua humanidade permanece criada e finita, embora agora glorificada, incorruptível e livre de toda fraqueza própria do estado de humilhação. Sua divindade permanece infinita e imutável. A união das duas naturezas permanece para sempre.
Atos 1 registra que, pouco antes da ascensão, Jesus disse aos discípulos: “Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade” (Atos 1:7). Mais uma vez, o propósito não é satisfazer a curiosidade cronológica, mas estabelecer a responsabilidade dos discípulos. A data pertence ao governo soberano de Deus; à Igreja pertence vigiar, testemunhar e permanecer fiel.
Por que Cristo não sabia?
Cristo não sabia o dia e a hora de sua volta segundo sua mente humana, porque o Filho eterno assumiu uma humanidade verdadeira, finita e completa. Esse conhecimento específico não lhe havia sido comunicado no estado de humilhação e não era necessário para que ele cumprisse perfeitamente sua obra como Mediador.
Ao mesmo tempo, ele jamais deixou de ser o Deus onisciente. A ignorância atribuída a Cristo pertence à sua experiência humana; a onisciência pertence eternamente à sua natureza divina. Ambas são verdadeiras a respeito da mesma pessoa, cada uma conforme a natureza correspondente.
Portanto, Marcos 13:32 não enfraquece a doutrina da divindade de Cristo. A passagem confirma a realidade de sua encarnação. O Salvador não apenas pareceu homem: ele assumiu nossa natureza por inteiro, viveu sob suas condições legítimas e cumpriu nela toda a justiça exigida por Deus.
O mistério não é que Deus tenha deixado de saber alguma coisa. O mistério é que aquele que eternamente conhece todas as coisas tenha se humilhado a ponto de possuir também uma mente humana verdadeira, capaz de crescer em sabedoria e de não conhecer aquilo que o Pai não lhe havia dado conhecer segundo sua condição de Servo.
É exatamente esse Cristo — verdadeiro Deus e verdadeiro homem — que pode ser nosso Mediador. Somente sendo Deus ele possui poder e dignidade suficientes para salvar. Somente sendo homem ele pode obedecer em nosso lugar, sofrer por nossos pecados e nos representar diante do Pai. A declaração sobre o dia e a hora não é uma rachadura na identidade de Cristo, mas uma janela para a profundidade de sua humilhação voluntária e para a integridade de sua humanidade.