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sábado, 24 de outubro de 2026

Deus tem escolhas? Liberdade divina, necessidade e o decreto eterno

Há perguntas teológicas que parecem simples apenas enquanto não examinamos cuidadosamente as palavras utilizadas. Uma delas é esta: Deus faz escolhas?

À primeira vista, a resposta cristã parece evidente. A Bíblia afirma que Deus escolhe, elege, determina, deseja e realiza conforme o conselho de sua vontade. Fala dos escolhidos de Deus, afirma que fomos escolhidos em Cristo antes da fundação do mundo e apresenta a história da redenção como cumprimento de um propósito estabelecido pelo próprio Senhor.

Mas o problema se torna mais difícil quando perguntamos exatamente o que significa escolher no caso de um Deus onisciente, perfeito, eterno e imutável.

Nós escolhemos porque encontramos possibilidades diante de nós. Consideramos uma alternativa e depois outra. Comparamos vantagens, custos e consequências. Podemos hesitar. Podemos descobrir que aquilo que inicialmente pretendíamos fazer não era a melhor solução. Podemos receber uma informação que desconhecíamos e, por causa dela, mudar de opinião.

Nada disso pode acontecer com Deus.

Deus jamais recebe uma informação nova. Nunca descobre que determinada possibilidade é melhor do que imaginava. Não precisa calcular consequências desconhecidas. Não é surpreendido pelo resultado de suas decisões. Não aprende algo que ignorava. Não melhora. Não passa da dúvida para a certeza. Seu conhecimento é perfeito e sua natureza é imutável.

Surge então uma provocação bastante séria:

Se Deus conhece eternamente aquilo que é perfeito, por que escolheria qualquer outra coisa?

Se diante de duas possibilidades uma delas fosse melhor, um Deus perfeitamente sábio não estaria necessariamente inclinado à melhor?

E se Deus não pode escolher o mal, não pode agir irracionalmente, não pode contrariar sua própria natureza e não pode preferir algo inferior quando conhece perfeitamente aquilo que é superior, em que sentido ainda podemos afirmar que Deus possui escolhas?

Talvez aquilo que chamamos de escolha seja apenas uma característica própria das criaturas limitadas. Talvez Deus simplesmente realize, eternamente e sem alternativas reais, aquilo que corresponde necessariamente à perfeição de sua natureza.

O argumento parece conduzir a uma conclusão poderosa: se Deus é perfeitamente sábio, bom, onisciente e imutável, talvez Ele não escolha entre possibilidades, mas realize necessariamente aquilo que sua própria perfeição determina.

Mas essa conclusão resolve o problema ou apenas cria outro muito maior?

Se Deus não poderia agir diferentemente, poderia ter deixado de criar o universo? Poderia ter criado outro universo? Poderia não ter criado seres humanos? Poderia ter criado uma história na qual determinado acontecimento jamais ocorresse?

E, se a resposta for negativa, não apenas Deus seria necessário: toda a história do universo também acabaria sendo necessária.

A criação, a queda, cada guerra, cada pecado, cada sofrimento e cada acontecimento da história seriam, em última análise, tão inevitáveis quanto a própria existência de Deus.

É nesse ponto que uma pergunta aparentemente simples sobre a vontade divina conduz a uma das discussões mais profundas da teologia filosófica.

Antes de concluir que Deus tem escolhas ou que Deus não tem escolhas, precisamos distinguir conceitos que nossa linguagem cotidiana facilmente mistura: liberdade, deliberação, vontade, necessidade, contingência, determinação e imutabilidade.

Tomás de Aquino, Jonathan Edwards, Gottfried Wilhelm Leibniz e Baruch Spinoza, embora partindo de pressupostos muito diferentes, ajudam a perceber tanto a força quanto os perigos envolvidos nessa questão. Depois deles, a formulação reformada clássica permite organizar o problema de maneira especialmente útil.

Vale, portanto, examinar a questão com cuidado antes de aceitar a conclusão aparentemente simples de que um Deus perfeito não poderia realmente escolher.

Primeiro: escolher significa estar em dúvida?

Grande parte do problema depende da definição de escolha.

Quando dizemos que uma pessoa precisa “escolher”, normalmente imaginamos um processo semelhante a este:

  • há duas ou mais alternativas;
  • a pessoa ainda não sabe qual é a melhor;
  • ela considera as possibilidades;
  • avalia suas consequências;
  • pode hesitar;
  • finalmente toma uma decisão.

Esse processo caracteriza boa parte das escolhas humanas, mas não é evidente que tudo isso pertença à própria essência do ato de escolher.

Há uma diferença importante entre escolha e deliberação discursiva.

Deliberar discursivamente significa avançar de uma condição de conhecimento incompleto para uma conclusão. É comparar, calcular e descobrir.

Deus certamente não delibera nesse sentido.

Mas disso não segue automaticamente que Deus não escolha.

Um agente pode conhecer duas possibilidades perfeitamente e preferir uma delas sem passar por ignorância, hesitação ou mudança de opinião.

Negar que Deus delibere como uma criatura não é o mesmo que negar que Deus escolha. A questão verdadeira não é se Deus hesita, mas se seu decreto decorre necessariamente de sua essência ou procede livremente de sua vontade.

Tomás de Aquino: Deus quer necessariamente a si mesmo, mas não necessariamente o mundo

Tomás de Aquino oferece uma das distinções mais importantes para a análise da vontade divina.

Para Aquino, Deus possui vontade. Portanto, a solução não consiste em eliminar da teologia os conceitos de vontade, intenção ou escolha.

Entretanto, nem tudo aquilo que Deus quer é querido pelo mesmo tipo de necessidade.

Deus quer necessariamente sua própria bondade.

Isso acontece porque Deus é o Bem supremo. Seria impossível conceber Deus deixando de amar sua própria perfeição, desejando tornar-se menos bom ou preferindo o mal ao bem absoluto.

Nesse sentido, existe verdadeiramente uma necessidade na vontade divina.

Mas Aquino imediatamente estabelece uma distinção fundamental: aquilo que Deus deseja além de si mesmo não é necessário da mesma maneira.

As criaturas não são necessárias para completar Deus. O universo não acrescenta ao Criador alguma perfeição que lhe faltasse. Deus não precisava criar para se tornar mais glorioso, mais feliz, mais completo ou mais Deus.

Na Suma Teológica, ao discutir se Deus quer necessariamente tudo aquilo que quer, Aquino distingue entre aquilo que pertence necessariamente à bondade divina e os bens criados que Deus quer como ordenados a essa bondade. Ele conclui que Deus quer necessariamente sua própria bondade, mas não quer com necessidade absoluta todas as coisas distintas de si mesmo.

A consequência aparece de maneira ainda mais clara quando Aquino trata do mundo: não é absolutamente necessário que Deus queira a existência da criação. O mundo existe porque Deus quer que exista; não porque a existência do mundo seja uma consequência necessária da essência divina.

Em Aquino, podemos dizer: Deus não pode deixar de ser Deus nem deixar de amar sua própria bondade. Mas disso não se segue que Deus fosse obrigado por sua essência a criar este universo.

Essa distinção já resolve parte importante do problema.

Existe diferença entre afirmar:

“Deus necessariamente é santo.”

e afirmar:

“Deus necessariamente tinha de criar exatamente este mundo.”

A primeira proposição diz respeito à própria natureza de Deus.

A segunda diz respeito a uma realidade externa a Deus.

Se a criação fosse necessária para Deus da mesma maneira que sua santidade é necessária, seria difícil continuar afirmando que Deus é plenamente suficiente em si mesmo.

Fonte: Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I, questão 19, especialmente artigos 3 e 8.

Summa Theologiae — Prima Pars, questão 19: The Will of God

A liberdade de Deus não exige capacidade para o mal

Outra confusão pode surgir quando liberdade é definida como capacidade absoluta para escolher qualquer alternativa concebível.

Se isso fosse verdade, teríamos de dizer que Deus somente seria verdadeiramente livre se pudesse:

  • mentir;
  • agir injustamente;
  • deixar de ser santo;
  • agir irracionalmente;
  • negar a si mesmo.

Mas a Escritura não apresenta essas impossibilidades como limitações defeituosas de Deus.

“Na esperança da vida eterna que o Deus que não pode mentir prometeu antes dos tempos eternos.”
Tito 1:2

A mesma ideia aparece em Hebreus:

“É impossível que Deus minta.”
Hebreus 6:18

E Paulo afirma:

“Se somos infiéis, ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo.”
2 Timóteo 2:13

Esses textos mostram que existem coisas que Deus não pode fazer.

Isso não diminui sua onipotência ou liberdade porque essas “possibilidades” representariam defeitos, não poderes.

Deus não possuir a capacidade de tornar-se maligno não significa que algo exterior esteja impedindo sua vontade.

Ele não pratica o mal porque o mal é contrário à sua própria natureza.

Jonathan Edwards: necessidade não significa necessariamente coerção

Jonathan Edwards oferece outra contribuição importante ao problema, especialmente em sua obra Freedom of the Will.

Edwards combate a ideia de que a verdadeira liberdade dependa de uma vontade absolutamente indiferente entre alternativas.

Para ele, a vontade é precisamente aquilo por meio do qual a mente escolhe. Um ato da vontade é um ato de escolha.

Ao mesmo tempo, Edwards argumenta que uma escolha pode seguir de maneira necessária a disposição predominante de um agente sem deixar, por isso, de ser voluntária.

É nesse contexto que surge sua conhecida distinção entre diferentes espécies de necessidade, especialmente a chamada necessidade moral.

Uma pessoa profundamente inclinada em determinada direção pode ser moralmente incapaz de desejar o contrário sem que alguma força externa esteja fisicamente coagindo sua vontade.

Aplicado a Deus, o ponto é especialmente importante.

Deus não precisa da possibilidade de tornar-se perverso para ser livre.

A incapacidade divina para mentir não significa que Deus esteja aprisionado.

A impossibilidade de agir injustamente não é uma coerção exercida sobre Deus.

Deus age conforme sua natureza porque aquilo que Ele é e aquilo que quer não estão em conflito.

Há uma diferença entre ser impedido externamente de fazer alguma coisa e não poder desejá-la porque ela contradiz perfeitamente aquilo que se é. A santidade necessária de Deus não funciona como uma prisão para sua vontade; ela é a própria perfeição dessa vontade.

Edwards ajuda, portanto, a mostrar por que não devemos opor imediatamente necessidade e liberdade.

Um ato pode ser plenamente voluntário e, ao mesmo tempo, decorrer necessariamente do caráter daquele que age.

Mas sua argumentação também faz retornar a pergunta que estamos tentando resolver.

Se a natureza perfeita de Deus determina necessariamente sua vontade, será que exatamente este mundo também deriva necessariamente dessa natureza?

Se Deus sempre deseja aquilo que sua sabedoria reconhece como melhor, poderia Ele ter criado alguma coisa diferente?

Fonte: Jonathan Edwards, Freedom of the Will, especialmente Parte I, seção I, e as discussões sobre necessidade moral.

Jonathan Edwards — Freedom of the Will: sobre vontade e escolha

Jonathan Edwards — sobre necessidade moral, louvor e culpa

Leibniz e o melhor dos mundos possíveis

Gottfried Wilhelm Leibniz levou muito a sério a ideia de que um Deus infinitamente sábio e bom não age arbitrariamente.

Deus possui razões para aquilo que faz.

Se um ser perfeitamente sábio conhece todas as possibilidades e uma delas é realmente superior às demais, parece estranho imaginar que Ele pudesse deliberadamente preferir uma alternativa inferior.

É nesse contexto que surge a famosa doutrina leibniziana do melhor dos mundos possíveis.

Essa expressão é frequentemente caricaturada.

Leibniz não está simplesmente dizendo que cada acontecimento isolado é agradável, nem que este mundo contém o mínimo imaginável de sofrimento.

Sua tese diz respeito ao conjunto da ordem criada: um Deus perfeitamente sábio, poderoso e bom escolheria a ordem total que melhor correspondesse à perfeita sabedoria divina.

Mas Leibniz percebe um problema:

Se Deus obrigatoriamente escolhe o melhor, essa escolha continua sendo livre?

Para responder, Leibniz distingue diferentes tipos de necessidade, entre elas a necessidade absoluta ou metafísica e a necessidade moral.

Uma verdade metafisicamente necessária não pode ser diferente sem contradição.

Já a necessidade moral diz respeito à maneira pela qual a perfeita sabedoria e bondade inclinam a vontade ao melhor.

Leibniz procura, assim, dizer que Deus escolhe infalivelmente segundo sua perfeição sem transformar todas as outras possibilidades em contradições lógicas.

Leibniz percebe exatamente o perigo: se tudo aquilo que Deus escolhe for necessário no mesmo sentido em que a própria existência de Deus é necessária, a criação deixa de ser contingente e começamos a perder a diferença entre “aquilo que Deus quis” e “aquilo que não poderia absolutamente ser diferente”.

Entretanto, a própria tese do “melhor mundo possível” levanta novas perguntas:

Existe realmente um único mundo possível que possa ser classificado matematicamente como superior a todos os demais?

Uma criação infinita em possibilidades precisa possuir um máximo absoluto?

Mais importante ainda: a Bíblia apresenta Deus como submetido a uma regra externa denominada “o melhor mundo possível”, ou simplesmente afirma que tudo aquilo que Deus realiza é perfeitamente sábio porque procede do próprio Deus?

Há uma diferença entre estas duas proposições:

Tudo aquilo que Deus faz é perfeitamente sábio.

e:

A sabedoria de Deus tornava metafisicamente impossível qualquer outra criação.

A primeira é perfeitamente compatível com a Escritura.

A segunda exige uma demonstração muito maior.

Fonte: Gottfried Wilhelm Leibniz, Essays of Theodicy on the Goodness of God, the Freedom of Man and the Origin of Evil.

Leibniz — Theodicy, texto integral

Spinoza: quando a necessidade é levada às últimas consequências

É em Baruch Spinoza que podemos observar com maior clareza o destino de uma teoria radicalmente necessitarista.

É importante estabelecer desde o início que Spinoza não representa a teologia cristã clássica.

Sua relação entre Deus e natureza é profundamente diferente da distinção cristã entre Criador e criação. Portanto, citá-lo aqui não significa colocar seu conceito de Deus no mesmo nível daquele de Aquino, Edwards ou da tradição reformada.

O interesse está em outra coisa: Spinoza mostra com grande consistência filosófica o que acontece quando a necessidade é levada até o fim.

Na primeira parte de sua Ética, Spinoza argumenta que as coisas seguem necessariamente da natureza divina.

A realidade não resulta, em seu sistema, de uma escolha contingente de um Criador pessoal diante de diferentes mundos possíveis.

Ela decorre da própria necessidade da natureza de Deus ou da Natureza.

A consequência é uma rejeição fortíssima da contingência.

As coisas não poderiam simplesmente ter sido produzidas por Deus em outra ordem ou de outra maneira.

É aqui que chegamos ao necessitarianismo.

O que é necessitarianismo?

Necessitarianismo é, em sentido geral, a posição segundo a qual aquilo que existe e acontece não poderia realmente ter sido diferente.

Isso precisa ser distinguido de determinação.

Podemos afirmar que determinado acontecimento foi infalivelmente determinado por uma vontade sem afirmar que esse acontecimento era necessário pela própria estrutura metafísica da realidade.

No necessitarianismo forte, porém, a diferença entre realidade e necessidade começa a desaparecer.

Se algo aconteceu, então, em última análise, tinha necessariamente de acontecer.

Não existe uma história alternativa genuinamente possível.

Determinação não é automaticamente necessitarianismo. A teologia reformada afirma que tudo ocorre segundo o decreto de Deus; o necessitarianismo acrescentaria que exatamente essa realidade decorre necessariamente da própria essência divina e que nenhuma alternativa poderia verdadeiramente existir.

Essa diferença será fundamental quando chegarmos à doutrina reformada dos decretos.

Fonte: Baruch Spinoza, Ethics Demonstrated in Geometrical Order, Parte I.

Spinoza — Ethics, Part I

O perigo do colapso modal

O problema pode ser formulado de maneira ainda mais precisa por meio de uma expressão usada na filosofia da religião: colapso modal.

“Modal” diz respeito aos diferentes modos pelos quais uma proposição pode ser verdadeira.

Podemos falar de algo como:

  • necessário — não poderia ser diferente;
  • possível — poderia ocorrer;
  • impossível — não poderia ocorrer;
  • contingente — é de determinada maneira, mas poderia ter sido diferente.

Agora considere duas proposições:

Deus existe.

Pedro negou Jesus três vezes.

O teísmo clássico não precisa atribuir às duas proposições exatamente a mesma modalidade.

A existência de Deus pertence à própria realidade necessária de Deus.

A negação de Pedro pertence à história criada.

Ela ocorreu de acordo com a providência divina e cumpriu aquilo que Cristo havia anunciado, mas não pertence à definição de Deus que Pedro precise existir e negar Cristo exatamente três vezes.

Agora imagine o seguinte raciocínio:

  1. Deus existe necessariamente.
  2. Tudo aquilo que Deus faz decorre necessariamente de sua essência.
  3. Deus produz exatamente este mundo.
  4. Logo, exatamente este mundo existe necessariamente.

Se esse raciocínio for aceito sem qualquer distinção, a contingência da criação desaparece.

E o problema se amplia.

Se este mundo é absolutamente necessário, todos os acontecimentos que pertencem a sua história também acabam participando dessa necessidade.

A queda de Adão.

A traição de Judas.

As guerras.

Os assassinatos.

As mentiras.

Cada pecado cometido na história.

Não seriam apenas acontecimentos infalivelmente abrangidos pelo decreto. Acabariam sendo consequências necessárias, em sentido último, da própria realidade necessária de Deus.

Esse é um problema sério.

O perigo não consiste em afirmar que Deus decretou soberanamente a história. A dificuldade surge quando o decreto deixa de ser entendido como ato livre da vontade divina e passa a ser tratado como consequência metafisicamente necessária da essência de Deus.

O problema do mal fica ainda mais difícil

A teologia reformada nunca precisou negar a abrangência do decreto divino para preservar a santidade de Deus.

Ao contrário, ela tradicionalmente afirma ambas as coisas:

  • nada ocorre fora da providência e do decreto de Deus;
  • Deus não é autor moral do pecado.

Isso já exige distinções cuidadosas entre decreto, providência, causas secundárias, intenção do agente e responsabilidade moral. Mas o necessitarianismo acrescentaria uma dificuldade:

Se toda a sequência do mundo decorresse necessariamente da essência divina, o pecado não seria apenas permitido e governado providencialmente dentro de um decreto livre.

Ele faria parte da única realidade metafisicamente possível decorrente da própria existência de Deus.

A distinção entre a santidade necessária do Criador e a contingência pecaminosa da criatura se tornaria muito mais difícil de preservar.

A resposta reformada: “livre e imutavelmente”

A tradição reformada possui uma formulação particularmente cuidadosa para essa questão.

A Confissão de Fé de Westminster declara no capítulo III:

“Desde toda a eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e imutavelmente tudo quanto acontece.”
Confissão de Fé de Westminster III.1

As duas palavras são decisivas: livremente e imutavelmente.

Não deveríamos sacrificar nenhuma das duas.

Se enfatizamos apenas a imutabilidade, podemos acabar imaginando o decreto como consequência inevitável da essência divina.

Se entendemos a liberdade como indeterminação, hesitação ou capacidade de agir irracionalmente, comprometemos a perfeição e a estabilidade da vontade de Deus.

Westminster mantém as duas coisas.

Deus ordena livremente.

E aquilo que ordena é estabelecido imutavelmente.

A mesma seção acrescenta outra afirmação extremamente importante: o decreto não torna Deus autor do pecado, não exerce violência sobre a vontade das criaturas e não elimina a liberdade ou contingência das causas secundárias.

A linguagem é deliberadamente cuidadosa.

A doutrina reformada não diz simplesmente que tudo é necessário. Ela diz que tudo está infalivelmente abrangido pelo decreto livre e imutável de Deus, enquanto a realidade e a contingência próprias das causas secundárias permanecem estabelecidas.

Fonte: Confissão de Fé de Westminster, capítulo III, “Do eterno decreto de Deus”, especialmente III.1–2.

Westminster Confession of Faith — texto integral

Os decretos de Deus são “sábios, livres e santos”

O Catecismo Maior de Westminster torna a formulação ainda mais explícita.

À pergunta “Que são os decretos de Deus?”, responde que os decretos são os atos sábios, livres e santos do conselho de sua vontade, pelos quais Deus ordenou imutavelmente desde toda a eternidade aquilo que acontece no tempo.

Mais uma vez encontramos a mesma combinação.

Os decretos são:

  • sábios;
  • livres;
  • santos;
  • eternos;
  • imutáveis.

Isso exclui várias concepções inadequadas ao mesmo tempo.

O decreto não é irracional, porque é sábio.

Não é moralmente defeituoso, porque é santo.

Não é imposto a Deus, porque é livre.

Não pode fracassar, porque é imutável.

Não surge em algum momento depois que Deus recebe informações, porque é eterno.

Fonte: Catecismo Maior de Westminster, pergunta 12.

Westminster Larger Catechism — texto integral

A diferença entre necessidade absoluta e necessidade consequente

A formulação reformada pode ser compreendida melhor quando distinguimos diferentes sentidos de necessidade.

Tipo Descrição Exemplo
Necessidade absoluta Algo não pode ser diferente porque pertence à própria realidade ou natureza em questão. Deus é santo; Deus não pode mentir; Deus não pode negar a si mesmo.
Necessidade consequente Algo se torna infalivelmente certo em consequência de uma determinação anterior. Dado que Deus decretou determinado acontecimento e seu decreto não pode falhar, esse acontecimento ocorrerá.
Contingência criada Algo não pertence necessariamente à essência divina, embora aconteça infalivelmente dentro da ordem decretada por Deus. A existência de determinada criatura, local ou acontecimento histórico.

Essa distinção permite afirmar simultaneamente:

Deus não poderia deixar de ser santo.

e:

Deus não precisava da criação para ser Deus.

Também permite dizer:

Uma vez que Deus decretou determinado acontecimento, seu propósito não pode fracassar.

sem precisar dizer:

A essência divina exigia necessariamente esse acontecimento específico.

É possível, portanto, reconhecer a certeza absoluta do decreto sem transformar cada acontecimento criado numa extensão necessária da essência de Deus.

Deus poderia não ter criado?

Essa pergunta funciona como um excelente teste para nossa posição.

Se respondermos que Deus era metafisicamente obrigado a criar, então a criação parece deixar de ser plenamente gratuita.

Alguma coisa na própria natureza divina exigiria que existissem criaturas.

Isso cria tensão com a doutrina cristã da asseidade.

Asseidade significa que Deus possui vida em si mesmo e não depende de algo exterior para ser completo.

O mundo precisa de Deus.

Deus não precisa do mundo.

A criação não corrige uma deficiência divina.

Não completa uma solidão ontológica.

Não acrescenta uma perfeição ausente.

Deus cria porque quer criar.

Por isso Aquino podia dizer que Deus quer necessariamente a si mesmo sem concluir que Deus necessariamente precisa querer uma realidade criada específica.

Mas Deus poderia escolher algo inferior?

A objeção de Leibniz continua importante.

Imagine duas possibilidades.

Uma delas seria perfeitamente sábia.

A outra seria inferior.

Poderia Deus escolher deliberadamente a inferior?

Se respondermos “sim” apenas para preservar alguma forma de liberdade, podemos acabar fazendo da irracionalidade uma condição necessária da liberdade.

Mas isso seria estranho.

Deus não é mais livre porque possa agir tolamente.

Não é mais livre porque possa mentir.

Não é mais livre porque possa praticar injustiça.

A liberdade divina não precisa ser definida como capacidade para imperfeição.

Nesse aspecto, tanto Edwards quanto Leibniz chamam atenção para algo correto.

Entretanto, ainda precisamos evitar um salto.

Do fato de que:

Deus sempre age sabiamente

não segue automaticamente que:

somente uma história completa do universo era compatível com a sabedoria divina.

Tal conclusão precisaria ser demonstrada.

E a Escritura não parece interessada em estabelecer uma teoria do “único mundo possível”.

Existe necessariamente um único “melhor mundo possível”?

Podemos ainda questionar a própria estrutura da expressão.

Suponha que Deus pudesse criar um universo com cem criaturas perfeitamente adequadas ao propósito estabelecido para ele.

Poderia criar cento e uma?

E cento e duas?

Se acrescentar uma criatura não tornar o universo moralmente pior, talvez tenhamos uma série indefinida de possibilidades sem um único máximo absoluto.

Ou talvez diferentes mundos manifestem diferentes aspectos da bondade, sabedoria e poder de Deus sem que possamos organizá-los numa escala simples de melhor para pior.

O ponto não é solucionar aqui todas as dificuldades da teoria dos mundos possíveis.

É apenas reconhecer que a proposição:

“Um Deus perfeito necessariamente cria o único melhor mundo possível”

contém várias premissas filosóficas que não devem ser confundidas com afirmações explícitas da Bíblia.

A Bíblia realmente apresenta Deus escolhendo

Até aqui examinamos conceitos filosóficos. Mas uma teologia cristã não pode terminar neles.

Precisamos perguntar como a própria Escritura fala.

E a Escritura não demonstra qualquer constrangimento em atribuir escolha a Deus.

Paulo afirma:

“Assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele.”
Efésios 1:4

A escolha ocorre antes da fundação do mundo.

Isso é importante porque exclui justamente a ideia de uma reação temporal de Deus.

Deus não observa primeiro a história para depois decidir.

Sua escolha é anterior à criação.

Jesus diz aos discípulos:

“Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros.”
João 15:16

A linguagem também aparece na escolha de Israel:

“Porque tu és povo santo ao Senhor, teu Deus; o Senhor, teu Deus, te escolheu, para que lhe fosses o seu povo próprio, de todos os povos que há sobre a terra.”
Deuteronômio 7:6

Romanos 9 acrescenta:

“E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal — para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama.”
Romanos 9:11

Portanto, não existe motivo bíblico para eliminar o conceito de escolha divina.

O que precisa ser eliminado é uma compreensão inadequada da escolha.

A Bíblia afirma a escolha divina sem sugerir ignorância, hesitação ou mudança em Deus. Portanto, escolha e deliberação humana não podem ser tratadas como conceitos idênticos.

O conselho da vontade de Deus

Efésios acrescenta uma formulação especialmente importante:

“Nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade.”
Efésios 1:11

Paulo reúne vários conceitos:

  • propósito;
  • predestinação;
  • ação divina;
  • conselho;
  • vontade.

A história não é apresentada como resultado de um mecanismo impessoal.

Ela é realizada segundo o conselho da vontade de um Deus pessoal.

Isso não significa que Deus precise conversar consigo mesmo, raciocinar passo a passo ou descobrir uma resposta.

A linguagem comunica intencionalidade, sabedoria e vontade.

Deus conhece possibilidades que não se realizam

A Bíblia contém ainda passagens particularmente interessantes nas quais Deus demonstra conhecimento de acontecimentos condicionais que não chegam a ocorrer.

Em 1 Samuel 23, Davi está em Queila e descobre que Saul pretende atacá-lo. Então pergunta a Deus se Saul realmente virá e se os homens da cidade o entregarão.

O Senhor responde que Saul virá e que os homens de Queila o entregarão.

Davi, porém, deixa a cidade.

Consequentemente, aquela sequência não acontece.

Em Mateus 11, Jesus fala de outra espécie de situação contrafactual:

“Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas se teriam arrependido com pano de saco e cinza.”
Mateus 11:21

Jesus também afirma acerca de Cafarnaum e Sodoma:

“Porque, se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se fizeram, teria ela permanecido até ao dia de hoje.”
Mateus 11:23

Esses textos geram discussões filosóficas importantes sobre conhecimento contrafactual.

Mas para nossa questão basta uma conclusão mais modesta: o conhecimento de Deus não está limitado à sequência histórica efetivamente realizada.

Deus conhece aquilo que ocorre e conhece condições diferentes daquelas que efetivamente se concretizam.

A Confissão de Westminster reconhece explicitamente essa verdade ao afirmar que Deus conhece tudo aquilo que pode ou poderia acontecer sob todas as condições supostas, embora seu decreto não seja fundamentado numa previsão independente de sua própria vontade.

Isso significa que Deus “considerou opções”?

Aqui precisamos novamente evitar antropomorfismos.

Quando dizemos que Deus conhece possibilidades, não precisamos imaginar uma sequência temporal como esta:

“Primeiro Deus observou mundo A.”

“Depois analisou mundo B.”

“Depois comparou os dois.”

“Finalmente decidiu.”

Esse processo transformaria o conhecimento eterno de Deus numa espécie de raciocínio temporal semelhante ao nosso.

Não é necessário afirmar isso.

Podemos dizer simplesmente que Deus conhece perfeitamente sua própria potência, conhece tudo aquilo que pode realizar e conhece eternamente seu próprio decreto.

Não existe descoberta.

Não existe sucessão de pensamentos.

Não existe surpresa.

E, ainda assim, há uma diferença real entre aquilo que Deus conhece como possível e aquilo que Deus efetivamente determina realizar.

Uma comparação das quatro perspectivas

Pensador Contribuição principal Força Perigo ou limite
Tomás de Aquino Deus quer necessariamente sua própria bondade, mas não necessita da criação da mesma maneira. Preserva a perfeição divina e a contingência da criação. Exige distinções metafísicas cuidadosas entre diferentes modalidades da vontade.
Jonathan Edwards Liberdade não exige indiferença; necessidade moral não equivale a coerção. Explica como Deus pode necessariamente agir segundo sua santidade sem deixar de agir voluntariamente. Se ampliada sem qualificações, a lógica pode aproximar a discussão do problema da necessidade da criação.
Leibniz A perfeita sabedoria divina inclina Deus ao melhor; distingue necessidade moral e metafísica. Leva a sério a racionalidade e bondade perfeitas de Deus. A tese do único “melhor mundo possível” enfrenta dificuldades próprias e não é uma afirmação bíblica explícita.
Spinoza A realidade decorre necessariamente da natureza divina. Mostra de maneira filosoficamente rigorosa as consequências do necessitarianismo. Elimina a contingência forte e se afasta profundamente da distinção cristã entre Criador e criação.

Então Deus poderia ter escolhido diferentemente?

Depois dessas distinções, podemos responder de maneira mais precisa.

Se perguntamos:

Deus poderia escolher agir contra sua santidade, sua verdade e sua própria natureza?

A resposta é não.

Deus não pode mentir.

Não pode deixar de ser bom.

Não pode negar a si mesmo.

Essa impossibilidade não representa falta de liberdade.

Representa perfeição.

Mas se perguntamos:

A essência divina exigia necessariamente que Deus criasse exatamente este universo, com exatamente estas criaturas e esta sequência completa de acontecimentos?

A tradição reformada não exige resposta afirmativa.

O mundo não é uma parte de Deus.

Deus não necessita da criação.

O decreto procede do conselho de sua vontade.

E os Padrões de Westminster deliberadamente qualificam esse decreto como livre.

Deus escolhe antes da fundação do mundo

Há ainda um detalhe particularmente importante na linguagem de Efésios 1.

Quando Paulo afirma que Deus nos escolheu “antes da fundação do mundo”, ele impede que interpretemos a escolha divina segundo o modelo de nossa tomada temporal de decisões.

Não houve um momento em que Deus não sabia o que faria.

Não houve um estado inicial de indecisão.

Não houve coleta de informações.

Não houve revisão de estratégia.

A escolha divina é eterna.

Assim, podemos afirmar simultaneamente:

  • Deus realmente escolhe;
  • Deus nunca esteve indeciso;
  • Deus nunca adquiriu informação;
  • Deus nunca mudou de plano;
  • Deus nunca foi coagido;
  • seu decreto jamais poderá fracassar.

O Salmo oferece uma resposta surpreendentemente simples

Depois de toda a discussão metafísica, talvez a formulação bíblica mais equilibrada seja também uma das mais simples.

“No céu está o nosso Deus e tudo faz como lhe agrada.”
Salmo 115:3

O Salmo 135 repete a mesma ideia:

“Tudo quanto aprouve ao Senhor, ele o fez, nos céus e na terra, no mar e em todos os abismos.”
Salmo 135:6

Observe o equilíbrio.

Deus não faz aquilo que alguma força exterior determina.

Não é submetido ao universo.

Não reage a acontecimentos independentes.

Não precisa completar alguma deficiência.

Ele faz aquilo que lhe agrada.

Essa é linguagem de vontade soberana.

E Efésios 1:11 acrescenta que Ele faz todas as coisas conforme o conselho de sua vontade.

A Bíblia não apresenta a soberania e a liberdade de Deus como rivais. Deus é soberano justamente porque realiza livre e infalivelmente tudo aquilo que corresponde ao conselho de sua perfeita vontade.

A solução não está em negar a escolha, mas em defini-la corretamente

Podemos agora retornar à pergunta inicial.

Deus tem escolhas?

Se por escolha entendemos:

  • ignorância;
  • hesitação;
  • comparação causada por informação incompleta;
  • mudança de opinião;
  • tentativa e erro;

então não.

Deus não escolhe dessa maneira.

Mas essa não é a única definição possível de escolha.

Se por escolha entendemos:

a determinação intencional e livre da vontade de um agente entre aquilo que conhece perfeitamente,

então a Bíblia não apenas permite essa linguagem — ela a utiliza repetidamente.

Deus escolhe.

Deus elege.

Deus deseja.

Deus determina.

Deus estabelece propósitos.

Deus faz aquilo que lhe apraz.

O erro está em atribuir à escolha divina as limitações de nossa escolha humana.

Quatro distinções que resolvem boa parte do problema

Não devemos confundir Com Por quê?
Escolha Ignorância É possível escolher conhecendo perfeitamente aquilo que se escolhe.
Liberdade Indiferença moral Deus não precisa poder desejar o mal para ser livre.
Imutabilidade Ausência de vontade Uma vontade eterna pode ser perfeitamente estável sem deixar de ser vontade.
Certeza do decreto Necessidade metafísica da criação Algo pode ocorrer infalivelmente porque Deus o decretou sem pertencer necessariamente à essência divina.

Conclusão: Deus é livre sem ser indeciso

A pergunta “Deus tem escolhas?” contém uma intuição importante.

Não podemos simplesmente projetar sobre Deus nossa própria experiência psicológica.

Quando escolhemos, muitas vezes o fazemos porque ignoramos alguma coisa. Hesitamos. Calculamos. Descobrimos. Mudamos.

Deus não faz nada disso.

Seu conhecimento é perfeito.

Sua sabedoria é perfeita.

Sua bondade é perfeita.

Sua vontade não está sujeita a alterações produzidas por novas informações.

Nesse sentido, a tentativa de remover de Deus qualquer espécie de indecisão está correta.

Mas concluir daí que Deus não possui escolhas vai longe demais.

Aquino nos ajuda a perceber que Deus necessariamente quer sua própria bondade sem que disso decorra uma necessidade absoluta da criação.

Edwards mostra que liberdade não exige indiferença e que uma vontade pode agir necessariamente conforme seu caráter sem estar coagida.

Leibniz nos obriga a levar a sério o fato de que um Deus infinitamente sábio não age irracionalmente, ao mesmo tempo em que sua distinção entre necessidade moral e metafísica procura evitar transformar o mundo numa consequência lógica da essência divina.

E Spinoza mostra, por contraste, onde uma concepção radical de necessidade pode conduzir: se tudo decorre necessariamente da natureza divina, desaparece a verdadeira contingência e a própria história passa a ser a única realidade possível.

A tradição reformada oferece uma fórmula especialmente equilibrada.

Deus decretou todas as coisas livre e imutavelmente.

Seu decreto não nasce da ignorância.

Não nasce de coerção.

Não nasce de alguma exigência externa.

Não pode fracassar.

Mas também não precisamos transformar cada acontecimento criado numa consequência metafisicamente necessária da própria essência divina.

Por fim, a Bíblia afirma algo ainda mais simples e profundo:

“Tudo faz como lhe agrada.”
Salmo 115:3

Talvez seja nessa afirmação que encontramos o melhor equilíbrio.

Deus não é livre porque possa agir contra si mesmo.

Deus é livre porque nenhuma realidade exterior determina sua vontade.

Ele não escolhe por ignorância.

Não escolhe por hesitação.

Não escolhe contra sua natureza.

Não escolhe sob coerção.

Mas escolhe verdadeiramente.

E aquilo que escolhe desde a eternidade realiza infalivelmente no tempo.

Deus escolhe livremente tudo aquilo que deseja realizar, sempre de acordo com sua natureza perfeitamente santa e sábia; e aquilo que eternamente escolhe acontece infalivelmente segundo o conselho imutável de sua vontade.

Assim, não precisamos escolher entre um Deus soberano e um Deus livre.

Não precisamos escolher entre vontade e imutabilidade.

Não precisamos transformar o decreto em necessidade impessoal para garantir sua certeza.

E não precisamos transformar a liberdade numa capacidade para irracionalidade, pecado ou mudança.

O Deus bíblico é absolutamente perfeito e, justamente por isso, sua liberdade também é perfeita: Ele conhece tudo, quer sem coerção, determina sem hesitação e realiza sem possibilidade de fracasso tudo aquilo que decidiu segundo o conselho santo de sua vontade.

Referências e fontes

BÍBLIA SAGRADA. Especialmente: Deuteronômio 7:6–8; 1 Samuel 23:7–13; Salmos 115:3; 135:6; Mateus 11:20–24; João 15:16; Romanos 9:10–24; Efésios 1:3–14; 2 Timóteo 2:13; Tito 1:2; Hebreus 6:18.

AQUINO, Tomás de. Summa Theologiae. Prima Pars, questão 19 — “A vontade de Deus”, especialmente artigos 3 e 8; questão 46, especialmente a discussão sobre a dependência da existência do mundo em relação à vontade divina.

Summa Theologiae — I, questão 19

Summa Theologiae — I, questão 46

EDWARDS, Jonathan. A Careful and Strict Enquiry into the Modern Prevailing Notions of that Freedom of Will Which Is Supposed to Be Essential to Moral Agency, Virtue and Vice, Reward and Punishment, Praise and Blame. 1754.

Jonathan Edwards — Freedom of the Will

LEIBNIZ, Gottfried Wilhelm. Essays of Theodicy on the Goodness of God, the Freedom of Man and the Origin of Evil. 1710. Especialmente as discussões sobre necessidade absoluta, necessidade moral, liberdade divina e o melhor dos mundos possíveis.

Leibniz — Theodicy

SPINOZA, Baruch. Ethics Demonstrated in Geometrical Order. Parte I — “Concerning God”, especialmente as proposições relacionadas à necessidade da natureza divina e à negação de uma ordem alternativa dos acontecimentos.

Spinoza — Ethics, Part I

CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER. Especialmente capítulo II — “De Deus e da Santíssima Trindade”; capítulo III — “Do eterno decreto de Deus”; capítulo V — “Da Providência”.

Westminster Confession of Faith — Orthodox Presbyterian Church

CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER. Especialmente perguntas 7–18, com destaque para a pergunta 12 sobre os decretos de Deus como atos sábios, livres e santos do conselho de sua vontade.

Westminster Larger Catechism — Orthodox Presbyterian Church

Observação: As aproximações entre Aquino, Edwards, Leibniz e a teologia reformada apresentadas neste artigo não significam identidade entre seus sistemas. Cada autor parte de pressupostos metafísicos e teológicos próprios. Spinoza é apresentado especialmente como contraste filosófico para demonstrar as consequências de uma concepção radicalmente necessitarista da relação entre Deus e a realidade criada.