Este texto contém spoilers de Dragon Ball e Dragon Ball Z, além de referências a Dragon Ball Super.
Son Goku é um dos personagens mais reconhecidos da cultura popular japonesa. Para várias gerações, ele se tornou praticamente sinônimo de Dragon Ball: o menino de cabelo espetado que atravessava o mundo sobre uma nuvem mágica tornou-se um guerreiro capaz de enfrentar ameaças planetárias, morrer pela família, desafiar seres muito mais poderosos que ele e, repetidas vezes, participar da salvação da Terra. Visto superficialmente, seria fácil encaixá-lo no molde tradicional do grande herói.
Mas Goku é mais interessante justamente porque nunca se encaixou perfeitamente nesse molde. Há nele coragem, bondade, lealdade e disposição para o sacrifício, mas também ingenuidade, irresponsabilidade, obsessão pelo combate e uma curiosa incapacidade de avaliar certos perigos com a prudência esperada de alguém que carrega tamanho poder. Algumas dessas características foram exageradas em Dragon Ball Super, onde em determinados momentos sua ingenuidade parece quase uma regressão intelectual. Entretanto, seria equivocado culpar somente a fase mais recente da franquia. As contradições fundamentais de Goku já estavam presentes no Dragon Ball original e, sobretudo, em Dragon Ball Z.
Antes do herói, existia um menino quase selvagem
O Goku apresentado no começo de Dragon Ball está muito distante do adulto que enfrentaria Freeza, Cell e Majin Buu. Criado isoladamente nas montanhas pelo avô adotivo Son Gohan, ele praticamente desconhece as convenções mais básicas da sociedade. Não entende adequadamente diferenças entre homens e mulheres, dinheiro, casamento, tecnologia ou inúmeras regras elementares da convivência humana. Seu encontro com Bulma é, em grande medida, o início de sua entrada no mundo.
Essa ignorância produz boa parte do humor do Dragon Ball clássico, mas também estabelece uma característica que nunca desapareceria completamente: Goku não pensa como uma pessoa comum. Sua simplicidade não é somente falta de informação. Há nele uma maneira extremamente direta de compreender a realidade. Ele gosta de comer, treinar, conhecer pessoas fortes e lutar. Muitas complexidades sociais, políticas e emocionais simplesmente passam ao largo de seu interesse.
Ao mesmo tempo, o menino demonstra uma extraordinária capacidade de formar vínculos. Bulma, Kuririn, Mestre Kame, Yamcha e outros deixam de ser apenas pessoas encontradas pelo caminho para se tornarem amigos pelos quais ele está disposto a enfrentar perigos reais. A morte de Kuririn, por exemplo, provoca uma das primeiras manifestações claras de uma dimensão emocional muito mais profunda do personagem. O garoto inocente não é indiferente ao sofrimento. Ele ama, sofre, sente indignação e arrisca a própria vida pelos outros.
Pureza de coração não significa perfeição moral
Um dos conceitos frequentemente associados a Goku é sua pureza de coração. Dentro da própria história, isso é demonstrado de maneiras bastante concretas. Ele consegue utilizar a Nuvem Voadora e não é destruído por técnicas que exploram a maldade existente no coração do adversário. A narrativa deixa claro que Goku não possui a perversidade, a ambição, a crueldade ou a malícia que caracterizam tantos de seus inimigos.
Entretanto, existe uma diferença importante entre não possuir maldade e possuir todas as virtudes necessárias para agir corretamente. Goku pode ser sincero sem ser prudente; compassivo sem compreender as consequências de sua misericórdia; corajoso sem demonstrar responsabilidade; inocente sem possuir maturidade. É precisamente aí que nasce grande parte das contradições do personagem.
Goku raramente engana por interesse próprio, não deseja dominar ninguém e não procura riquezas, prestígio ou poder político. Sua busca por força é quase completamente desvinculada dessas ambições. Isso certamente o distingue de Freeza, Vegeta em sua fase inicial, Cell e tantos outros. Mas a ausência dessas formas tradicionais de corrupção não elimina outro impulso extremamente forte: Goku deseja lutar contra adversários poderosos porque gosta de lutar contra adversários poderosos.
Essa característica é tão importante que reduz Goku a uma caricatura quando é ignorada. Ele salva pessoas, mas nem sempre luta principalmente porque deseja salvá-las. Muitas vezes as duas coisas coincidem: surge alguém perigoso, Goku precisa derrotá-lo para proteger seus amigos e, simultaneamente, fica entusiasmado por encontrar um novo oponente. O problema aparece quando esses dois interesses entram em conflito.
Quando a luta se torna mais importante que a segurança
Durante a invasão dos Saiyajins encontramos um dos exemplos mais claros. Depois de uma batalha devastadora contra Vegeta, Kuririn tem a oportunidade de matar o invasor derrotado. Goku pede que ele não faça isso. A decisão poderia ser interpretada simplesmente como misericórdia, mas há algo mais: Goku quer ter a oportunidade de enfrentar Vegeta novamente. O homem que participou de uma invasão que matou seus amigos é deixado escapar em parte porque o protagonista deseja outra luta.
O resultado futuro é positivo, pois Vegeta gradualmente abandona sua antiga vida e termina transformado em aliado. Mas esse resultado posterior não torna automaticamente prudente a decisão original. Goku não possuía naquele momento conhecimento do futuro desenvolvimento moral de Vegeta. Ele estava aceitando um risco enorme porque enxergava naquele inimigo alguém que gostaria de enfrentar outra vez.
Algo semelhante ocorre com Freeza. Em Namekusei, Goku inicialmente demonstra misericórdia quando o inimigo derrotado implora por ajuda. Ele entrega parte de sua própria energia para permitir que Freeza sobreviva. É uma atitude extraordinariamente compassiva depois de tudo que o tirano havia feito. O problema é que Freeza imediatamente utiliza aquela energia para tentar matá-lo. Goku então reage e aparentemente o destrói. A cena resume de forma excelente tanto a grandeza quanto a fraqueza do personagem: sua compaixão pode superar o desejo de vingança, mas sua disposição para acreditar que um inimigo perigosíssimo poderá simplesmente aceitar a derrota nem sempre está acompanhada de prudência.
O caso Cell: confiança ou irresponsabilidade?
Nenhum episódio representa melhor essa tensão do que os Jogos de Cell. Goku percebe algo que os demais não haviam compreendido plenamente: Gohan possui um poder escondido superior ao seu. Sua confiança no filho não é absurda. Ele havia treinado com Gohan durante um longo período e conhecia o potencial que surgia quando o garoto era levado ao limite.
O erro está em imaginar que Gohan pensa como ele.
Depois de enfrentar Cell, Goku entrega ao inimigo uma Semente dos Deuses para que ele recupere suas forças antes de lutar contra Gohan. Sob a lógica do guerreiro, a ideia possui coerência: Gohan precisa ser pressionado até liberar seu verdadeiro poder. Sob a lógica de um pai e defensor das pessoas presentes naquele local, porém, a decisão é assustadora. Goku voluntariamente devolve energia ao ser que pretende destruir a Terra e então coloca diante dele o próprio filho.
É Piccolo quem percebe imediatamente aquilo que Goku não havia entendido: Gohan não gosta de lutar como o pai gosta. Ele pode possuir um poder enorme, mas não compartilha a paixão de Goku pelo combate. Quando essa realidade é colocada diante dele, Goku percebe o erro e tenta intervir. Isso é importante para que a crítica seja justa. Ele não joga deliberadamente o filho diante de Cell por falta de amor; acredita sinceramente em Gohan e interpreta a personalidade do filho através da própria personalidade.
Justamente por isso a cena revela uma falha paternal muito mais interessante do que simples negligência. Goku conhece o poder do filho melhor do que quase todos, mas naquele momento conhece mal o coração do filho.
Majin Vegeta e o prazer da batalha
A saga de Majin Buu fornece outro exemplo grave. Vegeta aceita voluntariamente a influência de Babidi porque deseja recuperar a brutalidade que acredita ter perdido e obrigar Goku a lutar seriamente contra ele. Goku, por sua vez, acaba aceitando o duelo. O problema é que ambos sabem que a energia produzida durante aquela batalha está relacionada ao plano de libertar Majin Buu.
É verdade que a responsabilidade moral principal pertence a Vegeta, que deliberadamente permite sua transformação e chega a matar pessoas para provocar Goku. Mas Goku também se deixa arrastar para uma disputa pessoal enquanto existe uma ameaça muito maior em curso. O duelo dos dois Saiyajins fornece justamente a energia necessária para que o despertar de Buu avance.
Mais uma vez, portanto, encontramos o mesmo conflito: Goku é capaz de colocar sua vida em risco para salvar o mundo, mas também é capaz de permitir que seu desejo de lutar interfira no julgamento de como esse mundo deveria ser protegido.
Então Goku não é um herói?
Seria injusto chegar à conclusão oposta e afirmar que Goku é simplesmente egoísta ou indiferente. Sua história contém atos de heroísmo genuíno que dificilmente podem ser explicados apenas pelo prazer de lutar.
Contra Raditz, ele aceita morrer para que Piccolo possa destruir o inimigo e salvar Gohan. Durante a saga de Namekusei, preocupa-se repetidamente com seus amigos e com a população ameaçada por Freeza. Contra Cell, depois de perceber a dimensão da ameaça final, utiliza o teletransporte para levar o inimigo prestes a explodir para longe da Terra, sacrificando a própria vida. Não se trata ali de buscar uma luta mais emocionante: trata-se literalmente de morrer para que outros vivam.
Depois disso, Goku decide permanecer morto por acreditar que sua presença na Terra atrai inimigos perigosos. Podemos discutir se sua conclusão estava correta, mas sua justificativa é essencialmente altruísta. Ele abre mão da vida ao lado da família porque acredita que sua ausência oferecerá maior segurança aos demais.
Portanto, a contradição não está em dizer que Goku nunca protege ninguém. Está em perceber que ele protege os outros sem possuir a identidade moral convencional de alguém cuja vida inteira é organizada em torno do dever de protegê-los. Ele é um guerreiro bondoso que frequentemente se torna o salvador do mundo, e não exatamente um vigilante constantemente motivado pela missão de salvar o mundo.
Goku como pai
A paternidade de Goku é uma das questões mais discutidas da franquia, em parte porque tanto defensores quanto críticos costumam selecionar apenas os exemplos convenientes. Chamá-lo simplesmente de “péssimo pai” ignora acontecimentos importantes; transformá-lo em pai exemplar exige ignorar outros igualmente importantes.
Goku evidentemente ama Gohan. Morre enfrentando Raditz para salvá-lo, demonstra orgulho do filho, treina pessoalmente com ele e confia profundamente em seu potencial. O período na Sala do Tempo antes dos Jogos de Cell também mostra uma convivência intensa entre os dois. Goku não trata Gohan como alguém irrelevante.
Ao mesmo tempo, seu maior erro como pai talvez seja justamente projetar no filho aquilo que existe nele mesmo. Goku vê talento para combate e presume desejo de combate. Para ele, descobrir um potencial maior é algo maravilhoso; para Gohan, lutar costuma ser uma necessidade imposta pelas circunstâncias. Essa diferença explica boa parte do desastre envolvendo Cell.
Há ainda suas ausências. Algumas não podem ser tratadas como abandono voluntário: Goku passa longos períodos morto, recuperando-se ou impossibilitado de retornar. Outras decorrem diretamente de seu estilo de vida e de sua prioridade constante pelo treinamento. A situação de Goten é particularmente significativa. Como Goku permanece morto durante os anos posteriores aos Jogos de Cell, seu segundo filho cresce sem conhecê-lo pessoalmente, encontrando o pai somente quando este recebe permissão para retornar temporariamente à Terra.
Novamente existe uma circunstância atenuante importante: Goku acreditava que permanecer morto protegeria a Terra e sua família das ameaças que pareciam surgir em torno dele. Portanto, não abandonou Goten simplesmente porque preferia divertir-se longe de casa. Mesmo assim, o resultado permanece: Chi-Chi cria o menino sem a presença do pai.
Goku é, assim, um pai que ama seus filhos e seria capaz de morrer por eles, mas que dificilmente poderia ser apresentado como modelo de presença, percepção emocional e responsabilidade cotidiana.
E como marido?
Seu casamento com Chi-Chi nasce de uma situação que já revela sua completa ingenuidade social. Quando criança, Goku aceita uma promessa de casamento sem compreender corretamente o que casamento significa. Anos depois, ao reencontrá-la no Torneio de Artes Marciais e finalmente entender o compromisso que havia assumido, decide cumpri-lo.
Não há motivo para retratá-lo como marido mal-intencionado. Goku demonstra carinho por Chi-Chi, não possui histórias de infidelidade e parece encarar sua família como parte natural de sua vida. O problema novamente aparece em outra dimensão: a vida doméstica nunca ocupa para ele a centralidade que ocupa para uma pessoa comum.
Chi-Chi assume muito mais diretamente as preocupações com casa, educação e criação dos filhos, enquanto Goku está constantemente orientado para treinamento e combate. Parte disso decorre das situações extraordinárias do universo da série — invasões alienígenas e monstros capazes de destruir planetas dificilmente permitem uma rotina familiar normal —, mas parte pertence ao próprio personagem. Mesmo quando não existe uma ameaça imediata, o treinamento continua sendo uma de suas maiores prioridades.
Portanto, a avaliação é semelhante à da paternidade: Goku ama sua família, mas amor e responsabilidade doméstica não são a mesma coisa. Como marido, demonstra afeto e lealdade, porém deixa grande parte do peso da vida familiar sobre Chi-Chi.
A misericórdia que pode colocar todos em perigo
Outro aspecto constantemente apresentado como virtude é a disposição de Goku para poupar inimigos. E, em alguns casos, essa misericórdia realmente produz frutos extraordinários. Muitos de seus maiores amigos já foram adversários: Yamcha tentou roubá-lo, Tenshinhan começou como rival hostil, Piccolo nasceu ligado ao maior inimigo de sua juventude e Vegeta chegou à Terra como invasor disposto a matar seus habitantes.
Se Goku adotasse como princípio eliminar definitivamente todo adversário derrotado, parte da própria história de Dragon Ball não existiria. Sua capacidade de não reduzir uma pessoa ao pior momento de sua vida está entre suas características mais admiráveis.
Entretanto, é necessário distinguir misericórdia de imprudência. Poupar alguém derrotado e incapaz de continuar causando dano é uma coisa; devolver condições de combate a um inimigo genocida ou permitir que alguém extremamente perigoso escape porque seria interessante enfrentá-lo novamente é outra. Goku frequentemente mistura compaixão, confiança e desejo de lutar, criando situações em que sua virtude se torna difícil de separar de sua irresponsabilidade.
Esse padrão também torna interessante a relação entre ele e Vegeta. Goku enxergou no príncipe Saiyajin aquilo que ninguém tinha motivo suficiente para enxergar naquele momento: a possibilidade de um futuro diferente. A aposta acabou produzindo um aliado decisivo. Mas a posterior transformação de Vegeta não significa que qualquer decisão semelhante seja moralmente correta. Às vezes Goku está certo porque conhece pessoas; outras vezes está certo simplesmente porque a narrativa lhe concede uma segunda oportunidade que, no mundo real, poderia custar inúmeras vidas.
A evolução existe, mas Goku nunca deixa de ser Goku
Existe uma tentação de imaginar que o menino ingênuo de Dragon Ball deveria naturalmente tornar-se um adulto convencional. Isso nunca acontece. Goku amadurece em diversos sentidos: passa a compreender melhor o mundo, constitui família, torna-se pai, experimenta perdas, reconhece responsabilidades e toma decisões cada vez mais complexas. O homem que enfrenta Cell evidentemente não possui a mesma compreensão da vida que o garoto que conheceu Bulma.
Porém existe um núcleo que permanece quase intacto. Goku continua fascinado pela possibilidade de encontrar alguém mais forte. Continua tratando o treinamento não apenas como obrigação, mas como uma das principais alegrias da existência. Continua tendo dificuldade em compreender determinadas convenções sociais. E continua apresentando uma simplicidade que às vezes produz sabedoria surpreendente e, em outras ocasiões, decisões absurdamente arriscadas.
Essa continuidade é fundamental para o personagem. Uma transformação completa em chefe de família responsável, estrategista prudente e defensor profissional da Terra poderia até parecer uma evolução lógica, mas provavelmente destruiria aquilo que faz Goku ser Goku.
Dragon Ball Super inventou esse problema?
Dragon Ball Super recebeu críticas por tornar Goku exageradamente ingênuo, infantil ou irresponsável em determinadas cenas. A impressão não é totalmente injusta. Certas piadas e decisões da fase moderna parecem reduzir uma simplicidade anteriormente equilibrada por momentos de grande seriedade. Em Dragon Ball Z, Goku poderia agir como um homem quase infantil diante de comida ou de uma nova luta e, poucas cenas depois, compreender perfeitamente a gravidade de uma ameaça e assumir uma postura extremamente séria.
Em Super, algumas dessas características são empurradas mais longe, e sua ânsia por enfrentar oponentes cada vez mais fortes ganha dimensões ainda maiores. A própria relação entre combates e ameaças universais amplia o problema: quando seres capazes de apagar mundos entram em cena, a velha curiosidade de Goku deixa de colocar apenas seus amigos em risco e passa a operar em escalas absurdamente maiores.
Entretanto, dizer que Super “estragou” um Goku anteriormente caracterizado como herói perfeitamente responsável é reescrever a série original. O homem que pediu para Vegeta escapar, ofereceu energia a Freeza, restaurou Cell antes da luta contra o próprio filho e aceitou enfrentar Majin Vegeta enquanto o despertar de Buu estava em andamento já possuía quase todos os elementos necessários para as controvérsias posteriores.
Super pode ter acentuado o problema. Não o inventou.
Talvez Goku nunca tenha sido o herói que imaginamos
Parte da imagem de Goku como defensor clássico da justiça também vem da maneira como o personagem foi recebido fora do contexto original. É fácil assistir às grandes batalhas, observar que ele normalmente está do lado que impede a destruição do planeta e concluir que sua motivação equivale à de um super-herói tradicional.
Mas o próprio funcionamento da personagem sugere algo diferente. Goku não passa seus dias procurando criminosos, patrulhando cidades ou perguntando quem precisa ser salvo. Muitas vezes é necessário procurá-lo enquanto ele está treinando. Quando aparece alguém extraordinariamente forte, sua primeira reação frequentemente inclui entusiasmo. O fato de essa pessoa pretender destruir o mundo transforma a luta em necessidade; o fato de ela ser poderosa transforma a mesma luta em algo que Goku deseja experimentar.
Isso explica por que seu heroísmo pode parecer simultaneamente tão convincente e tão estranho. Quando chega o momento decisivo, ele muitas vezes escolhe salvar os outros mesmo ao preço da própria vida. Entretanto, antes que esse momento chegue, pode tomar decisões que um verdadeiro guardião jamais deveria tomar.
Um personagem melhor justamente por não ser perfeito
Nada disso torna Goku um personagem pior. Na verdade, pode torná-lo mais interessante. Um protagonista completamente virtuoso, sempre prudente, sempre responsável e motivado exclusivamente pelo bem coletivo provavelmente seria menos imprevisível do que o guerreiro criado por Akira Toriyama.
Goku possui uma combinação peculiar de inocência e egoísmo, misericórdia e imprudência, amor pela família e desapego doméstico, capacidade de sacrifício e desejo quase insaciável de superar os próprios limites. Ele pode literalmente morrer para salvar o filho e, em outra ocasião, colocar esse mesmo filho diante de um inimigo recuperado porque acredita que aquela será a melhor maneira de despertar seu poder.
É difícil encaixar tudo isso nas categorias simplificadas de “bom pai” ou “mau pai”, “herói” ou “egoísta”, “sábio” ou “tolo”. Em diferentes momentos, Goku apresenta elementos de todos esses lados.
Conclusão
Goku é um herói, mas não no sentido mais convencional da palavra. Sua bondade é real, assim como sua coragem, sua lealdade e sua capacidade de se sacrificar pelos outros. Ao mesmo tempo, sua vida nunca é organizada exclusivamente pelo dever de proteger. O desejo de enfrentar adversários fortes, superar os próprios limites e experimentar a emoção da luta permanece como uma motivação central, capaz tanto de conduzi-lo a feitos extraordinários quanto de fazê-lo tomar decisões perigosamente irresponsáveis.
Sua ingenuidade também precisa ser entendida dessa maneira. Goku possui uma pureza marcada pela ausência de malícia, ambição e crueldade, mas isso não equivale automaticamente a maturidade moral. Ele pode demonstrar misericórdia admirável e, no instante seguinte, confiar demais em alguém que representa uma ameaça. Pode compreender perfeitamente a necessidade de sacrificar a própria vida e, em outra situação, falhar em perceber aquilo de que o próprio filho realmente precisa.
Como pai e marido, a avaliação também exige equilíbrio. Goku ama sua família, demonstra isso em momentos decisivos e chega a morrer para protegê-la, mas está longe de ser exemplo de presença constante, percepção emocional ou responsabilidade doméstica. Chi-Chi assume grande parte desse peso, enquanto Goku permanece profundamente orientado pelo treinamento e pelo combate. Seu amor é verdadeiro; sua maneira de exercer as responsabilidades familiares, porém, é claramente limitada.
Dragon Ball Super acentuou algumas dessas características, por vezes transformando a simplicidade de Goku em infantilidade excessiva. Mas as contradições não nasceram ali. O menino de Dragon Ball e o adulto de Dragon Ball Z já revelavam o mesmo núcleo: um homem extraordinariamente bondoso, quase incapaz de malícia, mas também um Saiyajin cujo amor pela luta nunca deixa de competir com outras responsabilidades.
E talvez esteja justamente aí parte da força duradoura do personagem. O menino que saiu das montanhas amadureceu, construiu amizades, casou-se, teve filhos, morreu, retornou e salvou mundos. Ainda assim, diante da notícia de que existe alguém mais forte em algum lugar, uma parte dele continua sendo aquele garoto que imediatamente pergunta:
“Será que eu posso lutar com ele?”
Essa pergunta resume tanto o encanto quanto o problema de Son Goku.