sábado, 28 de julho de 2012

A Verdadeira Liberdade (John Stott) - parte 03 de 03



O aspecto positivo: liberdade para


Até aqui nós estabelecemos uma relação entre as tiranias que impedem a nossa libertação e os três principais eventos da experiência de Jesus Cristo: sua morte, ressurreição e exaltação. Há libertação da culpa porque ele morreu por nós; libertação do ego porque podemos viver na força da sua ressurreição; e libertação do medo porque ele reina, com todas as coisas debaixo de seus pés.

É, no entanto, um equívoco muito sério definir liberdade em termos inteiramente negativos, embora o dicionário cometa este engano. Segundo o dicionário, liberdade é "supressão ou ausência de toda a opressão considerada anormal, ilegítima, amoral", enquanto que livre é aquele "que pode dispor de sua pessoa; que não está sujeito a algum senhor (por oposição a servil, escravo). Que não está privado de sua liberdade física; que não está prisioneiro; solto".[10] Mas tudo que é negativo tem o seu lado positivo. O ver­dadeiro grito de liberdade clama não somente por resgate de alguma tirania, mas também por liberdade para viver uma vida plena e significativa. Quando um país é libertado de um regime colonialista, torna-se livre para descobrir e desenvolver sua própria identidade nacional. Quando a imprensa é libertada do controle e da censura do governo, torna-se livre para publicar a verdade. E uma minoria racial, quando é libertada da discriminação, fica livre para desfrutar de respeito e dignidade própria. Afinal de contas, quando um país não é livre, o que lhe é negado é o direito de ser nação; quando não há liberdade de imprensa, o que se lhe nega é a verdade; e quando uma minoria não é livre, o que lhe é negado é o respeito próprio.

Qual é, então, a liberdade positiva dos seres humanos? Em 1970 Michael Ramsey pregou na Universidade de Cambridge uma série de quatro sermões, que foram pos­teriormente publicados sob o título A Liberdade, a Fé e o Futuro. No primeiro ele apresentou a questão: "Nós sabemos de que queremos libertar os homens. Será que sabemos para que queremos libertá-los?" E passou a responder a sua própria pergunta. Nossa luta por aquelas liberdades "que mais sensivelmente agitam nossos senti­mentos" (por exemplo, ser libertos da perseguição, da prisão arbitrária, da fome e da pobreza destruidoras) deveria sempre se situar "no contexto da questão mais radical e revolucionária, isto é, que o homem seja liberto do seu ego e para a glória de Deus." [11]

A questão que precisamos perseguir é esta: para que é que Cristo nos liberta? Eis aqui o princípio: a verdadeira liberdade é a liberdade para sermos nós mesmos, tal como Deus nos criou e como ele tencionava que nós fôssemos. E como se pode aplicar este princípio?

Vamos começar com o próprio Deus. Você já pensou no fato de que Deus é o único ser que goza de perfeita liberdade? Até se poderia argumentar que Deus não é livre. Afinal, o certo é que a liberdade dele não é absoluta, no sentido de poder fazer absolutamente qualquer coisa. A Escritura nos diz que ele não pode mentir, tentar ou ser tentado, nem pode tolerar o mal.[12] Não obstante, a liberdade de Deus é perfeita, no sentido de que ele é livre para fazer absolu­tamente qualquer coisa que ele queira. A liberdade de Deus é liberdade para ser sempre inteiramente ele mesmo. Deus nada tem de arbitrário, taciturno, inconstante ou imprevisível. Ele é constante, estável, imutável. De fato, a coisa principal que a Escritura nos diz que ele "não pode" fazer (não pode porque nunca o fará) é contradizer-se. "Ele não pode negar-se a si mesmo."[13] Fazê-lo seria, não liber­dade, mas autodestruição. A liberdade de Deus reside no fato de ser ele mesmo, assim como ele é.

E o que acontece com Deus, o Criador, também acontece com todas as coisas e seres criados. Liberdade absoluta, liberdade ilimitada, é pura ilusão. Se isso é impossível para Deus (como de fato o é), mais impossível ainda é para a criação de Deus. A liberdade de Deus é liberdade para ser ele mesmo; nossa liberdade é liberdade para sermos nós mesmos. A liberdade de toda criatura é limitada pela na­tureza que Deus lhe deu.

O peixe, por exemplo. Deus criou os peixes para viverem o se desenvolverem na água. Suas guelras são adaptadas para absorver o oxigênio da água. A água é o único elemento em que o peixe pode ser peixe, encontrar sua identidade de peixe, sua realização, sua liberdade. Uma liberdade que se limita à água, é verdade; dentro dessa limitação, porém, ela é liberdade. Suponhamos que você tenha em casa um peixe tropical. Ele vive, não num desses tanques retan­gulares arejados e modernos, mas num daqueles velhos aquários redondos e antiquados. E lá está o seu peixinho, nadando de um lado para outro no seu bendito aquário, até que, quando a sua frustração se torna insuportável, ele decide apostar na liberdade e salta para fora do seu confinamento. Se por acaso ele conseguir pular dentro de uma poça no seu jardim, aumentará sua liberdade. Continua sendo água, só que ali tem ainda mais água para ele nadar. Agora, se ele aterrissar no carpete ou no cimento, aí a sua tentativa de escapar acabará dando, não em liberdade, mas em morte.

E os seres humanos? Se os peixes foram feitos para a água,'os seres humanos foram feitos para quê? Eu acho que a nossa resposta é a seguinte: se a água é o elemento em que os peixes se encontram como peixes, então o elemento em que os humanos se encontram como huma­nos é o amor, as relações de amor. Morris West dá-nos um exemplo impressionante disto em seu livro Filhos do Sol, que conta a história dos scugnizzi, os meninos de rua abandonados de Nápoles, e do amor de Frei Mário Borelli por eles. "Existe em nós (os napolitanos) uma coisa que nunca muda", disse Mário para Morris. "Nós necessita­mos tanto de amor quanto um peixe necessita de água, ou uma ave de ar."[14] E então explicou que cada um dos scugnizzi que ele conhecia "tinha saído de casa porque não havia mais amor para ele".

Mas não são apenas as crianças de rua do mundo que necessitam amar e ser amadas, e que descobrem que vida significa amor. Todos nós somos assim. É no amor que nos encontramos e nos realizamos. Além do mais, não é preciso ir muito longe para buscar a razão para isso. É porque Deus é amor em sua essência, de tal forma que, quando ele nos criou à sua própria imagem, deu-nos a capacidade de amar assim como ele ama. Não é à toa, portanto, que os dois grandes mandamentos de Deus são amá-lo e amar uns aos outros, pois é esse o nosso destino. Uma existência verdadeiramente humana é impossível sem amor. Viver é amar, e sem amor nós murchamos e mor­remos. Como expressou Robert Southwell, poeta católico romano do século XVI: "Não quando eu respiro, mas sim quando eu amo, aí é que eu vivo." Ele provavelmente estava fazendo eco à observação de Agostinho, de que a alma vive onde ela ama, não onde ela existe.

O verdadeiro amor, no entanto, impõe restrições ao amante, pois o amor é essencialmente autodoador. E isto nos leva a um surpreendente paradoxo cristão. A verda­deira liberdade é a liberdade para ser eu mesmo, assim como Deus me fez e como ele pretendia que eu fosse. E Deus me fez para amar. Mas amar é dar, é autodoação. Portanto, para ser eu mesmo, eu tenho que negar-me a mim mesmo e doar-me. Para ser livre eu tenho que servir. Para viver, eu tenho que morrer para o meu próprio egocentrismo. E, para encontrar-me, tenho que esbanjar-me em dar amor.

A verdadeira liberdade é, pois, exatamente o oposto do que muita gente pensa. Não é ser livre de toda a respon­sabilidade que tenho para com Deus e os outros, a fim de viver para mim mesmo. Isto é ser escravo do meu próprio egocentrismo. Pelo contrário, a verdadeira liberdade é a libertação do meu tolo e diminuto ego, a fim de viver responsavelmente em amor a Deus e aos outros.

Mas a mente secular não consegue captar este paradoxo cristão da liberdade através do amor. Por exemplo, a no­velista francesa Françoise Sagan deu uma entrevista pouco antes de completar cinquenta anos, em 1985. Ela disse que estava perfeitamente satisfeita com sua vida e que nada tinha a lamentar.

"Você teve a liberdade que queria?"

"Sim", disse ela, esclarecendo sua declaração: "Natu­ralmente, eu sempre era menos livre quando estava apai­xonada por alguém... Mas não se vive apaixonada o tempo todo. A não ser por esse tempo... Sou livre, sim."

A implicação é clara: o amor inibe a liberdade. Quanto mais se ama, menos livre se é, e vice-versa. Presume-se, portanto, que para ser completamente livre é preciso evitar as complicações do amor, ou seja, o jeito é desistir com­pletamente de amar.[15]

Mas Jesus ensinou exatamente o contrário em um de seus epigramas favoritos, que ele parece ter citado em diferentes formas e contextos. "Quem quiser, pois, salvar a sua vida, perdê-la-á", disse ele; "e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho, salvá-la-á."[16] Eu achava que Jesus estivesse se referindo a mártires que dão a vida por ele. E o princípio que ele estava enunciando certamente inclui a estes. Mas a "vida" de que ele está falando, que tanto pode ser salva como perdida, não é a nossa existência física (zoe), mas a nossa alma ou ego (psyche) usada não poucas vezes em lugar do reflexivo referente à primeira pessoa ("me/mim"). Poderíamos então parafrasear o epigrama de Jesus nos seguintes termos: "Se você insiste em apegar-se a si mesmo e em viver para si mesmo, re­cusando-se a desligar-se do seu eu, você está perdido. Mas se estiver disposto a doar-se em amor, então, no momento do completo abandono, quando você pensar que tudo está perdido, acontecerá o milagre e você encontrará a si e à sua liberdade." Só o serviço sacrificial, o dar-se a si mesmo em amor a Deus e aos outros, é que é a perfeita liberdade.

A verdadeira liberdade, portanto, combina o negativo (libertação de) com o positivo (liberdade para). Ou, dito de uma outra forma, ela concilia a libertação da tirania com a liberdade submetida à autoridade. Jesus ilustra isto num dos seus mais conhecidos convites:

Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecar­regados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.[17]

Existem aqui, na verdade, dois convites, ligados a uma única promessa. A promessa é "descanso", que parece abranger a idéia de libertação. "Eu vos aliviarei", diz Jesus (versículo 28). E acrescenta: "Achareis descanso para as vossas almas" (versículo 29). Mas a quem ele promete descanso? Primeiro, àqueles que vêm a ele "cansados e sobrecarregados", pois ele tira os seus fardos e os liberta. Depois, ele dá descanso àqueles que tomam sobre si o seu jugo e aprendem dele. Assim, o verdadeiro descanso se encontra em Jesus Cristo, nosso Salvador, que nos liberta da tirania da culpa, do ego e do medo, e em Jesus Cristo, nosso Senhor, quando nos submetemos a sua autoridade e ensino. Afinal, o seu jugo é suave, o seu fardo é leve e ele mesmo é "manso e humilde de coração".



[10] Em Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa
[11] Michael Ramsey, Freedom, Faith and the Future (SPCK, 1970), p. 12.
[12] Hb6.18,Tg 1.13; Hb 1.13
[13] 2Tm2.13
[14] Morris West, Children of the Sun (1957; Pan, 1958), pp. 94-95
[15] Esta entrevista apareceu no jornal Le Monde, em 23/06/85
[16] Mc 8.35
[17] Mt 11.28-30

EXTRAÍDO DO LIVRO: "Ouça o Espírito, Ouça o Mundo"

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