sexta-feira, 29 de março de 2013

A Última Páscoa (por John MacArthur Jr.) - Parte 01 de 03


Extraído de: Monergismo.com

“O Mestre manda dizer: O meu tempo está próximo… celebrarei a Páscoa com os meus discípulos.” Mateus 26.18

A Páscoa era a primeira festa do calendário judaico, celebrada todo ano “no mês primeiro, aos catorze do mês, no crepúsculo da tarde” (Lv 23.5). Era a ocasião em que cada família em Israel comemorava a libertação da nação do Egito com o sacrifício de um cordeiro sem mancha. A festa também era a mais antiga de todos os dias santos dos judeus, sendo que a Páscoa foi celebrada na véspera da libertação israelita do Egito.

A Páscoa era imediatamente seguida pela festa dos Pães Asmos (Lv 23.6). Esse acontecimento durava uma semana, o que estendia o período inteiro de festa para oito dias. As duas festas eram tão intimamente associadas que o período de oito dias era às vezes chamado “a Páscoa” e às vezes chamado “a Festa dos Pães Asmos” (O próprio Novo Testamento às vezes usa os termos indiferentemente, repetindo o linguajar comum). Porém em termos técnicos, a “Páscoa” refere-se ao décimo quarto dia de Nisã (o primeiro mês do calendário judeu) e “a Festa dos Pães Asmos” refere-se aos sete dias restantes do período festivo, que terminava no dia 2l de Nisã.

Quatro dias antes da Páscoa, no dia 10 de Nisã, cada família em Israel tinha de escolher um cordeiro sacrificial sem mancha e separar aquele cordeiro do resto dos rebanhos até a Páscoa, quando o cordeiro seria morto (Ex 12.3-6). Durante aquela última semana antes da sua crucificação, o próprio Jesus sem dúvida fez isso juntamente com os seus discípulos, escolhendo um cordeiro na segunda-feira daquela semana.

Vale lembrar que registros históricos dos dias de Jesus indicam que cerca de um quarto de milhão de cordeiros eram mortos numa época de Páscoa típica, necessitando de centenas de sacerdotes para executar a tarefa. Visto que todos os cordeiros eram mortos durante um período de duas horas logo antes do crepúsculo no dia 14 Nisã (Êx 12.6), haveria a necessidade de aproximadamente seiscentos sacerdotes, que matariam uma média de quatro cordeiros por minuto, para realizar a tarefa numa única noite. A tradição permitia que apenas dois homens levassem um cordeiro ao templo para o sacrifício, e depois que cada cordeiro tivesse sido morto, tinha de ser levado imediatamente para casa e ser assado. Mesmo assim, o templo estaria densamente abarrotado enquanto os cordeiros estavam sendo mortos, com cerca de meio milhão de pessoas movendo-se pela área num espaço de duas horas.

No entanto, os judeus do período de Jesus tinham dois métodos diferentes de calcular o calendário, e isso ajudava a aliviar o problema. Os fariseus, como também os judeus da Galiléia e os distritos do norte de Israel, contavam os seus dias de um nascer do sol até o outro. Mas os saduceus, e o povo de Jerusalém e os distritos circunvizinhos, calculavam seus dias de um pôr-do-sol ao outro. Isso significava que o dia 14 de Nisã para um galileu caía na quinta-feira, enquanto para os habitantes de Jerusalém caía na sexta-feira. E assim a matança dos cordeiros poderia acontecer em dois períodos de tempo de duas horas em dias sucessivos assim aliviando um pouco o trabalho dos sacerdotes. Cerca de metade dos cordeiros poderia ser morto na quinta-feira, e a outra metade era morto na sexta-feira.

(Essa troca na cronologia explica por que Jesus e seus discípulos – todos galileus, com exceção de Judas – comeram a refeição da Páscoa na quinta-feira à noite no Cenáculo, entretanto João 18.28 registra que os líderes judeus – todos residentes em Jerusalém – ainda não haviam celebrado a Páscoa no dia seguinte quando Jesus foi levado para ser julgado no Pretório. Isso também explica por que João 19.14 indica que o julgamento e a crucificação de Jesus aconteceram no dia da Preparação para a Páscoa).

Entretanto, a quantidade de sangue que resultava de todos esses sacrifícios era enorme. O sangue podia fluir pelo íngreme declive oriental do monte do templo e para o Vale de Cedrom, onde deixava o riacho tingido de um vermelho vivo durante um período de vários dias. Era uma lembrança vívida do preço terrível do pecado.

Claro que todo esse sangue e todos esses animais não podiam de fato expiar o pecado. “Porque é impossível que o sangue de touros e de bodes remova pecados” (Hb 10.4). Os cordeiros apenas simbolizavam um sacrifício mais perfeito que o próprio Deus providenciaria para remover os pecados. Foi por isso que João Batista olhou para além desses sacrifícios animais e apontou para o verdadeiro “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). O pleno significado dessa profecia estava para ser revelado.


A ÚLTIMA PÁSCOA PREPARADA

Cedo naquela quinta-feira os discípulos começaram a fazer os preparativos para a Páscoa. “No primeiro dia dos pães asmos, [aqui Mateus estava empregando o coloquialismo comum que combinava as duas grandes festas] vieram os discípulos a Jesus e lhe perguntaram: Onde queres que te façamos os preparativos para comeres a Páscoa? (Mt 26.17)

Fica evidente do relato de Mateus que Jesus já tinha arranjado de antemão muitos dos detalhes para essa noite. Com tantos israelitas visitantes que vinham anualmente a Jerusalém para a festa, era comum que os habitantes da cidade mantivessem aposentos que eles alugavam para que os visitantes pudessem ter um lugar privado para comer a refeição da Páscoa com os amigos e a família. Jesus tinha evidentemente providenciado o uso de um desses locais para ele e os seus discípulos – um cenáculo, que provavelmente foi colocado à sua disposição por alguém que Jesus conhecia e que era por sua vez um crente em Jesus, mas talvez desconhecido dos discípulos. Essa pessoa nunca é identificada por nome em quaisquer dos relatos evangélicos. Em todo caso, Jesus tinha evidentemente feito em segredo esses arranjos, para evitar que ficasse conhecido com antecedência onde ele estaria nessa noite com os discípulos (Se Judas tivesse conhecimento prévio do local da Última Ceia, teria sido uma questão simples para ele revelar ao Sinédrio onde eles poderiam encontrar Jesus. Mas era necessário ao plano de Deus que ele celebrasse a Páscoa com os seus discípulos antes de ser traído).

Muitos preparativos precisavam ser feitos. O cordeiro não apenas necessitaria ser morto no templo e depois ser levado de volta para ser assado, mas outros elementos da refeição também precisavam estar preparados. Os principais entre os elementos de uma Páscoa eram o pão sem fermento, o vinho e um prato feito de ervas amargas. A responsabilidade de preparar esses elementos provavelmente foi dividida entre alguns dos discípulos. E a tarefa de organizar a sala e a mesa estava já sendo cuidada por um criado do proprietário do cenáculo.

Assim Jesus lhes disse, “Ide à cidade ter com certo homem e dizei-lhe: O Mestre manda dizer: O meu tempo está próximo; em tua casa celebrarei a Páscoa com os meus discípulos” (Mt 26.18). De acordo com Marcos 14.13 e Lucas 22.10, Jesus lhes disse que o homem que eles iriam procurar estaria “trazendo um cântaro de água”. Normalmente, carregar água era tarefa de uma mulher, assim seria fácil identificar o homem. Jesus, que conhecia todas as coisas (Jo 16.30), sabia precisamente onde o homem estaria quando eles o encontrassem. Esta ainda é outra prova de que ele estava soberanamente no controle de todos esses acontecimentos.

De Lucas 22.8 ficamos sabendo que Pedro e João foram especificamente designados para encontrar o homem e ajudar a preparar o Cenáculo. Marcos diz que eles deveriam localizar o homem, segui-lo até a sua casa, e então repetir ao dono da casa o que Jesus tinha lhes dito. Lá eles encontrariam “um espaçoso cenáculo mobilado e pronto” (Mc 14.15). Eles “fizeram como Jesus lhes ordenara e prepararam a Páscoa” (Mt 26.19).

Há um profundo significado na declaração de Jesus, “O meu tempo está próximo… celebrarei a Páscoa” (v. 18). Em várias ocasiões anteriores, Pedro e João o tinham ouvido dizer, “O meu tempo ainda não chegou” (Jo 7.6) – ou palavras com esse mesmo significado. A hora dele havia chegado, o momento para o qual ele tinha vindo no mundo, e ele declarou esse fato claramente para Pedro e João. Ele sabia que tinha apenas mais uma noite para passar com os seus discípulos, e ele a passaria guardando a Páscoa. A frase grega traduzida “eu guardarei a Páscoa” usa uma expressão de tempo presente para expressar um acontecimento futuro (literalmente, “eu guardo a Páscoa”). Assim, ele salientou a inviolabilidade absoluta do plano divinamente orquestrado.

Era vital para Cristo guardar essa última Páscoa. Mais tarde nessa noite ele diria para os discípulos, “Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta Páscoa, antes do meu sofrimento. Pois vos digo que nunca mais a comerei, até que ela se cumpra no reino de Deus” (Lc 22.15,16). Os acontecimentos dessa noite introduziriam a culminação de tudo que todas as Páscoas anteriores figuravam. O verdadeiro Cordeiro de Deus estava próximo de ser sacrificado, e essa última refeição de Páscoa então seria rica de significado, mais que qualquer Páscoa já guardada pela mais devota das famílias israelitas.


A FESTA CELEBRADA

Sobre os outros acontecimentos do dia – chegando até a própria refeição da Páscoa – os relatos dos evangelhos fazem silêncio total. Jesus pode ter passado o dia sozinho em oração com o Pai enquanto os discípulos preparavam a Páscoa. Quaisquer que tenham sido as atividades do dia, Jesus e os seus discípulos se encontraram no momento designado e foram para o cenáculo, onde as coisas estavam completamente preparadas. O apóstolo João dedica vários capítulos (Jo 13–17) para fazer um relato detalhado do discurso de Jesus dessa noite (Uma exposição do discurso no cenáculo está além da extensão desta obra, mas eu tratei disso num outro livro). [Como Ser Crente em um Mundo de Descrentes (São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2003)]

Mateus salta diretamente para o cenáculo e a cena da refeição da Páscoa. “Chegada a tarde, pôs-se ele à mesa com os doze discípulos” (Mt 26.20). Teria sido depois das seis horas na quinta-feira à noite quando eles se sentaram para comer. A palavra grega traduzida por “sentaram-se” é o verbo anakeimai que também significa “reclinar-se”. Era comum servir uma refeição assim numa mesa baixa diante da qual os convidados se reclinavam para participar. Do relato de João, nós aprendemos que Cristo e os discípulos estavam comendo numa posição reclinada, porque a cabeça de João estava perto do peito de Jesus (Jo 21.20).

Isso estava em total contraste com a primeira Páscoa que foi comida apressadamente, de pé, as roupas cingidas para viagem, sandálias nos pés e cajado na mão (Êx 12.11). Naquela ocasião, os israelitas estavam se preparando para fugir do Egito. Nessa ocasião, não havia fuga planejada. Cristo iria dali para o jardim onde ele seria traído e entregue nas mãos dos seus assassinos. Sua hora estava próxima.

Havia uma seqüência bem estabelecida no processo de comer uma Páscoa. Primeiro, um cálice de vinho era distribuído, o primeiro de quatro cálices compartilhados durante a refeição. Cada pessoa tomaria um gole de um cálice comum. Antes de passar o cálice Jesus deu graças (Lc 22.17).

Depois que o cálice inicial era passado, havia uma lavagem cerimonial para simbolizar a necessidade de limpeza moral e espiritual. Parece ter sido durante essa lavagem cerimonial que os discípulos “suscitaram também entre si uma discussão sobre qual deles parecia ser o maior” (Lc 22.24). João relata que Jesus “levantou-se da ceia, tirou a vestimenta de cima e, tomando uma toalha, cingiu-se com ela. Depois, deitou água na bacia e passou a lavar os pés aos discípulos e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido” (Jo 13.4,5). Tomando o papel do mais baixo servo, Cristo assim transformou a cerimônia de limpeza numa lição prática sobre a humildade e a verdadeira santidade. A lavagem externa nada vale se o coração estiver contaminado. E o orgulho é uma prova segura da necessidade de uma limpeza do coração. Cristo tinha feito uma observação semelhante para os fariseus em Mateus 23.25-28. Agora ele lavou os pés dos discípulos, ilustrando que até mesmo crentes com corações regenerados precisam ser lavados periodicamente da corrupção externa do mundo.

Seu ato era um modelo de verdadeira humildade. Lavar os pés era uma tarefa delegada tipicamente ao mais baixo escravo. Normalmente, num cenáculo alugado como esse, um criado estaria à disposição para lavar os pés dos convidados quando eles entravam. Omitir esse detalhe era considerado uma descortesia total (cf. Lc 7.44). Lavar os pés era necessário por causa do pó, da lama e outras sujeiras encontradas por um pedestre nas estradas sem pavimento dentro e ao redor de Jerusalém. Mas evidentemente não havia nenhum servo para executar a tarefa quando Jesus e os discípulos chegaram ao cenáculo; então, em vez de se apresentarem para executar uma tarefa tão humilhante um para outro, os discípulos tinham simplesmente deixado os seus pés sem lavar. O gesto de Cristo era tanto um ato de auto-humilhação como uma repreensão sutil aos discípulos (cf. Jo 13.6-9). Também era um modelo para o tipo de humildade que ele espera de todos os cristãos (v. 15; cf. Lc 22.25,26).

Depois da lavagem cerimonial, a refeição da Páscoa continuava com o comer das ervas amargas (Êx 12.8) (Estas eram salsa, endívia e verduras de folhas semelhantes). A amargura das ervas evocava a aspereza da escravidão de Israel no Egito. As ervas eram comidas com pedaços de pão sem fermento, imersas numa substância chamada charoseth, um molho picante feito de romãs, maçãs, tâmaras, figos, passas e vinagre, O charoseth era comparado à argamassa usada por um pedreiro – e novamente era rememorativo da escravidão israelita no Egito onde eles produziam tijolos.

Em seguida, o segundo cálice era passado. Era nesse momento que o cabeça da casa (nesse caso, sem dúvida Jesus) explicava o significado da Páscoa (cf. Êx 12,26,27). Em uma Páscoa judaica tradicional, a criança mais jovem faz quatro perguntas pré- determinadas, e as respostas são recitadas de uma narrativa poética do Êxodo.

A circulação do segundo cálice seria acompanhada pelo cântico de salmos. Tradicionalmente, os salmos cantados na Páscoa eram do Hallel (hebraico para “louvor”; essa é a mesma palavra da qual Aleluia é derivada), O Hallel consistia de seis salmos que começava com o Salmo 113. Os salmos de Hallel eram provavelmente cantados em ordem, os primeiros dois sendo cantados nesse momento na cerimônia.

O cordeiro assado seria servido na seqüência. O chefe da casa cerimonialmente lavaria as suas mãos novamente, e partiria e distribuiria pedaços do pão sem fermento às pessoas ao redor da mesa, para ser comido com o cordeiro.



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