domingo, 31 de março de 2013

A Última Páscoa (por John MacArthur Jr.) - Parte 03 de 03



UMA NOVA FESTA INSTITUÍDA

Desse momento em diante, aquela última Páscoa se tornou a instituição da ordenação da Nova Aliança conhecida como a Ceia do Senhor.

Enquanto comiam, tomou Jesus um pão, e, abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai, comei; isto é o meu corpo. A seguir, tomou um cálice e, tendo dado graças, o deu aos discípulos, dizendo: Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados. E digo-vos que, desta hora em diante, não beberei deste fruto da videira, até aquele dia em que o hei de beber, novo, convosco no reino de meu Pai. E, tendo cantado um hino, saíram para o monte das Oliveiras (Mt 26.26-30).

A Páscoa tinha sido observada em Israel desde a véspera da partida deles do Egito sob Moisés – quase mil e quinhentos anos antes de Cristo. Era o ritual mais antigo da antiga aliança. Precedeu a entrega da lei. Foi instituída antes de quaisquer das outras festas judaicas. Era mais antiga que o sacerdócio, o tabernáculo e o restante do sistema sacrificial mosaico.

Essa noite marcou o fim de todas essas cerimônias e a vinda da realidade que elas prenunciavam. Era a última Páscoa sancionada por Deus. A Antiga Aliança, junto com todos os elementos cerimoniais que pertenceram a ela, estava próxima do seu término com a introdução de uma Nova Aliança gloriosa que nunca se extinguiria.

As festas, os rituais e o sacerdócio da economia mosaica todos apontavam adiante para o Grande Sumo Sacerdote que ofereceria um sacrifício pelo pecado para sempre. Isso estava a ponto de se tornar uma realidade. De agora em diante, o povo de Deus celebraria com uma nova festa que olhava para trás, em memória da obra sumo sacerdotal de Jesus.

E assim Jesus aproveitou alguns dos elementos da refeição pascal e os transformou em elementos da ordenação da Nova Aliança. Era o fim da Páscoa por todos os tempos e o início de algo novo e maior.

Mateus declara que a festa da Páscoa ainda estava em andamento. Com toda a probabilidade, eles haviam há pouco terminado de comer o cordeiro e estavam prontos para passar para a próxima fase do ritual da Páscoa que teria sido a circulação de outro cálice de vinho.

Jesus tomou um pedaço do pão sem fermento e “abençoou-o” – ou deu graças a Deus pelo pão. Então ele o partiu e o distribuiu aos discípulos dizendo, “Tomai, comei; isto é o meu corpo”. A declaração indubitavelmente chocou os discípulos. Era uma lembrança das palavras de Jesus em João 6, onde ele se descreveu como o pão de vida, o verdadeiro maná que tinha descido do céu. Naquele contexto anterior, ele estava falando com multidões de seguidores – muitos deles pseudodiscípulos semelhantes a Judas – e ele lhes disse, “Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos” (Jo 6.53). Naquela ocasião as suas palavras tinham sido tão difíceis de receber que “muitos dos seus discípulos o abandonaram e já não andavam com ele” (v. 66).

Não há aqui nenhum tipo de apoio para a superstição que deu origem à doutrina católico-romana da transubstanciação – a noção de que o pão e o vinho são sobrenaturalmente transformados no corpo e no sangue verdadeiros de Cristo. Alguns insistem que porque Cristo disse, “Este é meu corpo”, em vez de “Isto simboliza meu corpo”, ele estava ensinando a doutrina da transubstanciação. O bom senso traz outra sugestão. Os próprios discípulos não poderiam ter entendido isso como qualquer coisa diferente de simbolismo. Afinal de contas, o seu corpo verdadeiro ainda não havia sido oferecido em sacrifício. Ele estava fisicamente presente naquele corpo, e eles o tinham visto repartir o pão sem fermento. A noção do pão sendo de fato transubstanciado em carne de verdade não teria feito nenhum sentido nesse momento. O sentido claro das suas palavras era claramente simbólico – muito embora os discípulos sem dúvida não houvessem entendido todo o significado do simbolismo.

De um modo semelhante, Jesus uma vez tinha dito sobre João Batista, “ele mesmo é Elias” (Mt 11.14) – e ninguém teria entendido essa declaração de modo literal. Expressões semelhantes a essas são comuns até hoje, e é um erro tomar essas palavras num sentido literal. A noção de transubstanciação foi responsável por todos os tipos de superstição e idolatria grave, e é importante que não entendamos de modo incorreto o que Jesus quis dizer aqui, para que não corrompamos o significado da ordenança.

Ele estava instituindo o que se tornaria uma recordação da sua morte (Lc 22.19), não um ritual que envolve um perpétuo re-sacrifício constante do seu corpo.

Depois que o pão foi comido, ele tomou o cálice de vinho, novamente deu graças, e disse, “Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados” (Mt 26.27,28). (O verbo grego que significa dar graças é eucharisto do qual temos Eucaristia, o nome freqüentemente dado à observância da Ceia do Senhor.)

Esse teria sido provavelmente o terceiro dos quatro cálices de vinho que passavam durante uma Páscoa tradicional. O terceiro cálice era chamado “o cálice da bênção” que é a mesma expressão que o apóstolo Paulo usa para falar de taça de comunhão em 1 Coríntios 10.16.

As palavras de Cristo enquanto ele passava o cálice teriam aturdido os discípulos até mesmo mais do que a sua referência ao pão como o corpo dele. Não havia na mente judaica nenhuma prática mais repulsiva e repugnante que a ingestão de sangue de qualquer tipo. A lei cerimonial do Antigo Testamento proibia estritamente comer e beber qualquer tipo de sangue (Lv 17.14). É por isso que até hoje carnes kosher são preparadas com um processo projetado para as limpar de todo resíduo de sangue. Na igreja primitiva judaica, a idéia de ingerir sangue era julgada tão ofensiva que o conselho de Jerusalém pediu aos crentes pagãos que se privassem da prática em deferência aos seus irmãos judeus (At 15.20). Paulo deixou claro depois que nenhuma comida seria considerada imunda se recebida com ação de graças (1Tm 4.4). Mas uma aversão a comer sangue estava tão profundamente arraigada na consciência do judeu que até mesmo depois quando deixou de ser considerado cerimonialmente imunda, muitos consideravam a prática revoltante.

Assim, para Jesus oferecer aos discípulos um cálice com as palavras, “Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue” seguramente teria ofendido a sensibilidade deles. Era uma declaração chocante, e é fácil imaginar os discípulos trocando olhares assustados e sussurrando entre eles sobre o que ele possivelmente estaria querendo dizer.

O fato de ele ter classificado como “o sangue da nova aliança” é significativo. Alianças importantes sempre foram ratificadas pelo derramamento de sangue sacrificial. Quando alguém fazia um pacto com seu vizinho, por exemplo, às vezes para solenizar o pacto, um bezerro sacrificial era cortado em dois pedaços e os pedaços arranjados no chão. Então as partes do pacto caminhariam juntas entre os pedaços do animal morto, declarando assim a vontade deles de serem cortados em pedaços caso violassem o pacto.

Esse tipo de cerimônia pactual é citado em Jeremias 34.18. Nós também vemos isso em Gênesis 15.9-18, onde Jeová fez Abraão dormir e passou sozinho entre as partes dos animais, demonstrando a natureza incondicional da sua aliança com Abraão.

Quando a Aliança mosaica foi instituída, Moisés solenizou isso sacrificando vários bois grandes. Ele coletou o sangue deles em bacias grandes. Então tomou um ramo de hissopo (uma erva em forma de vassoura), imergiu-o no sangue e o aspergiu sobre o povo, atirando gotas de sangue sobre a congregação inteira. Nessa ocasião, Moisés disse palavras bem parecidas com o que Jesus disse aos discípulos no cenáculo – “Eis aqui o sangue da aliança que o Senhor fez convosco” (Êx 24.5-8).

O derramamento de sangue era um aspecto vital da ratificação de qualquer aliança, mas na Nova Aliança, o sangue de Cristo serviu a um propósito duplo, porque o tema da Nova Aliança era a redenção, e o derramamento de sangue era um aspecto essencial da expiação pelo pecado. “Sem derramamento de sangue, não há remissão” (Hb 9.22) “…a vida da carne está no sangue. Eu vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pela vossa alma, porquanto é o sangue que fará expiação em virtude da vida” (Lv 17.11).

Há, infelizmente, muita superstição e compreensão incorreta sobre o significado do sangue de Cristo. Um livro popular, escrito vários anos atrás por um autor evangélico famoso, sugere que havia algo sem igual na química do sangue de Cristo. Ele imaginou que o sangue de Cristo não era sangue humano. Em vez disso, ele disse, o sangue que corria pelas veias de Jesus era o sangue de Deus. Claro que isso significaria que o corpo de Cristo não era completamente humano (um eco da antiga heresia do docetismo). Outros cristãos compuseram canções familiares sobre sangue de Cristo (como “Há Poder no Sangue” ou “Há uma Fonte Cheia de Sangue”). Eles imaginam que há alguma propriedade sobrenatural no sangue de Cristo que o torna espiritualmente poderoso, ou que o sangue de Jesus era sobrenaturalmente coletado e preservado numa cisterna divina como alguma relíquia celestial. Alguns até mesmo supõem que o sangue literal de Cristo é aplicado por alguns meios místicos a cada crente na conversão, e então coletado novamente de forma que possa ser perpetuamente aplicado e reaplicado. E muitas pessoas acreditam que apenas mencionar o sangue de Cristo é um meio poderoso de anular a atividade do demônio – semelhante a um “abracadabra” cristão. Idéias fantásticas como essas saem do mesmo pensamento supersticioso que gerou a noção de transubstanciação.

Quando as Escrituras declaram que nós somos resgatados pelo sangue de Cristo, não devemos pensar que seu protoplasma ou seus corpúsculos tivessem alguma propriedade sobrenatural. O sangue dele era sangue humano normal, da mesma maneira que seu corpo inteiro era completamente humano em todos os aspectos. O “poder do sangue” sobre o qual nós cantamos está na reconciliação que ele comprou pelo derramamento do seu sangue, não no próprio fluido real.

De igual modo, as referências bíblicas ao sangue de Cristo não falam do sangue que flui nas veias do Cristo vivo; elas se referem à expiação de sangue que ele ofereceu em nosso favor pela sua morte. À parte da sua morte, nenhuma quantidade de mero derramamento de sangue teria tido qualquer eficácia para salvar os pecadores. Assim, quando a Bíblia fala sobre o sangue de Cristo, ela usa a expressão como uma metonímia para a sua morte expiatória.

Por exemplo, aqui na última Páscoa quando ele passou o cálice e disse que ele simbolizava o sangue da Nova Aliança, derramado para o perdão de pecados, os discípulos teriam obviamente compreendido isso como uma referência ao tipo de morte violenta sofrida por um animal sacrificial. Eles sabiam que ele não falava de hemorragia propriamente dita, mas um derramamento de sangue violento que termina em morte — a morte sacrificial como um substituto para a reconciliação de pecadores.

Cristo já estava estabelecendo na mente deles o significado teológico da sua morte. Ele queria que eles entendessem que quando o vissem sangrando e morrendo nas mãos dos carrascos romanos, que ele não estava sendo uma vítima infeliz de homens ímpios, mas que estava soberanamente cumprindo seu papel como o Cordeiro de Deus – o grande Cordeiro Pascal – que tira o pecado do mundo.

E ao instituir a ordenação como uma recordação da sua morte, ele fez do cálice de comunhão uma lembrança perpétua dessa verdade para todos os crentes de todos os tempos. A questão não era imputar alguma propriedade mágica transubstanciada para o fluido vermelho (como a teologia católico-romana sugere), mas de significar e simbolizar a sua morte expiatória.

Assim, quando a última Páscoa chegou ao fim, uma ordenança nova foi instituída para a igreja. E Jesus disse aos discípulos que esse seria o último cálice que ele beberia com eles até que ele o bebesse novamente no reino do Pai (Mt 26.29). Ao dizer isso, ele não apenas salientou quão iminente a sua partida era, mas ele também os assegurou do seu retorno. Implicitamente, ele também assegurou que eles todos estariam juntos com ele naquele reino glorioso.

Eles não poderiam ter entendido toda a importância das suas palavras nessa noite. Somente depois da sua morte e ressurreição é que a maioria dessas verdades tornou-se clara para eles. Eles indubitavelmente sentiam que algo importante estava acontecendo, mas não saberiam explicar isso nessa noite.

A refeição tinha terminado. A última Páscoa estava completa. Mateus registrou que eles cantaram um Salmo — provavelmente o 118, o último salmo do Hallel, que era a maneira tradicional de terminar a Páscoa. Talvez quando ainda estava no cenáculo, ou logo depois de sair, Jesus fez a longa oração que está registrada em João 17 – sua oração sacerdotal. Então, partiram para o monte das Oliveiras. Somente Jesus compreendia os acontecimentos terríveis que estavam por vir.




Fonte: A Morte de Jesus, John MacArthur,
Cultura Cristã, p. 36-53.


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