sexta-feira, 14 de junho de 2013

Por que cristãos precisam de confissões (por Carl Trueman) - Parte 02 de 02



4) Confissões enfatizam o que é mais importante

Talvez fosse possível expressar esse ponto de forma negativa: se não estiver na confissão, vai ser difícil defender que é um ponto de muita importância. Essa é uma das razões pelas quais as confissões devem ser um tanto elaboradas. Se, por exemplo, uma igreja tem uma base doutrinária ou uma confissão de 10 pontos, o problema que os oficiais terão que enfrentar é como convencer o povo de que um décimo primeiro ponto doutrinário é realmente importante. Se algo não está na confissão, então a igreja está funcionalmente permitindo a liberdade de consciência nesse ponto. Por exemplo, se a confissão não faz referência ao batismo, permitem que tanto pedobatistas quanto credobatistas ocupem o cargo de oficial, então o batismo é  transformado em um assunto de indiferença prática. O mesmo se aplica para qualquer doutrina – perseverança, santificação, escatologia: se não é mencionado, então a igreja não tem uma posição oficial nisso e é relegado a ser um assunto de menor importância.
Novamente, para voltar ao ponto anterior: o novo convertido ou novo membro não saberá, necessariamente, no momento em que se junta à igreja, o que é importante e o que é indiferente. Uma boa e elaborada confissão provê à igreja não só um ótimo mapa pedagógico, mas também uma boa fonte de ensino para as pessoas sobre aquilo que realmente importa e sobre o porquê.

5) Confissões relativizam o presente e nos conectam ao passado

Todos sabemos que o cristianismo não é reinventado a cada domingo. Todos nós nos firmamos em uma base que foi construída para nós por muito irmãos e irmãs em Cristo que se foram antes de nós. Entretanto, frequentemente somos tentados a viver como se isso não fosse verdade. Isso dificilmente é surpresa, já que vivemos numa era onde as forças anti-históricas da cultura geral são poderosas e invasivas. Seja um comercial nos dizendo que a próxima aquisição irá nos trazer felicidade ou a ciência prometendo algum avanço que irá tornar nossas vidas mais fáceis, tudo a nossa volta aponta para o futuro como o que é mais importante e, certamente, vastamente superior ao passado.
Em contraste, o cristianismo é uma religião enraizada na história. Ele é constituído pelas ações históricas de Deus culminando em Cristo, e ele vem a nós pela articulação fiel e preservação de sua mensagem pela igreja de Deus durante os séculos. Isso é profundamente contracultural e algo do qual precisamos ser constantemente relembrados. Ironicamente, pode ser que aqueles que afirmam não ter credo algum a não ser a bíblia estejam, na verdade, meramente refletindo o espírito da nossa geração com todo o seu triunfalismo anti-histórico.
Nesse contexto, o uso dos credos e confissões é um dos meios intencionais para nos conectarmos com o passado, nos identificarmos com a igreja das gerações passadas, e, assim, relativizar nosso próprio significado no grande propósito de tudo que existe. Recitar os antigos credos no culto é um exemplo prático disso. A afirmação dos documentos confessionais históricos, como uma expressão dos compromissos dos oficiais da igreja e o conteúdo das ambições pedagógicas da igreja para sua membresia é outro exemplo prático.

6) Confissões refletem a essência da nossa adoração

Quando eu ministro minha disciplina de Igreja Primitiva, sempre enfatizo que a dinâmica dos debates trinitarianos e cristológicos primitivos era doxológica e intrinsicamente conectada à adoração cristã. De forma simples, a afirmação da igreja primitiva “Jesus é o Senhor!” e a conjunção do Pai, do Filho e do Espírito Santo nos dizeres do batismo apontam diretamente para uma fundação de teologia profunda. Eles proveram o contexto para as discussões que acabariam por constituir o Credo Niceno e a Definição de Fé de Calcedônia. A tradição confessional da igreja começou com a reflexão a cerca do significado dos atos de adoração.
Por dois milênios, a adoração da igreja não mudou em seus pontos fundamentais – isto é, a declaração que Jesus é o Senhor e que a salvação é uma ação do Deus triúno: Pai, Filho e Espírito Santo – e nossas confissões explicam o conteúdo desses pontos.
Portanto, não devemos pensar que as confissões e doutrinas são contrárias à  adoração vibrante. A posse de uma confissão, é claro, não se igualará à adoração vibrante, nem mesmo a garante, tanto quanto a mera existência de um código legal garante uma sociedade civilizada. Entretanto, as confissões são pré-requisitos para a adoração vibrante e consciente, são o sentido do que fazemos como cristãos.
Essa função confessional provavelmente se tornará mais visivelmente importante nos anos que estão por vir. À medida que outras religiões colidem com o cristianismo e, especialmente, algumas dessas religiões usam o mesmo tipo de vocabulário bíblico que usamos, será mais e mais crucial que entendamos não apenas as palavras que usamos, mas também o que essas palavras realmente significam. O seu amigável vizinho mórmon poderá muito bem concordar com você que Jesus é o Senhor e pode até cantar alguns dos mesmos hinos que você no culto. Assim, você terá que saber exatamente o que sua igreja quer dizer com “Jesus é o Senhor” ou com o batismo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Boas confissões te possibilitam fazer isso com mais facilidade do que qualquer outra coisa.

7) Confissões são uma parte vital do plano de Paulo para a igreja pós-apostólica

Quando Paulo escreveu, quando estava preso, para seu aprendiz, Timóteo, sua mente estava focada em como a igreja iria se virar quando ele e os outros apóstolos saíssem de cena. A resposta dele é composta por duas partes: uma estrutura na qual o governo da igreja fosse colocado nas mãos de homens ordinários, porém fiéis, e a forma de sãs palavras. Ambas eram necessárias. Sem a estrutura, a igreja não teria liderança; sem a forma de sãs palavras, ela iria se desviar por ventos de doutrina, perdendo contato com seu passado e com outras congregações no presente. Uma forma de sãs palavras, uma confissão, era crucial para manter tanto a continuidade com os apóstolos quanto a unidade entre os cristãos do presente. E isso é o que nossos documentos confessionais fazem hoje: eles nos ligam aos nossos irmãos e irmãs crentes do passado e aos do presente.
A exclamação “Nenhum credo, exceto Cristo, e nenhum livro, exceto a Bíblia!” tem uma aparência ilusoriamente piedosa e bíblica, mas não deveríamos nos envergonhar de sermos cristãos confessionais, pois as confissões nos capacitam a manter determinadas prioridades bíblicas. Nós deveríamos ser gratos por isso e, da mesma forma, tentar mostrar aos nossos irmãos e irmãs não confessionais um caminho melhor para preservar as coisas que são valiosas para todos os cristãos.



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