terça-feira, 2 de julho de 2013

Os "cristãos laicos"


Existe uma discussão interminável sobre quais são os limites da intervenção da Igreja (ou da religião) nos assuntos políticos ou sociais.. A ideia (correta) da separação entre Igreja e Estado é interpretada das mais diferentes formas, gerando discursos que defendem desde o extremo de uma exclusão total (impossível) dos preceitos religiosos no meio político e civil até o extremo da imposição da união prática de Igreja e Estado..

Em tempos como esses de protestos como nunca antes na história deste país, é extremamente necessário que se discuta que rumos deveríamos seguir, e enquanto cristãos isso certamente deve ter base nas Escrituras..

Existem muitas "variáveis" que precisariam ser observadas dentro do nosso sistema político, sem extremismos, para que se identifique o que devemos buscar, mas devido à minha extrema limitação quanto ao conhecimento da área política e por saber que isso exigiria muitos e muitos artigos, não pretendo dar qualquer "solução" mas apenas identificar esse grupo que tem características que sinceramente eu não consigo compreender.. Daria pra chamá-los de 'cristãos laicos'..

Eles não se limitam a defender que a Igreja e o Estado sejam instituições diferentes entre si, mas querem tirar Deus do meio da política e das leis civis.. Não que assumam isso abertamente, mas adequam a soberania divina nessa área sugerindo que Ele está no controle de tudo mesmo quando o que vemos é "caos".. Essa parte é verdade, mas não é tudo.. Limitar a Soberania divina à Sua Vontade decretiva e desprezar Seus mandamentos sobre a obediência à Sua Palavra não é boa coisa..

Com certeza nada do que acontece foge aos propósitos eternos de Deus, e a isso é dado o nome de Vontade decretiva, ou seja, aquilo que Deus pré-determinou na eternidade e se cumpre no tempo.. Isso é inegável, nada pode frustrar Seus planos.. Porém, concomitantemente a esses decretos está a Vontade revelada, ou seja, aquilo que Ele nos ensina para que O obedeçamos e assim O agrademos..
Todos os cristãos devem obedecer essa vontade revelada e é fato que incrédulos não vão agir assim, mas será que só os eleitos DEVERIAM obedecê-la??

Certamente que não, afinal, a mensagem de arrependimento é pregada a todos, sendo eleitos ou não, e é justamente devido à desobediência que os incrédulos são condenados.. Sendo assim, se a obediência individual é exigida por Deus e a desobediência traz a condenação em sofrimento eterno, por que o mesmo não ocorreria em termos coletivos?? Sendo esse Deus Soberano sobre tudo, por que teria aberto mão de ordenar uma obediência civil à Sua vontade revelada?? Se o conceito de depravação total está correto, então seria coerente Deus dar uma determinada autonomia aos indivíduos para que decidissem o futuro político??

Bom, eu ainda não conheço respostas "laicas" para essas questões.. 

Como eu disse no começo, existem as mais variadas formas de interpretação sobre os limites de atuação da religião dentro da sociedade como um todo, mas o que mais tenho visto atualmente são aqueles que defendem a ideia de que não podemos impor os princípios cristãos a toda a sociedade, em respeito às crenças individuais..
Se fosse só isso estaria ótimo, porque com certeza não há ordenança bíblica para uma imposição de leis na sociedade com uso de força ou qualquer tipo de violência; porém alguns chegam a afirmar que não deveríamos nem sugerir/opinar/propor que o sistema político seja moldado conforme as ordenanças bíblicas..

Eu já falei sobre isso no artigo sobre o pessimismo da Igreja, e persisto sem entender onde estaria o erro de dizer às pessoas que o ideal para o mundo seria que seguissem o que a bíblia nos ensina.. Além do que eu já disse naquele artigo, até o momento minhas suposições e conclusões são:
1) Acreditam que Deus age em função das escolhas humanas: Pode ser que invertam as coisas e sugiram que Deus atua conforme as atitudes dos homens e que portanto  há algum tipo de autonomia que Ele "respeita". Nesse caso com certeza não faz sentido pensar em ordens divinas a toda a sociedade, e nem adiantaria falarmos do tema enquanto não aceitarem/concordarem que Deus é dono de tudo e pode fazer o que bem entender com o que Ele quiser..Nesse blog já fiz muitas postagens mostrando os erros do sinergismo como um todo, portanto não cabe aqui falar novamente.. 
2) Temem o relativismo na interpretação bíblica: Pode ser que entendam que a má-interpretação dos textos bíblicos gere propostas erradas, na verdade contrárias ao que Deus ordena, e por isso não acham justo se adotar uma interpretação.Porém o que não percebem é que a conseqüência prática disso seria abandonar qualquer doutrina bíblica e conceito teológico existente, e o cristianismo perderia todo o sentido. 
3) Estão confortáveis em práticas pecaminosas: Pode ser que defendam na prática um antinomismo ou relativização dos mandamentos, de forma que não precisem mudar seu comportamento atual e muito menos se estenda essa obrigação à toda a sociedade.Quando se tem pecados que não se quer abandonar, a falta de punições acaba sendo o melhor dos mundos, porém isso reflete um amor a este mundo como sendo superior ao desejo de agradar a Deus em tudo. 
4) Defendem algum tipo de moral válido para todos: Pode ser que acreditem que há uma moralidade existente em todo ser humano que permite a vida em sociedade independentemente de se utilizar a revelação divina como base. Com isso negam (propositalmente ou não) a depravação total, ou se esquecem que a imagem de Deus no homem está obscurecida pelo pecado e desta forma essa moralidade está corrompida. 
5) Acreditam que Deus não dá diretrizes em certas áreas: Pode ser que misturem as coisas comparando por exemplo nossos gostos pessoais (como preferir certo ritmo musical ou detestar certo tipo de comida) com o 'direito' de escolhermos a melhor forma de conduzir as coisas em áreas da nossa vida. Com isso acabam sugerindo que Deus só "se preocupa" em mostrar Sua Vontade em alguns pontos e não de forma completa, e por isso somos livres pra escolher conforme julguemos ser melhor.É uma visão falha, até porque os próprios gostos pessoais, mesmo podendo ser diversificados, somente são válidos quando não ferem nenhum princípio bíblico estipulado por Ele. E é meio óbvio que isso vale para todas as áreas.Se determinada opinião em qualquer âmbito ideológico fere qualquer princípio bíblico então o cristão não pode sustentá-la e deve abandoná-la.. 
6) Resumem o Reino de Deus a Salvação: Pode ser que entendam que  aplicar a Vontade de Deus em toda sociedade seria uma tentativa de forçar a salvação por obras (coisa absurda), ao invés de entenderem como um "freio" à anarquia e todas as conseqüências disso.Aí existe uma clara limitação do entendimento sobre o Reino de Deus, talvez pela ênfase demasiada na TULIP e 5 Solas, mas sem se dar conta das conseqüências disso em todas áreas da vida, tanto individualmente quanto coletivamente.Quem faz essa restrição acaba desprezando que o cristianismo é uma cosmovisão que mudou a história do mundo, sendo que a sociedade ocidental tem suas raízes históricas moldadas por essa cosmovisão. Não se trata portanto apenas da esperança na vida celestial, mas de um padrão para a vida em sociedade aqui e agora, até que venha a vida eterna.

Talvez eu não tenha enxergado algo essencial e que explicaria perfeitamente tudo isso, mas sinceramente nunca vi nem ouvi algo diferente que não se enquadre nessas coisas que citei acima..

Devemos então ser gratos a Deus pelo fato dos cristãos antigos, entre seus erros e acertos, são serem "cristãos laicos", ou eles jamais mudariam hábitos culturais nas sociedades pagãs. Se o cristianismo se tornou o padrão moral pra sociedade ocidental foi devido a esses cristãos entenderem que deveriam influenciar a sociedade como um todo e não apenas "recolher os eleitos dentre os pecadores"..


Entendo que para não serem contraditórios, esses "cristãos laicos" da atualidade devem ser, por exemplo, todos a favor da preservação da matança indígena de crianças, entre outras práticas abomináveis, já que fazem parte da cultura e crença desses povos.. Se forem contrários usando algum padrão moral como base então não estariam respeitando o laicismo e teoricamente assumindo que seu padrão é superior ao dos demais. Ou seja, entrariam em contradição ou estariam abertamente sugerindo que existe o tal padrão moral absoluto para todos, MAS não seria o que o cristianismo prega (ou simplesmente o afirmariam contra tudo e todos).

São muitos os exemplos que poderiam ser dados em relação às contradições que esse "cristianismo laico" gera, mas resumindo, isso é culpa do relativismo.. Como eu disse, esses cristãos podem até afirmar e crer na teoria da eficácia das Escrituras e suficiência para todas as áreas das nossas vidas, mas na prática negam tudo isso dando espaços para ideologias seculares.. Vejo que não é nem um pouco surpreendente ver teólogos liberais, amantes do universalismo e simpatizantes do ecumenismo (inclui-se maçonaria) defendendo esse "cristianismo laico", mas é lamentável quando se trata de pessoas que supostamente são "ortodoxas", que afirmam o Sola Scriptura como verdade.. 

Espero que esse artigo ajude na elucidação de todos nós sobre esse tema e peço perdão por erros que eu possa ter cometido nas minhas impressões, mas acima de tudo, que quem ler isso reflita.. 
Se você "se enxergou" no grupo dos "cristãos laicos", não me veja como um inimigo, mas apenas peço que leia e reflita sobre..

Se eu estiver errado aceito ouvir/ler objeções bíblicas SOBRE O QUE EXPUS NO TEXTO, mas peço que ninguém seja motivado a ME atacar usando demagogia e acusações infundadas..

Que ELE nos conduza!!


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