sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A HARMONIA DOS EVANGELHOS - Comentário de Mateus 5.17-19 (João Calvino)


“Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da lei um só i ou um só til, até que tudo seja cumprido. Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus”.
(Mateus 5.17-19)

“Não penseis”. Em relação à perfeição de Sua vida, Cristo poderia, com justiça, ter dito que Ele veio cumprir a Lei. Mas aqui Ele trata de doutrina, não de vida. Quando Cristo proclamou depois, “É chegado a vós o reino de Deus” (Mt 12.28), Ele levou as mentes dos homens a um estado de expectativa incomum e até mesmo admitiu discípulos por meio do batismo. É provável que isso tenha feito com que as mentes dos homens se encontrassem em um estado de suspense e dúvida, ansiosos para saber que novidade era aquela. Por este motivo, Cristo declarou que Sua doutrina está muito longe de contrariar a Lei. Pelo contrário, ela concorda perfeitamente com a Lei e os Profetas e não somente isso, mas trás o pleno cumprimento destes.
Parece que havia dois motivos principais que o levaram a anunciar essa concordância entre a Lei e o Evangelho. Assim que qualquer novo método de ensino aparece, o povo imediatamente pensa que tudo está sendo subvertido. A pregação do Evangelho, como eu acabei de mencionar, tendia a criar a expectativa de que a Igreja assumiria uma forma completamente diferente da anterior. Pensaram que o governo antigo e costumeiro seria abolido. Uma opinião assim era, em muitos sentidos, perigosa. Adoradores devotos jamais teriam abraçado o Evangelho caso fosse uma revolta contra a Lei. Ao mesmo tempo, espíritos levianos e turbulentos teriam ansiosamente aproveitado a situação para lançar fora toda religião. Pois nós conhecemos o quanto pessoas apressadas estão sempre prontas para se envolver com escândalos insolentes quando há qualquer coisa nova.
Além disso, Cristo viu que a maior parte dos judeus eram profanos e degenerados, apesar de professarem obedecer a Lei. A condição do povo estava tão decadente, tudo estava tão cheio de tantas corrupções e a negligencia ou malícia dos sacerdotes havia extinguido de tal forma a pura luz da doutrina, que não havia mais reverência a Lei. Mas se uma nova doutrina houvesse sido introduzido, que destruísse a autoridade da Lei e os Profetas, a religião teria sofrido um dano terrível. Isso parece ter sido o primeiro motivo pelo qual Cristo declarou que Ele não veio destruir a Lei. De fato, o contexto deixa isso abundantemente claro. Pois Ele imediatamente diz, como forma de confirmação, que é impossível mesmo que nem um ponto sequer da Lei venha a falhar – e anuncia uma maldição contra os mestres que não trabalham fielmente para manter sua autoridade.
O segundo motivo era pra refutar a calunia maligna que Ele sabia que era levantada contra Ele pelos ignorantes e indoutos. Esta acusação, evidentemente, havia sido feita contra sua doutrina pelos escribas. Pois Ele imediatamente direciona seu discurso contra eles. Precisamos ter em mente qual era o propósito de Cristo. Apesar d’Ele convidar e exortar os judeus, Ele também os chama para a obediência a Lei. Além disso, Ele corajosamente refutou as acusações e calunias desprezíveis que seus inimigos usavam com o objetivo de levantar suspeitas contra Sua pregação.
Se quisermos reformar questões que se encontram em estado de desordem, devemos sempre agir com a mesma prudência e moderação, de forma a convencer o povo que não somos contrários à eterna Palavra de Deus nem queremos introduzir alguma novidade contrária a Escritura. Precisamos cuidar de que nenhuma suspeita de contradição cause dano à fé dos piedosos e que homens apressados não se animem com a ideia de novidade. Em resumo, devemos trabalhar para se opor ao desprezo profano contra a Palavra de Deus e para prevenir que a religião seja odiada pelos ignorantes. A defesa que Cristo fez, para libertar Sua doutrina de calunias, deve nos encorajar, quando somos alvos das mesmas calunias. A mesma acusação foi levantada contra Paulo, que ele era um apostata da Lei de Deus (At 21.21) e não devemos, portanto, ficarmos surpresos se os papistas trabalham, da mesma maneira, para nos fazer odiáveis. Conforme o exemplo de Cristo, devemos esclarecer falsas acusações e, ao mesmo tempo, professar a verdade livremente, ainda que nos exponha a acusações injustas.
“Eu não vim abolir a Lei”. Deus, de fato, prometeu um novo pacto na vinda de Cristo; mas, ao mesmo tempo, mostrou que não seria diferente do primeiro, mas que, ao contrário, seu objetivo era o de sancionar perpetuamente o pacto que ele havia feito desde o principio com seu próprio povo.
“Porei a minha Lei no seu interior… e nunca mais me lembrarei de seus pecados”. (Jeremias 31.33)
Por estas palavras, Ele está tão longe de se apartar do pacto anterior que, ao contrário, Ele declarou que seria confirmado e ratificado quando fosse sucedido pelo novo. Este também é o sentido das palavras de Cristo, quando Ele diz que Ele veio cumprir a Lei, pois Ele, de fato, cumpriu ao vivificar por Seu Espírito a letra morta e assim demonstrou a realidade daqui que aparecia somente por figuras.
Em relação à doutrina, não devemos imaginar que a vinda de Cristo nos livrou da autoridade da Lei. Pois a Lei é a regra de uma vida devota e santa e, portanto, é tão imutável quanto a justiça de Deus que ela revela, sendo constante e uniforme. Em relação às cerimonias, há alguma aparência de mudança, mas foi somente o uso das cerimonias que foi abolido, pois o significado foi ainda mais confirmado. A vinda de Cristo não retirou nada mesmo das cerimonias, mas, ao contrário, confirmou-as ainda mais ao exibir a verdade das sombras, pois quando vemos seu efeito completo, reconhecemos que não são vãs ou inúteis. Aprendamos, então, a manter esse união sagrada entre a Lei e o Evangelho que muitos tentam quebrar inapropriadamente. Pois contribui em muito para o Evangelho quando aprendemos que não é outra coisa se não o cumprimento da Lei, de forma que ambos, em concordância, declaram que Deus é seu Autor.
“Até que o céu e a terra passem”. Lucas expressa isso de forma um pouco diferente, mas dizendo o mesmo, que “É mais fácil passar o céu e a terra do que cair um til da lei”. (Lc 16.17) O propósito de Cristo, nas duas passagens, era o de ensinar que a verdade da Lei e de cada parte dela está segura, e que nada tão duradouro pode ser encontrado no mundo inteiro. Alguns se prendem em analises engenhosas da palavra “até”, como se o passar do céu e da terra, que acontecerá no último dia, no dia do juízo, fosse pôr um fim a Lei e os Profetas. Tão certo quanto “havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas cessarão” (I Co 13.8), eu acredito que a Lei escrita e sua exposição chegarão ao fim; mas como eu sou da opinião de que Cristo falou de maneira mais simples, escolho não alimentar os ouvidos dos leitores com tais complexidades. É suficiente que entendamos simplesmente que é mais fácil o céu quebrar em pedaços e o mundo inteiro se tornar uma massa de confusão do que a estabilidade da Lei chegar ao fim. Mas o que significa que cada parte da Lei se cumprirá até o menor ponto? Pois, verificamos que até mesmo os que foram regenerados pelo Espírito de Deus estão muito longe de guardar a Lei de Deus perfeitamente. Eu respondo que a expressão “não passará” não se refere a vida dos homens, mas a perfeita verdade e doutrina. “Não há nada na Lei que não seja importante, nada que foi posto lá aleatoriamente; portanto, é impossível que uma letra sequer pereça”.
“Qualquer, pois, que violar”. Aqui Cristo fala expressamente do mandamento de vida, ou as dez palavras, que todos os filhos de Deus devem considerar como sendo a regra de suas vidas. Ele declara que são mestres falsos e enganadores aqueles que não ensinam seus discípulos a obediência a Lei e que são indignos de ocupar um lugar na Igreja aqueles que de alguma maneira enfraquecem a autoridade da Lei; e, por outro lado, que são os mais honestos e fiéis ministros de Deus que, tanto em palavra quanto em exemplo, ensinam a guardar a Lei. O menor dos mandamentos é uma expressão usada em acomodação com ao julgamento dos homens. Apesar dos mandamentos não terem o mesmo peso (quando são comparados entre si, alguns tem menos e outros mais), não somos livres para pensar que seja pequeno qualquer coisa que aprove ao Legislador mandar. Quão grande é o sacrilégio tratar com desprezo qualquer coisa que proceda de Sua boca sagrada! Isso é rebaixar Sua importância ao nível das criaturas. Sendo assim, quando Nosso Senhor os chama de mandamentos menores, é uma forma de acomodação. “Ele será chamado de menor”. Isso é uma alusão ao que Ele acabara de dizer sobre os mandamentos e o significado é óbvio. Aqueles que desprezam a doutrina da Lei, qualquer sílaba que seja, será rejeitado como o menor dos homens.
O Reino de Deus significa a renovação da Igreja, ou a condição próspera da Igreja, como a que começou a aparecer pela pregação do Evangelho. É neste sentido que Cristo nos diz que “o menor no reino de Deus é maior do que João”. (Lc 7.28) O significado desta expressão é que Deus, ao restaurar o mundo pela mão de Seu Filho, estabelece o Reino completamente. Cristo declara que, quando Sua Igreja fosse renovada, nenhum mestre deveria ser aceito nela se não aqueles que são expositores fiéis da Lei e que trabalham para manter sua doutrina inteiramente. Mas alguém poderá perguntar se as cerimonias não estavam entre os mandamentos de Deus que temos a obrigação de agora observar. Deus estabeleceu as cerimonias para que seu uso externo fosse temporário e seu significado eterno. Não transgridem as cerimônias aqueles que omitem as sombras, mas guardam o que significam. Mas se Cristo baniu de seu Reino todos os que acostumam os homens a qualquer desprezo pela Lei, quão monstruosa é a estupidez daqueles que não tem vergonha de remir, por uma indulgência sacrílega, o que Deus exige estritamente e, sob a pretensão de pecado venial, lançam fora a justiça da Lei! 
Novamente, devemos observar a descrição que ele dá de mestres bons e justos, que exortam os homens a guardar a Lei, não somente por palavras, mas principalmente com um exemplo de vida.


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