terça-feira, 8 de abril de 2014

Sola Scriptura (por Frank Brito) - parte 02 de 05



Extraído de: Mensagem Reformada
Texto Revisado, Editado e Modificado com permissão do Autor por: Átila Calumby


A distinção existia pela natureza inerente da Palavra de Deus. Usando a terminologia de Calvino, "esta é indubitavelmente autenticada por si mesma".
Agora darei exemplos que demonstram isso ainda mais claramente no âmbito das Escrituras...
"Se não ouvirdes e se não propuserdes, no vosso coração, dar honra ao meu nome, diz o SENHOR dos Exércitos, enviarei a maldição contra vós, e amaldiçoarei as vossas bênçãos; e também já as tenho amaldiçoado, porque não aplicais a isso o coração. Eis que reprovarei a vossa semente, e espalharei esterco sobre os vossos rostos, o esterco das vossas festas solenes; e para junto deste sereis levados. Então sabereis que eu vos enviei este mandamento, para que a minha aliança fosse com Levi, diz o SENHOR dos Exércitos. Minha aliança com ele foi de vida e de paz, e eu lhas dei para que temesse; então temeu-me, e assombrou-se por causa do meu nome. A lei da verdade esteve na sua boca, e a iniqüidade não se achou nos seus lábios; andou comigo em paz e em retidão, e da iniqüidade converteu a muitos. Porque os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e da sua boca devem os homens buscar a lei porque ele é o mensageiro do SENHOR dos Exércitos. Mas vós vos desviastes do caminho; a muitos fizestes tropeçar na lei; corrompestes a aliança de Levi, diz o SENHOR dos Exércitos". 
(Malaquias 2.2-8)

Para refletir nas implicações deste texto para o nosso tempo aqui, eu vou contar uma situação possível do tempo dos profetas...

Digamos que Amabias fosse um judeu vivendo lá pelo século sexto antes de Cristo. Amabias era um homem fiel a Deus. Buscava fazer o máximo pra estar vivendo conforme as diretrizes dadas por Deus na Lei de Moisés. Como todo ser humano, tinha os seus pecados. Mas logo se arrependia e estava sempre se esforçando pra estar fazendo o que, segundo sabia da Lei de Moisés, era o correto.
Amabias era também muito atencioso com os devidos sacrifícios a Deus. Abominava o paganismo das nações ao redor de Israel, pois tinha consciência que era só a Javé que deveria sacrificar. Escolhia sempre as primícias do seu rebanho, pois sabia que pra Deus deveria ser sempre o melhor.

Além disso, Amabias era muito atento na necessidade de educar seus filhos nos mandamentos de Deus conforme ordenado nos livros da Lei. É assim que vivia e era assim que ensinava seus filhos.
Mas de repente, há uma crise em Jerusalém.
Os levitas “alopram” geral. Começam a introduzir progressivamente elementos do paganismo das nações ao redor na vida de Israel. Com o passar do tempo vai se alastrando até que chegam ao ponto que os levitas, os sacerdotes, sumo sacerdotes em fim, todos estão prestando culto a Baal e acendendo incenso pra rainha dos céus.
A prática não é promovida somente pelo povão, mas por aqueles que trabalham no próprio templo de Deus!

O que, eu lhes pergunto, Amabias deve fazer? Ele deve se manter fiel ao que ele sabe que está escrito na Lei de Moisés? Ou ele deve simplesmente fazer o que o Sumo Sacerdote manda, acender um incenso pra Rainha dos Céus e outro pra Baal?

E mais...

Os filhos e os netos de Amabias? Por qual motivo deveriam crer em Amabias? Se Amabias lhes lembrassem da Lei, eles poderiam argumentar algo muito simples: "Mais, papai/vovô... Quem é o encarregado de ensiná-la e dizer o que a gente tem que fazer senão os levitas? Não foram os levitas que leem e sabem da Lei? Por que você acha que pode questioná-los?"

Qual é a base epistemológica pra Amabias ou seus filhos ou seu netos validarem as Escrituras se as Escrituras tinham vindo dos levitas e ao mesmo tempo contrariava os levitas?


O mesmo problema surge, mas de forma muito mais intensa no período do Novo Testamento. No contexto de Jesus.

Vejamos...

"Porque, se vós crêsseis em Moisés, creríeis em mim; porque de mim escreveu ele. Mas, se não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?" 
(João 5.46-47)
Ai é um dos muitos confrontos de Jesus Cristo aos líderes judaicos. Apesar de professar a fé na doutrina de Moisés, Jesus revela qual era a realidade: Eles não criam de fato naquilo que eles professavam crer. Pois se cressem de fato nos escritos de Moisés, consequentemente creriam em Jesus. Como não criam em Jesus, não poderiam verdadeiramente crer em Moisés.

Vou mostrar outro texto que vai deixar claro onde eu quero chegar...

"E chegou a Éfeso um certo judeu chamado Apolo, natural de Alexandria, homem eloqüente e poderoso nas Escrituras. Este era instruído no caminho do Senhor e, fervoroso de espírito, falava e ensinava diligentemente as coisas do Senhor, conhecendo somente o batismo de João. Ele começou a falar ousadamente na sinagoga; e, quando o ouviram Priscila e Áqüila, o levaram consigo e lhe declararam mais precisamente o caminho de Deus. Querendo ele passar à Acaia, o animaram os irmãos, e escreveram aos discípulos que o recebessem; o qual, tendo chegado, aproveitou muito aos que pela graça criam. Porque com grande veemência, convencia publicamente os judeus, mostrando pelas Escrituras que Jesus era o Cristo".
(Atos 18:24-28)

Aqui há pontos muito importantes que precisamos considerar.

Em primeiro lugar, devemos notar qual era o objetivo de Apolo ali. O objetivo de Apolo era demonstrar que Jesus era o Cristo. O meio pelo qual ele demonstraria era a Escritura.


Então o que temos ali é o seguinte:

1) Os Judeus que não criam que Jesus era o Cristo.

2) O momento em que tais judeus deveriam decidir se Jesus era o Cristo ou não.

3) A decisão deveria ser tomada com base na demonstração das Escrituras.
E o mais importante que você precisa notar disso tudo é:

4) Jesus e os cristãos que provavam a sua causa com base nas Escrituras se posicionavam de forma contrária aos líderes de Israel, aos escribas e fariseus.

5) As Escrituras haviam chegado até eles, eram lidas e ensinadas pelos líderes de Israel.


6) Os judeus, que ainda não tinham chegado a uma conclusão se ele era o Cristo ou não, tinham que decidir a favor com base nas Escrituras e ao mesmo tempo contra os líderes de Israel.

Chegamos então a pergunta crucial que precisa ser feita então:

Se a existência de um magistério é necessário para a validação da Escrituras de forma que possa ser crida de que forma então poderia existir a obrigação moral de obediência a Jesus Cristo com base nas Escrituras em um contexto em que o magistério que existia estava contrário a Jesus Cristo?

Pois a distinção entre judeus crentes e judeus réprobos se dava pela obediência ou não as Escrituras e independente da decisão do magistério. As Escrituras tinha autoridade pra decidir a controversa sem que isso validasse o magistério existente e também sem sequer a existência de um magistério com essa função.
Se a existência de um magistério justo e válido é necessário para validar as Escrituras eu lhe pergunto de que forma então um judeu poderia escolher crer em Cristo com base em sua conclusão das Escrituras quando essa decisão era contrária aos líderes de Israel.

O que vemos aqui é o que eu estou dizendo desde o princípio. A Palavra de Deus encontra validação nela mesma, pela sua própria natureza inerente.

Tudo o que eu estou tentando mostrar até agora é que antes de refletirmos no que valida a Bíblia, precisamos refletir na natureza da Bíblia conforme o próprio testemunho dela e da relação epistemológica dela com todas as outras formas de conhecimento que existe.
Não podemos colocar aquilo que é Escritura na mesma categoria de conhecimento de todo restante de conhecimento humano. O que eu fiz até agora é somente mostrar a distinção de categoria e natureza que existe.




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