segunda-feira, 12 de maio de 2014

"O extermínio da personalidade"


De um certo modo, o mundo moderno representa um aprimoramento enorme com relação ao mundo no qual nossos ancestrais viveram; mas, em outros aspectos, ele exibe um lamentável declínio. O aprimoramento mostra-se nas condições físicas de vida, mas, no domínio espiritual, há uma perda correspondente. A perda é mais clara, talvez, no domínio da arte. A despeito da revolução poderosa que tem sido produzida nas condições externas da vida, nenhum grande poeta vive agora para celebrar a mudança; a humanidade subitamente emudeceu. Idos, também, estão os grande pintores, músicos e escultores. A arte que ainda subsiste é grandemente imitativa, e quando não é imitativa, normalmente é bizarra. Até mesmo a apreciação das glórias do passado está gradualmente sendo perdida sob a influência de uma educação utilitária que se preocupa apenas com a produção do bem estar físico. O “Esboço da História” (“Outline of History”) de H. G. Wells, com sua negligência desdenhosa de todas as mais altas áreas da vida humana, é um livro perfeitamente moderno.

Este declínio sem precedentes na literatura e arte é apenas uma manifestação de um fenômeno maior de longo alcance; é apenas um exemplo do estreitamento na área da personalidade que tem acontecido no mundo moderno. O desenvolvimento total da sociedade moderna tem tendido poderosamente em direção à limitação do domínio da liberdade para o homem individual. A tendência é mais claramente vista no socialismo; um estado socialista significaria a redução ao mínimo da esfera da escolha individual. Trabalho e recreação, sob um governo socialista, seriam ambos prescritos e a liberdade individual estaria perdida. Mas a mesma tendência se exibe hoje até mesmo nas comunidades onde o nome do socialismo é mais abominado. Quando a maioria determina que um certo regime é benéfico, este regime sem mais hesitação é brutalmente forçado sobre o indivíduo. Parece que os legisladores modernos nunca se apercebem que embora o “bem estar social” seja bom, o bem estar forçado pode ser ruim. Em outras palavras, o utilitarismo está sendo posto em prática de acordo com suas conclusões lógicas; no interesse do bem estar físico, os grandes princípios da liberdade estão sendo implacavelmente arremessados ao vento.

O resultado é um empobrecimento sem paralelo da vida humana. A personalidade só pode ser desenvolvida no domínio da escolha individual. E este domínio, no estado moderno, está sendo devagar, mas constantemente reduzido. A tendência está se fazendo sentir especialmente na esfera da educação. O objeto da educação, suposto agora, é a produção da maior felicidade para a maioria. Mas a maior felicidade para a maioria, supõe-se também, só pode ser definida pela vontade da maioria. Conseqüentemente, as características individuais na educação, diz-se, devem ser evitadas, e a escolha de escolas deve ser tirada do próprio pai e colocada nas mãos do estado. O estado, então, exerce sua autoridade através dos instrumentos ao seu alcance e, ao mesmo tempo, conseqüentemente, a criança é colocada sob o controle de especialistas psicológicos, eles mesmos sem o menor conhecimento dos mais altos domínios da vida humana, e estes prosseguem impedindo que aqueles que estão sob seus cuidados adquiram tal conhecimento. Este resultado está sendo um pouco adiado na América através do remanescente do individualismo Anglo-Saxônico, mas os sinais dos tempos são todos contrários à manutenção desta posição equilibrada; a liberdade é certamente apoiada apenas por uma estabilidade precária quando seus princípios fundamentais são perdidos. Por um tempo pareceu que o utilitarismo que entrou em voga na metade do século XIX, seria apenas uma questão puramente acadêmica, sem influência na vida diária. Mas esta aparência provou ser uma ilusão. A tendência dominante, mesmo em um país como a América que antigamente se orgulhava da sua liberdade com relação ao regulamento burocrático dos detalhes da vida, é em direção a um utilitarismo insípido no qual todas as mais altas aspirações devem se perder.

As manifestações desta tendência podem facilmente ser vistas. No estado de Nebraska, por exemplo, uma lei está agora em vigor e, de acordo com a mesma, nenhuma instrução em qualquer escola no estado, pública ou privada, deve ser dada por intermédio de uma língua a não ser o inglês, e nenhuma língua exceto o inglês deve ser estudada, mesmo como língua, até que a criança passe no exame diante do superintendente de educação do município, mostrando que passou na oitava série. Em outras palavras, nenhuma língua estrangeira, aparentemente nem mesmo o latim ou grego, deve ser estudada até que a criança esteja muito velha para aprendê-la bem. É deste modo que o coletivismo moderno lida com um tipo de estudo que é absolutamente essencial para todo o avanço mental genuíno. As mentes das pessoas de Nebraska, e de quaisquer outros estados onde leis similares prevalecem, devem ser mantidas pelo poder do estado em uma condição permanente de desenvolvimento detido.

Pode parecer que, com estas leis, o obscurantismo tenha atingido a maior profundidade possível neste abismo. Mas este abismo é ainda mais profundo. No estado de Oregon, no Dia das Eleições em 1922, uma lei foi passada através de um plebiscito e, de acordo com a mesma, requer-se que todas as crianças no estado frequentem escolas públicas. As escolas cristãs e privadas, pelo menos nos níveis elementares essenciais, foram extintas. Estas leis, que, se a índole presente das pessoas prevalecerem provavelmente logo irão se estender muito além dos limites de um estado, significam, naturalmente, a destruição definitiva de toda educação real. Quando se considera o que as escolas públicas da América já demonstram, em muitos lugares — seu materialismo, seu desencorajamento quanto a qualquer esforço intelectual sustentado e seu encorajamento quanto às modas pseudo científicas perigosas da psicologia experimental — só se pode ficar atemorizado diante do pensamento de uma nação na qual não há fuga de um sistema que mata a alma. Mas o princípio destas leis e sua tendência definitiva são muito piores do que os resultados imediatos. O sistema público, em si mesmo, é de fato um enorme benefício à raça. Mas é benéfico apenas se mantido sadio a cada momento através da possibilidade absolutamente livre da competição das escolas privadas. Um sistema público de escola, se isto significar a provisão de educação gratuita para aqueles que a desejarem, é uma realização notável e benéfica dos tempos modernos; mas quando se torna um monopólio, é o instrumento mais perfeito de tirania que já foi inventado. A liberdade de pensamento na Idade Média foi combatida pela Inquisição, mas o método moderno é muito mais eficaz. Coloque a vida de crianças em seus anos formativos, a despeito das convicções de seus pais, sob o controle íntimo de especialistas designados pelo estado, force-as a frequentarem escolas onde as mais altas aspirações da humanidade são esmagadas e onde a mente é preenchida com o materialismo do dia, e será difícil ver quanto até mesmo o remanescente de liberdade pode subsistir. Tal tirania, sustentada como é por uma técnica perversa usada como instrumento para destruir as mentes humanas, certamente é muito mais perigosa do que as tiranias brutas do passado que, a despeito de suas armas de fogo e espadas, pelo menos permitiam que o pensamento fosse livre.

A verdade é que o paternalismo materialista dos dias de hoje, se deixado ao seu curso natural, rapidamente irá fazer da América uma grande “Avenida,” onde a aventura espiritual será desencorajada e a democracia considerada algo que consiste na redução de toda a humanidade às proporções do mais estreito e menos dotado dos cidadãos. Deus conceda que haja uma reação e que os grande princípios da liberdade anglo-saxônica possam ser redescobertos antes que seja muito tarde! Mas qualquer que seja a solução encontrada para os problemas educacionais e sociais de nosso próprio país, uma condição lamentável deve ser detectada no mundo em geral. Não se pode negar que grandes homens são poucos ou não existentes e que tem havido uma redução da área da vida pessoal. A melhoria material tem andado de mãos dadas com o declínio espiritual.

Esta condição do mundo deve causar a escolha entre o modernismo e o tradicionalismo, entre o liberalismo e conservadorismo, a serem abordados sem qualquer um dos preconceitos muitas vezes mostrado. Na visão dos lamentáveis defeitos da vida moderna, um tipo de religião certamente não deveria ser recomendado simplesmente porque é moderno, ou condenado porque é antiquado. Ao contrário, a condição da humanidade é tal que uma pessoa pode muito bem perguntar o que fez os homens das gerações passadas tão grandes e os homens da geração presente tão pequenos. No meio de todas as realizações materiais da vida moderna, pode-se muito bem questionar se ao ganhar o mundo todo não perdemos a nossa própria alma. Estamos condenados para sempre a viver a vida sórdida do utilitarismo? Ou há algum segredo perdido que, se redescoberto, pode restaurar à humanidade algo das glórias do passado?

Este segredo, o escritor deste pequeno livro descobriu na religião cristã. Mas, com certeza, a religião cristã que falamos não é a religião da igreja moderna liberal, e sim a mensagem da graça divina, quase esquecida agora assim como na Idade Média, mas destinada a brotar mais uma vez no bom tempo de Deus, em uma nova Reforma, e trazer luz e liberdade à humanidade. Como é o caso de qualquer definição, o que esta mensagem é, pode se tornar claro apenas através da exclusão, do contraste. Ao apresentarmos o liberalismo corrente, agora quase dominante na igreja, contra o cristianismo, não estamos animados apenas pela polêmica ou imbuídos de um espírito meramente negativo. Por outro lado, ao mostrarmos o que o cristianismo não é, esperamos ser capazes de mostrar o que o cristianismo é, a fim de que os homens possam ser conduzidos a voltarem-se dos elementos pobres e fracos e a refugiarem-se novamente na graça de Deus.


Extraído do livro "Cristianismo e Liberalismo" - páginas 20 a 25, Editora "Os Puritanos". 

Esse livro foi publicado originalmente em 1923 nos E.U.A., apesar de servir muito bem para nós, hoje, no Brasil.


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