sábado, 23 de agosto de 2014

Baleia ou peixe? Eis a questão (por Gyordano Montenegro Brasilino)



Os crentes que se envolvem em debates com ateus e céticos provavelmente conhecem a questão: Jonas foi engolido por uma baleia (como diz Jesus) ou por um peixe (como diz o livro de Jonas)?

A contradição surge quando comparamos as traduções para o português do livro de Jonas feitas a partir do Texto Massorético com a tradução para o português de Mateus 12:40. Por exemplo, na versão "Corrigida e Fiel" da tradução Almeida:
"Preparou, pois, o Senhor um grande peixe, para que tragasse a Jonas; e esteve Jonas três dias e três noites nas entranhas do peixe." (Jonas 1:17) 
"Pois, como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim estará o Filho do homem três dias e três noites no seio da terra." (Mateus 12:40)
Pela moderna biologia, baleias não são peixes. São mamíferos. Pela literalidade do texto em português, ou Jesus propositadamente contradisse Jonas (mostrando-se uma contradição bíblica), ou contradisse ingenuamente (mostrando o desconhecimento de que a baleia não é peixe). De um jeito ou de outro, é um problema bíblico. Como resolver isso?

A contradição é meramente aparente. Surge no momento da tradução. Os escritores do Novo Testamento usavam uma versão do Antigo Testamento (incluindo o livro de Jonas) chamada "Septuaginta". Foi preparada séculos antes de Cristo, por conta da helenização dos judeus (seja na diáspora, seja por conta do império de Alexandre, que promovia a cultura grega). Quando observamos o texto da Septuaginta e o texto de Mateus 12:40, vemos que a contradição simplesmente desaparece. Apresentamos logo abaixo os textos de Jonas e Mateus, em seus originais gregos.

Antes, porém, um comentário: a versão grega do Antigo Testamento algumas vezes usa numeração distinta de capítulos e versículos para o mesmo texto. O texto que está no texto massorético (hebraico) em Jonas 1:17 está na Septuaginta em Jonas 2:1. A distinção não altera o texto, apenas a forma de encontrar os versículos (como livros que hoje em dia, em tamanhos diferentes, são publicados com números distintos de páginas, mas que o conteúdo é o mesmo).
"σπερ γρ ν ωνς ν τ κοιλίᾳ το κήτους τρες μέρας κα τρες νύκτας, οτως σται  υἱὸς το νθρώπου ν τ καρδίᾳ τς γς τρες μέρας κα τρες νύκτας." (Mateus 12:40)  
"κα προσέταξεν κύριος κήτει μεγάλ καταπιεν τν Ιωναν κα ν Ιωνας ν τ κοιλίᾳ το κήτους τρες μέρας κα τρες νύκτας " (Jonas 2:1, LXX)
Perceba o leitor que as porções sublinhadas são literalmente idênticas. Como dito, ambos apresentam a mesma expressão grega para o animal marinho: το κήτους, que é o genitivo de κτος (artigo + substantivo). Não cabe aqui explicar o que é um genitivo (basta consultar qualquer gramática grega sobre o tema). O substantivo κτος ("kêetos") significa "baleia" (dando origem ao português "cetáceo"), mas segundo o Greek-English Lexicon de Henry George Lidell e Robert Scott, pode designar qualquer monstro marinho ou peixe gigante. Pode ser conferido no endereço: 


A oração de Jonas, que começa no texto massorético está em Jonas 2:1, na Septuaginta está em Jonas 2:2, e repete a mesma expressão grega:
"κα προσηύξατο Ιωνας πρς κύριον τν θεν ατο κ τς κοιλίας το κήτους" (Jonas 2:2, LXX)

Portanto, não existe contradição entre o texto de Jonas e o texto de Mateus, quando comparados no mesmo idioma. O que pode existir é um problema na limitação da língua hebraica antiga, já que a expressão hebraica DAG (??) originalmente significa "peixe". Mas como dito, ??t?? também pode significar “grande peixe”.




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