terça-feira, 28 de outubro de 2014

Reconstruindo os Muros da Civilização Cristã no Brasil (por Charles Grimm)


Mas, ouvindo Sambalate e Tobias, os arábios, os amonitas e os asdoditas que a reparação dos muros de Jerusalém ia avante e que já se começavam a fechar-lhe as brechas, ficaram sobremodo irados (Neemias 4.7).

Enquanto alguns ficam preocupados com a "reparação de muros" que os conservadores têm iniciado no Brasil, outros desanimam. Mudar o Brasil ou mudar do Brasil? Para alguns, resta a segunda opção. Será que perdemos a dimensão da virtude do trabalho em longo prazo? Grande e extensa é a obra, e nós estamos no muro mui separados, longe uns dos outros (Neemias 4.19).

Quem fala em desistir do Brasil tem agora, mais do nunca, uma excelente oportunidade de treinar a sua persistência, educar seus filhos, orientar a sua família, esclarecer amigos e colegas, percebendo o quanto é importante não estar alheio à política (dentro de uma cosmovisão cristã). Não que seja errado imigrar, mas é sintomático quando as motivações para tal não parecem muito nobres.

Para isso, é necessário empunhar a Bíblia - com liberdade ainda - em um das mãos e, na outra, muito trabalho. Daquele dia em diante, cada um com uma das mãos fazia a obra e com a outra segurava a arma (Neemias 4.17). Portanto, com os princípios bíblicos à mão e colocando-os em prática é que reconstruiremos os muros da civilização cristã no Brasil, o que se aplica ao mundo inteiro da mesma forma.

Façamos uma breve análise e, em seguida, vejamos algumas propostas que as nossas mãos devem agarrar: as Escrituras e o serviço.

1.  O Nordeste, o PT e o Estado  - ou Desmontando um Mito

Após as últimas eleições - e nos demais doze anos passados - muitos eleitores antipetistas têm injustamente acusado o Nordeste como celeiro de votos do PT. Contudo, um olhar mais aproximado revelará, pelo menos, duas realidades que passam desapercebidas ou ignoradas.

O primeiro equívoco é sobre a quantidade de votos que dividiu o Brasil entre vermelhos e azuis. Em termos reais, nas eleições deste ano de 2014, o Norte e Nordeste concederam, em números, menos votos ao PT (24,8 milhões) do que o Sul e Sudeste (26,7 milhões), segundo a colunista Letícia Sekitani do site da Rede Globo (http://imirante.globo.com/imperatriz/noticias/2014/10/27/apos-as-eleicoes-nordestinos-sao-alvos-de-criticas-e-preconceito.shtml).

1.1 Eleições Presidenciais

Além disso, no ano de 2002, os azuis somente venceram em Alagoas, em todos os demais Estados do Brasil o candidato do PT, o ex-presidente Lula, obteve maior votação. No ano de 2006, da região Sudeste, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo deram votos aos vermelhos, enquanto no Norte, em Roraima, venceu Alckmin. Em 2010, Minas Gerais e Rio de Janeiro, novamente, obteviram maior votação para o PT e, no Norte, Roraima e, agora também o Acre, concederam mais votos ao candidato da oposição, José Serra.

1.2 Eleições para Governador

O segundo equívoco é sobre a hegemonia do PT no Nordeste. Refrescar a memória faz bem. Quando o PFL tinha grande influência nesta região, o povo votava no PFL. Nas eleições para governador, em 1990, o PFL chegou a vencer em 6(seis) dos 9 (nove) Estados da região. Em 1994, de todo Brasil, somente o Distrito Federal e o Espírito Santo elegeram governadores do PT. Em 1998, o PT elegeu governadores no Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e no Acre. Neste mesmo ano, o PSDB elegia governadores no Ceará, Sergipe,  o PFL, na Bahia, Maranhão e, em todo País, somente três estados elegeram governadores petistas (AC, MS, RS).  

Portanto, diante disto, fica demonstrando que a questão não é o PT, nem os nordestinos, mas a mentalidade paternalista de que o Estado deve prover subsistência. Há esta mentalidade existente por todo o território nacional.

2. Como Reconstruir o Brasil com Princípios Cristãos?

Precisamos voltar à velha fórmula protestante: uma escola ao lado de cada igreja e famílias tementes a Deus tratando bem os seus patrões e funcionários, gerando um crescimento gradual de cada comunidade local, e assim, os que têm mais condições, ajudando os que têm menos com o devido acompanhamento.

Investir mais no Nordeste - e em todo Brasil -, aumentar o empreendedorismo e ensinar, a partir das Escrituras, quais são as funções, atribuições responsabilidades do Estado, do Indivíduo, da Família e da Igreja, é o método bíblico para construir uma sociedade madura. Portanto, os indivíduos, especialmente, os cristãos, devem pensar não só em fazer concursos públicos - ou até abrir empresas pensando em si próprios - mas empreender, abrir novos negócios, empregar mais, investir em cidadãos e irmãos, para que estes também possam aprender e fazer o mesmo. Quando estiver buscando aumentar a sua renda, cada um deveria pensar em aplicar parte desses recursos para o bem de outros, embora sempre de forma criteriosa, como veremos mais abaixo. As Escrituras nos dizem Aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado. (Efésios 4.28).

É bom lembramos também que muitos imigrantes que chegaram no Brasil em péssimas condições e praticamente com poucos recursos contudo, em duas ou três gerações, conseguiram - ao custo da disciplina e do trabalho - crescer e não depender do Estado, muitos dos quais viviam em regiões sem infraestrutura alguma. Não havia políticas assistencialistas, nem cotas. A realidade hoje no País é bem melhor do que há 100 ou quase 200 anos. O trabalho, a economia, o repasse de experiência, ao longo do tempo, fez que regiões do Brasil se desenvolvessem.

A ajuda indistinta do Estado além de não ser  sábia, é antibíblica, uma vez que o Estado não recebeu esta atribuição social de Deus, antes e somente é ministro divino para a manutenção da justiça e executar o poder da espada (Romanos 13.1-7; 1 Pedro 2.13s). Cuidar dos necessitados é atribuição de cada um, especialmente dos cristãos. Contudo, há princípios que regem esta ajuda.

2.1 Princípios da "Ação Social" Cristã

Os diáconos foram justamente colocados na Igreja para que somente os que de fato atendiam determinadas condições fossem ajudados (Atos 6.1-6). A Lei Mosaica determinava que os pobres pudessem receber sua subsistência de outros cidadãos, desde que trabalhando (Levítico 19.9s cf. Rute 2.7) O apóstolo Paulo também traz alguns princípios práticos:

  • Os que não queriam trabalhar não deveriam ser ajudados (2 Tessalonicenses 3.10-12);
  • As viúvas que tinham filhos ou netos para a sustentar não deveriam receber ajuda de outros (1 Timóteo 5.4);
  • As viúvas deveriam ser mulheres com bom testemunho para receber auxílio (1 Timóteo 5.6s).
Esses são critérios que a Bíblia nos dá para prestarmos ajuda. E isso implica em envolvimento mais pessoal na vida daquelas pessoas que nos cercam, tanto para sabermos quais as reais necessidades, como para verificarmos se o investimento está sendo bem empregado, caso contrário, outros devem ter prioridade.

2.2 A "Responsabilidade Social" Cristã não é do Estado ou da Igreja

Uma das formas de aplicar esses princípios de forma mais efetiva, é envolver-se com irmãos da Igreja. Note, envolver-se com outros cristãos, sempre que possível.

Não é atribuição da Igreja prover assistência social, exceto aos que são os domésticos do fé. Os diáconos, igualmente, não são responsáveis por todos os necessitados da Igreja, mas apenas por aqueles que fazem parte da sua igreja local. Contudo, cada cristão, seguindo os princípios bíblicos acima, devem buscar auxiliar outros, naquilo que for possível. Ou seja, nem o Estado, nem a Igreja como instituições, são responsáveis pela "ação social", mas cada cristão, cada cidadão, tem essa responsabilidade. A terceirização desta responsabilidade, seja para a Igreja, seja para Estado, tem feito tanto os cidadãos em geral, quanto aos cristãos, menos participantes deste privilégio e dever do auxílio aos necessitados (e, sempre lembrando, dentro dos termos e princípios já expostos anteriormente), além de obrigar contribuições compulsórias e passíveis de corrupção, visto a grande estrutura que é montada.  

A Igreja recebeu a atribuição da pregação do Evangelho, receber novos convertidos, batizá-los, pastoreá-los, ministrar os sacramentos, discipliná-los e pastoreá-los. A Igreja equipa os santos para que vivam melhor neste mundo e o transformem para a glória de Deus, mas a Igreja, em si mesma, não tem atribuições sociais, exceto às relacionadas aos domésticos da fé.

Da mesma forma, o Estado, não tem esta atribuição. Quando um Estado toma conta daquilo que não lhe é divinamente atribuído (Romanos 13.1-7; 1 Pedro 2.13s), cada vez mais impostos são pesadamente cobrados para manter obras e projetos que não lhe são atribuições bíblicas e, em vez de ter uma estrutura enxuta, contudo bem robusta e concentrada de toda arrecadação para aplicação cada vez mais célere e efetiva da justiça, da segurança, defesa e proteção dos cidadãos, há o enfraquecimento moral e econômico de todas as demais esferas da sociedade. Gerando assim uma dependência cada vez maior dos cidadãos e uma subserviência do Estado - e ao partido que estiver no poder.  

Isso implica que não é por políticas assistencialistas ou por questões de "culpas ideológicas", como as cotas, que o Estado deve agir. Afinal, biblicamente, o Estado deve punir os maus e recompensar os bons, como os apóstolos Paulo e Pedro registram nas Escrituras. Os cidadãos de hoje nada tem a ver com o pecado de outros no passado. Puni-los hoje é incorrer nesta injustiça. Além disso, o profeta afirma: "A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai, a iniquidade do filho; a justiça do justo ficará sobre ele, e a perversidade do perverso cairá sobre este" (Ezequiel 18.20). Que há culpa, há, mas a Bíblia afirma que os filhos não devem ser punidos pelos erros dos seus pais. Cada um deve ser responsabilizado por seus atos. Não se resolverá nenhum problema social por meio de cotas. É um sistema que lança a culpa sobre inocentes. Os males que ficaram impunes nesta vida não estão ocultos aos olhos do Juiz de toda terra (Gênesis 18.25). A mudança que ocorrerá no País virá, muito mais efetivamente, com as propostas a seguir.

2.3 Sugestões Práticas e Cristãs de Reconstrução

Algumas ideias já foram ventiladas acima, como o antigo princípio protestante de cada Igreja com uma escola. Mas de forma mais concreta, como aplicar esses princípios?
1. Se aos irmãos da sua igreja local não têm uma escola, junte-se com alguns irmãos da igreja para elaborar um projeto de uma escola que atenda a comunidade local. Várias famílias podem ajudar na provisão de recursos, inclusive, financiando professores e alunos e isto, sempre com prestação de contas;
2. Várias famílias ou pessoas individualmente, podem juntar-se para levantar recursos e investir na vida dos mais humildes, com o devido acompanhamento;
3. Se pessoas trabalham em sua casa (empregadas domésticas, caseiros, etc.), ofereça um plano de ajuda para financiar os estudos dos filhos destes trabalhadores domésticos;
4. Se você tem uma empresa, destine parte dos recursos para aplicar efetivamente na vida de alguns funcionários e seus filhos. Ou ainda, busque associar-se com outros empresários e profissionais liberais para isso;
5. Financiar e acompanhar regularmente a implantação de igrejas, missionários e escolas em regiões carentes do Brasil;
6. Envolver-se com a reunião de Pais e Mestres das escolas locais para propor ideias neste sentido de envolvimento comunitário em favor dos desfavorecidos;
7. Auxiliar com cursos de economia familiar, incentivar a abertura de empreendimentos pessoais e familiares, aliado à instrução bíblica da administração dos recursos;
8. Envolver-se, com equilíbrio e com a devida subordinação às Escrituras, em partidos políticos para influenciar positivamente, especialmente em legendas novas que têm surgido, como o "Partido Novo";
9. Discutir essas ideias com outros irmãos, colegas e vizinhos para fomentar novas sugestões e aplicações práticas dos princípios bíblicos para a sociedade;
10. Levar estas ideias para a liderança das igrejas locais, deixando claro a diferença de atribuições e responsabilidades divinamente instituídas para cada esfera da sociedade, ou seja, aos Indivíduos, Família, Igreja e o Estado.

Se famílias - e empresas - puderem abrir e manter escolas, financiar pais e filhos em condições humildes nos estudos e em projetos, aliados a uma prestação de contas efetiva, e com a boa e oportuna instrução do Evangelho de tal forma que nossa esperança não esteja depositada em homens ou políticas, mas apenas no Rei da Criação, não teremos apenas um Nordeste, mas um Brasil melhor.  Assim, cada esfera cumprindo suas atribuições, não teremos ainda um mundo ideal, mas, com certeza, cada vez melhor, até que Cristo retorne e reforme todas as coisas. Até lá, é nosso dever trabalharmos para reconstruirmos os muros do Reino de Deus - e não do humanismo ou de muros que tentam dividir sul e norte, pobres e ricos - nesta terra, afim de que o nome da Santíssima Trindade seja glorificado. Soli Deo Gloria!


Para mais sobre esses temas:

1. A Intervenção do Governo na Educação 
(https://www.youtube.com/watch?v=1sFJGTdyAxQ)

2. O Estado não tem Autoridade Paterna 
(http://politicareformada.wordpress.com/2013/08/05/o-estado-nao-tem-autoridade-paterna/)

3. O Viaduto Assassino 
(http://politicareformada.wordpress.com/2014/07/03/viaduto-assassino/)

4. Dooyeweerd - Sobre Abraham Kuyper 
(https://www.youtube.com/watch?v=WmBJ6B1nQJo)



Extraído de nota do autor no facebook.


Nota: Sobre o item 2.2, eu, "Barrabás", entendo que a Igreja tem sim um papel social, mas partindo justamente dos "domésticos da fé". Ou seja, a Igreja primeiramente deve cuidar dos seus membros para depois olhar para os necessitados de fora. Entendo que o cuidado com os pobres é obrigação da Igreja, como disse Calvino, e não do Estado.
Isso quer dizer que enquanto cristãos devemos pessoalmente ajudar os necessitados, e a Igreja como instituição (e coletivo de cristãos) deve fazer o mesmo partindo de dentro pra fora..


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