sexta-feira, 11 de março de 2016

O significado da Teocracia (por R. J. Rushdoony)


Nota: O tema do artigo é polêmico principalmente quando visto de forma preconceituosa (como por exemplo quando se fazem comparações com regimes em países islâmicos). Da mesma forma, o autor (Rousas John Rushdoony) é condenado por alguns críticos por coisas que afirmou e são tidas com anticristãs ou até mesmo (principalmente) por coisas que não disse e lhes são concedidas. Minha intenção com esse artigo não é fazer uma defesa do autor (o que também poderia ser feito), mas sim de usar as próprias palavras dele para explicar qual a visão bíblica sobre uma teocracia. Sendo assim, peço que não se atenham ao título com repulsa (se for o caso), mas que analisem o que ele defendia e julguem biblicamente.Também ressalto que achei muito interessante no texto aquilo que se refere ao dízimo, demonstrando que como deve ser aplicado e como contribuir é um dever moral mas não legal, "desde sempre".



(Agosto, 1980)

Poucas coisas são mais frequentemente mal entendidas do que a natureza e o significado da teocracia. Geralmente se supõe que seja um regime ditatorial por homens auto-nomeados que alegam governar por Deus. Na realidade, a teocracia na lei bíblica é a coisa mais próxima de um libertarianismo radical que pode existir. Na lei bíblica, a única taxa civil, era o imposto individual e uniforme, o mesmo para todos os homens a partir de vinte anos de idade (Ex. 30:16). Esta taxa proporcionava uma indenização ou cobertura para as pessoas, isto é, a cobertura da proteção civil por parte do Estado como um ministério da justiça (Rom. 13:1-4). Este muito limitado imposto foi continuado pelos judeus depois da queda de Jerusalém, e, desde 768-900 AD ajudou a transformar o principado judeu de Narbonne (na França) e outras áreas em um reino muito importante e poderoso (ver Arthur J. Zuckerman: A Jewish Princedom in Feudal France 768-900; New York, NY: Columbia University Press, 1965,1972). Este imposto foi limitado à metade de um siclo de prata por homem.

Todas as outras funções do governo eram financiadas pelo dízimo. Saúde, educação, bem-estar, adoração, etc., foram todos providenciados via dízimos e ofertas. Deste dízimo, um décimo (ou seja, um por cento de sua renda) ia para os sacerdotes, para a adoração. Talvez um montante igual ia para a música, e para o cuidado do santuário. O dízimo era o imposto de Deus, para providenciar o governo básico na maneira de Deus. O segundo e o terceiro dízimos providenciavam bem-estar e o descanso e alegria da família diante do Senhor (ver E. A. Powell e RJ Rushdoony: Tithing and Dominion: Ross House Books, Caixa Postal 67, Vallecito, California 95251).

O que hoje não conseguimos ver, e devemos reaver, é o fato de que o governo básico é o auto-governo do homem do pacto; em seguida, a família é a instituição central de administração da Escritura. A escola é uma agência governamental, e assim também é a igreja. A nossa vocação também nos governa, e nossa sociedade. O governo civil deve ser uma forma de governo entre muitos, e uma inferior. O paganismo (e a adoração a Baal em todas as suas formas) transformaram o Estado e seus governantes em um deus ou deuses que andam em terra, e lhes deu total predominância em todas as esferas. Os profetas denunciaram toda essa idolatria, e os apóstolos confirmaram: "Mais importa obedecer a Deus do que aos homens" (Atos 5:29).

Desde os dias do Césares aos chefes de Estados democráticos e impérios marxistas, os ímpios viram o que também os cristãos muitas vezes falham em ver, ou seja, que a fé bíblica exige e cria um governo rival para o estado humanista. A fé defeituosa procura reduzir a fé bíblica em uma mínima salvação, centrada no homem. Ora, a salvação, nossa regeneração, é o ponto de partida absolutamente essencial da vida cristã, mas, se for feita a soma total disso, é efetivamente negada. A salvação é então transformada em uma coisa egoísta e centrada no homem, quando na verdade é centrada em Deus e requer a morte, não a entronização, do nosso ego pecaminoso e auto-centrado. Somos salvos para os propósitos de Deus, salvos para servir, não apenas no tempo, mas eternamente (Ap 22:3). Ser salvo é ser membro de uma nova criação e do Reino de Deus, e ser membro atuante desse reino.

Em uma teocracia, portanto, Deus e Sua lei governam. O estado deixa de ser o patrão e governante do homem. O imposto de Deus, o dízimo, é usado por homens de Deus para criar escolas, hospitais, agências de assistência social, conselheiros, e muito mais. Ele provê, como fez nas Escrituras, a música e muito mais. Todos os custos sociais básicos, além do imposto por cabeça de Êx. 30-16, eram providos por dízimos e ofertas ou presentes. Uma oferta ou presente era aquilo que era dado acima e além de um dízimo.

Uma vez que nenhuma das agências de dízimo tem qualquer poder coercivo para arrecadar fundos, nada pode existir além do seu serviço útil a Deus e ao homem. Para o estado moderno, inutilidade e corrupção não são um problema; elas não limitam o seu poder de recolher mais impostos. Na verdade, o estado aumenta o seu poder de tributação porque é mais corrupto e mais inútil, porque a sua crescente burocracia exige.

O senador do Estado da Califórnia H. L., "Bill" Richardson, tem repetidamente chamado a atenção para o fato de que, uma vez eleitos, os funcionários públicos respondem apenas sob pressão aos seus eleitores, mas mais aos seus grupos de interesses e seus superiores. Na falta de fé, eles são governados pelo poder.

As pessoas podem reclamar sobre a falta de resposta dos seus representantes eleitos, e sua subserviência aos seus grupos de interesses e superiores, mas nada vai alterar este fato a não ser uma alteração na fé do eleitorado e do eleito. Os homens vão responder e obedecer ao poder dominante em suas vidas, fés e perspectivas. Se esse poder ou deus dominante em suas vidas for o estado, eles vão reagir a ele. Se for o homem, ou o seu próprio ego, eles serão governados por ele. Se, no entanto, for o Deus trino da Escritura que os comanda, então os homens irão responder e obedecer à Sua palavra-lei. Os homens obedecerão a seus deuses.

Um dos livros mais importantes deste século foi Our Enemy, The State (Caxton Printers, Caldwell, Idaho, 1935ff.)de Albert Jay Nock. Sem concordar com Nock em todas as coisas, é necessário concordar com ele que o Estado moderno é a nova igreja e instituição salvadora do homem. O Estado, no entanto, é uma instituição anti-social, determinado a reprimir e destruir todos os poderes históricos e religiosamente fundamentados da sociedade. Com F.D. Roosevelt e o New Deal, o objetivo dos estados tornaram-se abertamente "a completa extinção do poder social através da absorção pelo Estado" (p. 21). Isso continuará em seu curso suicida, até que não haja poder social suficiente para financiar os planos do Estado (como se tornou o caso em Roma). A intervenção do Estado em todas as esferas é financiada pela produtividade do setor não-estatal e econômico: "A intervenção retarda a produção; em seguida, o rigor e os inconvenientes resultantes permitem uma maior intervenção, que por sua vez retarda ainda mais a produção, e esse processo continua até que, como em Roma, no século III, a produção cessa por completo, e a fonte de pagamento seca " (p. 1510). É verdade que o crime precisa de repressão, mas, em vez de suprimir o crime, o Estado garante seu próprio monopólio do crime.

Podemos acrescentar que a solução para o crime e a injustiça não é mais poder para o Estado, mas a lei de Deus e um homem regenerado. A melhor garantia contra a criminalidade são homens piedosos e uma sociedade piedosa. Além disso, a lei de Deus, ao lidar com o crime, exige a restituição, e, com criminosos habituais, a pena de morte (ver R. J. Rushdoony: Institutas da Lei Bíblica).

Mais um ponto importante de Nock: ele chamou a atenção para o fato de que o "poder social" uma vez cuidou de todas as emergências, socorros e infortúnios. Quando ocorreu a enchente em Johnstown, toda assistência e ajuda foram resultado de uma grande efusão de doações "privadas". "Sua abundância, medida somente pelo dinheiro, foi tão grande que, quando tudo foi finalmente colocado em ordem, sobrou algo como um milhão de dólares." (p. 6).

Esta era outrora a única maneira como essas crises eram atendidas. Isso pode acontecer de novo? O fato é que isso está acontecendo novamente. Hoje, entre 20-30% de todas as crianças em idade escolar, de ensino fundamental a ensino médio, estão em escolas não-estatais, e a porcentagem pode passar de 50% em 1990, se os cristãos defenderem suas escolas do intervencionismo estatal. Mais e mais cristãos estão reconhecendo seus deveres com o cuidado de seus pais; igrejas estão novamente assumindo, em muitos casos, a proteção dos membros idosos. Lares para idosos e também para crianças delinquentes estão sendo estabelecidos (um dos mais famosos deles, sob a liderança de Lester Roloff, está sob ataque por parte do Estado, que se recusa a reconhecer o pecado como o problema básico com delinquentes, e a regeneração e a santificação como a resposta). Os cristãos estão se dirigindo para as áreas de rádio e televisão, não só para pregar a salvação, mas aplicar a Escritura a questões políticas, econômicas e outras.

Além disso, em toda parte cristãos estão se fazendo a pergunta: O que devo fazer, agora que eu estou salvo? As respostas tomam uma variedade de formas: publicação de compêndios para periódicos de Escolas Cristãs, e muito mais. A necessidade de revitalizar e ampliar hospitais cristãos está sendo reconhecida, e muito, muito mais. Isaías 9:6-7 nos diz que, quando Cristo nasceu, o governo devia estar sobre os Sseus ombros, e que "Ele estenderá o seu domínio, e haverá paz sem fim". Por meio de seus dízimos e ações, os crentes estão em número crescente se submetendo ao governo de Cristo e reordenando a vida e a sociedade com base nisso.

A essência do humanismo, de Francis Bacon até o presente, tem sido esse credo: para ser humano, o homem deve estar no controle (Jeremy Rifkin com Ted Howard: The Emerging Order, p. 27.). Esta é uma maneira indireta de dizer que o homem não é o homem, a menos que o governo de todas as coisas esteja sobre os seus ombros, a menos que ele seja o próprio deus. É a manifestação do programa de revolta do tentador contra Deus (Gn 3:5). John Locke desenvolveu essa fé ao insistir que o cristianismo é um interesse particular, e não uma questão pública. O cristianismo, portanto, não poderia ser a base da atividade pública, mas apenas uma fé particular. O alicerce do Estado e da vida pública estava para Locke na razão.

Mas a razão, separada da fé e da pressuposição cristã, tornou-se a vontade do homem, ou melhor, a vontade do homem na independência radical de Deus. O estado então começou a reivindicar uma área da vida após a outra como domínio público e, consequentemente, sob o estado como razão encarnada. Uma das primeiras coisas reivindicadas pela filosofia de Locke e a "razão" era o próprio homem! O homem, em vez de ser um pecador, era, pelo menos na esfera humana e pública, moralmente neutro; ele era um pedaço de papel em branco, e o que ele se tornou foi um produto de educação e experiência. Assim, se fez necessário ao Estado, a voz encarnada da "traição", controlar a educação, a fim de produzir o tipo desejado de homem. O Estado reivindicou a esfera pública. A esfera pública havia pertencido, em termos de fé cristã, a Deus, como todas as outras coisas, e a uma sociedade livre sob Deus. A igreja foi quase destituída de seus direitos sobre o domínio público quando o estado tomou posse para requerê-lo com poderes ainda mais totais. Mas isso não foi tudo. O estado ampliou o domínio público com novas definições, para que de forma constante, uma esfera após a outro caíssem nas mãos do Estado. A educação foi reivindicada, e o controle sobre a economia, um controle que está agora destruindo dinheiro e diminuindo a produtividade social e econômica. As artes e as ciências são subsidiadas e controladas, e estão implorando por mais. O matrimônio e a família são controlados; a White House Conference on the Family vê a família como um domínio público e, portanto, estatal, algo que o estado deve invadir e controlar.

A Roma Antiga considerava a própria religião como um domínio público e, portanto, autorizou e controlou. (A própria palavra liturgia, de origem grega, significa serviço público. A religião é de fato um interesse público, mais do que o Estado, mas nem por isso um assunto para o controle estatal). Roma, como todos os estados pagãos antigos, equiparou o domínio público ao domínio do estado, e via todas as coisas como aspectos do domínio do estado.

Qualquer instituição ver a si mesma como o domínio público é totalitarismo. Todas as coisas públicas e privadas estão no domínio religioso e sob Deus. Nenhuma instituição, nem igreja, nem estado, pode equiparar-se com Deus e reivindicar o controle do domínio público (ou privado). Cada esfera da vida é interdependente com outras esferas e similares sob Deus. Assim como a matemática não tem o "direito" de controlar a biologia, a igreja ou estado não tem o "direito" de controlar um ao outro, ou qualquer coisa além de sua esfera severamente limitada de governo.

Há, dessa forma, uma variedade de esferas de governo sob Deus. Essas esferas são limitadas, interdependentes e sob o governo soberano e a palavra-lei de Deus. Eles não podem legitimamente exceder suas esferas. Os poderes financeiros legítimos de todos são limitados. O estado tem um pequeno imposto por cabeça. O dízimo financia todas as outras esferas.

O dízimo, deve-se ressaltar, é para o Senhor e não para a igreja, uma diferença que alguns clérigos optam por deixar escapar ou esquecer. Isso rouba o indivíduo crente de todos os direitos de se lamentar sobre as coisas; pelo uso piedoso de seu dízimo, ele pode criar novas agências, igrejas, escolas e instituições para promover o Reino de Deus em todas as áreas da vida e do pensamento. A santidade não vem pela nossa capacidade de choramingar e lamentar como as coisas são, mas pelo nosso uso fiel do dízimo e do poder que Deus nos dá para refazer todas as coisas de acordo com Sua palavra.

O dízimo e a ação divina, estas são as chaves para o domínio. Somos chamados a dominar (Gn 1:26-28; 9:1-17; Josué 1:1-9; Mt 28:18-20; etc.). O mandato da criação é nosso mandato da aliança; a restauração no pacto pela expiação de Cristo nos restaura para o mandato de exercer domínio e nos dá o poder para efetivá-la.

Aspectos desse mandato podem ser exercidos através das instituições, e às vezes devem ser, mas o mandato não pode ser entregue a elas. O mandato precede todas as instituições, e é para o homem, pessoalmente, como homem (Gn 1:28). Este é o coração da teocracia conforme a Bíblia a define. Contrariamente aos dicionários, a teocracia não é um governo do Estado, mas um governo de Deus e Sua Lei acima de todas as instituições, e através das atividades do homem livre em Cristo para trazer todas as áreas da vida e do pensamento cativas ao Reinado de Cristo. 




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