terça-feira, 24 de outubro de 2017

O maior dos Reformadores


Outubro é tradicionalmente chamado por protestantes de "Mês da Reforma". Isso se dá porque foi em outubro de 1517 que Martinho Lutero fixou na porta da Catedral de Wittenberg o que chamamos de "95 teses", e a partir desse feito se disseminou o movimento que teve um impacto mundial histórico.
Antes de Lutero, muitos outros já identificavam e condenavam práticas da igreja católica romana, porém foram calados pela morte em seu tempo. Mesmo com o martírio, seus legados ecoaram, e posteriormente frutos foram colhidos.

Apesar do sistema doutrinário católico romano não ter sido corrigido, a centralização do cristianismo foi quebrada, e aqueles que tiveram seus olhos abertos quanto aos graves erros romanistas se tornaram dissidentes, para uma nova visão de cristianismo, que na verdade apontava para as origens.
A hegemonia suprema da igreja romana foi derrubada, e o protestantismo se disseminou, influenciando reis e nações na formação e transformação de suas culturas. O papa perdia gradativamente seus poderes seculares, e o povo passava a ter acesso direto às Escrituras, ao invés de dependerem exclusivamente da mediação de sacerdotes, e com isso receberem uma mensagem deturpada e diversas obrigações morais que não passavam de acréscimos interesseiros feitos por aquele sistema.

Nesse período da Reforma, em diferentes nações surgiram homens levantados por Deus, que através das Escrituras chegaram às mesmas conclusões que Lutero e os seus antecessores em relação á salvação das almas dos pecadores. Eles compartilhavam o pensamento de que:
  • Sola Scriptura: Somente as Escrituras são a base autoritativa para fé e prática dos cristãos;
  • Sola Fide: Somente mediante a Fé uma pessoa é salva;
  • Solus Christus: Somente pela obra de Cristo a salvação nos é conferida;
  • Sola Gratia: Somente devido à Graça de Deus ganhamos a salvação;
  • Soli Deo Gloria: Somente a Deus deve ser dada toda a Glória;
São os famosos "5 SOLAS". Termos em latim para designar a exclusividade a) das Escrituras e não de papas, sacerdotes e tradições vindas de um sistema humana como fonte da vontade divina; b) da Fé como meio para justificação perante Deus; c) da obra de Cristo em obediência ao Pai, ao cumprir plenamente Sua vontade e nos resgatar do pecado com Seu sacrifício substitutivo; d) da Graça (o favor imerecido de Deus) como motivo da nossa salvação, em contraste com a ideia errônea de salvação por merecimento dos pecadores; e) da glorificação apenas de Deus por Sua obra perfeita, em contraste com a exaltação de supostos mediadores humanos (na verdade usurpadores) necessários no processo da salvação.

Os reformadores tinham suas divergências em diferentes temas bíblicos, mas concordavam essencialmente nesses "5 Solas" e muitas outras doutrinas que naturalmente culminavam da aceitação deles, além daquilo em que havia concordância com os próprios católicos romanos, em relação à Trindade.
Dentre os mais conhecidos reformadores, pode-se mencionar: Martinho Lutero, Úlrico Zwinglio, Martin Bucer, Guillherme Farel, João Calvino, John Knox, dentre outros nomes que foram essenciais em suas nações como instrumentos de Deus para trazer as pessoas de volta às Escrituras. Há muita literatura contando seus legados (inclusive alguns artigos aqui neste blog), além dos seus próprios escritos preservados, nos quais estruturaram as doutrinas cristãs para exposição a autoridades, teólogos e leigos.

Todos eles foram importantíssimos para a História da Igreja de Cristo, mas, se fôssemos eleger qual o maior reformador da História do Cristianismo, quem levaria o título??

"Quem reformou mais??"

Talvez a resposta para esta questão pudesse ser um meio de definir a quem se refere o título desse artigo. E talvez você tenha estranhado o título e agora tenha se assustado mais ainda com essa questão, mas para te acalmar, eu já digo que não vou criar um "ranking" dentre os reformadores mencionados e julgar quem foi "o melhor" sob quaisquer critérios.

Na verdade, a resposta correta para essa questão encontra-se naquilo que eles mesmo defenderam: SOLUS CHRISTUS.

Jesus Cristo foi e é o maior dos reformadores, em todos os aspectos possíveis, e demonstrar um pouco disso é o verdadeiro objetivo desse artigo.


PALAVRA DE DEUS X Tradições Humanas

O contexto histórico do ministério de Cristo envolve Sua relação com a Lei de Deus vigente em Israel em seus três aspectos (Moral, Civil e Cerimonial). Todos eles estavam debaixo da obrigação de seguirem todos os preceitos da Lei, e isso incluía então tudo aquilo que os caracterizava como povo separado de Deus. Muitos hábitos cerimoniais eram exigidos, e eram sinais externos da fé de uma pessoa ao cumpri-los, mas poderiam por outro ser meramente atos mecânicos e não testemunharem o que realmente havia no coração daquelas pessoas. Logo, mesmo que muitos se esforçassem em cumprir aquilo que era externo e que podia servir para vanglória perante outros, eles estavam condenados porque em seus corações possuíam motivações erradas.

A Lei de Deus exigia uma obediência que vinha de dentro pra fora. Não bastava fazer algo que fosse testemunhado pelos homens, na verdade o mais importante era que a motivação interna fosse glorificar a Deus e isso fosse externalizado para que outros também testemunhassem o ato genuíno de fé.

E naquele tempo, dentre os religiosos haviam aqueles que se esforçavam em demonstrar "ao público" que eram tementes a Deus e inclusive superiores devido à suas grandes devoções, mas que internamente estavam longe de conhecer a esse Deus.

E Cristo apontou dura e veementemente essa hipocrisia:
Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia.Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniquidade.
(Mateus 23:27:28)
Mas além de serem hipócritas quanto à obediência à Lei de Deus, eles acrescentavam a ela hábitos que deveriam ser seguidos, criando tradições com quais julgavam os demais.
Em certa ocasião eles questionaram a Cristo o motivo de seus discípulos não seguirem certas tradições, e ouviram:
E Ele, respondendo, disse-lhes: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim; em vão, porém, me honram, ensinando doutrinas que são mandamentos de homens. Porque, deixando o mandamento de Deus, retendes a tradição dos homens; como o lavar dos jarros e dos copos; e fazeis muitas outras coisas semelhantes a estas.E dizia-lhes: Bem invalidais o mandamento de Deus para guardardes a vossa tradição.
(Marcos 7:5-9)
É importante notar que Cristo não diz que esses religiosos estavam alterando, aprimorando ou adicionando algo ao que já era bom, mas sim que estavam invalidando o que Deus havia ordenado, colocando em troca o que homens resolveram determinar.

Ou seja, eram legalistas:
Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; eles, porém, nem com seu dedo querem movê-los;
(Mateus 23:4)
Além da própria hipocrisia, eles atrapalhavam a caminhada dos demais fazendo exigências que o próprio Deus não fez. Eles deturparam a verdadeira religião.

Exatamente o mesmo que fez a igreja católica romana em seu período de domínio religioso no mundo. Adaptaram e inseriram ensinos sem amparo bíblico, e ataram fardos pesados em todos aqueles que já se sentiam devedores perante Deus.

E assim, como reformadores combateram essa opressão em sua época, Jesus Cristo antes deles já havia condenado esse desvio de propósito, e foi a referência dos mesmos.

O capítulo 23 do livro de Mateus concentra vários "AIS" correspondentes aos alertas de Cristo sobre a gravidade dos atos desses grupos religiosos. Todo o capítulo apresenta exemplos da hipocrisia e iniquidade desses homens, e também os condena por serem pedra de tropeço para aqueles que desejavam ser sinceros servos de Deus.

Jesus não poupou palavras, e lhes deu o veredicto:
Serpentes, raça de víboras! como escapareis da condenação do inferno?
(Mateus 23:33)
Posteriormente, o apóstolo Paulo recorda aos crentes em Colossus que não deveriam se deixar levar por ensinos que não tivessem sua fonte nas Escrituras:
Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo CristoPorque nEle habita corporalmente toda a plenitude da divindade; 
(Colossenses 2:8,9)
Em Cristo está toda a plenitude da divindade. Nada deve ser considerado além daquilo que se baseia nas Suas palavras, no que Ele nos ensinou interpretando a Lei de Deus.

Mas, teria sido Cristo, além de um reformador da religião prática dos judeus, um reformador da própria Lei de Deus??

"Ouvistes que foi dito aos antigos"

Em Mateus 5:21-48, encontramos uma série de ensinos de Cristo em que Ele faz um contraste com aquilo que seus ouvintes estavam familiarizados e o que eles deveriam de fato praticar.
Por exemplo:
Ouvistes que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério.

Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela.
(Mateus 5:27,28)
Nesse trecho Jesus aponta para a proibição existente no 6º Mandamento, e explica a seus ouvintes que essa Lei moral não se referia apenas ao ato físico consumado de adultério, mas que a própria intenção no coração já caracterizava o pecado em si.
Com isso Ele não estava dizendo que o ato consumado e a intenção no coração sejam sinônimos, mas afastando a falsa ideia de que o erro estaria somente na consumação.

Apesar de alguns acreditarem que Jesus estivesse "reformando a Lei", percebemos que fato não há uma alteração do Mandamento, mas sim uma explicação mais esclarecedora, que possivelmente muitos não consideravam.
Uma prova clara de que tal noção não era uma novidade pode ser lida em Jó 31:9-10:
Se o meu coração se deixou seduzir por uma mulher, ou se eu armei traições à porta do meu próximo,
Então moa minha mulher para outro, e outros se encurvem sobre ela,
(Jó 31:9,10)
Nesse conhecido texto em que Jó clama por sua integridade, ele faz uma menção às suas 'intenções puras'. Revela que sequer cogitou em seu coração praticar tal pecado, nem sequer maquinou que algo se concretizasse..

Enfim, a ciência sobre o pecado começar no interior já existia milênio antes do dizeres de Cristo, mas Ele estava deixando isso mais claro do que nunca.
Da mesma forma ele trata outros conceitos, como o "olho por olho e o dente por dente". E deixa claro que tal aplicação não dizia respeito ao cristão comum (que deve ser apto a perdoar e confiar em Deus e nas autoridades), mas sim a autoridades instituídas por Deus para aquela função específica.
Enquanto reformador, Cristo não inseriu novidades (como os homens tem o hábito de fazer), mas justamente trouxe luz àquilo que Deus realmente havia deixado como instruções aos homens. 

Em todo o decorrer de Seu ministério, Jesus Cristo não alterou nem sequer aprimorou o que a Lei moral de Deus já ensinava aos judeus. O que Ele fez foi cumprir tudo o que a Lei exigia e Se tornar o próprio modelo para todos nós em relação a obediência.
Tanto é assim, que o grande novo mandamento que Ele nos deixou em relação ao Antigo Testamento, foi justamente que O imitássemos:
Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como Eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis. 
(João 13:34)
Cristo foi, é e será o único homem cumpridor de toda a Lei de Deus, e portanto é nosso modelo.


"Reformador de Vidas"

Muito mais que um reformador de costumes, Jesus Cristo é um reformador de almas.
Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus?

Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus.

E é o que alguns têm sido; mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito do nosso Deus.
(1 Coríntios 6:9-11)
Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo
(2 Coríntios 5:17)

Jesus Cristo é o único homem que pode transformar o coração de uma pessoa.
Através de Sua obra perfeita e salvadora, todos aqueles que nEle creem tem seus passados como escravos do pecado apagados perante Deus, e recebem a justiça de Cristo gratuitamente (Romanos 3:26). Mais ainda, os pecadores justificados passam por um processo de santificação, para que sejam gradativamente conformados à própria imagem de Cristo (Romanos 8:28-33).

SOLUS CHRISTUS!!

Muitas pessoas podem até servir de inspiração para que outras corrijam certos hábitos, mas somente Cristo dá um novo coração a um pecador, e com isso uma nova natureza disposta a se render a Deus.
Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie;Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas.
(Efésios 2:8-10)
Se você ainda não reconheceu Jesus Cristo como Senhor e Salvador da sua vida, e como único capaz de reformá-la para a glória do Pai e para o seu próprio bem, não deixe isso para o futuro. Busque-o enquanto é tempo. Dedique-se em conhecê-lO.


"Reformador da Criação"

Por fim, Cristo é também o grande reformador de toda a Criação.

Ele participou do gênesis do universo e também é o responsável pelos novos céus e nova terra, a nova criação.
No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada do que foi feito se fez.
(João 1:1-3)
Dando graças ao Pai que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz; O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do Seu amorEm quem temos a redenção pelo Seu sangue, a saber, a remissão dos pecados; O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; Porque nEle foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por Ele e para EleE Ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por Ele.
(Colossenses 1:12-17)

E o que estava assentado sobre o trono disse: Eis que faço novas todas as coisas. E disse-me: Escreve; porque estas palavras são verdadeiras e fiéis.
(Apocalipse 21:5)

Ele é o Alfa e o Omega, Sustentador na nossa existência (Atos 17:28).

Tudo foi criado para Ele, e por Ele a Criação será regenerada e purificada.

A Criação foi contaminada pelo pecado e será "reformada", e a nós cabe esperar pela transformação plena realizada por Ele a fim de vivermos nesse paraíso.
Mas o dia do Senhor virá como o ladrão de noite; no qual os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se desfarão, e a terra, e as obras que nela há, se queimarão.Havendo, pois, de perecer todas estas coisas, que pessoas vos convém ser em santo trato, e piedade,Aguardando, e apressando-vos para a vinda do dia de Deus, em que os céus, em fogo se desfarão, e os elementos, ardendo, se fundirão?Mas nós, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra, em que habita a justiça.
(2 Pedro 3:10-13)

CONCLUSÃO

Jesus Cristo foi, é e será o maior dos Reformadores.
Em Seu ministério foi o modelo de como o ser humano deve ser e agir, e ativamente se opôs à deturpação cometida pelos religiosos de sua época em relação à Lei que Ele veio cumprir e interpretar.
Mas mais do que isso, Ele tem o poder pleno e soberano de transformar vidas, e ser o grande restaurador da Criação.

Não há como comparar qualquer outro ser humano a Cristo.
E os próprios reformadores do século XVI concordariam com João Batista (Marcos 1:7) que nenhum deles estaria sequer apto a descalçar a sandália dEle.

Então acima de qualquer outra lembrança no mês da Reforma, celebre a Cristo!!


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