“Este cálice é a nova aliança no meu sangue.”
— Lucas 22:20
Entre igrejas evangélicas modernas, tornou-se comum substituir o vinho da Ceia por suco de uva. Quase sempre a motivação é apresentada como pastoral: evitar tropeço, escândalo ou recaída de pessoas com histórico de alcoolismo. O objetivo pode ser legítimo; a questão é se a solução adotada é teologicamente coerente.
O debate não é “gosto pessoal” nem “cultura”. Ele toca o coração do pensamento reformado: o que Cristo instituiu no culto pode ser alterado por conveniência prudencial?
1) Qual é exatamente a pergunta?
A pergunta não é se a igreja deve ter cuidado pastoral com pessoas vulneráveis. A pergunta é esta:
A substituição permanente do vinho por suco
é uma circunstância de administração
(onde há liberdade cristã)
ou é uma alteração do elemento sacramental
(onde a igreja não tem autoridade)?
Em termos reformados: estamos tratando de elemento ou de circunstância? Esta distinção é decisiva.
2) Texto bíblico: “fruto da vide” significa suco?
Nos relatos da instituição, Jesus fala do cálice como “fruto da vide”:
“Não beberei, desde agora, deste fruto da vide...”
— Mateus 26:29
A expressão não foi inventada em laboratório moderno. Ela pertence ao contexto pascal do século I. Na celebração judaica, o “fruto da vide” no cálice era, de forma ordinária, vinho — a bebida ritual usada em refeições festivas e solenidades de aliança. A leitura “suco não fermentado” é uma redefinição moderna que não nasce do texto, mas de uma preferência posterior.
Além disso, o Novo Testamento trata o vinho como realidade concreta, inclusive ao condenar a embriaguez. A própria existência das advertências morais pressupõe que se trata de vinho real, não de um líquido inofensivo.
3) Nota lexical: oinos (οἶνος) e a ausência de ambiguidade estável
O termo regular para vinho no grego do NT é oinos (οἶνος). Ele designa vinho propriamente dito — a bebida comum do Mediterrâneo antigo, produzida da uva e normalmente fermentada. Quando o NT fala de vinho em contextos de advertência moral, diaconia e vida comunitária, o vocabulário não sugere uma categoria paralela estável de “suco não fermentado”.
“E não vos embriagueis com vinho...”
— Efésios 5:18
O ponto aqui não é “o vinho é sempre bom”. O ponto é: o elemento sacramental não é ambíguo. Cristo não institui um sinal que dependeria de séculos futuros para ser “clarificado”.
4) Princípio Regulador do Culto: elementos e circunstâncias
O Princípio Regulador do Culto (PRC) afirma, em essência, que a igreja só pode introduzir no culto aquilo que Deus ordenou. Isso inclui a convicção de que, nos sacramentos, Cristo determina os sinais.
Assim, a tradição reformada distingue:
- Elementos: aquilo que pertence à substância do ato ordenado (no caso, pão e vinho no sacramento).
- Circunstâncias: aspectos de ordem e administração (recipiente, logística, quantidade, horário, forma de distribuição, etc.).
Trocar vinho por suco, em regra, não é “ajuste logístico”. É troca de substância, logo, altera o elemento. Isso é precisamente o tipo de mudança que o PRC busca evitar: a passagem do “Cristo instituiu” para o “a igreja julgou mais prudente”.
Em resumo:
prudência governa o “como” administrar;
instituição governa o “o quê” administrar.
5) Simbolismo bíblico: por que vinho importa?
O vinho, na Escritura, aparece com um simbolismo pactual consistente: alegria legítima, bênção, festa de aliança e até mesmo imagens escatológicas de abundância. O problema bíblico nunca é o vinho em si, mas o abuso.
“O vinho que alegra o coração do homem.”
— Salmo 104:15
Substituir o vinho por suco tende a achatar esse campo simbólico, como se o cálice fosse apenas “algo de uva”. Mas o sinal sacramental trabalha com linguagem pública e com símbolos já estabilizados no uso bíblico.
6) Objeção comum: “Se o vinho deve ser preservado, por que o pão não precisa ser ázimo?”
Uma objeção recorrente afirma: se defendemos que o vinho deve ser mantido conforme o contexto da instituição, então deveríamos também exigir que o pão seja exclusivamente ázimo, como na Páscoa (Êxodo 12). Se o pão pode variar, por que o vinho não?
A resposta está na distinção entre circunstância histórica e significado sacramental essencial. Na noite da instituição, o pão era ázimo porque a refeição era pascal. Entretanto, quando o Novo Testamento trata da Ceia fora do contexto pascal, ele utiliza o termo comum artos (pão), sem especificar ausência de fermento (1 Coríntios 10:16; 1 Coríntios 11:23–26).
O foco apostólico não recai sobre a composição química do pão, mas sobre seu significado como corpo partido e alimento que sustenta. Pão fermentado ou não fermentado continua sendo pão; o estado do fermento não altera a natureza do sinal.
Já no caso do cálice, a expressão “fruto da vide” no contexto judaico designava o vinho usado na celebração. Não se trata de mero detalhe acidental. O vinho possui um campo simbólico consistente na Escritura — alegria pactual, bênção, celebração de aliança — que não é transportado automaticamente para qualquer líquido de uva.
No pão, a variação não altera a substância do sinal.
No cálice, a substituição altera a substância do elemento.
Portanto, a distinção não é arbitrária. Ela repousa na pergunta decisiva do Princípio Regulador: o que pertence à essência instituída do sinal, e o que pertence apenas à circunstância histórica da noite pascal?
7) Evidência histórica: por que a controvérsia é moderna?
A substituição sistemática do vinho por suco não é uma marca original do cristianismo confessional reformado. Ela se torna mais comum em contextos modernos associados a movimentos de temperança dos séculos XIX–XX, quando o álcool passou a ser tratado, em certos meios, como mal absoluto.
Na prática reformada clássica, os elementos foram recebidos como pão e vinho. A controvérsia “vinho × suco” é, em grande parte, um produto de sensibilidades culturais recentes, não uma exigência do texto bíblico.
8) Objeção pastoral: e o alcoolismo?
O cuidado pastoral é real: há pessoas em alto risco, e a igreja não deve ignorar fraquezas nem tratar vícios com leveza. A questão é o tipo de solução.
Em vez de alterar o elemento sacramental como norma permanente, existem medidas prudenciais que preservam o sinal:
- Porções mínimas (quantidade muito pequena no cálice);
- Acompanhamento pastoral e disciplina amorosa;
- Orientação prévia e cuidado na administração;
- Exceções extraordinárias, quando inevitáveis, tratadas como exceção — não como redefinição da norma.
A igreja pode e deve ser sábia nas circunstâncias. Mas precisa ser fiel nos elementos. Caso contrário, o sacramento passa a ser remodelado por pragmatismo, e não governado pela instituição de Cristo.
9) Conclusão: como decidir com fidelidade e caridade
A pergunta “vinho ou suco?” não é meramente dietética. Ela é uma pergunta sobre autoridade no culto. Se Cristo instituiu pão e vinho, a igreja deve preservar o sinal com reverência, aplicando prudência nas circunstâncias e caridade no cuidado pastoral.
Fidelidade sacramental e cuidado pastoral não são inimigos:
o caminho reformado busca honrar ambos, sem alterar aquilo que o Senhor instituiu.
CONCLUSÃO FINAL
A igreja não deve transformar a Mesa em arena de vaidade teológica, nem tratar a instituição de Cristo como detalhe flexível. Uma prática madura preserva os elementos conforme a ordem do Senhor, rejeita a superstição e também rejeita o pragmatismo que redefine o sinal. Onde há fraqueza, há cuidado; onde há instituição divina, há reverência.