quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

John Knox, a Reforma Escocesa e o Nascimento do Presbiterianismo

Conflito, Palavra e Igreja Governada por Deus

John Knox nasceu por volta de 1514, na Escócia, em um contexto profundamente marcado pela hegemonia do catolicismo romano e pela dependência política da França.[1] Formado inicialmente dentro da estrutura religiosa tradicional, Knox não surge como revolucionário por temperamento, mas como alguém confrontado pela autoridade das Escrituras em um país onde a igreja havia se tornado distante do povo, corrompida e subordinada a interesses externos. A partir desse choque entre Palavra e realidade, forma-se o reformador que daria identidade duradoura à igreja escocesa.

Este texto não busca uma biografia detalhada, mas apresentar a obra histórica e eclesiástica de Knox, seus embates, o contexto da Escócia, a origem do presbiterianismo e sua continuidade confessional até a Confissão de Westminster, incluindo sua visão sobre monarquia e autoridade civil, tema central de sua atuação.


1. A Escócia antes da Reforma: crise espiritual e dominação

No século XVI, a Escócia vivia uma combinação explosiva:

  • uma igreja rica e politicamente poderosa
  • clero amplamente desacreditado
  • povo sem acesso real às Escrituras
  • bispos nomeados por interesses políticos
  • submissão direta a Roma e à influência francesa

A igreja era percebida como estrangeira não apenas por sua ligação formal com Roma, mas porque sua estrutura parecia responder mais aos interesses de clãs, bispados e alianças internacionais do que às necessidades espirituais do povo. Era vista como opressiva porque concentrava poder, propriedades e privilégios, ao mesmo tempo em que mantinha o acesso às Escrituras e ao ensino bíblico em níveis mínimos. E era tomada como alheia à vida comum porque, para grande parte da população, a religião institucional se confundia com ritos, taxas, mediações e uma hierarquia distante — mais preocupada em preservar sua autoridade do que em reformar costumes e pregar o evangelho com clareza.

Nesse cenário, a Reforma não foi apenas um debate teológico entre especialistas: ela se tornou uma controvérsia pública sobre quem tem o direito de governar a consciência, quem define o culto e de onde vem a autoridade espiritual legítima. Por isso, a ruptura reformada foi compreendida como um retorno necessário à Palavra e, ao mesmo tempo, como um confronto inevitável com um sistema religioso que muitos já consideravam ilegítimo — por ter substituído o evangelho por uma máquina de poder, tradição e controle.

2. Um reformador forjado no conflito

Diferente de reformadores ligados principalmente à academia, Knox foi moldado pela violência religiosa. Ele foi perseguido, exilado e aprisionado, chegando a servir como remador forçado em galés francesas.[1] Essa experiência consolidou uma convicção central de sua teologia:

“Prefiro enfrentar a morte do que submeter minha consciência à tirania de homens que falam em nome de Deus sem mandato divino.”[2]

Para Knox, tirania espiritual e falsa autoridade religiosa eram inimigas diretas do evangelho.


3. A Palavra de Deus como autoridade suprema

No centro de toda a obra de Knox está a supremacia absoluta das Escrituras. Ele afirma de forma contundente:

“A Palavra de Deus é tão clara em si mesma que não necessita da aprovação de homens ou de anjos.”[3]

E ainda:

“Tudo o que não é ordenado por Deus em Sua Palavra é idolatria, ainda que pareça bom aos olhos dos homens.”[4]

Aqui se encontra o fundamento do Princípio Regulador do Culto, que marcaria definitivamente o presbiterianismo: a igreja só pode praticar no culto aquilo que Deus ordenou.


4. Embates com Roma: teologia e culto

Knox não via o catolicismo romano apenas como uma tradição diferente, mas como um sistema que obscurecia o evangelho. Seus principais ataques concentravam-se em:

  • a missa como sacrifício contínuo
  • a mediação sacerdotal
  • a autoridade papal
  • o culto imagético
  • a hierarquia episcopal

Para ele, esses elementos:

  • negavam a suficiência de Cristo
  • aprisionavam a consciência
  • substituíam a Palavra por tradição

Esses confrontos não eram abstratos. Ser reformado na Escócia era perigoso, e a pregação reformada frequentemente levava a conflitos públicos.


5. Conflito com a monarquia e o poder civil

Knox também confrontou o poder político quando este tentou governar a igreja. Seu embate mais conhecido foi com Maria, Rainha da Escócia, monarca católica convicta.[5]

Knox afirmava que:

“Os reis são feitos para servir à glória de Deus e ao bem do povo; quando promovem idolatria, perdem a legitimidade diante do Senhor.”[6]

Ele rejeitava a ideia de direito divino irrestrito dos reis. O magistrado civil é legítimo apenas enquanto exerce seu ofício sob a Lei de Deus, sem usurpar o governo espiritual da igreja.

Essa visão moldou uma das marcas mais duradouras do presbiterianismo: a distinção clara entre autoridade civil e autoridade eclesiástica.


6. A posição de Knox sobre autoridades femininas

Um dos pontos mais controversos de seu pensamento aparece em seu tratado:

The First Blast of the Trumpet Against the Monstrous Regiment of Women[7]

Nele, Knox escreve:

“Promover uma mulher ao domínio civil supremo é repugnante à natureza, contrário à Escritura e subversivo da boa ordem estabelecida por Deus.”[7]

Algumas observações essenciais:

  • Knox discute ordem normativa, não capacidade individual
  • sua argumentação se baseia na criação, na Escritura e na tradição cristã pré-moderna
  • sua posição é política e teológica, não meramente pessoal

A Confissão de Westminster não adota essa posição explicitamente, mostrando que o presbiterianismo histórico não canonizou e repetiu ipsis literis todas as opiniões políticas de Knox.[8][9][10]


7. A Reforma Escocesa e o nascimento do presbiterianismo

A Reforma escocesa não nasce como uma reorganização “suave” do catolicismo, mas como uma mudança estrutural: doutrina, culto e governo precisavam ser reconstruídos à luz das Escrituras. Em 1560, sob liderança direta de Knox, o parlamento escocês rompe com Roma, rejeita a autoridade papal e aprova uma confissão reformada. Surge então a Igreja da Escócia.[11]

Esse nascimento não pode ser entendido sem o clima de tensão do período. A Escócia estava no centro de disputas internas e externas: nobres com interesses divergentes, pressões diplomáticas e a constante tentativa de se manter uma religião oficial em um país onde a pregação reformada já havia se tornado um fator de mobilização popular. Nesse cenário, a Reforma não era uma “opinião” privada — ela implicava leis, alianças, perseguições e, muitas vezes, a própria segurança de quem pregava e de quem ouvia.

O presbiterianismo nasce, portanto, não apenas como “uma forma de organização”, mas como uma resposta consciente a dois perigos concretos:

  • a tirania eclesiástica, quando uma hierarquia se torna intocável e governa a fé do povo por decretos;
  • a tirania civil sobre a igreja, quando o Estado tenta determinar o culto, controlar a disciplina e domesticar a pregação.

Suas marcas centrais se consolidam como princípios de sobrevivência e fidelidade:

  • governo por presbíteros (não por bispos): a igreja é conduzida por oficiais chamados, examinados e reconhecidos, em vez de uma cadeia de poder baseada em status;
  • decisões colegiadas: concílios e assembleias funcionam como freio contra personalismos, reduzindo o risco de “papas locais” e de arbitrariedade;
  • culto regulado pela Escritura: a adoração deixa de ser palco de invenções religiosas e passa a ser governada por elementos bíblicos;
  • disciplina eclesiástica: a igreja assume responsabilidade pastoral real, tratando pecado, escândalo e reconciliação de modo ordenado;
  • catequese e educação ampla: formar o povo passa a ser parte do projeto reformado, para que a fé não dependa de “especialistas”, mas seja ensinada e confessada pela comunidade.

Dessa forma, o presbiterianismo se torna um modelo em que a igreja é “livre” não porque é autônoma ou indiferente ao mundo, mas porque é submetida à Palavra — e, por isso, protegida tanto contra a religião como instrumento de dominação quanto contra o Estado como senhor do culto. O que surge na Escócia não é apenas uma igreja “reformada” no nome, mas uma igreja confessional, disciplinada e governada por princípios bíblicos, preparada para atravessar crises sem abandonar sua identidade.


8. De Knox à Confissão de Westminster: continuidade confessional

Cerca de oitenta anos depois, a tradição escocesa influencia diretamente a Assembleia de Westminster (1643–1649), que produz a Confissão de Fé de Westminster.[8]

Westminster não surge do nada; ela amadurece teologicamente aquilo que Knox já havia estruturado na prática:

  • Supremacia das Escrituras (WCF I)[9]
  • Governo presbiteriano (WCF XXX–XXXI)[8]
  • Disciplina eclesiástica (WCF XXX)[8]
  • Limites do poder civil sobre a igreja (WCF XXIII)[10]

A Confissão sistematiza, com maior precisão, os princípios que Knox defendeu em meio a conflitos reais.


9. O legado de John Knox

John Knox não foi um reformador confortável, nem politicamente neutro. Seu tempo exigia escolhas nítidas: ou a igreja seria governada por Cristo, mediante Sua Palavra, ou seria governada por uma combinação de tradição, interesses e poder. Seu legado, portanto, não está em seu temperamento, mas em sua convicção central: a Reforma não pode sobreviver como “clima” ou “movimento”; ela precisa de forma — isto é, doutrina, culto e governo definidos biblicamente.

Por isso, Knox não tratou a Reforma como um mero ajuste de linguagem teológica, mas como uma reconstrução pública da vida eclesiástica. Ele sabia que, se a igreja não tivesse um eixo objetivo — Escritura acima de homens, culto regulado por mandamento divino, oficiais submetidos a disciplina e decisões colegiadas — ela voltaria rapidamente a ser dominada por:

  • hierarquias que blindam a si mesmas;
  • rituais que substituem o evangelho por aparência de piedade;
  • alianças políticas que compram silêncio e domesticam a pregação.

Seu legado também aparece no tipo de coragem que marcou a Reforma escocesa: coragem não de “gênio individual”, mas de alguém que entende que a consciência cristã não pode ser governada por decretos humanos. O confronto com autoridades civis e religiosas não era, para Knox, uma busca por conflito, mas uma consequência inevitável de afirmar que Cristo é o único Cabeça da Igreja. Quando essa afirmação é levada a sério, ela entra em choque tanto com o episcopalismo hierárquico quanto com qualquer tentativa do Estado de determinar o culto e a doutrina.

Mesmo onde suas posições são hoje contestadas, permanece sua contribuição decisiva: a formação de uma igreja confessional, governada pela Palavra, protegida contra tiranias religiosas e políticas e estruturada para atravessar gerações. Knox ajudou a imprimir na Escócia a ideia de que a fé cristã não é apenas crença interior: ela possui expressão institucional inevitável — e essa expressão deve ser reformada, ordenada e examinada continuamente à luz das Escrituras.

Em última análise, sua herança pode ser resumida assim: a Reforma só sobrevive quando possui doutrina, governo e disciplina bíblicos.


Conclusão

John Knox foi um reformador moldado pelo conflito porque viveu em tempos de ruptura profunda. Seus embates com Roma, com a monarquia e com a cultura religiosa de seu tempo não foram episódios periféricos, mas o ambiente histórico concreto no qual se tornou evidente a necessidade de uma igreja reformada não apenas na doutrina, mas também no culto e no governo. Foi nesse terreno de tensão que o presbiterianismo tomou forma como resposta consciente à corrupção e à tirania, tanto eclesiástica quanto civil.

Da Escócia do século XVI à Confissão de Westminster do século XVII, o fio condutor permanece o mesmo: a convicção de que a igreja só pode permanecer fiel quando sua autoridade não deriva de homens, tradições ou alianças políticas, mas da Palavra de Deus. A herança de Knox não está em cada uma de suas posições particulares, mas na estrutura que ajudou a consolidar — uma igreja confessional, governada por princípios bíblicos e protegida contra a repetição dos abusos que tornaram a Reforma necessária.

Assim, a Reforma escocesa não deve ser lida apenas como um capítulo da história, mas como um testemunho permanente de que a fé cristã possui expressão pública inevitável. Quando essa expressão é ordenada pela Escritura, ela produz uma igreja capaz de atravessar gerações sem perder sua identidade.

Cristo é o único Cabeça da Igreja, e Sua Palavra é a única regra infalível de fé, culto e governo.



Notas e referências bibliográficas

  1. Visão geral cronológica (datas, eventos, contexto): “John Knox” (Wikipedia).
  2. Sobre “consciência”, “tirania” e apelo às Escrituras (base para a síntese do parágrafo do item 2): KNOX, John. “Letter to the Commonalty of Scotland” (1558).
  3. Autoridade/suficiência das Escrituras (Knox afirma que recantará se não provar por Escritura): KNOX, John. A Vindication of the Doctrine that the Sacrifice of the Mass is Idolatry (1550).
  4. Citação literal do Princípio Regulador em Knox (“All worshipping... is idolatry”): KNOX, John. A Vindication... (1550).
  5. Embate com Maria Stuart + frase sobre a missa (“One Mass ... more fearful...”): KNOX, John. “A First Interview with Queen Mary” (1561).
  6. Magistrado civil, idolatria e responsabilidade pública (base para síntese sobre reis e “legitimidade”): KNOX, John. History of the Reformation of Religion in Scotland (CCEL).
  7. Autoridades femininas (citação direta do tratado): KNOX, John. The First Blast of the Trumpet Against the Monstrous Regiment of Women (1558) (Project Gutenberg).
  8. Texto da Confissão de Westminster (edição PDF; útil para WCF 1.6, caps. XXX–XXXI, etc.): The Westminster Confession of Faith (1646).
  9. WCF 1.6 (forma textual em acesso aberto; “whole counsel of God”): Westminster Confession — cap. 1, seção 6.
  10. WCF 23.3 (magistrado civil não administrar Palavra/sacramentos; limites do poder civil): WCF — Chapter 23 (A Puritan’s Mind).
  11. Reforma escocesa e atos do Parlamento (Agosto de 1560) aprovando a Confissão Escocesa e rejeitando a autoridade do papa: Church of Scotland — “History” (The Reformation of 1560).

Bibliografia sugerida (para aprofundamento)

  • KNOX, John. A Vindication of the Doctrine that the Sacrifice of the Mass is Idolatry (1550). Texto em acesso aberto: SWRB (link nas notas).
  • KNOX, John. The First Blast of the Trumpet Against the Monstrous Regiment of Women (1558). Texto em acesso aberto: Project Gutenberg (link nas notas).
  • KNOX, John. History of the Reformation of Religion in Scotland. Texto em acesso aberto: CCEL (link nas notas).
  • WESTMINSTER ASSEMBLY. The Westminster Confession of Faith (1646). Texto em acesso aberto: PRTS PDF (link nas notas).