sábado, 21 de fevereiro de 2026

O Aliancismo Reformado e a Teologia da Nova Aliança (TNA)

“Porque a Lei foi dada por meio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo.”João 1:17

Nota: João 1:17 não contrasta “Lei má” vs “graça boa”, mas a economia mosaica como administração histórica, em contraste com a consumação em Cristo (plenitude, encarnação e cumprimento).

A chamada Teologia da Nova Aliança (TNA; em inglês, New Covenant Theology) é um movimento relativamente recente, surgido sobretudo em círculos batistas de tradição reformada, com a intenção de enfatizar que toda a Escritura deve ser lida à luz do cumprimento escatológico em Cristo e de sua Nova Aliança. Em geral, seus próprios representantes descrevem a TNA como uma proposta que tenta ocupar um espaço intermediário entre a ênfase de continuidade da teologia pactual clássica e a ênfase de descontinuidade de formas de dispensacionalismo. :contentReference[oaicite:0]{index=0}

Em si mesma, a intenção de “cristocentrismo” e de leitura canônica é correta e necessária. O problema é que, em muitas formulações, a TNA faz isso não por intensificar a teologia pactual reformada, mas por reconfigurar pilares estruturais dela — especialmente: (1) a unidade orgânica das administrações da aliança da graça; (2) a permanência normativa da lei moral; e (3) a doutrina da igreja visível com seus princípios de inclusão pactual e discipulado intergeracional.

Importante Sem caricaturas

“TNA” não é um bloco monolítico: há autores mais moderados e outros mais radicais. A crítica abaixo visa os traços recorrentes mais característicos, especialmente na tradição popularizada por autores como Tom Wells, Fred Zaspel e John Reisinger, amplamente associados ao rótulo.


1) O que a TNA defende?

De forma resumida, a Teologia da Nova Aliança costuma afirmar (com variações internas) que:

  • A Nova Aliança é qualitativamente “nova” em relação às alianças anteriores e funciona como o eixo hermenêutico final para ler toda a Escritura (especialmente a lei mosaica e suas exigências).

  • A aliança mosaica (como pacto legal nacional) chegou ao seu término em Cristo; e, em muitas versões da TNA, isso inclui afirmar que o Decálogo, enquanto “documento pactual” do Sinai, não permanece como código do crente hoje.

  • O cristão vive sob a “Lei de Cristo” (nomos tou Christou; cf. Gálatas 6:2), entendida como o conjunto de exigências éticas do Novo Testamento, derivadas do ensino apostólico e do exemplo de Cristo.

  • A Nova Aliança é composta somente por regenerados; por isso, os filhos de crentes não devem ser tratados como membros da comunidade visível da aliança (o que normalmente se traduz em rejeição ao batismo infantil e à linguagem de “sinal e selo”).

  • A igreja é uma realidade escatológica nova e, em certas formulações, a continuidade formal com Israel (como “um mesmo povo pactual em administrações distintas”) é atenuada ou negada.

Autores frequentemente associados à TNA incluem Tom Wells e Fred Zaspel (em obras introdutórias e de defesa), além de John Reisinger (em textos populares sobre lei/aliança).


2) Quadro comparativo (TNA x Aliancismo Reformado)

Elemento
Teologia da
Nova Aliança (TNA)
Aliancismo Reformado
(pactual clássico)
Unidade da
aliança da graça
Frequentemente
enfraquecida:
a Nova Aliança é
“um tipo novo”
que rompe com
estruturas anteriores.
Afirmada:
uma única aliança da graça,
administrada progressivamente
(promessa → tipos → cumprimento).
Aliança
abraâmica
Em muitas versões,
não é vista como
administração direta
da mesma
aliança da graça
(e sua continuidade
pode ser minimizada).
Base estrutural:
Abraão recebe promessas
que se desdobram até Cristo
(cf. Gênesis 12; 15; 17 e Gálatas 3).
Lei mosaica
e Decálogo
“Antiga aliança”
encerrada;
o Decálogo
pode ser tratado
como pertencente
ao pacto do Sinai,
não como regra
normativa direta.
Distinções clássicas:
a lei moral
(sumariada no Decálogo)
permanece;
leis cerimoniais expiraram;
leis civis cessaram quanto à forma,
permanecendo
o princípio de justiça.
Lei de Cristo Ética “do NT”
como norma final,
em contraste com
o Decálogo como código.
Lei moral aplicada e
intensificada em Cristo;
o NT não substitui a moral,
mas a expõe,
aprofunda e internaliza.
Inclusão
dos filhos
Excluídos da
membresia pactual
(com sinais e
disciplina pactual).
Filhos como membros visíveis
(distinguindo igreja
visível/invisível;
sinais pactualmente aplicados).
Continuidade
com Israel
Frequentemente
negada em termos
de uma mesma
identidade pactual
histórica.
Igreja como continuidade
do povo pactual
(uma só oliveira, uma só fé,
um só Mediador; cf. Romanos 11;
“Israel de Deus”, Gálatas 6:16).

3) Onde a TNA entra em tensão com a teologia reformada?

3.1) Tensão com a unidade orgânica da Escritura

O aliancismo reformado não afirma uma “mesmice” entre as alianças, mas uma unidade progressiva: promessa (Gênesis), figura e pedagogia (Moisés), e cumprimento (Cristo). Quando a TNA descreve a Nova Aliança como tão “outra” que rompe o fio das administrações anteriores, o Antigo Testamento tende a virar apenas “pré-história” sem função estrutural para a identidade pactual do povo de Deus.

O próprio Cristo, porém, lê toda a Escritura como um testemunho que converge para Ele — não como um arquivo de uma “aliança superada” sem continuidade, mas como a história real do mesmo Deus salvando pela mesma promessa, agora revelada plenamente: Lucas 24:27; e a inspiração e utilidade de toda a Escritura para a igreja: 2Timóteo 3:16.

3.2) Risco de “anular” a lei moral (não apenas o pacto do Sinai)

É correto dizer que o crente não está “sob Moisés” como aliança nacional e que certas formas legais expiraram (especialmente o cerimonial). O ponto crítico é quando, na prática, a TNA passa do fim da aliança mosaica para a perda de normatividade do próprio conteúdo moral sumariado no Decálogo.

Jesus não trata o Decálogo como “código obsoleto”: Ele o cita, aprofunda e expõe o alcance interno (coração, intenção, desejo), e descreve sua missão como cumprimento, não revogação: Mateus 5:17–19. Paulo, por sua vez, rejeita a ideia de que a fé esvazia a lei: Romanos 3:31, e descreve a lei como santa, justa e boa: Romanos 7:12.

Alguns autores de TNA argumentam que o Decálogo é chamado de “covenant” no AT e, por isso, deve ser considerado parte do pacto do Sinai. Isso pode ser verdadeiro quanto ao papel histórico do Decálogo como “documento pactual” da antiga administração — mas não implica, por si só, que o conteúdo moral tenha deixado de refletir a justiça imutável de Deus. :contentReference[oaicite:4]{index=4}

3.3) Exclusão dos filhos e fragilização do discipulado intergeracional

A TNA costuma afirmar que a Nova Aliança tem uma membresia exclusivamente regenerada. O aliancismo reformado faz uma distinção clássica: igreja invisível (os eleitos, regenerados) e igreja visível (a comunidade pactual, com sinais, ensino e disciplina). A Escritura reconhece que há, no âmbito visível, mistura e responsabilidade real (cf. advertências de apostasia, disciplinas e exortações).

Por isso, a inclusão dos filhos na esfera pactual visível não é uma “confusão” entre regeneração e membresia, mas um princípio de administração: Deus trabalha por meios, promessas, sinais e ensino familiar. Textos-chave para esse horizonte incluem: Gênesis 17:7 (promessa pactual e descendência), Atos 2:39 (promessa para “vós e vossos filhos” no anúncio público do evangelho), e 1Coríntios 7:14 (categoria de “santidade” pactual/relacional, distinta de regeneração).

3.4) Enfraquecimento da vocação pública da fé (ética, justiça e cultura)

Quando a moral cristã é reduzida, na prática, a um “código do Novo Testamento” sem continuidade orgânica com a lei moral revelada antes, a ética tende a ficar minimalista e reativa: confia-se apenas em enunciados explícitos do NT, em vez de reconhecer a coerência moral de toda a revelação (incluindo sabedoria, princípios de justiça, categorias de culpa, restituição, proporcionalidade etc.).

Em linhas teonômicas (ou, mais amplamente, em leituras reformadas que insistem na relevância pública da lei moral), isso é visto como uma perda: a igreja deixa de formar consciências e magistraturas com uma gramática moral robusta. Mesmo quem não adota a teonomia em sentido estrito geralmente reconhece que a fé cristã não é só “interior”, mas tem implicações públicas de justiça e misericórdia (cf. Mateus 5:13–16).


4) “Lei de Cristo”: substituição ou aplicação renovada?

A expressão “Lei de Cristo” (cf. Gálatas 6:2) é verdadeira e preciosa. O debate é o que ela significa. No modelo reformado, a Lei de Cristo não é um código “desconectado” do padrão moral anterior, mas a lei moral sob a mediação do Messias: a mesma justiça, agora aplicada com clareza escatológica, com profundidade interna e com poder santificador pelo Espírito.

Mateus 5:17 (“cumprir”) não significa apenas “encerrar”, mas trazer à sua meta: Cristo cumpre a lei como (1) obediente perfeito, (2) intérprete definitivo, e (3) aquele em quem a lei alcança seu telos (finalidade) redentivo.

Isso explica por que o NT pode afirmar simultaneamente: (a) o fim da antiga administração (“antiga aliança” como pacto nacional com suas ordenanças cerimoniais e fronteiras), e (b) a confirmação da lei moral, agora escrita no coração (cf. promessa da Nova Aliança em Jeremias 31:31–34, retomada em Hebreus 8).

Em literatura acadêmica, a própria descrição de TNA como tentativa de “combinar forças” de dispensacionalismo e teologia pactual aparece em introduções e panoramas sobre o tema. :contentReference[oaicite:5]{index=5}


5) Por que o modelo reformado tende a ser mais robusto?

Em termos sistemáticos e pastorais, o aliancismo reformado:

  • Preserva a unidade da revelação (promessa → tipologia → cumprimento), sem quebrar o fio pactual.

  • Reconhece a validade contínua da lei moral (não como “aliança mosaica”, mas como padrão de justiça de Deus, aplicado em Cristo).

  • Inclui os filhos na comunidade visível sem confundir regeneração com administração: sinais, ensino e disciplina caminham juntos.

  • Forma um discipulado integral (família, igreja e vida pública), evitando uma ética minimalista e fragmentada.

  • Sustenta esperança histórica (sem reduzir o reino a interioridade), com implicações reais para cultura, justiça e vocação.

Já a TNA, em suas versões mais típicas, tende a produzir uma fé “truncada” em três frentes: (1) um AT funcionalmente secundário; (2) um conceito estreito de norma moral; e (3) uma eclesiologia com menos recursos para discipulado intergeracional e para a leitura pactual das promessas.


Conclusão

A Teologia da Nova Aliança pode ser bem intencionada ao destacar a centralidade de Cristo e a glória do cumprimento escatológico. Contudo, ao reposicionar a Nova Aliança como uma ruptura estrutural com as administrações anteriores, e ao deslocar a lei moral de seu papel normativo (muitas vezes incluindo o Decálogo), ela entra em colisão com pilares do edifício reformado: a continuidade pactual, a lei moral como expressão da justiça eterna de Deus e a lógica intergeracional da comunidade visível.

O aliancismo reformado, por sua vez, oferece uma estrutura mais coerente com a forma como o NT lê o AT: Cristo não “apaga” a história pactual; Ele a cumpre. A lei não é descartada; ela é confirmada e escrita no coração. E a promessa de Deus não se torna menos familiar; torna-se mais luminosa: Ele continua sendo fiel “de geração em geração”.

No próximo capítulo, o foco será o papel da Lei de Deus na vida do povo pactual e como ela permanece válida como norma de justiça para indivíduos, famílias, igrejas e, em termos de princípios morais, para a vida pública.


Bibliografia essencial (para aprofundar)

A lista abaixo combina fontes representativas da TNA e referências clássicas/robustas do aliancismo reformado. Ajuste conforme seu recorte (presbiteriano, reformado continental, batista reformado pactual etc.).

Fontes representativas da Teologia da Nova Aliança (TNA)

  • WELLS, Tom; ZASPEL, Fred. New Covenant Theology: Description, Definition, Defense. (Obra frequentemente citada como apresentação e defesa do movimento.)
  • ZASPEL, Fred G. The New Covenant and New Covenant Theology. (Tratamento conciso com implicações hermenêuticas e eclesiológicas.)
  • REISINGER, John. What is New Covenant Theology? (ensaio popular; enfatiza Decálogo como “termos do pacto” do Sinai).
  • SWANSON, Dennis M.Introduction to New Covenant Theology”. (Panorama introdutório e caracterização da TNA como sistema recente.) :contentReference[oaicite:9]{index=9}

Referências clássicas e contemporâneas do Aliancismo Reformado

  • Confissão de Fé de Westminster (especialmente cap. 7 e 19) e Catecismo Maior (exposição do Decálogo).
  • CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã (lei, evangelho, unidade da Escritura).
  • URSINUS, Zacarias. Comentário ao Catecismo de Heidelberg (lei moral, gratidão, uso da lei).
  • ROBERTSON, O. Palmer. The Christ of the Covenants. (Síntese pactual muito usada no meio reformado.)
  • VOS, Geerhardus. Teologia Bíblica (estrutura redentivo-histórica: promessa e cumprimento).
  • HORTON, Michael. God of Promise / Introducing Covenant Theology (aliança e economia redentiva).

Dica editorial: se você quiser, eu adapto a bibliografia para o seu recorte (presbiteriano/continental ou batista reformado), e também posso formatar em padrão ABNT (autor, título, edição, local, editora, ano).