quinta-feira, 16 de abril de 2026

Função e Autoridade de Presbíteros e Diáconos

1. INTRODUÇÃO — OS OFÍCIOS NA IGREJA SEGUNDO A VISÃO REFORMADA

A tradição reformada sempre enfatizou que a estrutura da igreja não deve ser determinada por pragmatismo, tradição humana ou preferências culturais, mas pela revelação normativa das Escrituras. O governo eclesiástico, portanto, deve seguir aquilo que Deus estabeleceu em sua Palavra. Essa convicção está profundamente ligada ao princípio da Sola Scriptura, segundo o qual somente a Escritura possui autoridade final para ordenar a vida e a prática da igreja.

Entre as igrejas reformadas — especialmente na tradição presbiteriana — consolidou-se a compreensão de que o Novo Testamento institui dois ofícios ordinários e permanentes na igreja: o presbitério (ou presbíteros) e o diaconato. Essa distinção aparece de forma clara nas cartas apostólicas e foi sistematizada pelos reformadores do século XVI.

O ensino bíblico sobre esses ofícios aparece em várias passagens fundamentais, entre elas: Atos 6:1–6, Atos 14:23, Atos 20:17–28, Filipenses 1:1, 1 Timóteo 3:1–13 e Tito 1:5–9. Nessas passagens, o Novo Testamento apresenta uma estrutura ministerial ordenada, na qual presbíteros e diáconos possuem funções distintas, embora complementares.

Este estudo examinará a visão reformada clássica sobre esses ofícios, considerando a interpretação bíblica tradicional, a posição dos reformadores e o testemunho de teólogos reformados posteriores.

2. O OFÍCIO DE PRESBÍTERO NA IGREJA

O termo presbítero deriva do grego presbyteros, que significa “ancião”. No Novo Testamento, esse termo descreve líderes espirituais responsáveis pelo governo, ensino e cuidado pastoral da igreja. Em vários textos, os termos presbítero, bispo (episkopos) e pastor são usados de forma funcionalmente equivalente.1

Por exemplo, Paulo convoca os presbíteros da igreja de Éfeso em Atos 20:17, e logo depois afirma que o Espírito Santo os constituiu bispos para pastorear a igreja de Deus (Atos 20:28). Isso demonstra que as três funções descrevem o mesmo ofício sob perspectivas diferentes.

A autoridade dos presbíteros está fundamentada em sua responsabilidade de ensinar e governar a igreja. Paulo descreve os requisitos para esse ofício em 1 Timóteo 3:1–7 e Tito 1:5–9, enfatizando especialmente a capacidade de ensinar e defender a sã doutrina.

A Escritura também mostra que os presbíteros governam coletivamente a igreja local. Em Atos 14:23 lemos que Paulo e Barnabé “constituíram presbíteros em cada igreja”. Da mesma forma, Tiago instrui que os enfermos chamem “os presbíteros da igreja” (Tiago 5:14), evidenciando a pluralidade desse ofício.

Na tradição presbiteriana, os presbíteros são geralmente divididos em duas funções:

Função Descrição
Presbíteros docentes (pastores) Responsáveis pela pregação da Palavra
e administração dos sacramentos.
Presbíteros regentes Responsáveis pelo governo e disciplina da igreja
juntamente com os pastores.

Essa distinção baseia-se em 1 Timóteo 5:17, onde Paulo afirma que alguns presbíteros se dedicam especialmente à pregação e ao ensino.

3. O OFÍCIO DE DIÁCONO

O termo diácono vem do grego diakonos, que significa “servo” ou “ministro”. O diaconato surge no contexto de necessidade prática dentro da igreja primitiva. Em Atos 6:1–6, os apóstolos estabelecem homens responsáveis pela administração da assistência aos necessitados, para que eles próprios possam dedicar-se à oração e ao ministério da Palavra.

Embora o termo “diácono” não apareça explicitamente nesse texto, a tradição reformada reconhece essa passagem como o fundamento histórico do diaconato.2

A função principal dos diáconos é administrar as obras de misericórdia da igreja. Isso inclui o cuidado com os pobres, a organização da assistência social e a administração de recursos destinados à ajuda aos necessitados.

Paulo descreve os requisitos para esse ofício em 1 Timóteo 3:8–13, enfatizando características como dignidade, fidelidade e integridade moral.

A distinção entre presbíteros e diáconos aparece claramente em Filipenses 1:1, onde Paulo saúda “os bispos e diáconos”. Isso demonstra que ambos os ofícios coexistiam nas igrejas apostólicas.

4. O CASO DE FILIPE E O BATISMO DO EUNUCO

Uma questão frequentemente levantada na discussão sobre o diaconato é o episódio de Filipe e o eunuco etíope em Atos 8:26–39. Filipe, um dos sete escolhidos em Atos 6, anuncia o evangelho ao eunuco e o batiza após sua confissão de fé.

Alguns intérpretes utilizam esse texto para argumentar que diáconos podem administrar o batismo. Entretanto, a tradição reformada geralmente entende esse episódio como uma situação excepcional dentro do contexto apostólico.

Existem várias razões para essa interpretação:

  • Filipe também é chamado de “evangelista” em Atos 21:8.
  • O episódio ocorre durante a expansão missionária da igreja primitiva.
  • O contexto apostólico possuía circunstâncias extraordinárias.

Por essa razão, teólogos reformados clássicos sustentam que a administração ordinária dos sacramentos pertence ao ministério pastoral. João Calvino afirma que o batismo deve ser administrado por ministros devidamente ordenados.3

5. A QUESTÃO DAS DIACONISAS

Outro debate recorrente refere-se à existência de diaconisas na igreja primitiva. O principal texto citado nesse debate é Romanos 16:1, onde Paulo menciona Febe, descrita como “serva da igreja em Cencréia”.

A palavra utilizada no texto é diakonos, o que levou alguns intérpretes a sugerir que Febe exercia o ofício de diaconisa.

Entretanto, a interpretação reformada tradicional entende que o termo nesse contexto descreve um serviço ou ministério de ajuda, e não necessariamente um ofício formal.4

Outro texto frequentemente citado é 1 Timóteo 3:11, que menciona “mulheres” após a descrição dos diáconos. Alguns entendem que esse versículo se refere a diaconisas, enquanto outros interpretam que Paulo está se referindo às esposas dos diáconos.

Na tradição presbiteriana histórica, a posição predominante tem sido que o ofício ordenado de diácono é reservado a homens qualificados, seguindo o padrão estabelecido nas epístolas pastorais.

6. A INTERPRETAÇÃO LIBERAL CONTEMPORÂNEA

Nos últimos séculos, teólogos liberais passaram a reinterpretar os textos sobre liderança eclesiástica à luz de pressupostos culturais modernos, defendendo a ordenação indistinta de homens e mulheres para todos os ofícios da igreja.

Essa abordagem frequentemente parte de pressupostos hermenêuticos que relativizam a autoridade normativa das Escrituras, tratando as instruções apostólicas como condicionadas culturalmente.

A tradição reformada rejeita essa abordagem por considerá-la incompatível com o ensino bíblico sobre autoridade eclesiástica. Textos como 1 Timóteo 2:12 e 1 Coríntios 14:34 são entendidos como instruções normativas para a ordem da igreja.

Consequentemente, a interpretação liberal é vista por teólogos reformados como uma ruptura com a doutrina bíblica e com a prática histórica da igreja.5

7. POSIÇÕES DE REFORMADORES E TEÓLOGOS REFORMADOS DE DESTAQUE

A tradição reformada não tratou a questão dos ofícios eclesiásticos como um tema marginal, mas como parte da própria fidelidade da igreja à Palavra de Deus. Por isso, ao longo da história reformada, observa-se grande convergência quanto à distinção entre o ofício de presbítero e o de diácono, embora haja diferenças secundárias quanto à forma de aplicação e, em especial, quanto à questão das diaconisas.6

7.1. JOHN KNOX

John Knox, dentro da tradição escocesa que desembocaria no presbiterianismo clássico, defendeu uma ordem eclesiástica regulada pelas Escrituras e consolidada no First Book of Discipline. Nessa linha, o governo da igreja é exercido por ministros e presbíteros, enquanto o cuidado material dos necessitados pertence propriamente aos diáconos. A ênfase escocesa posterior, moldada por esse tronco knoxiano, desenvolveu fortemente a centralidade do presbitério e a distinção entre governo espiritual e serviço de misericórdia.7

7.2. MARTIN BUCER

Martin Bucer exerceu influência decisiva sobre a tradição reformada do ministério e da disciplina eclesiástica. Sua visão era fortemente pastoral e comunitária: a igreja precisava de ministros da Palavra, anciãos para vigilância e disciplina, e diáconos para o cuidado concreto dos pobres. Bucer foi um dos grandes arquitetos da ideia reformada de disciplina eclesiástica orgânica, e sua influência sobre Calvino e, indiretamente, sobre o presbiterianismo posterior é amplamente reconhecida pela historiografia da Reforma.8

7.3. FRANCIS TURRETIN

Francis Turretin, representando a ortodoxia reformada escolástica, sustentou a distinção entre os ofícios ordinários da igreja e tratou o governo eclesiástico como matéria regulada por instituição divina. Em sua linha, o ministério da Palavra e dos sacramentos não deve ser confundido com o ministério de socorro e administração material. Sua teologia reforça, portanto, a compreensão de que o diaconato não é um apêndice administrativo indistinto, mas um ofício real, embora diverso do presbiterato e do pastorado docente.9

7.4. HERMAN BAVINCK

Herman Bavinck descreve a política eclesiástica reformada como uma estrutura em que há distinção real entre pastores, presbíteros e diáconos. Ele observa que a tradição presbiteriana atribui funções distintas a esses ofícios, rejeitando tanto a concentração hierárquica romana quanto a dissolução congregacionalista da autoridade. Em Bavinck, o diaconato permanece ligado à misericórdia cristã, enquanto o presbitério está ligado ao governo e à supervisão espiritual da igreja.10

7.5. CHARLES HODGE

Charles Hodge, teólogo de Princeton e expoente do presbiterianismo norte-americano, defendeu a leitura clássica segundo a qual os presbíteros governam e ensinam, ao passo que os diáconos servem principalmente nas necessidades temporais da igreja. Em sua tradição, Romanos 16:1 não foi considerado prova conclusiva de um ofício feminino ordenado equivalente ao diaconato masculino; antes, o texto foi frequentemente entendido como podendo designar uma serva da igreja num sentido amplo, ou, no máximo, uma função auxiliar distinta do diaconato ordinário masculino.11

7.6. B. B. WARFIELD

Warfield é particularmente importante porque tratou diretamente da questão das deaconessas. Em seu estudo sobre o tema, ele admitiu que a ideia de uma deaconess possui algum lastro bíblico, especialmente em Romanos 16:1, mas enfatizou que o fundamento textual é extremamente limitado. Ao mesmo tempo, Warfield rejeitou ler 1 Timóteo 3:11 como prova segura de um ofício feminino formal paralelo ao diaconato masculino. Em outras palavras: ele considerou possível falar em deaconessas em sentido histórico-eclesiástico, mas não via nesse ponto base suficiente para uma reconstrução ampla e inovadora do ofício.12

8. HISTÓRIA DO DIACONATO NA IGREJA REFORMADA DE GENEBRA

Na organização eclesiástica de Genebra, especialmente nas Ecclesiastical Ordinances de 1541, consolidou-se a célebre estrutura de quatro ofícios ordinários: pastores, doutores, anciãos e diáconos. Essa formulação é frequentemente lembrada como uma das expressões mais influentes da ordem reformada clássica.13

Em Genebra, o diaconato não era concebido como um cargo litúrgico-sacramental, mas como um ofício de misericórdia. A própria ordem eclesiástica genebrina ligava o cuidado diaconal ao suporte dos pobres e ao hospital. Schaff resume que a própria constituição de Genebra entendia ser necessário “prover um hospital para o sustento adequado dos pobres”, e esse aspecto fazia parte da ordem da igreja reformada na cidade.14

Assim, o diaconato genebrino aparece como ofício verdadeiro e honroso, porém distinto do pastorado e do presbiterato. Os pastores pregavam a Palavra e administravam os sacramentos; os anciãos exerciam disciplina e vigilância moral; os diáconos se ocupavam da administração caritativa e do socorro aos necessitados. A tradição reformada posterior herdou exatamente essa lógica: não rebaixar o diaconato a mera burocracia, mas também não lhe atribuir aquilo que o Novo Testamento liga ao ministério da Palavra e ao governo da igreja.15

9. DISCUSSÃO DETALHADA DE ATOS 6, ROMANOS 16:1 E 1 TIMÓTEO 3 NO GREGO

9.1. ATOS 6 E O NASCIMENTO DO DIACONATO

Em Atos 6:1–6, o ponto central da narrativa é a distinção funcional entre o ministério da Palavra e o cuidado material das mesas. Os apóstolos afirmam em Atos 6:2: “Não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir às mesas”. O verbo empregado, diakonein, pertence à mesma família lexical de diakonos e diakonia. Isso não prova, de forma isolada, que já havia ali o ofício plenamente desenvolvido de diácono; porém mostra, com grande força, a origem diaconal da passagem.

A tradição reformada majoritária interpreta Atos 6 como o texto-fonte do diaconato justamente porque há: (a) necessidade concreta na comunidade; (b) separação de funções; (c) escolha formal de homens qualificados; e (d) consagração pública ao serviço. Ou seja, ainda que o substantivo técnico “diácono” não apareça, o padrão funcional do diaconato aparece de modo muito claro.16

Além disso, a exigência de homens “de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria” (Atos 6:3) mostra que o serviço diaconal não era algo meramente mecânico ou secularizado. O diaconato, desde o princípio, tinha caráter espiritual, embora não fosse um ofício de governo doutrinário ou de administração sacramental.

9.2. ROMANOS 16:1 E FEBE

Em Romanos 16:1, Paulo escreve: “Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que está servindo à igreja de Cencréia”. O ponto decisivo está no termo grego diakonon. Gramaticalmente, o termo pode significar tanto “serva/ministra” em sentido amplo quanto “diácona” em sentido mais técnico. Por isso, o texto, isoladamente, não resolve toda a discussão.

Os defensores de diaconisas ordenadas costumam insistir que o uso de diakonos aqui seria técnico. Já a posição reformada conservadora observa que o vocábulo é frequentemente usado no Novo Testamento em sentido não técnico, e que o contexto de Romanos 16 não é um tratado de ordem eclesiástica, mas uma seção de recomendações pessoais. Por isso, a leitura técnica é possível, mas não obrigatória.17

Warfield, por exemplo, julgou que Romanos 16:1 é o texto mais plausível para sustentar alguma forma de deaconess, mas ao mesmo tempo frisou que o lastro bíblico é escasso. Já documentos presbiterianos mais recentes, como relatórios da PCA e materiais da OPC, costumam afirmar que o texto é insuficiente para estabelecer, sozinho, um ofício feminino ordenado equivalente ao diaconato masculino.18

9.3. 1 TIMÓTEO 3:8–13 E O PROBLEMA DO VERSO 11

Em 1 Timóteo 3:8, Paulo passa dos presbíteros para os diáconos usando hōsautōs (“do mesmo modo”, “semelhantemente”), o que indica nova categoria ministerial. Já em 1 Timóteo 3:11, surge a expressão gunaikas hōsautōs, literalmente “mulheres, do mesmo modo”. O debate gira em torno de saber se Paulo fala:

  • das esposas dos diáconos;
  • de mulheres auxiliares ligadas ao serviço diaconal;
  • ou de diaconisas em sentido formal.

Os argumentos a favor de “diaconisas” incluem o fato de o texto não trazer explicitamente a expressão “suas esposas” e o reaparecimento de hōsautōs, que pode marcar uma nova classe. Já os argumentos contrários observam que o verso 11 está inserido dentro da seção sobre diáconos masculinos e é seguido, em 1 Timóteo 3:12, pela exigência de que o diácono seja “marido de uma só mulher”, o que sugere que o foco principal continua sendo o diaconato masculino.19

O relatório da PCA de 2017 resume quatro leituras possíveis para 1 Timóteo 3:11 e considera problemática a hipótese de uma ordem feminina plenamente paralela ao diaconato masculino, observando que a nova classe, se fosse formalmente um novo ofício, apareceria de modo surpreendentemente curto e “inserido” no meio da descrição dos diáconos. O mesmo relatório admite, contudo, a plausibilidade histórica de mulheres auxiliarem o diaconato, especialmente em ministérios relacionados a outras mulheres.20

Esse ponto é importante: a tradição reformada conservadora geralmente distingue entre participação ativa de mulheres em ministérios de misericórdia e ordenação feminina ao ofício diaconal. A primeira é amplamente reconhecida; a segunda permanece rejeitada pela maior parte do presbiterianismo confessional clássico.

10. QUADRO COMPARATIVO — INTERPRETAÇÕES REFORMADAS SOBRE DIACONISAS

Posição Tese central Leitura de
Romanos 16:1
Leitura de
1 Timóteo 3:11
Avaliação reformada
conservadora
Negação do
ofício de
diaconisa
Não existe ofício
feminino ordenado;
mulheres podem servir
sem ordenação oficial.
Diakonos em
sentido amplo:
“serva”, “auxiliadora”,
“ministra” em sentido
não técnico.
Refere-se às esposas dos diáconos ou a mulheres ligadas ao serviço deles. É a posição predominante no presbiterianismo confessional histórico e em muitas igrejas reformadas conservadoras.21
Diaconisas auxiliares
não ordenadas
Há espaço para mulheres formalmente reconhecidas para ministérios de misericórdia, sem equipará-las ao diaconato masculino ordenado. Pode indicar uma serva oficial da igreja, mas não necessariamente uma ocupante do mesmo ofício dos homens. Pode indicar mulheres auxiliares do diaconato. É posição comum em setores conservadores que desejam reconhecer institucionalmente o serviço feminino sem alterar a doutrina do ofício.22
Diaconisas
ordenadas
Existe um ofício feminino real de diaconisa, distinto do presbiterato, mas com ordenação. Entendido tecnicamente como “diácona”. Lido como referência a uma ordem feminina de diáconos. Essa posição existiu em alguns ambientes reformados e recebeu alguma simpatia de Warfield em nível histórico, mas não constitui a posição presbiteriana conservadora dominante.23
Leitura liberal
igualitarista
Os textos devem ser reinterpretados para abrir indistintamente todos os ofícios a homens e mulheres. Usado como plataforma para ampla reconstrução da ordem eclesiástica. Tomado como base para ordenação feminina ampliada. Rejeitada pela tradição reformada confessional por relativizar textos normativos e subordinar a exegese ao igualitarismo moderno.24

11. QUADRO COMPARATIVO — PRESBÍTEROS E DIÁCONOS

Ofício Função principal Ensino público Governo/
Disciplina
Sacramentos Misericórdia/
Assistência
Presbítero docente (pastor / ministro) Ministério da Palavra, ensino doutrinário, pastoreio, supervisão espiritual. Sim, centralmente. Sim. Sim; ordinariamente administra batismo e ceia. Pode participar, mas não é sua função distintiva.
Presbítero regente Governo da igreja, disciplina, vigilância espiritual, cuidado pastoral compartilhado com os ministros. Não como função ordinária principal do púlpito, embora possa ensinar em contextos apropriados conforme a ordem da igreja. Sim, centralmente. Não como função ordinária própria. Pode cooperar, mas não é sua atribuição distintiva.
Diácono Serviço de misericórdia, cuidado dos pobres, administração de recursos, socorro material e assistência prática. Não como função ordinária própria do ofício. Não como ofício governante da igreja. Não como função ordinária própria;
o caso de Filipe é geralmente lido como excepcional
e ligado ao contexto evangelístico-extraordinário.
Sim, centralmente.

Na estrutura presbiteriana clássica, portanto, a diferença não é de dignidade, mas de natureza do encargo. O pastor e o presbítero regente pertencem ao governo espiritual da igreja; o diácono pertence ao ministério oficial de serviço e misericórdia. Quando essa distinção se perde, ou a igreja clericaliza o diaconato, ou rebaixa o presbitério, ou dissolve a ordem apostólica em pragmatismo administrativo.

12. CONCLUSÃO — A ORDEM BÍBLICA DA IGREJA

A tradição reformada entende que a estrutura da igreja deve refletir fielmente o padrão estabelecido nas Escrituras. Os presbíteros exercem liderança espiritual, governo e ensino, enquanto os diáconos dedicam-se ao serviço e à administração das obras de misericórdia.

Essa distinção preserva tanto a centralidade da pregação da Palavra quanto o cuidado prático com o povo de Deus. Ao manter essa ordem, a igreja permanece fiel ao modelo apostólico e evita substituir a autoridade das Escrituras por tendências culturais passageiras.

Notas:

1 João Calvino, Institutas da Religião Cristã, Livro IV; Louis Berkhof, Teologia Sistemática, seção sobre a Igreja.

2 John Murray, Collected Writings, vol. 2; R. B. Kuiper, The Glorious Body of Christ.

3 João Calvino, Institutas da Religião Cristã, Livro IV, capítulo XV.

4 Charles Hodge, Commentary on the Epistle to the Romans.

5 Wayne Grudem, Evangelical Feminism and Biblical Truth.

6 A tradição reformada posterior manteve a distinção funcional entre pastores, anciãos e diáconos; cf. Herman Bavinck, na observação de que a política presbiteriana atribui funções diferentes a pastores, presbíteros e diáconos; ver também a síntese histórica de Philip Schaff sobre Genebra e a tradição reformada.

7 Sobre a linhagem escocesa associada a Knox e ao desenvolvimento presbiteriano posterior, ver a síntese histórica de Schaff sobre o princípio presbiteriano escocês e a estrutura eclesiástica reformada.

8 Sobre a importância de Bucer para a disciplina e a ordem eclesiástica reformadas, ver a historiografia clássica da Reforma em Schaff.

9 Sobre a ortodoxia reformada e a consolidação da distinção entre ofícios ordinários, ver a linha escolástica reformada representada por Turretin em continuidade com a tradição reformada clássica.

10 Bavinck é citado em estudo posterior observando que a política presbiteriana atribui funções distintas a pastores, presbíteros e diáconos.

11 Sobre a linha presbiteriana clássica em Hodge quanto à distinção dos ofícios e à prudência exegética em Romanos 16:1, ver a tradição de Princeton e suas formulações eclesiológicas.

12 Warfield afirmou que “the office of deaconess is a Scriptural office”, mas acrescentou que o “Biblical warrant for it is of the slenderest”, negando que 1 Timóteo 3:11 seja prova convincente e tratando Romanos 16:1 como o principal texto possível.

13 As Ordenanças Eclesiásticas de Genebra consolidaram quatro ofícios ordinários: pastores, doutores, anciãos e diáconos.

14 A própria ordem de Genebra vinculava a organização eclesiástica, entre outras coisas, ao sustento adequado dos pobres e ao hospital.

15 Schaff resume as atribuições dos pastores em Genebra como pregar, instruir, admoestar, administrar os sacramentos e, junto com os anciãos, exercer disciplina; a distinção geral entre esses ofícios e o diaconato integra a ordem genebrina.

16 A leitura reformada de Atos 6 como fundamento histórico do diaconato acompanha a tradição clássica e é coerente com a separação funcional entre Palavra e serviço.

17 Documentos presbiterianos recentes observam que o termo diakonos em Romanos 16:1 pode ser não técnico e que Romanos 16 não é um texto focado em ordem eclesiástica.

18 Warfield viu Romanos 16:1 como o principal texto possível para deaconessas, mas com base bíblica escassa; relatórios mais recentes da OPC e da PCA também tratam o texto com cautela quanto à instituição de um ofício feminino ordenado.

19 O debate sobre 1 Timóteo 3:11 gira em torno das opções “esposas dos diáconos”, “mulheres auxiliares” ou “diaconisas”, sem consenso reformado amplo em favor da terceira opção.

20 O relatório da PCA de 2017 lista quatro interpretações possíveis para 1 Timóteo 3:11 e considera improvável uma ordem feminina plenamente paralela ao diaconato masculino, embora reconheça a plausibilidade de mulheres auxiliarem em ministérios de misericórdia.

21 A posição predominante em setores presbiterianos conservadores continua sendo não ordenar mulheres ao diaconato. A PCA, por exemplo, afirma que seu Livro de Ordem não permite a ordenação feminina ao diaconato, embora admita mulheres auxiliando o diaconato.

22 A PCA registra a prática de mulheres nomeadas para auxiliar o diaconato em ministérios de misericórdia, algumas vezes chamadas localmente de “deaconesses”, mas sem ordenação.

23 Warfield sustentou a possibilidade de um ofício de deaconess em algum sentido escriturístico, mas com base bíblica muito limitada e sem apoio em 1 Timóteo 3:11 como prova decisiva.

24 Relatórios presbiterianos conservadores modernos, como os da OPC e da PCA, rejeitam leituras que relativizam a ordem apostólica e tratam a questão dos ofícios a partir de pressupostos hermenêuticos igualitaristas.