Entre os cristãos reformados existe um debate histórico e teológico significativo sobre a legitimidade da observância da Páscoa cristã. A questão central não é simplesmente histórica ou cultural, mas profundamente teológica: a igreja possui autoridade para instituir uma celebração anual da ressurreição de Cristo?
Essa discussão envolve três eixos principais: o Princípio Regulador do Culto, a relação tipológica entre a Páscoa judaica e a obra redentora de Cristo, e o testemunho histórico da igreja primitiva e da tradição reformada.
1. O PRINCÍPIO REGULADOR DO CULTO
O princípio central da teologia reformada sobre o culto pode ser resumido da seguinte maneira: Deus deve ser adorado apenas da forma que Ele próprio ordenou em Sua Palavra.
A Confissão de Westminster declara:
“O modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por Ele mesmo.”1
Diversas passagens bíblicas são usadas para fundamentar esse princípio:
e puseram neles fogo estranho perante o Senhor, o que Ele não lhes ordenara.”
por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças?”
Esses textos são usados para demonstrar que Deus rejeita práticas religiosas que não procedem de sua revelação.
2. A PÁSCOA JUDAICA COMO TIPO DE CRISTO
A Páscoa do Antigo Testamento celebra a libertação de Israel da escravidão no Egito.
O Novo Testamento interpreta esse evento de forma tipológica:
| Páscoa Judaica | Cumprimento em Cristo |
|---|---|
| Cordeiro sacrificado | Cristo crucificado |
| Sangue nas portas | Sangue que salva |
| Libertação do Egito | Libertação do pecado |
| Nascimento de Israel | Nascimento da Igreja |
Assim, a redenção realizada por Cristo é entendida como uma libertação muito mais plena que a libertação do Egito.
3. O DEBATE SOBRE O CUMPRIMENTO DA PÁSCOA
Alguns teólogos argumentaram que a Páscoa cristã seria o cumprimento histórico da Páscoa judaica.
Entretanto, outros reformados responderam que o cumprimento de uma festa tipológica não implica necessariamente sua continuação sob nova forma.
4. O ARGUMENTO PURITANO
Os puritanos argumentaram que:
- A Páscoa judaica fazia parte do sistema cerimonial.
- O sistema cerimonial foi abolido em Cristo.
- O Novo Testamento não institui nova festa anual.
Portanto, a ressurreição já é celebrada semanalmente no Dia do Senhor.
5. A POSIÇÃO DOS REFORMADOS CONTINENTAIS
Os reformados continentais geralmente adotaram uma posição mais moderada.
Eles argumentavam que a igreja possui certa liberdade para estabelecer ocasiões especiais de instrução.
Essa posição frequentemente apelava para:
Cada um esteja inteiramente seguro em sua própria mente.”
Assim, tais dias seriam considerados adiáforas, ou seja, práticas que não são nem ordenadas nem proibidas explicitamente nas Escrituras. Na teologia reformada, esse termo (do grego adiáphora) designa coisas moralmente indiferentes em si mesmas, que podem ser adotadas ou não pela igreja por razões de ordem, ensino ou conveniência pastoral, desde que não sejam apresentadas como mandamentos divinos nem contrariem princípios bíblicos.
6. O TESTEMUNHO DAS CONFISSÕES REFORMADAS
Catecismo de Heidelberg
Não menciona explicitamente a Páscoa.
Segunda Confissão Helvética
Admite que igrejas podem reservar certos dias para recordar eventos da vida de Cristo.
Confissão de Westminster
Afirma que Deus designou especialmente um dia em sete para ser santificado.
7. A PÁSCOA NA IGREJA PRIMITIVA
No século II já existia debate sobre sua data, conhecido como controvérsia quartodecimana.
Algumas igrejas celebravam no dia 14 de Nisã e outras no domingo seguinte.
O Concílio de Niceia (325) decidiu que a celebração ocorreria no domingo.
8. ELEMENTOS E CIRCUNSTÂNCIAS DO CULTO
Um ponto importante envolve a distinção entre elementos e circunstâncias do culto.
- Elementos: partes essenciais instituídas por Deus.
- Circunstâncias: aspectos organizacionais do culto.
Alguns teólogos consideram dias festivos como circunstâncias.
Os puritanos discordaram dessa classificação.
CONCLUSÃO
A tradição reformada concorda que Cristo é o verdadeiro cordeiro pascal e que a redenção em Cristo é maior que a libertação do Egito.
A divergência histórica está na seguinte pergunta:
A igreja possui autoridade para instituir celebrações anuais que recordem essa redenção?
Notas:
1 Confissão de Westminster, cap. 21.