segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A Dieta de Worms




Em janeiro de 1521, o papa declarou Lutero herege e o excomungou. Isso significa que ele, à semelhança de um galho morto, decepado da árvore, estava "decepado" da igreja. Seus livros foram queimados e os seus seguidores foram exortados a abandoná-lo.

Aleander, o mensageiro do papa na Alemanha, tentou conseguir que o novo imperador, Carlos V, declarasse Lutero um fora-da-lei. Se isso fosse feito, Lutero seria caçado e morte como um animal.

Carlos era um católico romano fiel. Ele acreditava que "um frade isolado que se coloca contra todo o cristianismo milenar certamente deve estar errado". Nesta disposição, ele ordenou que os livros de Lutero fossem queimados nos Países Baixos. Se possível, livrar-se-ia de Lutero de uma vez por todas. Mas, na Alemanha, ele tinha de tomar cuidado com o que fazia.

Em primeiro lugar, Carlos não era alemão; governava sobre a Alemanha apenas porque os príncipes eleitores o tinham escolhido como imperador, e um desses príncipes era amigo de Lutero: Frederico, o Sábio, da Saxônia. Carlos também sabia que muitos outros alemães apoiavam Lutero, inclusive alguns cavaleiros que prometeram até lugar, se necessário, para protegê-lo. Além disso, como imperador, Carlos tinha prometido respeitar as leis germânicas. Entre essas leis, havia uma que dizia que nenhum alemão poderia ser proscrito sem um julgamento justo.

Outrossim, Carlos também estava preocupado com os franceses, bem como os turcos. Para estar seguro contra eles, Carlos precisava da ajuda dos príncipes alemães. Afinal, para Carlos, nem mesmo o papa merecia confiança, pois tentara que fosse eleito imperador.

Assim sendo, Carlos tinha muita coisa com que se preocupar quando viajou a Worms em janeiro de 1521. Ele já estava a caminho, a fim de reunir-se com sua primeira Dieta alemã, o concílio de nobres que estabelecia as leis na Alemanha.

Carlos ordenou que Lutero se apresentasse diante da Dieta em abril daquele ano. Aqui Lutero seria examinado, interrogado, mas não lhe seria permitido argumentar ou explicar seus ensinos. Ainda que alguns amigos de Lutero o tivessem advertido a não ir a Worms, ele não lhes deu ouvido. Haveria de ir. E respondeu a seus amigos nestes termos: "Cristo ainda vive, e eu entrarei e Worms a despeito dos portões do inferno e dos poderes das trevas". O imperador então lhe mandou um salvo-conduto, uma carta prometendo a Lutero que ele estaria em segurança.

No dia 2 de abril de 1521, um pequeno grupo deixou Wittenberg com destino a Worms, cerca de 480 quilômetros a sudoeste. Lutero e mais três amigos viajavam numa carruagem. Adiante deles cavalgava o arauto do imperador, magnificamente vestido e carregando a bandeira imperial.

Ao longo de todo o percurso, o povo acorria para ver Lutero, que tinha se tornado um herói para muitos alemães. Aqui estava o homem que ousara se levantar contra o papa e o imperador! Em Leipzig, Erfurt e Eisenach, velhos amigos desejavam-lhe sucesso. Nos arredores de Worms, cem cavaleiros se juntaram ao grupo. Deus estava encorajando Lutero a enfrentar seu julgamento.

No dia seguinte, dia 17 de abril, Lutero foi levado ao palácio do bispo, onde o imperador e a Dieta estavam reunidos. O recinto estava lotado. Ao longo das paredes havia soldados espanhóis e alemães em formação. Havia príncipes, eleitores, bispos e cavaleiros por todos os lados. Carlos V, o imperador, era um jovem magro de apenas 20 anos. Estava vestido de preto e usava um grande diadema que lhe pendia sobre o peito.

Todos os olhos se fixaram em Lutero quando ele penetrou no recinto. Todo mundo sabia o que jazia por trás desta união. O poder do papa tinha sido desafiado. Se o papa quisesse manter sua autoridade, Lutero devia confessar que estava errado. "Deus me ajude", orou ele em seu íntimo ao deparar-se com este poderoso grupo.

Um oficial advertiu Lutero de que nada falasse, a não ser para responder as perguntas que lhe fossem dirigidas. O inquiridor deu um passo à frente e lançou a Lutero uma pergunta dupla: "Dr. Lutero, o senhor admite que escreveu estes livros e que estava errado no que escreveu?"


Um a um, os títulos dos 25 livros que estavam empilhados sobre uma pequena mesa foram lidos em voz alta. Então Lutero respondeu à primeira pergunta: "Sim, estes livros são meus; eu os escrevi, e escrevi ainda outros".

Quanto à pergunta sobre a retratação, Lutero disse: "Esta pergunta diz respeito a Deus, à sua palavra e à salvação de almas. Peço que me dêem algum tempo para pensar no assunto".

Lutero não estava lançando mão de nenhuma escapatória. Ele não estava com medo do imperador, mas percebia perfeitamente a seriedade da pergunta. Sua resposta seria uma confissão de fé no próprio Deus. Era um momento crucial, muito parecido com aquele quando ele rezou sua primeira missa, 14 anos antes, quando tremera diante da majestade de Deus.

O imperador deu-lhe um dia para pensar e responder.

No dia seguinte, Lutero enfrentou novamente a Dieta. Não mais se sentia tímido ou nervoso diante destes grandes nobres. Tinha orado quase durante a noite toda, e Deus lhe tinha dado forças para enfrentar esta dura prova.

Quando lhe perguntaram de novo: "O senhor se retrata?", ele deu uma resposta firme e altissonante. Salientou que aqueles livros não eram todos do mesmo tipo. Alguns deles tratavam de questões simples sobre a fé e a prática cristãs. Nem mesmo os seus inimigos poderiam encontrar neles qualquer coisa errada. Um outro grupo expunha os erros no governo da igreja. Retratar-se deles seria apenas deixar a porta escancarada para que mais males entrassem. Um terceiro grupo continha ataques contra inimigos do evangelho. Se ele usara linguagem acerba nestes livros, era porque estava defendendo os ensinos de Cristo com toda a sua força. Lutero terminou dizendo que, caso alguém pudesse convencê-lo, com base na Bíblia, de que estava errado, ele seria o primeiro a queimar seus livros.

Esta resposta não agradou ao imperador. O interrogador gritou: "Lutero, não deste uma resposta clara. Dá-me simplesmente um sim ou não: retratas-te ou não do que disseste nestes livros?"

A resposta de Lutero foi simples e corajosa: "A menos que me convençam, pela Escritura ou por razões claras, de que estou errado, eu permaneço constrangido pelas Escrituras. Não posso nem quero me retratar, de vez que não é seguro nem correto agir contra a consciência. Deus me ajude. Amém".

Um grande rumor de vozes eclodiu na sala, pois todo mundo começou a falar acaloradamente. O imperador, cheio de ira, abandonou o recinto e a reunião foi encerrada.

"Queimem o herege", murmuraram os amigos espanhóis do imperador quando Lutero deixava a sala. Do lado de fora, porém, os amigos de Lutero o aplaudiram e lhe apertaram a mão. Com um grande suspiro de alívio, Lutero levantou os braços como um cavaleiro vitorioso e exclamou: "Passei! Passei".

Carlos tencionava declarar Lutero um fora-da-lei tão logo expirasse o seu período de segurança, que abrangia três semanas. Mas alguns membros da Dieta temiam que isso pudesse provocar uma revolta entre os muitos seguidores de Lutero. Assim, instaram com Carlos para que permitisse que um comitê tentasse mais uma vez fazer com que Lutero mudasse de idéia.

Esse grupo se reuniu várias vezes com Lutero, mas tudo em vão. Lutero insistia em que eles lhe mostrassem, com base na Bíblia, que estava errado. "Convençam-me pela Escritura", dizia ele. E, citando Atos 5.38,39, prosseguia: "Se este conselho ou outra vem de homens, perecerá; mas, se é de Deus, não podereis destruí-los, para que não sejais, porventura, achados lutando contra Deus".

No dia 26 de abril, Lutero e seus três amigos deixaram Worms e retornaram a Wittenberg. A qualquer momento poderiam dar fim à sua vida, mas Lutero colocava-se inteiramente nas mãos do seu Pai celeste.



Extraído de: Comunidade Evangélica Luterana

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