segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O Homem por Trás do Mito (parte 01 de 05)


Extraído de: Evangélicos do Brasil

Poucas pessoas na história do cristianismo têm sido tão supremamente estimadas ou tão mesquinhamente desprezadas quanto João Calvino. A maioria dos cristãos, dentre a qual grande parte dos protestantes, conhece apenas dois aspectos a respeito dele: acreditava na predestinação e ordenou que Serveto fosse queimado vivo. Desses dois fatos, ambos verdadeiros, emerge a caricatura usual de Calvino como o grande inquisidor do protestantismo, o tirano cruel de Genebra, uma figura rabugenta, rancorosa e completamente desumana.

Essa imagem distorcida origina-se em parte da própria época de Calvino, na qual não foi de maneira nenhuma universalmente apreciado. Por exemplo, no ano de 1551, quando os cônegos da Catedral de Noyon, cidade natal de Calvino, receberam a notícia da morte do reformador, comemoraram e deram graças a Deus por tirar aquele famoso herege de seu meio. A alegria durou pouco, entretanto, quando descobriram que os boatos acerca de sua morte haviam sido prematuros. Ainda teriam que suportar Calvino por mais treze anos! Em 1577, Jerome Bolsec, ex-protestante que tinha retornado à Igreja Romana, publicou um ataque grosseiro ao caráter de Calvino. Bolsec retratou Calvino não apenas como arrogante e mal humorado, o que de fato ele pode ter sido, mas também como um bêbado, adúltero e homossexual, o que ele com certeza não era. Num óbvio golpe baixo, Bolsec também afirmou que a doença crônica de Calvino era castigo de Deus; o fato de “seu corpo inteiro estar sendo comido por piolhos e vermes” era a punição divina de sua heresia. Os desprezadores modernos de Calvino não foram mais gentis. O liberalismo do século XIX viu Calvino como “o grande fantasma negro, uma pessoa glacial, sombria, insensível, precipitada. [...] nada nele fala ao coração”.5 Para muitos cristãos contemporâneos, Calvino é um esqueleto embaraçoso que preferiam manter cuidadosamente trancado nos arquivos históricos. Contaram-me que, em certa ocasião, um desses herdeiros desencantados da Reforma colocou-se diante da famosa estátua de Calvino em Genebra e começou a atirar ovos naquela aparência severa e com ar de desprezo.

No outro extremo da calvinofobia está a postura igualmente preconceituosa da calvinolatria. Em 1556, o reformador escocês John Knox descreveu a Genebra de Calvino como “a mais perfeita escola de Cristo que jamais houve na terra desde a época dos apóstolos”.6 Outros chegaram de retratar Calvino não apenas como o maior professor de doutrina cristã desde Paulo, mas também com um guia quase infalível em cada aspecto da diligência humana, desde a arte e a arquitetura até a política e a economia.

Sem dúvida, a mais notável tentativa de apresentar um “Calvino sem protuberâncias” é a biografia clássica feita por Emile Doumergue, publica em sete fólios por volta da virada do século. Doumergue produziu o que certamente permanecerá como o estudo mais completo e detalhado da vida de Calvino já escrito. Mas, a despeito das virtudes desse impressionante trabalho, ele é essencialmente um exercício em hagiografia. O Calvino de Doumergue é bom demais para ser verdadeiro, assim como o Calvino de Bolsec é demoníaco demais para ser humano. Nós não servimos à verdade retratando Calvino como angelicamente bom ou como diabolicamente mau. Ele foi, como Lutero declarou que todos os cristãos são, ao mesmo tempo santo e pecador.

Diferentemente de Lutero, pode-se dizer que Calvino nasceu na igreja. Gérard Cauvin, seu pai, era o assistente administrativo do bispo de Noyon. Diz-se que sua mãe, Jeanne, filha de um dono de hospedaria, era mulher muito bonita e piedosa. Jeanne Cauvin morreu quando Jean, seu quarto filho, tinha apenas 5 ou 6 anos de idade. Apesar de seu pai ter-se casado logo depois, o jovem Calvino deve ter sentido a falta da mãe de forma muito profunda. Sem dúvida isso contribuiu para seu senso de ansiedade íntima e inquietação.7 Apesar disso, Calvino conheceu algo do fervor da vida social a partir de seus contatos com a família aristocrática Montmor, com quem viveu durante vários anos. Ele dedicou seu primeiro livro a um membro dessa família, declarando: “Devo a você tudo o que sou e tenho. [...] Quando menino, fui criado em sua casa e iniciado em meus estudos com você. Portanto, devo à sua nobre família eu primeiro aprendizado na vida e nas letras”.8 Embora Calvino certa vez tenha descrito a si mesmo como “meramente um homem dentre o povo”, movia-se com facilidade entre os altos escalões da sociedade. Era um aristocrata de coração, se não de linhagem. Ele nunca esqueceu tal fato acerca de si mesmo, nem deixava que os outros esquecessem disso. Certa vez, nas ruas de Genebra, um refugiado agradecido, mas por demais entusiasmado, chamou-o de “irmão Calvino”, apenas para ser informado de que o título correto era “Monsieur Calvino”.

Com a idade de 12 anos, Calvino recebeu um benefício do bispo de Noyon, graças à influência prudente de seu pai. A manutenção de um benefício requeria a entrada nas ordens menores – João tornou-se um clérigo e recebeu a tonsura – e o cumprimento de tarefas eclesiásticas. Na época da Reforma, o sistema de outorgar benefícios a parentes e amigos era um dos abusos mais comuns na igreja. Um sacerdote semi-analfabeto seria usualmente contratado para cumprir as tarefas reais do ofício (que, no caso de Calvino, envolvia a responsabilidade por um dos altares da catedral) por uma soma insignificante, enquanto o incumbente recebia a maior parte do beneficio. De fato, a renda desse benefício era um tipo de bolsa de estudo pela qual o jovem Calvino, já um estudante precoce, foi capaz de continuar seus estudos.

Em agosto de 1523, João Calvino (da forma latinizada de seu nome, Calvinus) chegou a Paris para começar seu aprendizado formal na mais famosa universidade da Europa. No mesmo mês, um monge agostiniano chamado Jean Vallière foi queimado vivo por pertencer ao “partido herético de Lutero”. Ele foi o primeiro mártir da Reforma na França. Não sabemos que impressão esse evento causou em Calvino, então com apenas 14 anos de idade. Doze anos mais tarde, ele recuaria horrorizado ao queimarem vivo seu amigo Etienne de la Forge, um piedoso protestante com quem vivera durante algum tempo. De fato, Calvino publicou a primeira edição de suas Institutas em parte, como disse, “para vingar dos imerecidos insultos meus irmãos, cuja morte foi preciosa aos olhos do Senhor”.9 Que transformou o jovem e brilhante estudante de Noyon no eloqüente apologista da fé? De 1523 a 1541, quando definitivamente se instalou em Genebra, muitas forças estavam agindo para fazer de Calvino o reformador. Podemos observar sua vida durante esses anos turbulentos sob o aspecto de sua preparação, conversão e vocação.






5 Citado em Richard Stauffer, The Humanity of John Calvin, trad. Por George A. Shriver (Nashville: Abingdon Press, 1971) p. 20. Quanto à natureza espúria das alegações de Bolsec, veja Frank Pfeilschifter, Das Calvinbild bei Bolsec (Augsburg: F D L Berlag, 1983), pp. 123-177.

6 John McNeil, The History and Character of Calvinism (Nova Iorque: Oxford University Press, 1954), p. 178.

7 Esse argumento foi impingido por Suzanne Selinger em seu perspicaz estudo, Calvin Against Himself (Hamden, Conn.: Anchon Books, 1984), pp. 85-88. Ela vai longe demais, porém, ao derivar desse evento traumático o suposto preconceito de Calvino contra a sexualidade e sua pretensa frieza em relação à esposa.

8  Calvin’s Commentary on Seneca’s De Clementia, eds. Ford L. Battles e André M. Hugo (Leiden: E. J. Brill, 1969), pp. 12-13.

9  Calvin, Comentário do livro de Salmos, trad. Por James Anderson (Edimburgo: Calvin Translation Society, 1845), I, p. xlii.


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