terça-feira, 24 de setembro de 2013

O Homem por Trás do Mito (parte 02 de 05)

A Preparação de Calvino


Calvino matriculou-se primeiro no Collège de la Marche, onde aperfeiçoou seu conhecimento de gramática e sintaxe latina. Ali, por algum tempo, estudou com Mathurin Cordier, um dos maiores mestres de latim de sua época, cuja Grammatica Latina ainda estava em uso no século XIX. Anos depois, Calvino lembrava esse venerável professor e dedicava a ele seu comentário a respeito da 1 Tessalonicenses:

Quando eu era criança e tinha experimentado só os rudimentos do latim, meu pai mandou-me a Paris. Lá, a bondade de Deus deu-me você como preceptor durante algum tempo, para ensinar-me a verdadeira maneira de aprender, a fim de que eu pudesse continuar com maior proveito [...] Fui tão auxiliado por você, que, seja qual for o progresso que eu tenha feito desde então, atribuo-lhe com satisfação.10

Posteriormente, Cordier foi chamado por Calvino para ensinar latim na academia de Genebra. Ele permaneceu nesse cargo até morrer (mesmo ano de Calvino), aos 85 anos.

Calvino logo transferiu-se para o Collège de Montaigu, famosa escola conhecida pela disciplina severa e pela péssima comida. Erasmo, que ali estudou poucos anos antes de Calvino, queixou-se mais tarde dos ovos estragados que ele era obrigado a comer no refeitório. Os problemas crônicos de Calvino de indigestão e insônia provavelmente derivaram da alimentação severa e de sua tendência de estudar até altas horas da noite em Montaigu. Uma lenda posterior conta que, durante esses anos, seus colegas apelidaram Calvino de “o caso acusativo”. Embora isso não seja verdade, Beza, em sua respeitosa biografia, reconheceu que o jovem erudito era realmente “um rigoroso censor de tudo o que era vicioso em seus companheiros”.11 Enquanto seus colegas estavam brincando nas ruas ou iam a festas desregradas, Calvino ocupava-se das minúcias da lógica nominalista ou das quaestiones da teologia escolástica.

Como era um estudante compulsivo, Calvino saiu-se extremamente bem em seus estudos, mas também adquiriu aversão pelo método escolástico de fazer teologia. Ele estava começando a mover-se nos círculos do humanismo francês e pode ter compartilhado a opinião de Erasmo, que difamou os mestres de Paris chamando-os de “pseudoteólogos[...] cujos cérebros estão podres, cuja linguagem é bárbara, cujo intelecto está entorpecido, cujo ensino é uma cama de espinhos, cujas maneiras são rudes, cujas vidas são hipócritas, cujas conversas estão cheias de veneno e cujos corações são tão negros como a tinta”.12 Calvino nunca expressou-se dessa maneira, mas descreveu um curso de teologia ministrado a jovens teólogos como “mera sofística, e sofística tão destorcida, revirada, tortuosa e enigmática, que a teologia escolástica poderia muito bem ser descrita como um tipo de magia esotérica. Quanto mais densa e escuridão em que alguém ocultava um assunto e quanto mais enigmaticamente envolvia a si mesmo e aos outros em raciocínios absurdos, maior sua fama como perspicaz e culto”.13

Em 1528, Calvino deixou tudo isso para trás quando, por ordem de seu pai, foi de Paris a Orléans para dedicar-se a uma nova disciplina, o estudo de Direito. Gérard Cauvin não gozava mais das boas graças do capítulo da catedral de Noyon e, enfrentando a velhice, também percebeu que seu brilhante filho teria melhores possibilidades de obter maior renda como advogado do que como servo da igreja. De qualquer forma, Calvino concordou com a vontade de seu pai. O contraste com Lutero é surpreendente: Lutero, em desafio ao pai, perdeu uma carreira no Direito para tornar-se monge; Calvino, em obediência ao pai, deixou o estudo da teologia a fim de tornar-se advogado.

Calvino lançou-se entusiasticamente ao estudo de Direito, primeiro em Orléans, depois em Bourges. Logo estava preparado o suficiente para dar palestras e substituir os professores nas aulas quando faltavam, como um tipo de “monitor”. Para Calvino, o estudo de direito teve duas influências importantes em seu trabalho futuro: primeira, providenciou uma base completa nos assuntos práticos que seria de enorme benefício em seus esforços para dar nova forma às instituições de Genebra; segunda, abriu seus olhos para o mundo da antiguidade clássica e para o estudo de textos antigos. Enquanto estava em Bourges, ele também se dedicou ao estudo do grego, sendo tutelado por Melchior Wolmar, um erudito da Alemanha.

Quando seu pai morreu, em 1531, Calvino sentiu-se livre para deixar o estudo de Direito por sua verdadeira paixão, a literatura clássica. Ele mudou-se de volta para Paris e, em 1532, publicou seu primeiro livro, uma edição do tratado de Sêneca intitulado Sobre a Clemência, complementada com um aparato textual e um longo comentário. Era uma obra-prima de erudição, e ele esperava que isso o firmasse como um erudito notável nos círculos humanistas. No prefácio, Calvino achou necessário desculpar-se pelo fato de que, mesmo tendo somente 23 anos, aquele era apenas seu primeiro livro: “Eu preferia não fazer nascer absolutamente nenhuma ‘criança’ a provocar abortos, como muitas vezes acontece”.14 Comercialmente falando, porém, esse livro foi um fracasso total! Teve apenas uma edição, e o próprio Calvino teve de pagá-la. No entanto, foi uma tentativa impressionante, que abriu caminho para seus amplos trabalhos literários.







10 CO 13, cols. 525-526; CNTC, 8, p. 331.

11 Calvin’s Tract and Treatises, trad. Por Henry Beveridge (Grand Rapids: Eerdmans, 1958), I, p. lx.

12  EE 1, pp. 87-88 (nº 64); CWE1, p. 138.

13 Tracts and Treatises, I, p. 40.

14 Battles and Hugo, p. 4.


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