quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O Homem por Trás do Mito (parte 04 de 05)


A Vocação de Calvino


Em 1533, no Dia de Todos os Santos, exatamente 16 anos depois que Lutero colocou as famosas teses contra as indulgências na porta da igreja de Wittenberg, Nicolas Cop, amigo de Calvino e reitor da Universidade de Paris, fez um discurso numa assembléia que chocou os ouvintes. Mesmo não sendo o que chamaríamos de um sermão evangélico caloroso, tinha conteúdo evangélico suficiente para insultar os defensores da ortodoxia católica. No Dia de Todos os Santos, Cop não louvou aos santos; antes, proclamou a Cristo como o único mediador com Deus. Cop foi obrigado a fugir para continuar vivo.

Calvino também estava envolvido nesse fato. De acordo com uma antiga lenda, ele escapou de Paris no momento exato, com seus amigos baixando-o de uma janela, com lençóis, enquanto a polícia batia à porta - sombras da fuga apressada de Paulo de Damasco, num cesto!21 Os escritos de Calvino foram confiscados; daí em diante, ele tornou-se persona non grata em Paris. Por volta de um ano depois do discurso de Cop, alguns dos protestantes mais maduros de Paris decidiram fazer uma demonstração surpreendente e radical de sua fé. Um ataque ardoroso à missa e seus adornos - "o toque dos sinos, as unções, os cânticos, os cerimoniais, as velas, os incensos, os véus e tais espécies de bufonarias" - foi imprimido num cartaz afixado por toda a cidade. Um deles até apareceu, misteriosamente, na porta do quarto do Rei Francisco I. Na Alemanha, Lutero havia lançado a Reforma atacando as indulgências, um aspecto central do sacramento da penitência no final da Idade Média. A reforma francesa começou com um ataque frontal aos "horríveis, enormes e intoleráveis abusos da missa papal", como dizia o título dos cartazes.22 Agora, as forças da perseguição estavam lançadas contra os evangélicos franceses. Calvino deixou o país apressado e encontrou refúgio na cidade reformada de Basiléia, o lar de Cop, que já se encontrava lá.

Erasmo também estava vivendo em Basiléia nessa época. Velho e doente, o maior dos humanistas havia retornado à sua cidade favorita para passar seus últimos dias na terra. Erasmo faleceu em Basiléia, em junho de 1536, três meses depois da publicação da primeira edição das Institutas de Calvino, na mesma cidade. Com Erasmo, morreram seus sonhos de paz e aprendizado universais, suas esperanças de que um reavivamento das letras poderia iniciar uma "era de ouro" da Reforma. Logo no ano seguinte, em 1537, a Inquisição espanhola proibiu a leitura das obras de Erasmo. Alguns anos depois, em 1542, os livros de João Calvino, dentre os quais suas Institutas, também foram declarados como fora dos limites para os bons cristãos, sendo cerimoniosamente queimados diante da Catedral de Notre Dame, em Paris. Erasmo e Calvino, em Basiléia, significavam a intersecção de duas eras. Calvino havia aprendido muito desse grande estudioso, principalmente a estudar as Escrituras. Calvino não deixou de ser humanista depois de transformar-se num reformador. Mas sua conversão e imersão nas fontes bíblicas e patrísticas conduziram-no por um caminho muito diferente daquele trilhado por Erasmo. O caminho de Calvino estava bem mais próximo, porém mesmo assim distinto, do velho adversário de Erasmo em Wittenberg.

Calvino não causou grande furor em Basiléia: "Fiquei ali escondido, por assim dizer, e pouquíssimas pessoas me conheciam". Mas ele não estava desocupado. O fruto de seu trabalho saiu das prensas do editor Thomas Platter em março de 1536. Chamava-se, para dar o título completo:

O Ensino Básico da Religião Cristã, compreendendo quase a soma total da piedade e do que é necessário conhecer sobre a doutrina da salvação. Um trabalho recém publicado que muito merece ser lido por todos os que estudam a piedade. Um prefácio ao mais cristão rei da França, oferecendo a ele este livro como uma confissão de fé do autor, Jean Calvin de Noyon.23


"Um trabalho [ ... ] que muito merece ser lido" (Lectu dignissimum opus) era uma publicidade modesta de um livro destinado a tornar-se o principal documento da teologia protestante do século XVI. Diferentemente do primeiro livro de Calvino sobre Sêneca, as Institutas tornaram-se um bestseller quase da noite para o dia. A primeira edição, "apenas um pequeno livreto", como Calvino certa vez a descreveu, era miúda o bastante para ser escondida dentro do casaco ou secretamente ocultada entre os pertences de alguém. Assim, vendedores ambulantes e mercadores evangélicos levaram-na por toda a Europa.

O que justifica o impressionante sucesso das Institutas? Podemos responder a essa pergunta em parte indicando duas funções distintas para as quais a obra serviu. Em primeiro lugar, era um poderoso tratado para aquele tempo. Como Calvino disse na epístola preliminar a Francisco I, originariamente, ele não pretendera dirigir esse trabalho ao rei. A princípio, Calvino planejara que o livro fosse um tipo de cartilha de teologia básica para "os camponeses da França, muitos dos quais vi que tinham fome e sede de Cristo".24 Contudo, a perseguição interveniente aos protestantes franceses movera Calvino a apresentar o caso dos companheiros cristãos ao rei, na esperança de que ele pudesse adotar uma atitude mais moderada. Calvino lamentava que "a pobre e pequena igreja tenha sido devastada por cruel carnificina ou banida para o exílio". Sua própria terra natal tornara-se "como um inferno" para ele, conforme expressou numa carta a um amigo, alguns anos depois. Ele tentou livrar os evangélicos franceses das acusações de sedição e cisma - não eram sectários inclinados a derrubar a ordem, mas cidadãos honestos que desejavam apenas restaurar a pureza do evangelho. O que mais estava em jogo era - essa a idéia fundamental de toda a teologia de Calvino - "Como a glória de Deus pode ser mantida a salvo na terra [ ... ] como o reino de Cristo pode ser conservado em bom estado entre nós".25 Ao longo de toda a carta, Calvino foi educado e respeitoso para com o rei. Mas a oração final está repleta de todo o estrondo de Elias: se Francisco não emendasse seus caminhos, então no devido tempo o Senhor certamente apareceria, "avançando armado para libertar os pobres de sua aflição e também punir seus detratores".26 Sem o saber, Calvino lançara a primeira saraivada na batalha de palavras que, no fim, levaria às sangrentas guerras religiosas na França.

O propósito básico das Institutas, porém, era catequético. Desde a época de sua conversão, Calvino fora pressionado a atuar como professor daqueles que estavam famintos pela fé verdadeira. Ainda hoje se pode ver uma caverna perto da cidade de Poitiers onde se diz que Calvino havia ministrado aos necessitados de uma congregação (literalmente!) subterrânea. Ele sabia, de primeira mão, 'a necessidade urgente de um manual de instrução claramente escrito, que apresentasse os rudimentos de uma teologia bíblica e levasse os jovens cristãos a uma maior compreensão da fé. Era o tempo para tal livro. Outros reformadores haviam tentado fazer algo parecido, mas com sucesso limitado. Melanchthon publicou pela primeira vez Lugares Comuns em 1521; Zuínglio apresentou o Comentário sobre a Religião Verdadeira e a Falsa em 1525. FareI havia até mesmo escrito um Sumário de teologia evangélica em francês, publicado em 1534. Cada um desses trabalhos tinha seus pontos fortes, mas não conseguia suprir as necessidades que as Institutas satisfizeram.

Retomaremos à história das Institutas que cresceram, através de muitas revisões, daquele modesto "pequeno livreto" de 1536 a um enorme tomo e tesouro da dogmática protestante, na edição definitiva de 1559. Seis breves capítulos constituíam a primeira edição. O capítulo 1, "Sobre a Lei", era basicamente uma exposição dos dez mandamentos. O capítulo 2 tratava da fé e abrangia um comentário sobre o Credo dos Apóstolos. Nesse contexto, a doutrina da predestinação era apresentada; mas apenas numa forma superficial e não-polêmica. O capítulo 3, sobre a oração, continha a primeira exegese de Calvino sobre o pai-nosso. O capítulo 4 abordava os sacramentos, com o que ele queria dizer o batismo e a ceia do Senhor. O capítulo 5 era a refutação dos "cinco sacramentos falsos", enquanto o capítulo 6 concentrava-se em três temas: a liberdade cristã, a política da igreja e o governo civil. A seqüência dos tópicos é a mesma usada por Lutero em seus catecismos, que Calvino pode ter copiado deliberadamente. Para o trecho sobre a oração, Calvino devia bastante à discussão de Martin Bucer acerca do pai-nosso, em Comentário dos Evangelhos (1530). No todo, porém, Calvino apresentou mais claramente e de maneira mais magistral do que qualquer um antes dele os elementos essenciais da teologia protestante.

Talvez    modestamente  demais,  Calvino  disse  que, quando  as Institutas foram publicadas em Basiléia, ninguém sabia que ele era o autor. A primeira edição, no entanto, esgotou-se em apenas um ano. O tímido e jovem erudito tomou-se cada vez mais conhecido como um ativo proponente da Reforma. Por sua vez, isso levou ao que, depois da conversão, foi o evento central da vida de Calvino.

No verão de 1536, Calvino, com seu irmão Antoine e sua meia-irmã Marie, viajava de Paris para Estrasburgo, onde esperava estabelecer-se para seu antigo desejo de descanso e estudo. Entretanto, os exércitos de Francisco I e do Imperador Carlos V estavam envolvidos em manobras militares que exigiram que a pequena caravana de Calvino desviasse para o sul. Assim, chegaram à cidade de Genebra, situada nas fronteiras entre França, Savóia e Suíça. Calvino não teve boa impressão da cidade e planejou ficar apenas uma noite. Pouco antes, Guillaume FareI havia levado a cidade a abraçar a Reforma; numa assembléia pública, em 25 de maio do mesmo ano, os moradores de Genebra haviam votado unanimemente por "viver de agora em diante de acordo com a lei do evangelho e com a Palavra de Deus e abolir todos os abusos papais".27 Ainda assim, o verdadeiro trabalho de reforma mal havia começado.

Farel, tendo sido informado de que Calvino estava na cidade, irrompeu em seu quarto de hotel e implorou a ele que ficasse em Genebra e ajudasse a completar a recém-conquistada Reforma. Calvino ficou sinceramente chocado com a idéia e protestou dizendo não estar bem preparado para uma tarefa assim. Ele poderia edificar melhor a igreja estudando e escrevendo em paz. "O ponto mais alto de meus desejos", ele escreveu mais tarde ao Cardeal Sadolet, "era aproveitar a tranqüilidade literária, com algo como um cargo livre e respeitável."28 Dêem-me apenas um canto isolado na biblioteca e deixem o resto do mundo prosseguir! FareI, entretanto, não se intimidou com a pobre desculpa daquele jovem. Com seus olhos flamejantes e sua temível barba ruiva, FareI trovejou a maldição de Deus sobre Calvino em palavras que ele nunca poderia esquecer:

A essa altura, FareI (Ardendo com um zelo assombroso pela proclamação do evangelho) repentinamente uniu todos os seus esforços para manter-me ali. Depois de ouvir que eu estava decidido a prosseguir meus próprios estudos particulares - Quando percebeu que não chegaria a lugar algum com súplicas - chegou a ponto de amaldiçoar-me: Que agradaria a Deus amaldiçoar meu lazer e a tranqüilidade para meus estudos que eu estava buscando, se em tão grave emergência eu me retirasse e me recusasse a prestar auxílio e socorro? Essa palavra arrasou-me tanto, que desisti da viagem que havia começado.29

A partir daquele momento, o destino de Calvino estava ligado ao de Genebra. Em suas primeiras cartas depois de seu chamado, ele se referia a si mesmo como "leitor das Sagradas Escrituras à igreja de Genebra". Mesmo tendo assumido diversas outras tarefas ao longo dos anos, sua vocação básica permaneceu a de pastor e de mestre. É importante ressaltar que Calvino nunca se sentiu à vontade em Genebra. Na primeira menção feita a ele nos registros do conselho da cidade, Calvino é referido como "ille Gallus - aquele francês"! Ele tornou-se cidadão de Genebra em 1559, apenas cinco anos antes de sua morte. Até hoje, os suíços são famosos por seu esnobismo e provincianismo, principalmente os de Genebra. Por exemplo, L' Eglise protestante nacionale refere-se não ao corpo nacional da igreja da Suíça, a Igreja Reformada Suíça, mas sim à igreja do cantão de Genebra. A primeira estadia de Calvino em Genebra durou menos de dois anos. Ele realizou coisas importantes - seu primeiro catecismo e uma confissão de fé foram adotados - mas o conflito com o conselho sobre a disciplina adequada da igreja levou a uma crise. Em abril de 1538, Calvino e FareI foram expulsos da cidade. Após outra breve estada em Basiléia, Calvino foi persuadido a mudar-se para Estrasburgo, para onde havia sido conduzido antes de ser abordado, por assim dizer, pelo inflamado FareI.






21 Emanuel Strickelberger, em Calvin: A Life (Richmond: John Knox Press, 1954), p. 22, dá crédito a esse relato.

22 O texto dos cartazes de 1534 foi traduzido por Ford L. Battles, aparecendo como “Apêndice I” em sua edição das Institutas em 1536, pp. 339-342. 

23 0S 1, p. 1. A tradução é a de T. H. L. Parker, John Calvin: A Biography (Londres: Dent and Sons, 1975), p. 34.

24 Institutas de 1536, p. 1; OS 1, p. 21.

25 Institutas de 1536, p. 3; OS 1, p. 23.

26 Institutas de 1536, p. 19; OS 1, p. 36.

27 Citado de William Monter, Calvin's Geneva (Nova Iorque: John Wiley and Sons, 1967), p. 56.

28 Calvin: Theological Treatises, p. 225: "nempe ut otio literario cum honestaaliqua ingenuaque conditione fruerer". OS 1, p. 461.

29 Battles, p. 33; CO 31, col. 26.


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