sexta-feira, 11 de abril de 2014

Sola Scriptura (por Frank Brito) - parte 05 de 05



Extraído de: Mensagem Reformada
Texto Revisado, Editado e Modificado com permissão do Autor por: Átila Calumby



O mesmo aconteceu no tempo de Jesus.
O magistério judaico transmitia a Escritura, e de igual modo a "tradição dos anciões". Jesus confirmou a Escritura e destruiu a tradição dos anciões:
"Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? pois não lavam as mãos quando comem pão. Ele, porém, respondendo, disse-lhes: Por que transgredis vós, também, o mandamento de Deus pela vossa tradição?" 
(Mateus 15.2-3)
Por que os judeus deveriam crer em Jesus, alguém que surge do nada, e não no magistério que o declarava como sendo um "zé ninguém"? Pelo mesmo motivo que deveriam crer em Jeremias. Jesus estava em conformidade com a Palavra de Deus. O magistério não. Mesmo tendo escribas transmissores das Escrituras. Era a Palavra de Deus validando a Palavra de Deus. 
"E ele lhes disse: O néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! Porventura não convinha que o Cristo padecesse estas coisas e entrasse na sua glória? E, começando por Moisés, e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras". 
(Lucas 24.25-27)
E isso, sem magistério bater o martelo nem nada. Eles eram néscios porque não tinham contrariado a opinião do magistério que havia lhes dado as Escrituras.
Sobre a Escritura, Paulo escreveu:
"Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra. 
(II Timóteo 3.16-17)

Esse verso é muito conhecido. Mas seu contexto é pouco lembrado. O capítulo começa dizendo:
"Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos. Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, Traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te. Porque deste número são os que se introduzem pelas casas, e levam cativas mulheres néscias carregadas de pecados, levadas de várias concupiscências; Que aprendem sempre, e nunca podem chegar ao conhecimento da verdade". 
(II Timóteo 3:1-7)
O objetivo de Paulo neste capítulo é avisar a Timóteo sobre a necessidade de evitar e não imitar pessoas com determinados comportamentos. Como ele diz também:
"...os homens maus e enganadores irão de mal para pior, enganando e sendo enganados. Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido..." 
(II Timóteo 3.13-14)
O meio pelo qual Timóteo não seria como aqueles que vão de mal a pior era permanecendo naquilo que ele havia aprendido e era inteirado. É ai que Paulo menciona que:
"Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra. 
(II Timóteo 3.16-17)

Muitos entendem que quando diz aqui "Toda Escritura", ele está se referindo somente ao que conhecemos Antigo Testamento.
Há um motivo forte pra ele pensar assim. No verso anterior, ele havia dito:
"E que desde a tua meninice sabes as sagradas Escrituras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus". 
(II Timóteo 3.15)


Na meninice de Timóteo, não havia Novo Testamento. Isso não significa que no verso seguinte ele esteja se referindo somente ao Antigo Testamento?

Há inúmeros motivos que demonstram como isso não é o caso.


1) Em I Timóteo, Paulo já havia citado um evangelho como sendo Escritura:
"Porque diz a Escritura: Não ligarás a boca ao boi que debulha. E: Digno é o obreiro do seu salário". 
(I Timóteo 5.18)

A citação vem de Lucas:
"E ficai na mesma casa, comendo e bebendo do que eles tiverem, pois digno é o obreiro de seu salário. Não andeis de casa em casa". 
(Lucas 10:7)

Em Mateus, há um texto parecido, mas com uma variação. A palavra "alimento" no lugar de "salário".


"nem de alforje para o caminho, nem de duas túnicas, nem de alparcas, nem de bordão; porque digno é o trabalhador do seu alimento". 
(Mateus 10.10)

2) Os próprios escritos de Paulo já eram considerados como "Escrituras":

"e tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor; como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada; como faz também em todas as suas epístolas, nelas falando acerca destas coisas, mas quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, como o fazem também com as outras Escrituras, para sua própria perdição". 
(II Pedro 3.15-16)

O motivo pelo qual isso tudo já era considerado "Escritura" é simples. Vinham do circulo apostólico que era equivalente ao circulo profético do Antigo Testamento. A autoridade apostólica era equivalente a autoridade dos grandes profetas. Por isso Paulo exigia obediência aos seus escritos:
"Mas, se alguém não obedecer à nossa palavra por esta carta, notai-o e não tenhais relações com ele, para que se envergonhe". 
(II Tessaloniscenses 3.14)

3) De que forma somente o Antigo Testamento poderia ser suficiente para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra?
Há muitas coisas importantes necessárias para a perfeita instrução que não estão contidas no Antigo Testamento. A perfeita instrução do cristão depende dos dois testamentos. Se ele tem o Antigo Testamento somente, ele não poderá ser perfeitamente instruído, pois haverá coisas lá que ele não deve fazer e haverá coisas que ele deve fazer que não estará lá.

A questão é que "Escrituras" é o nome técnico usado pra se referir ao conjunto específico de livros especialmente inspirados por Deus para efetuar a perfeita instrução de seu povo.
O Antigo Testamento são Escrituras, certamente. Mas não são toda Escritura. Tudo o que Paulo estava dizendo é que Timóteo havia sido instruído nas Escrituras desde sua meninice. Mas no verso seguinte ele descreve a função de toda Escritura, da Escritura em sua totalidade incluindo aquilo que Timóteo não conhecia quando criança mas que havia sido citado como Escritura pra Timóteo em sua primeira carta a ele.
Este verso ensina a soberania da Escritura como determinadora do bem e do mal. Em resumo, este verso ensina o Sola Scriptura.
Pois ele ensina que a Escritura é divinamente inspirada "para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra".

Isso significa que não pode existir qualquer boa obra da qual o homem precisa ser instruído que não esteja lá. Isso significa que não pode existir qualquer conceito do que seja bom e do que seja ruim que não seja ensinado nas Escrituras.

Caso exista, então esse versículo não pode ser verdadeiro. Pois, se existir alguma instrução que o homem precisa receber sobre o que é uma boa obra e o que é uma obra má, que não esteja na Escritura, isso significa que a Escritura não foi Divinamente inspirada com o objetivo de instruir o homem perfeitamente, mas seria verdade que ela foi Divinamente inspirada para instruir o homem imperfeitamente, sendo necessário uma instrução adicional daquilo que não está lá.


Prestar culto a Maria e fazer procissão com sua imagem, por exemplo, como a Rainha dos Céus, Nossa Senhora e imaculada de todo pecado, portanto não pode ser uma boa obra, mas é uma obra má, pois caso fosse uma boa obra teria que ser instruído pela Escritura que é "divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra. (II Timóteo 3.16-17)
Mas como já falamos, é com base na própria Escritura que podemos chegar a compreensão correta do que de fato é a Escritura.

É somente com a compreensão deixada pela própria Escritura e não por qualquer imposição de "lógicas" na Escritura que contradizem o testemunho interno da Escritura.
Nós já vimos que aquilo que faz parte da Escritura vem do circulo apostólico, cujo fundamento dogmático foi lançado no primeiro século e que depois disso não houve fundamento sendo lançado, mas o que houve é o edifício da Igreja sendo construído, como ainda está sendo construído.

Nós já vimos também que a existência de um magistério validador da Escritura não é necessário para o reconhecimento da Escritura, pois isso iria contradizer o testemunho interno da própria Escritura.
Somente quando compreendemos isso, podemos ter uma abordagem sadia da História da Igreja pós-apostólica, que é o que chamam de tradição.

Como foi mencionado no princípio, temos que ter em mente a distinção entre determinador de autoridade, validação, etc... reconhecimento. A analise da História é um dos meios pelo qual chegamos ao reconhecimento da Escritura ao mesmo tempo em que nenhum evento da História da Igreja é de qualquer forma um determinador da autoridade da Escritura, pois a Palavra de Deus tem autoridade inerente. A analise da História nos leva aos escritos em suas origens, da mesma forma que um judeu do tempo de Jeremias reconheceria a Lei escrita de Moisés como tendo origem nele pela sua origem histórica.


Mas ao mesmo tempo reconhecemos que a Escritura não é um livro que está para ser julgado como qualquer outro pelo testemunho histórico, mas a sua verdade é garantida, em última instância, pelo testemunho do Espírito Santo em nossos corações que sela a nossa fé nas Escrituras.
É somente quando compreendemos isso, que estamos prontos pra discutir cânon e o conteúdo das Escrituras. Não se trata de uma reflexão sobre a autoridade determinativa das Escrituras a parte da Igreja na História, mas é uma reflexão sobre o reconhecimento da autoridade determinativa da Escritura pela Igreja em sua História.

Tendo isso compreendido, podemos começar a discutir o cânon.

O que eu disse aqui tem implicações não somente para discutir o conteúdo das Escrituras, mas também outras questões como unidade da Igreja, possibilidade de reconhecimento de pontos fundamentais e não-fundamentais dentro da Escritura (que faz parte do conceito de inteligibilidade da Escritura) entre outros assuntos.

Uma última consideração importante é o mito da formação do cânon pelo Concílio de Nicéia. O objetivo do mito é tentar associar a formação da Escritura com supostos interesses políticos do Império Romano e assim destruir a possibilidade de confiança na Bíblia.

Mas a verdade é que não existiu no Concílio de Nicéia qualquer discussão sobre o conteúdo do cânon. Não há qualquer evidência que qualquer discussão desse tipo tenha existido lá em lugar nenhum se não em mentes depravadas que procuram militar contra o Cristianismo. Há alguns meses eu conversei com um suposto "judeu messianico" que tentou argumentar esse mito. Eu ofereci a ele R$ 1.000 reais caso ele conseguisse me provar as histórias que ele contava sobre a seleção do cânon lá. Ele disse que ia obter provas. Eu continuo com o meu dinheiro e ele sumiu desde então.

O que foi discutido no Concílio de Nicéia não foi o conteúdo das Escrituras, mas a sua discussão principal foi a doutrina da Trindade. Eu cito esse fato aqui pelo seguinte motivo.

O que a História nos mostra é que o debate em Nicéia aconteceu tendo como premissa a Escritura. Cada lado da discussão, os arianos e os trinitarianos, citavam a Escritura pra defender a sua causa. Isso aconteceu sem que tivesse tido qualquer discussão previa sobre o conteúdo das Escrituras. O motivo pelo qual não foi necessário uma discussão prévia sobre o conteúdo das Escrituras era porque esse conteúdo já era pressuposto pela pelos participantes do debate que representavam as duas opiniões existentes na Igreja desde então. A conclusão do Concílio de Nicéia foi tomado com base em conclusões da Escritura somente. Isso significa que o Concílio de Nicéia não tem qualquer autoridade inerente, mas que sua autoridade se deriva da correta conclusão a respeito do testemunho da Palavra de Deus.

Devemos ser fiéis as conclusões do Concílio de Nicéia, mas não porque o Concílio de Nicéia tenha autoridade inerente e determinante, mas porque o Concílio de Nicéia foi fiel a Palavra de Deus, esta sim tem autoridade inerente. A validade do Concílio de Nicéia é garantido pela sua fidelidade em reconhecimento da Palavra de Deus.
SOLA SCRIPTURASOLA GRATIASOLA FIDESOLI DEO GLORIA!



Ver o artigo ou a parte seguinte Ver o artigo ou a parte anterior Ver a página principal
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...