sábado, 3 de maio de 2014

Existem Duas Vontades em Deus? Eleição Divina e o Desejo de Deus para que Todos Sejam Salvos (por John Piper) - Parte 03 de 05



A obra de Endurecimento de Deus

Outra evidência com o fim de demonstrar Deus desejando um estado de coisas em um sentido que Ele desaprova em outro é o testemunho da Escritura de que Deus quis endurecer o coração de alguns homens para que eles se tornassem obstinados em comportamento pecaminoso, o qual Deus desaprova.
O exemplo mais bem conhecido é o endurecimento do coração de Faraó. Em Êxodo 8:1 o Senhor diz a Moisés: “Depois, disse o SENHOR a Moisés: Chega-te a Faraó e dize-lhe: Assim diz o SENHOR: Deixa ir o meu povo, para que me sirva." Em outras palavras, a ordem de Deus, ou seja, a sua vontade, é que o Faraó deveria deixar ir os israelitas. No entanto, desde o início, Ele também não quis que o Faraó deixasse ir os israelitas. Em Êxodo 4:21 Deus diz a Moisés: "Quando voltares ao Egito, vê que faças diante de Faraó todos os milagres que te hei posto na mão; mas eu lhe endurecerei o coração, para que não deixe ir o povo." Em um momento o próprio Faraó reconhece que sua relutância em deixar ir o povo é pecado: "Agora, pois, peço-vos que me perdoeis o pecado esta vez ainda" (Êxodo 10:17). Assim, o que vemos é que Deus ordenou Faraó fazer uma coisa que o próprio Deus não iria permitir. A boa coisa que Deus ordena Ele evita. E a coisa que Ele faz com que aconteça envolve pecado.
Alguns tentaram se esquivar dessa implicação, salientando que durante as primeiras cinco pragas o texto não diz explicitamente que Deus endureceu o coração do Faraó, mas que ele "estava endurecido" (Êxodo 7:22; 8:19; 9:7) ou que o Faraó endureceu seu próprio coração (Êxodo 8:15,32), e que somente na sexta praga é dito explicitamente "o Senhor endureceu o coração de Faraó" (9:12; 10:20,27; 11:10; 14:4). R.T. Forster e V.P. Marston, por exemplo, dizem que somente a partir da sexta praga que Deus deu a Faraó "força sobrenatural para continuar com o seu caminho mau de rebeldia".
Mas esta observação não sucede em esquivar-se da evidência das duas vontades em Deus. Mesmo se Forster e Marston estiverem certos de que Deus não queria que o coração do Faraó fosse endurecido durante as primeiras cinco pragas, eles admitem que nas últimas cinco pragas Deus quis fazer isso, pelo menos no sentido de reforçar Faraó para continuar no caminho de rebelião. Assim, há um sentido em que Deus quis que o Faraó continuasse a recusar deixar ir o povo, e há um sentido em que Ele queria que o Faraó libertasse o povo. Pois ele ordena: "Deixa meu povo ir." Isto ilustra por que os teólogos falam sobre a "vontade de comando" ("Deixe ir o meu povo!") e a "vontade de decreto" ("o Senhor endureceu o coração de Faraó").
O Êxodo não é o único lugar em que Deus age dessa maneira. Quando o povo de Israel chegou à terra de Siom, rei de Hesbom, Moisés enviou mensageiros "com palavras de paz, dizendo: deixa-me passar pela tua terra; somente pela estrada irei" (Deuteronômio 2:26-27). Mesmo que este pedido tivesse levado Siom a tratar o povo de Deus com respeito, porque Deus queria que seu povo fosse abençoado e não atacado, todavia "Mas Siom, rei de Hesbom, não nos quis deixar passar por sua terra, porquanto o SENHOR, teu Deus, endurecera o seu espírito e fizera obstinado o seu coração, para to dar nas mãos, como hoje se vê." (Deuteronômio 2:30). Em outras palavras, era a vontade de Deus (em um sentido) que Siom agisse de uma maneira que era contrária à vontade de Deus (em outro sentido) que Israel fosse abençoado e não amaldiçoado.
Da mesma forma, a conquista das cidades de Canaã se deve a Deus querer que os reis da terra resistissem a Josué, ao invés de entrar em paz com ele. “Não houve cidade que fizesse paz com os filhos de Israel, senão os heveus, moradores de Gibeom; por guerra as tomaram todas. Porquanto do SENHOR vinha o endurecimento de seus corações, para saírem à guerra contra Israel, para que fossem totalmente destruídos e não achassem piedade alguma; mas para os destruir a todos como o SENHOR tinha ordenado a Moisés” (Josué 11:19-20). Em vista disto, é difícil imaginar o que Fritz Guy quer dizer quando diz que a "vontade de Deus deve sempre ser pensada em termos de desejo e intenção amorosa, e não em termos de efetivo propósito de julgamento de Deus.” O que parece mais simples é que, quando chegou a hora do julgamento, Deus quis que o culpado fizesse coisas que são contra a Sua vontade revelada, como amaldiçoar Israel, ao invés de abençoá-la.
A obra de endurecimento por Deus não foi limitada aos não-israelitas. Na verdade ela desempenha um papel central na vida de Israel neste período da história. Em Romanos 11:7-9 Paulo fala do fracasso de Israel em obter justiça e salvação desejada: "O que Israel busca, isso não conseguiu; mas a eleição o alcançou; e os mais foram endurecidos, como está escrito: "Deus lhes deu espírito de entorpecimento, olhos para não ver e ouvidos para não ouvir, até ao dia de hoje". Mesmo que seja o mandamento de Deus que seu povo veja, ouça e responda em fé (Isaías 42:18), no entanto, Deus também tem suas razões para enviar o espírito de entorpecimento, por vezes, de modo que alguns não obedeçam seus mandamentos.
Jesus expressou essa mesma verdade, quando Ele explicou que um dos propósitos de falar em parábolas aos judeus de sua época era trazer sobre estes cegueira judicial ou entorpecimento. Em Marcos 4:11-12, Ele disse aos seus discípulos: "A vós outros vos é dado conhecer o mistério do reino de Deus; mas, aos de fora, tudo se ensina por meio de parábolas, para que, vendo, vejam e não percebam; e, ouvindo, ouçam e não entendam; para que não venham a converter-se, e haja perdão para eles." Aqui, novamente Deus quer que uma condição prevaleça, sendo que Ele a considera censurável. Sua vontade é que eles se arrependam e sejam perdoados (Marcos 1:15), mas Ele age de forma a restringir a realização dessa vontade.
Paulo retrata esse endurecimento divino, como parte de um plano global que envolverá a salvação do judeus e dos gentios. Em Romanos 11:25-26, ele diz a seus leitores gentílicos, "Porque não quero, irmãos, que ignoreis este mistério (para que não sejais presumidos em vós mesmos): que veio endurecimento em parte a Israel, até que haja entrado a plenitude dos gentios. E, assim, todo o Israel será salvo". O fato de que o endurecimento tem um alvo final "até que haja entrado a plenitude dos gentios" demonstra que é parte do plano de Deus ao invés de um evento meramente contingente fora do Seu propósito. No entanto Paulo expressa não só o seu, mas também o coração de Deus quando diz em Romanos 10:1, "Irmãos, a boa vontade do meu coração e a minha súplica a Deus a favor deles [Israel] são para que sejam salvos". Deus estende as mãos a um povo rebelde (Romanos 10:21), mas ordena um endurecimento que os entrega por um tempo a desobediência.
Este é o ponto de Romanos 11:31-32. Paulo fala aos seus leitores gentílicos novamente sobre a desobediência de Israel na rejeição de seu Messias: "Assim também estes [Israel] agora foram desobedientes, para também alcançarem misericórdia pela misericórdia a vós [gentios] demonstrada". Quando Paulo diz que Israel foi desobediente "a fim de que" os gentios pudessem obter os benefícios do evangelho, qual era o propósito que ele tinha em mente? Isso só pode ser Deus. Porque Israel não concebeu sua própria desobediência como uma forma de abençoar os gentios, ou ganhar a misericórdia para si, ou algo em torno disso. O ponto de Romanos 11:31, portanto, é que o endurecimento de Israel por Deus não é um fim em si, mas faz parte de um propósito de salvação que abrangerá todas as nações. Mas, no curto prazo, temos de dizer que Ele quer uma condição (dureza de coração), a qual Ele ordena as pessoas a lutarem contra ("Não endureçais o vosso coração" Hebreus 3:8, 15; 4:7).

O Direito de Deus Restringir o Mal e Sua Vontade de Não Fazer Isso

Outra linha da evidência bíblica de que Deus às vezes quer fazer acontecer o que Ele desaprova é sua escolha de usar ou não usar seu direito de restringir o mal no coração humano.
Provérbios 21:1 diz, "Como ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do SENHOR; este, segundo o seu querer, o inclina." Um exemplo deste direito divino sobre o coração do rei é dado em Gênesis 20. Abraão estava peregrinando em Gerar e disse ao rei Abimeleque que Sara era sua irmã. Então Abimeleque, a toma como parte de seu harém. Mas Deus fica descontente e o avisa em um sonho que ela é casada com Abraão. Abimeleque protesta a Deus que ele a tinha tomado na sua integridade. E Deus diz (no versículo 6): “Bem sei eu que na sinceridade do teu coração fizeste isto; e também eu te tenho impedido de pecar contra mim; por isso não te permiti tocá-la.”
O que é evidente aqui é que Deus tem o direito e o poder para restringir os pecados dos governantes seculares. Quando Ele faz, é Sua vontade fazê-lo. E quando Ele não faz, é Sua vontade não fazê-lo. O que quer dizer que às vezes Deus quer que seus pecados sejam restringidos e outras vezes Ele quer que eles aumentem mais do que se os tivesse restringido.
Não é uma injusta violação sobre a agência humana que o Criador tenha o direito e o poder de restringir as ações más das suas criaturas. Salmo 33:10-11 diz: "O SENHOR frustra os desígnios das nações e anula os intentos dos povos. O conselho do SENHOR dura para sempre; os desígnios do seu coração, por todas as gerações”. Às vezes, Deus frustra a vontade dos governantes fazendo seus planos falharem. Às vezes Ele faz isso ao influenciar seus corações da mesma maneira como Ele fez com Abimeleque, mesmo que eles não saibam disso.
Mas há momentos em que Deus não usa esse direito, porque Ele tem a intenção de fazer a maldade humana seguir seu curso. Por exemplo, Deus queria matar os filhos de Eli. Portanto, Ele quis que eles não ouvissem os conselhos de seu pai: "Era, porém, Eli já muito velho e ouvia tudo quanto seus filhos faziam a todo o Israel e de como se deitavam com as mulheres que serviam à porta da tenda da congregação. E disse-lhes: Por que fazeis tais coisas? Pois de todo este povo ouço constantemente falar do vosso mau procedimento. Não, filhos meus, porque não é boa fama esta que ouço; estais fazendo transgredir o povo do Senhor. Pecando o homem contra o próximo, Deus lhe será o árbitro; pecando, porém, contra o Senhor, quem intercederá por ele? Entretanto, não ouviram a voz de seu pai,porque o Senhor os queria matar." (1 Samuel 2:22-25).
Por que os filhos de Eli não deram ouvidos aos bons conselhos de seu pai? A resposta do texto é "porque o Senhor os queria matar". Isto só faz sentido se o Senhor tivesse o direito e o poder para restringir a sua desobediência - direito e poder que Ele não quis usar. Assim, devemos dizer que em um sentido, Deus quis que os filhos de Eli continuassem fazendo o que Ele ordenou-lhes que não fizessem: desonrar o pai e cometer imoralidade sexual.
Além disso, a palavra "queria" da cláusula "o Senhor os queria matar", é a mesma palavra hebraica (haphez) utilizada em Ezequiel 18:23,32 e 33:11, onde Deus afirma que Ele não deseja a morte do ímpio. Deus desejou matar os filhos de Eli, mas Ele não deseja a morte do ímpio. Esta é uma forte advertência para não tomarmos uma afirmação, como Ezequiel 18:23, e assumir que sabemos o significado preciso, sem deixar outras escrituras como 1 Samuel 2:25 terem algo a dizer. O resultado de colocar as duas passagens juntas é que, em um sentido, Deus pode desejar a morte do ímpio e em outro sentido, Ele não pode.
Outra ilustração de Deus escolhendo não usar seu direito de restringir o mal é encontrada em Romanos 1:24-28. Três vezes Paulo diz que Deus entregou as pessoas (paredoken) para afundarem ainda mais em corrupção. Versículo 24: "Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à impureza, à desonra de seus corpos entre si." Versículo 26: "Deus os entregou a paixões infames." Versículo 28: "E, como eles se não importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convém". Deus tem o direito e o poder para restringir esse mal à semelhança do que fez por Abimeleque. Mas Ele não quis fazer isso. Pelo contrário, a Sua vontade neste caso foi de punir, e parte do castigo de Deus sobre o mal é muitas vezes Ele querer o aumento do mal. Mas isso significa que Deus escolhe que um comportamento venha a acontecer, sendo que Ele ordenou que não aconteça. O fato de que a vontade de Deus é punitiva não muda isso. E o fato dela ser justificadamente punitiva é um dos pontos deste capítulo. Há outros exemplos que poderíamos dar, mas passemos para uma linha diferente de evidências.

Será que Deus se Deleita com o Castigo dos Ímpios?

Nós acabamos de ver que Deus "quis" matar os filhos de Eli, e que a palavra para esse desejo é a mesma usada em Ezequiel 18:23 quando Deus diz não “ter prazer” na morte do ímpio. Outra ilustração desse complexo desejo encontra-se em Deuteronômio 28:63. Moisés é advertido da vinda do julgamento sobre o Israel impenitente. O que ele diz é muito diferente (não contraditório, como irei argumentar) de Ezequiel 18:23. "Assim como o Senhor se alegrava em vós outros, em fazer-vos bem e multiplicar-vos, da mesma sorte o Senhor se alegrará em vos fazer perecer e vos destruir."
Aqui uma palavra ainda mais forte para a alegria é usado (yasis) quando diz que Deus "se alegrará em vos fazer perecer e vos destruir." Somos confrontados com o incontestável fato bíblico de que que em certo sentido, Deus não se deleita na morte do ímpio (Ezequiel 18), e em outro sentido, Ele se deleita. (Deuteronômio 28:632 Samuel 2:25).




Ver o artigo ou a parte seguinte Ver o artigo ou a parte anterior Ver a página principal
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...