segunda-feira, 5 de maio de 2014

Existem Duas Vontades em Deus? Eleição Divina e o Desejo de Deus para que Todos Sejam Salvos (por John Piper) - Parte 05 de 05

Isso faz sentido?

Eu passo agora à tarefa de refletir sobre como essas duas vontades de Deus se encaixam e fazem sentido - na medida em que esta finita e falível criatura pode responder a esse desafio.
A primeira coisa a afirmar, tendo em vista todos estes textos é que Deus não peca: "Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória". (Isaías 6:3). “Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta." (Tiago 1:13). Ao ordenar todas as coisas, inclusive atos pecaminosos, Deus não peca. Pois, como Jonathan Edwards diz: "Não implica nenhuma contradição supor que um ato pode ser um ato mal, e ainda assim que seja uma coisa boa que tal ato venha a acontecer... Como, por exemplo, pode ser uma coisa má crucificar a Cristo, mas ainda assim ter sido uma coisa boa que a crucificação de Cristo tenha acontecido". Em outras palavras, as Escrituras nos levam à percepção de que Deus pode querer que um ato pecaminoso aconteça sem o querer como um ato de pecado em si mesmo.
Edwards aponta que os arminianos, me parece, deveriam chegar a uma conclusão similar.
"Todos devem reconhecer que Deus não quer, por vezes, impedir a violação dos seus próprios mandamentos, porque Ele, de fato, não os impede... Mas você dirá que a vontade de Deus permite o pecado, de forma que Ele quer que a criatura seja deixada à sua liberdade; e se Ele impedi-lo, Ele irá oferecer violência à natureza da sua própria criatura. Eu respondo que isso vem, no entanto, a ser a mesma coisa que eu disse. Você diz que Deus absolutamente não quer o pecado, mas ao invés de alterar a lei da natureza e a natureza dos agentes livres, Ele quer as coisas como são. Ele quer o que é contrário à excelência em alguns elementos, por causa de uma mais geral excelência e ordem. Dessa forma, o esquema dos arminianos não resolve a questão.”
Isso me parece correto, e pode ser ilustrado novamente ao refletirmos diretamente em 1 Timóteo 2:4, onde Paulo diz que Deus quer que todas as pessoas sejam salvas. O que nós estamos dizendo do fato de que Deus deseja algumas coisas que na verdade não chegam a acontecer. Tanto quanto eu possa ver, existem aqui duas possibilidades. Uma delas é que há um poder no universo maior do que o de Deus, o qual o frusta por anular o que Ele quer. Nem os calvinistas nem os arminianos afirmam isso.
A outra possibilidade é que Deus não quer salvar a todos, apesar de estar disposto a salvar todos, porque há outra coisa que Ele queira mais, a qual seria perdida se Ele exercesse seu poder soberano para salvar a todos. Esta é a solução que eu, como calvinista, afirmo juntamente com os arminianos. Em outras palavras, tanto os calvinistas quanto os arminianos afirmam duas vontades em Deus quando refletem profundamente sobre 1 Timóteo 2:4. Ambos podem dizer que Deus quer que todos sejam salvos. Mas quando consultados sobre por que todos não são salvos, tanto os calvinistas quanto os arminianos respondem que Deus está empenhado em algo ainda mais valioso do que salvar a todos.
A diferença entre os calvinistas e os arminianos não reside em se existem duas vontades em Deus, mas no que eles dizem ser este compromisso maior. O que Deus quer mais do que salvar a todos? A resposta dada pelos arminianos é que a autodeterminação humana e a possibilidade resultante de um relacionamento de amor com Deus são mais valiosas do que salvar todas as pessoas pela graça soberana e eficaz. A resposta dada pelos calvinistas é que mais valiosa é a manifestação de toda a extensão da glória de Deus em ira e misericórdia (Romanos 9:22-23) e a humilhação do homem de forma que ele possa desfrutar em dar a Deus todo o crédito pela sua salvação (1 Coríntios 1:29).
É absolutamente crucial entender isso, porque implica que 1 Timóteo 2:4 não resolve a importante questão do maior compromisso de Deus, o qual o restringe de salvar a todos. Não há menção aqui de livre arbítrio. Também não há menção da graça soberana, preveniente e eficaz. Se tudo o que nós tivéssemos fosse este texto, nós só poderíamos supor o que restringe Deus de salvar a todos. Quando o livre-arbítrio é encontrado neste versículo é uma suposição filosófica e metafísica e não uma conclusão exegética. A suposição é que se Deus quer, em um sentido, que todos sejam salvos, então ele não pode, em outro sentido, querer que só alguns sejam salvos. Essa hipótese não está no texto, nem é exigida pela lógica, nem é ensinada no resto das Escrituras. Portanto, 1 Timóteo 2:4 não resolve a questão, mas a cria. Tanto os arminianos quanto os calvinistas devem procurar outras passagens para responder se o dom da auto-determinação humana ou a glória da soberania divina é a realidade que restringe a vontade de Deus de salvar todas as pessoas.
Os calvinistas que eu admiro não clamam ter soluções simples e fáceis para as complexas tensões bíblicas. Quando seu texto é difícil, isso se deve ao fato das Escrituras serem difíceis (como o apóstolo Pedro reconheceu que, em parte, elas são, 2 Pedro 3:16). Estes calvinistas estão lutando para ser fiéis a diversas (mas não contraditórias) Escrituras. Tanto os calvinistas quanto os arminianos, por vezes, sentem que a ridicularização dirigida contra suas exposições complexas são, na verdade, uma ridicularização feita contra contra a complexidade das Escrituras.
Eu acho que os esforços de Stephen Charnock (1628-1680), um capelão em Henry Cromwell e não-conformista pastor em Londres, são equilibrados e úteis na sustentação unida das diversas Escrituras sobre a vontades de Deus.
Deus não quer [o pecado] diretamente, e por uma vontade eficaz. Ele não quer isso diretamente, porque Ele o proibiu em sua lei, a qual é uma revelação de sua vontade; de modo que se Ele diretamente quiser o pecado, e diretamente o proibir, Ele iria querer bem e mal da mesma maneira, e haveria contradições na vontade de Deus: querer o pecado absolutamente, é fazer com que ele ocorra (Salmo 115:3): "Deus tudo faz como lhe agrada". Deus não pode absolutamente querer isso, porque Ele não pode fazer com que isso ocorra. Ele deseja o bem por um decreto positivo, porque decretou que isto se efetivasse. Ele deseja o mal por um decreto privado, porque Ele decretou não dar a graça que certamente o impediria. Se Deus não quer o pecado simplesmente, por não o aprovar, mas Ele o quer, a fim de que a sabedoria traga o bem à tona a partir dele, Ele não o quer por si mesmo, mas para o evento.
Da mesma forma Jonathan Edwards, escrevendo cerca de 80 anos mais tarde, chega a conclusões semelhantes com uma terminologia um pouco diferente.
“Quando é feita uma distinção entre a vontade revelada de Deus e sua vontade secreta, ou sua vontade de comando e de decreto, "vontade" é certamente na distinção entre dois sentidos. Sua vontade de decreto, não é a sua vontade no mesmo sentido que sua vontade de comando. Portanto, não é difícil, absolutamente, supor que uma possa ser diferente da outra: sua vontade em ambos os sentidos é a sua inclinação. Mas quando dizemos que quer a virtude, ou que ama a virtude, ou a felicidade de Sua criatura; assim é intencionado que a virtude, ou a felicidade da criatura, absolutamente e simplesmente consideradas, são agradáveis à inclinação de sua natureza.”
“Sua vontade de decreto é, a sua inclinação para uma coisa, não para com aquela coisa absolutamente e simplesmente, mas com respeito à universalidade das coisas, que foram, são ou serão. Então, Deus, embora odeie uma coisa como ela simplesmente é, pode se inclinar a ela com referência à universalidade das coisas. Embora ele odeie o pecado, em si, ainda assim Ele pode desejar permití-lo, para a maior promoção da santidade nesta universalidade, incluindo todas as coisas e em todos os momentos. Assim, embora Ele não tenha inclinação para a miséria de uma criatura, considerada de forma absoluta, ainda assim Ele pode desejá-la, para a maior promoção da felicidade nesta universalidade."
Em minhas próprias palavras, Edwards diz que a complexidade infinita da mente divina é tal, que Deus tem a capacidade de olhar o mundo através de duas lentes. Ele pode olhar através de uma lente estreita, ou através de uma lente de grande ângulo. Quando Deus olha para um evento doloroso ou perverso através da sua lente estreita, Ele vê a tragédia ou o pecado pelo que ele é em si e Ele fica furioso e triste. "Porque não tenho prazer na morte de ninguém, diz o Senhor" (Ezequiel 18:32). Mas quando Deus olha para um evento doloroso ou perverso através da sua lente de grande ângulo, Ele vê a tragédia ou o pecado em relação a tudo que os antecederam e em relação a tudo que resultará deles. Ele os vê em todas as conexões e efeitos que formam um padrão ou mosaico de alongamento desde a eternidade. Neste mosaico, com todas as suas peças (boas e más) Ele se deleita (Salmo 115:3).
A vida emocional de Deus é infinitamente complexa e além da nossa capacidade de compreendê-la plenamente. Por exemplo, quem pode compreender que o Senhor ouve em um momento do tempo as orações de dez milhões de cristãos ao redor do mundo, e se solidariza com cada um pessoalmente e individualmente, como um Pai cuidadoso (como Hebreus 4:15 diz que ele irá), muito embora dentre os dez milhões de orações algumas são de coração partido e algumas são cheias de alegria? Como Deus pode chorar com os que choram e se alegrar com os que se alegram quando ambos estão próximos a ele, ao mesmo tempo?
Ou quem pode compreender que Deus está irado com o pecado do mundo todos os dias (Salmo 7:11), e ainda assim a cada dia, a cada momento, Ele está se alegrando com tremenda alegria, porque em algum lugar do mundo um pecador se arrependeu (Lucas 15: 7,10,23)? Quem pode compreender que Deus continuamente arde com ira fervente com a rebelião dos ímpios, sofre com o discurso profano do seu povo (Efésios 4:29-30), e ainda tem prazer neles diariamente (Salmo 149.4), e incessantemente se agrada sobre os pródigos arrependidos que voltam para casa?
Quem de nós poderia dizer essa complexidade de emoções não é possível para Deus? Tudo o que nós temos para nos guiar por aqui é o que Ele escolheu nos dizer na Bíblia. E o que Ele nos disse é que há um sentido em que Ele não sente prazer no julgamento dos ímpios, e há um sentido em que Ele sente.
Portanto, não devemos cambalear sobre o fato de que Deus tem e não tem prazer na morte do ímpio. Quando Moisés adverte Israel de que o Senhor teria prazer em trazer ruína sobre eles e destruí-los se não se arrependessem (Deuteronômio 28:63), Ele quer dizer que aqueles que se rebelaram contra o Senhor e se moveram para além do arrependimento não serão capazes de se regozijar de ter feito miserável o Todo-Poderoso. Deus não é derrotado nos triunfos de seu julgamento justo. Bem ao contrário. Moisés diz que quando são julgados eles involuntariamente providenciam uma ocasião para Deus se alegrar na manifestação da sua justiça, do seu poder e do valor infinito da sua glória (Romanos 9:22-23).
Quando Deus tomou conselho consigo mesmo se deveria salvar todas as pessoas, Ele consultou não só a verdade do que viu quando olhou através da lente estreita, mas também a verdade maior que viu quando todas as coisas são vistas através da lente de grande ângulo de sua onisciente sabedoria. Se, como dizem os calvinistas, Deus julgou sábio e bom eleger incondicionalmente alguns para a salvação e outros não, pode-se legitimamente perguntar se a oferta de salvação para todos é genuína. É feita com o coração? Ela vem de compaixão real? É a vontade que ninguém pereça uma bone fide vontade de amor?
A maneira que eu responderia a isso é explicada por Robert L. Dabney em um ensaio escrito mais de cem anos atrás. Seu tratamento é bastante detalhado e responde muitas objeções que vão além dos limites deste capítulo. Eu vou simplesmente dar a essência da sua solução que me parece estar no caminho certo, embora ele, assim como eu, admitiria que nós não "fornecemos uma explicação exaustiva do mistério da vontade divina."
Dabney usa uma analogia da vida de George Washington tirada do livro Vida de Washington do Chefe de Justiça Marshall. Um certo Major André tinha comprometido a segurança da jovem nação através de "imprudentes e infelizes" atos de traição. Marshall diz da sentença de morte, assinada por Washington: "Talvez em nenhuma ocasião de sua vida o comandante-chefe obedeceu com mais relutância os severos mandatos do dever e da política." Dabney observa que a compaixão de Washington por André foi “real e profunda”. Ele também tinha o "pleno poder para matar ou salvar sua vida." Por que então ele assinou a sentença de morte? Dabney explica, "a vontade de Washington de assinar a sentença de morte de André não surgiu do fato de que a sua compaixão era leve ou fingida, mas do fato de que era racionalmente contraposta por uma complexidade de juízos superiores... De sabedoria, dever, patriotismo e moral indignação [a lente de grande ângulo] "
Dabney imagina um defensor de André, ouvindo Washington dizer: "Eu faço isso com a mais profunda relutância e piedade." Em seguida, o defensor diz: "Como você é supremo neste assunto, e tem a completa habilidade física para derrubar a caneta, saberemos por sua assinatura nessa sentença que sua piedade é hipócrita." Dabney responde a isso dizendo: "A petulância desse ataque teria sido igual a sua loucura. A piedade era real, mas foi restringida por elementos de superior motivo. Washington tinha o poder oficial e corporal para libertar o criminoso, mas ele não tinha as sanções de sua própria sabedoria e justiça." O ponto correspondente no caso da eleição divina é que "a ausência da vontade de Deus em salvar não implica necessariamente a ausência de compaixão." Deus tem "uma verdadeira compaixão, que é, no entanto, restringida, no caso dos... não-eleitos, por razões consistentes e santas, de tomar a forma de uma vontade de regenerar." A infinita sabedoria de Deus regula toda a sua vontade e guia e harmoniza (não suprime) todos os seus princípios ativos. "
Em outras palavras, Deus tem uma compaixão real e profunda pelos pecadores que perecem. Jeremias ressalta esta realidade no coração de Deus. Em Lamentações 3:32-33 ele fala do juízo que Deus trouxe sobre Jerusalém: "pois, ainda que entristeça a alguém, usará de compaixão segundo a grandeza das suas misericórdias; porque não aflige, nem entristece de bom grado os filhos dos homens.". O termo "de bom grado" traduz uma palavra hebraica composta (milibo), que significa literalmente "de seu coração" (cf. 1 Reis 12:33). Parece que este é o jeito de Jeremias dizer que Deus quer a aflição que causou, mas Ele não quer isso da mesma maneira que quer a compaixão. A aflição não veio "de seu coração". Jeremias estava tentando, como nós estamos, chegar aos termos que de uma maneira o soberano Deus quer duas coisas diferentes, aflição e compaixão.
As expressões divinas de piedade e suas súplicas tem o coração nelas. Há uma genuína inclinação do coração de Deus para poupar aqueles que cometeram traição contra seu reino. Mas sua motivação é complexa, e nem todo sincero elemento nela surge ao nível da efetiva escolha. Em seu grande e misterioso coração existem tipos de anseios e desejos que são reais - eles nos dizem algo de verdadeiro sobre seu caráter. No entanto, nem todos estes anseios governam as ações de Deus. Ele é regido pela profundidade da sua sabedoria expressa através de um plano que nenhuma ordinária deliberação humana comum jamais conceberia (Romanos 11:33-36; 1 Coríntios 2:9). Existem santas e justas razões pelas quais as afeições do coração de Deus tem a natureza, a intensidade e a proporção que têm.
Dabney está ciente de que vários tipos de acusações podem ser levantadas contra a analogia de George Washington quando aplicada a Deus. Ele admite que "não pode haver perfeita analogia entre as ações de uma finita e de uma infinita inteligência e vontade." Mas eu creio que ele tem razão quando diz que as objeções não derrubam a verdade essencial que pode haver, em um coração nobre e grande (até mesmo em um coração divino), a compaixão sincera para um criminoso que não é, no entanto, posto em liberdade.
Por isso eu afirmo com João 3:16 e 1 Timóteo 2:4 que Deus ama o mundo, com uma profunda compaixão que deseja a salvação de todos os homens. No entanto, também afirmo que Deus escolheu antes da fundação do mundo quem vai salvar do pecado. Uma vez que nem todas as pessoas são salvas, devemos escolher se queremos acreditar (com os arminianos) que a vontade de Deus para salvar todas as pessoas é restringida por seu compromisso com a autodeterminação humana, ou se acreditamos (com os calvinistas), que a vontade de Deus para salvar todos os povos é restringida pelo seu compromisso com a glorificação de sua graça soberana (Efésios 1:6,12,14; Romanos 9:22-23).
Esta decisão não deve ser feita com base em pressupostos metafísicos sobre o que pensamos que responsabilidade humana requer. Deve ser feita com base no que as Escrituras ensinam. Não encontramos na Bíblia que os seres humanos têm o poder absoluto de autodeterminação. Tanto quanto eu posso dizer isso é uma inferência filosófica baseada em pressupostos metafísicos. Por outro lado, este livro pretende mostrar que a soberania da graça de Deus na salvação é ensinada nas Escrituras.
Minha contribuição foi simplesmente demonstrar que a vontade de Deus para todos os homens serem salvos não está em contradição com a soberania da graça de Deus na eleição. Ou seja, a minha resposta à pergunta acima sobre o que restringe a vontade de Deus para salvar todas as pessoas é: o seu compromisso supremo em defender e expor toda a extensão da sua glória, através da demonstração soberana da sua ira e da sua misericórdia para o gozo dos seus eleitos e dos crentes de toda tribo, língua e nação.

Autor: John Piper.
©2014 Desiring God Foundation.
Website: desiringGod.org

Extraído de:
 http://www.desiringgod.org/articles/are-there-two-wills-in-god?lang=pt


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