sexta-feira, 18 de setembro de 2015

A Bíblia Prova que Deus Não Existe?? - Escravidão e Livre-Arbítrio (parte 02 de 02)



Conforme mencionei antes, há ainda 2 temas a serem respondidos, e como esse blog está "lotado" de textos que falam sobre livre-arbítrio, vou iniciar a explicação sobre a escravidão.


Por que a escravidão é má??

Bom, da mesma forma como ocorreu na primeira parte do artigo, é importante ressaltar que o autor faz acusações sobre práticas ou ideias, mas segundo sua própria visão de mundo elas não teriam como ser julgadas de uma forma absoluta como certas ou erradas.. Isso se aplicaria também à escravidão.
Quer dizer, com que base o cético afirma que ela é errada ou ruim, se ele sequer tem um padrão moral absoluto para se apoiar??

Usando a linguagem de como o ateu descreve o ser humano, a questão é: 
O que haveria de errado se um saco de produtos biológicos naturais aleatórios tivesse outro saco de produtos naturais aleatórios como propriedade??

Se o autor afirma que a escravidão é imoral, o ônus da evidencia está com quem clama isso. O ateísmo não explica a objetividade da moral, logo escravidão não pode ser vista como errado objetivamente.

Enfim, a explicação que será feita aqui será com base da realidade de um padrão moral absoluto e objetivo, mas que fique claro que mesmo que não houvesse tal explicação ainda assim o cético não poderia fazer tal julgamento..


A bíblia apoia a escravidão??

Eu já havia publicado um texto detalhado aqui no blog explicando os vários erros de julgamento cometidos contra o conceito de escravidão como ele aparece nas Escrituras (Cristão Contra a Lei de Deus: O Problema da Escravidão), então vou apenas fazer alguns acréscimos.

Um grande problema de ateus e outros grupos ou indivíduos está em assumirem que a forma de escravidão que aconteceu na África (aonde escravos eram presos, maltratados, andavam com correntes penduradas no pescoço e etc) é a mesma apresentada na bíblia... Mas as diferenças já começam no conceito de "escravo".
A palavra em hebraico para escravo (EBED) na verdade tem também outro significado: Trabalhador, oficial, servo. Poucos tem problemas com esses termos (apesar de alguns os utilizarem quase sempre acompanhados de vitimismo), mas em geral percebemos haver dignidade, ao invés de ausência de valor em ser um escravo.
Um dos motivos de mais frequência que a escravidão acontecia na bíblia era para o pagamento de dívidas. O "escravo" trabalhava para (e vivia com/dividia o lar com) uma família para pagar suas dívidas (Êxodo 21:2, Levítico 25:35;47, Deuteronômio 15:12). Isso poderia se aplicar a uma disposição voluntária a trabalhar para aquela família e assim pagarem a dívida ou como trabalho forçado como forma de punição pelo crime de roubo, a fim de restituir através do trabalho o que foi subtraído.

Essa forma de escravidão trouxe bons frutos na história não só no tempo da bíblia mas ocorreu isso nos Estados unidos quando os europeus não tinham dinheiro para pagar sua passagem para os Estados Unidos e trabalhavam com um contrato para alguma família americana (fonte: Joshua Rosenbloom: Indentured servitude in the colonial U.S.)

A escravidão na bíblia também era vista como a ultima escolha para sobrevivência (Deuteronômio 15:16, Levítico 25:47). Em Deuteronômio 15:13-14 é dito que quando o serviço do escravo terminava depois de 6 anos, o dono era obrigado por Deus a dar dinheiro/animais/alimento ao seu escravo. Não era permitido que o escravo saísse com nada.

Outro fato importante é que a bíblia (em Êxodo 21) comanda que os escravos sejam tratados como PESSOAS, com integridade. Os judeus inclusive são lembrados de que foram escravos no Egito e por isso mesmo devem tratar bem seus servos. (Deuteronômio 15:15).

Se um  escravo viesse trabalhar com a sua esposa, eles dois poderiam ser libertos após 6 anos. Deuteronômio 15:16 mostra como era comum os "escravos" amarem seus mestres e os considerarem como família. Isso inclusive lhes dava a opção de permanecerem como servos por toda a vida, por livre e espontânea vontade (Êxodo 21:5).

Outra demonstração de cuidado está no fato de que escravos tinham o direito ter um dia livre na semana (Êxodo 23:12). Dessa forma, assim como seus mestres, tinham a oportunidade de descanso.

Outro direito é mostrado em Êxodo 21:26: se um mestre machucasse o escravo, esse escravo teria o direito de ser livre. Isso já derruba a ideia de que o mestre poderia cometer abusos contra o escravo. Isso não é tolerado por Deus. E no caso extremo, em que um mestre assassinasse um servo, sua punição seria pena de morte, conforme Êxodo 21:20. Uma prova cabal de que assim como os mestres, os escravos também possuíam a imagem de Deus (Gênesis 9:6).

Nesse capítulo, versículos antes, pode-se ter a ideia oposta a essa, de que os mestres poderiam agredir seus servos à vontade desde que não o matassem:
Se alguém ferir seu escravo ou escrava com um pedaço de pau, e como resultado o escravo morrer, será punido; mas se o escravo sobreviver um ou dois dias, não será punido, visto que é sua propriedade.
(Êxodo 21:20,21)
Nesse caso eu concordo que a leitura desses versículos pode levar a essa interpretação sim, mas é importante lembrarmos que originalmente os livros bíblicos não possuíam divisões em capítulos e versículos. Isso faz toda a diferença porque não faz sentido que alguém retire uma frase de seu contexto (seja na bíblia ou qualquer outra literatura) para justificar alguma ideia, desprezando onde ela estava inserida e o que ele significa nesse contexto.
Com isso não estou dizendo que deveríamos mudar o sentido de certos versículos para que sejam adaptáveis ao contexto, mas sim que dentre as interpretações possíveis somente são válidas aquelas que esteja adequada a esse contexto (nesse caso ao conteúdo do capítulo e do livro).

Sendo assim, vejamos o que o autor dizia imediatamente antes desses versículos:
Se dois homens brigarem e um deles ferir o outro com uma pedra ou com o punho e o outro não morrer, mas cair de cama, aquele que o feriu será absolvido, se o outro se levantar e caminhar com o auxílio de uma bengala; todavia ele terá que indenizar o homem ferido pelo tempo que este perdeu e responsabilizar-se por sua completa recuperação.
(Êxodo 21:18,19)

O que essas prescrições nos mostram é que em uma briga, o homem que fosse ferido e por isso não pudesse trabalhar, teria que ser indenizado pelo tempo em que ficou incapaz, e arcar com sua recuperação. É nesse contexto ele diz o que diz nos versículos 20 e 21..
Ou seja, se a briga for entre um mestre e seu servo, em caso de morte esse mestre seria punido (assim como o homem dos versículos 18 e 19), sendo que a menção a 1 ou 2 dias de sobrevivência era uma forma de prevenir que um mestre não fosse acusado injustamente de homicídio caso esse servo viesse a morrer depois dessa briga. Por exemplo, se o mestre brigou e com isso feriu o servo (mas não algo mortal), poderia ocorrer desse mesmo servo brigar com outro servo ou qualquer outra pessoa e nessa briga ser levado à morte. Sendo assim um período de tempo razoável era considerado para que não se punisse injustamente aquele que na verdade não foi o verdadeiro causador da morte.
Então a diferença vista entre os versículos 18-19 e 20-21 está no fato do mestre não precisar indenizar o servo ferido. E isso não é difícil de se entender.. Se esse servo trabalhava para o próprio mestre em troca de sustento (não de dinheiro), o prejuízo é do próprio mestre quando esse servo fica incapacitado de trabalhar, já que ainda assim o servo estaria sendo mantido pelos recursos desse mestre até se recuperar para retornar ao trabalho.
Ou seja, os versículos mostram na verdade que era extremamente desvantajoso para o mestre agir dessa forma, seja no extremo de matar o servo ou simplesmente de feri-lo e com isso ter prejuízos com seu tempo de"licença médica".

Mas e quanto à permissão dada aos israelitas de comprar escravos estrangeiros ??

Em Levitico 25:45-46, vemos que os israelitas tinham a permissão de comprar escravos estrangeiros. Apesar de isso parecer maldade aos nossos olhos e em nosso contexto cultural, não existe nada na bíblia dizendo que abuso, sofrimento, racismo eram coisas permitidas de se fazer com o escravo.

Temos que entender também que isso prova na verdade a GRAÇA de DEUS com os estrangeiros daquela época. Israel na verdade era muito mais seguro, moral e bom do que muitas outras terras em volta, devemos enxergar isso de uma outra maneira. 

Por exemplo: Um escravo estrangeiro esta sofrendo no seu país e resolve fugir para Israel, ele está morrendo de fome, ele não tem nenhum dinheiro ou comida para sobreviver. Então ele bate na casa de uma família pedindo para que possa servi-la e que em troca ele receberá o cuidado da família, comida, roupa e etc.

Outro exemplo: uma tribo perto de Israel está precisando vender escravos (que eles maltratavam) e o escravo é vendido para uma família israelita (que obedece a Deus, portanto não o maltrata), então o escravo na verdade recebe uma benção de Deus.

Devemos lembrar que as outras terras perto de Israel tratavam seus escravos da forma que eles queriam (e não da forma que Deus quer).

Em 1 Crônicas 2:34-35 vemos também que esses escravos estrangeiros poderiam até receber a nacionalidade israelita (no caso aqui o texto mostra um escravo estrangeiro se casando com a filha do seu mestre: uma israelita. Isso não era comum naquela época, e mostra também quanto o mestre amava tanto e confiava tanto no seu escravo que ele deu sua própria filha à ele)

Além de tudo isso vemos que um bom servo poderia ser recompensado até com a herança de seu mestre. Provérbios 17:2 parece ser um incentivo nesse sentido, sugerindo que o servo seria na prática tratado com um filho.
Um exemplo prático dessa possibilidade pode também ser vista no episódio em que Abrão questiona a Deus sobre a ausência de descendência:

Depois dessas coisas o Senhor falou a Abrão numa visão: "Não tenha medo, Abrão! Eu sou o seu escudo; grande será a sua recompensa! "Mas Abrão perguntou: "Ó Soberano Senhor, que me darás, se continuo sem filhos e o herdeiro do que possuo é Eliézer de Damasco? "E acrescentou: "Tu não me deste filho algum! Um servo da minha casa será o meu herdeiro! "(Gênesis 15:1-3)

Ou seja, mesmo sendo "apenas um servo", Eliézer seria "premiado" por Abrão como se fosse seu filho caso Deus não tivesse outros planos..


Creio que com todas essas informações fica claro que a escravidão relatada na bíblia e permitida por Deus é absurdamente diferente daquela que infelizmente ocorreu nas Américas e estamos familiarizados devido a filmes, livros, seriados, novelas, etc..

De qualquer forma é válido ressaltar que essa situação é fruto da Queda da humanidade, e que o homem deve buscar sua liberdade ao invés de se acomodar na posição de serventia (quando isso estiver ao seu alcance). É algo que a bíblia permite devido aos problemas decorrentes da Queda, e que pode ser visto como providência divina (se dentro desses moldes ressaltados), mas claramente não é o ideal para nenhum ser humano.

Para mais informações sobre isso, recomendo ainda esses vídeos:
E mais uma vez recomendo o texto anterior completo, do rev. Marcelo Lemos:



E pra fechar o artigo, vamos falar do tal do livre-arbítrio.. rs


Livre-arbítrio: tem na bíblia??


Pode ser complicado se falar em livre-arbítrio se partirmos de uma definição errada do que isso significa, e infelizmente as pessoas geralmente dão diferentes definições para esse mesmo termo e até unem mais de uma delas como se o termo as concebesse.



Seria muito trabalhoso falar de cada caso, e há muitos textos no blog sobre o tema, sendo assim vou me ater à definição assumida pelo autor do vídeo, que pelo entendi poderia ser resumida mais ou menos como um direito de ser livre para se fazer o que quiser, e ter sua vontade respeitada.

Talvez essa definição esteja meio falha porque a formulei a partir dos exemplos bíblicos que ele alega serem "anti-livre-arbítrio", mas se não for fica o convite para o autor (caso ele venha a ler isso) de dar sua definição de forma explícita.



Partindo então dessa definição, e sua acusação de que Deus não respeita esse "direito" eu tenho a dizer que haveria MUITO MAIS textos que ele poderia usar pra argumentar assim, até porque TODA A BÍBLIA mostra que Deus é soberano sobre tudo e todos, e é o dono da História.



Em outras palavras, esse "direito" NUNCA EXISTIU.



Sim, desde o início isso está muito claro. Se Adão tivesse o direito de desobedecer, a ordem divina, não poderia haver qualquer punição para ele. O que vemos nesse caso e em muitos outros é que Deus permite a possibilidade de escolha para os indivíduos, ou seja, Adão podia (no sentido de ser capaz de) desobedecer a Deus, mas não podia (no sentido de ter o direito de) desobedecer a Deus.


Infelizmente até (muitos) cristãos tem essa falsa ideia, ilógica e anti-bíblica, de que Deus teria dado esse direito às pessoas, mas se fosse assim como poderia haveria um Juízo Final depois, em que Deus puniria quem viveu longe de Sua vontade??

Então que fique claro, realmente não temos o direito de desobedecer a Deus.

Ainda assim, isso não significa que Deus não permita que as pessoas sigam seus próprios corações e ajam contra o que Ele revelou como bom e correto, mas é certo que as consequências dessa desobediência virão em vida e após o Juízo Final, em que nenhum pecador que não foi justificado por Cristo será poupado.

Talvez essa ideia do "direito" seja reforçado por clichês evangélicos como "Deus é educado, por isso Ele não arromba a porta do coração", geralmente usada pra dizer que a salvação é um convite em que se a pessoa voluntariamente aceitar receberá gratuitamente, mas que ao negar sofrerá as consequências futuras. Porém não é o que vemos na bíblia, que claramente mostra que a salvação é uma obra de Deus no coração do ser humano, quebrando a rejeição natural da pessoa a Ele, e lhe dando então a fé em Jesus Cristo como Senhor e Salvador, sendo assim justificada e salva.
Essa é a doutrina da Graça Irresistível.

Ainda assim, pelo fato desse coração ter sido transformado, a própria pessoa voluntariamente concorda com a salvação. Ao mesmo tempo que essa salvação é impositiva (Deus retira a rejeição que a pessoa tinha a Ele), ela é voluntária porque a transformação da natureza de uma pessoa infere em mudança de vontade, e por isso mesmo a aceitação da salvação é desejada.
Para um texto mais detalhado sobre isso, ler: 
Para mais algumas informações sobre a Graça Irresistível, consultar: 

Sendo assim, a argumentação de que há uma contradição é falsa, já que a premissa tida como certa não existe. Porém devo dizer que o ponto chave da queixa é totalmente compreensível.. Quer dizer, quem quer alguém dizendo como se deve agir ou até mesmo punindo quem não segue esse padrão?? É por isso mesmo que céticos tendem a ser relativistas e em alguns casos até curtirem uma "anarquiazinha". Isso é natural do ser humano.

O vídeo a seguir mostra de forma bem clara que esse é um dos grandes motivos dos céticos rejeitarem assumir a existência de Deus: a sensação de liberdade perdida:

Você já tinha pensando nisso??Extraído de: https://www.youtube.com/watch?v=w271EfOfRMU


Deus é Soberano e somos todos criaturas DEle, portanto estamos debaixo de Sua vontade e não há qualquer direito inato de se buscar outra alternativa que não o que Ele ordenou.

A discussão sobre as outras definições de livre-arbítrio e as limitações da liberdade humana iria muito longe, mas em resumo defendo que o único conceito válido e bíblico relativo a liberdade é que a vontade humana é voluntária e por isso somos todos responsáveis pelo que fazemos. Ou seja, tudo que eu faço é fruto da minha vontade de fazer aquilo, mesmo que haja influências externas e até outras vontades internas que me levem num sentido contrário.
Já no que diz respeito a todas as limitações que enfrentamos, fugiria ao que me propus responder nesse artigo, porém indico aqui algumas leituras que podem ser esclarecedoras:


Enfim, que Deus nos ajude e através do Seu Espírito Santo abra a mente e os corações daqueles que são Seus mas ainda estão perdidos em trevas.


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