sábado, 18 de junho de 2016

O mito da socialização

Seguem abaixo dois textos complementares sobre o mesmo tema, e que foram escritos sob o mesmo título. No final há uma nota com alguns adendos meus.

- Texto de: Irondino Torma

(http://nomundoenoslivros.blogspot.com.br/2013/12/socializacao-mito.html)


Um dos argumentos mais frequentemente defendidos por professores, psicólogos, pais e familiares contrários ao homeschooling não diz respeito à qualidade de ensino, mas ao "fato" de que as crianças precisam se socializar, precisam conviver com outras crianças, precisam aprender a se relacionar, a lidar com as diferenças, etc. E quanto mais as famílias encolhem, restringindo a prole a uma única criança, mais parece fazer sentido um tal argumento. No entanto, algumas coisas me fazem duvidar da boa-intenção por trás da socialização.

É importante ter amigos, é importante conviver com outras crianças, todavia a infância não é um fim em si mesmo. É, eu sei, os românticos de plantão acabam de desmaiar, mas a verdade é que, tão necessário quanto brincar é o aprender a ter responsabilidades. Passa-se a maior parte da vida na idade adulta e é para ela que a criança deve ser preparada. Mas como dar-se-á uma tal preparação se a criança convive majoritariamente com iguais, com outras crianças, e não com pessoas de diferentes faixas etárias? Quem dentre elas apontará o caminho para aquilo que devem vir a ser, se, ao redor de si, há apenas quem reforçe, seja por meio da diversão ou por meio da disputa e da inveja, aquilo que já se é? Repito, brincar é necessário, é bom, é saudável, mas não é tudo. A ênfase excessiva nos direitos gera adultos que não sabem lidar com deveres, como vemos cada vez mais todos os dias.

Além disso, a ideia de que a criança aprende a se relacionar no contato com outras crianças parece-me um tanto artificial. A criança não nasce de crianças nem entre elas, mas de adultos e entre eles, entre mãe e pai. É na relação com eles e na observação da relação entre eles que a criança aprenderá a relacionar-se. Se vem de um lar violento, a criança muito provavelmente será violenta com os demais. Se vem de um lar amoroso, muito provavelmente será amorosa. Se vem de um lar onde não recebe limites, não saberá conter-se e refrear-se, mas tentará sempre obter tudo o que lhe agrada. Claro, quanto maior for a família, tanto a nuclear quanto a ampla, melhor, pois maior será a diversidade de situações nas quais a criança aprenderá a conviver. No entanto, são a mãe e o pai aqueles que servirão de mestres e de estabelecedores do fundamento emocional para os relacionamentos que virão ao longo da vida, não os professores, colegas e amigos

"Dêem-me quatro anos para ensinar as crianças,
 e as sementes que eu plantar jamais serão extirpadas." - Lenin

Outro argumento comum é aquele que fala sobre a necessária aprendizagem do convívio com os diferentes. Sim, mas pergunto: as pessoas, numa família, são todas iguais? Não possuem, cada uma, o seu temperamento, o seu jeito de lidar com as coisas, suas preferências, seus sonhos? Não é este o ambiente adequado para, debaixo do cuidado e supervisão dos pais, a criança aprender a lidar com as diferenças? Ou aprender a lidar com as diferenças é sinônimo de ser obrigado a permanecer no mesmo ambiente com quem, não raras vezes, é radicalmente diferente? Isso, para mim, assemelha-se mais a um presídio do que uma escola. Afirmar que a criança precisa da escola para se socializar soa-me tão natural quanto afirmar que um bebê necessita de uma cadeira para ser gestado. Socialização é um processo gradual que deve começar na família nuclear, expandir-se para a família ampla, para a igreja, para as famílias dos amigos dos pais e só mais tarde, quando a criança já não for mais criança, mas um jovem com convicções definidas e firmes, para a sociedade. 

E já que falei em juventude e em convicções, relembro aqui, mais uma vez (e perdoem-me os leitores assíduos, pois devem estar cansados da constante referência), o Maquiavel Pedagogo. Na obra, o autor explicita a comprovada técnica na qual, quanto mais cedo as crianças forem afastadas do ambiente doméstico, mais suscetíveis tornam-se às mais diversas influências externas. Em outras palavras, crianças (e quanto mais novas forem, melhor) não possuem as capacidades cognitivas suficientemente desenvolvidas para compreender quando estão sendo manipuladas ou forçadas a algo que contraria frontalmente o modo como vive ou aquilo em que sua família acredita, nem possuem estrutura emocional para resistir à força da autoridade dos professores ou da pressão dos colegas. Ou seja, a um governo comprometido com a destruição das famílias e da instauração de um regime totalitário, nada melhor do que crianças que podem ir já aos 6 meses de vida para as creches estatais, ou, na "pior" das hipóteses, que irão obrigatoriamente aos 4 anos para a escola.

Aos pais é que cabe a decisão de quando e como as crianças devem participar de um convívio social mais amplo, não ao Estado. Socialização obrigatória não é socialização. É prisão.


 - Texto de: Raymond e Dorothy Moore

(http://macasdeouro.blogspot.com.br/2015/01/o-mito-da-socializacao.html)

Muitos pais conscienciosos têm sido convencidos de que a escolinha maternal é uma necessidade para os seus filhos de três anos de idade. Alguns pais fazem todo um planejamento financeiro e reservam vagas bem antes do tempo para terem certeza de que suas pequenas jóias serão admitidas desde cedo na vida institucional. Eles foram persuadidos pelo mito corrente de que as crianças dessa idade precisam ser expostas a muitas outras criancinhas para que possam ser socializadas.  A verdade é que essas crianças são de fato socializadas, mas não da maneira que muitos pais desejariam. Nós re-enfatizamos aqui de forma diferente algumas necessidades cruciais e métodos que já mencionamos anteriormente. Vejamos novamente como a socialização funciona.

A habilidade de se formar relacionamentos interpessoais saudáveis é inicialmente baseada no laço mãe-bebê - aquele relacionamento tão próximo e único que influencia tanto a mãe como a criança muito mais do que se imaginava possível há não muitos anos atrás. O cuidado gentil, amoroso, consistente e responsivo durante a primeira infância, por parte tanto da mãe como do pai, alimenta e promove esse apego emocional. A segurança, o auto-respeito, e o senso de valor próprio obtido desse tipo de vida no lar - até que as crianças estabilizem seus valores e estejam habilitadas a raciocinar consistentemente - lança o fundamento para uma socialização positiva.

A criança pequena aprende pela observação e pela imitação. Ela aprende a todo instante, quer planejemos ensiná-la ou não. Quando ela é colocada no meio de um grupo de crianças, ela imita as outras crianças. Ela ainda não tem condições de diferenciar o mal do bem. Na realidade, nós sabemos que ela aprende o mal mais facilmente do que o bem. E em geral, criancinhas pequenas claramente não são modelos de bons valores morais e sociais. Elas são naturalmente egocêntricas.  Elas ainda não tem uma consciência bem desenvolvida. Elas se adaptam rapidamente a hábitos, atitudes, linguagem e moral maus. Elas não conhecem o significado das regras, nem da Lei Áurea "tudo o que quereis que os homens vos façam, assim fazei vós também a eles". Tampouco elas entendem o que é cooperação.

Assim, mesmo algumas horas por semana em uma pré-escola diluem o apego entre você e a sua criança e a levam a se agarrar aos valores de seus colegas. Porque ela não tem a capacidade de raciocinar como você, ela não entende por que você está censurando ou exigindo explicação de seus atos. Na verdade, ela se sente mais confusa do que auxiliada por suas reprovações e ela pode simplesmente se chatear com você. Afinal de contas, ela pensa imaturamente que o que ela faz deve ser certo porque "todas as outras crianças fazem isso". Assim, os seus valores vão perdendo importância em comparação com experiência dela com os colegas. Essa dependência tão precoce do grupo tem se tornado mais e mais comum à medida que a tendência de escolarização precoce aumenta. Em alguns casos extremos de excessivo cuidado grupal fora do lar, o resultado observado em crianças mais velhas é que elas não conseguem tomar decisões ou pensar independentemente. A dependência do grupo é um câncer social, mais difícil de remediar do que a tão temida doença. Talvez não haja um fator limitador do potencial humano maior do que este.

Associações com outras pessoas que não sejam da família da criança não são normalmente requisitos para o seu desenvolvimento social. Ela necessita de bons modelos adultos para imitar - preferencialmente os seus pais. Como qualquer pequeno animal ou passarinho, os seus nervos e emoções frágeis desenvolvem-se melhor num ambiente simples e calmo. Nessa idade tão tenra, ela não pode se relacionar bem nem com grupos relativamente pequenos de crianças sem experimentar tensão. Frequentemente essa tensão torna a criança hiper-excitada; às vezes, ela reage ficando nervosa, temerosa ou apreensiva.

Nós não estamos sugerindo que você deva colocar filho em um isolamento social. Uma quantidade razoável de associação com outras crianças de vizinhos, parentes e amigos é saudável - esse é o caso especialmente quando seu filho não tem irmãos e irmãs. Isso provê um "espelho" no qual ele pode se enxergar e o ajuda a aprender a se relacionar com pessoas diferentes. Mas porque ele é tão facilmente impressionável, você deve ser seletivo com os seus coleguinhas. Muitos pais tem aprendido tristemente e tarde demais como as crianças adquirem de outras linguagem e hábitos maus, atitudes rudes e a prática do engano. O seu filho provavelmente não será uma exceção sem o seu cuidado vigilante. Você deve supervisionar cuidadosamente a sua brincadeira, não necessariamente dirigindo ou interferindo, mas mantendo-o sempre perto o suficiente para você lhe ver e ouvir. O tempo envolvido e o número de crianças deve ser limitado. Geralmente seu filho irá brincar melhor com apenas uma outra criança. Uma regra básica geral para o número máximo de coleguinhas, mesmo em uma festa de aniversário, por exemplo, é o mesmo número de crianças que a idade do seu filho, ou seja, três colegas para uma criança de três anos, quatro para uma criança de quatro anos, e assim por diante.

Além do fato de que as crianças não aprendem socialização positiva ao serem expostas a grupos grandes de crianças como em uma pré-escola regular, há ainda forte evidência de que elas perdem iniciativa e criatividade. E, o mais grave, as chances de que a criança irá interpretar o ser mandada para a escolinha como rejeição por parte dos pais é muito grande. Martin Engel, diretor do Centro de Demonstração Nacional de Creches afirma persuasivamente que isso é verdade não importa o quanto racionalizemos diferente. Muitas crianças se tornam emocionalmente perturbadas de várias maneiras por essa separação precoce e forçada dos seus pais. Professores e funcionários de creches e pré-escolas testemunham essas mini-tragédias todos os dias, mas poucos parecem realmente compreender a seriedade da situação. (....)

Nós compreendemos que certas circunstâncias em muitos lares impossibilitam que a criança esteja em casa o dia inteiro. Geralmente, a segunda melhor opção é que a criança seja cuidada em um outro lar caloroso e responsivo. Se isto não for possível, tente encontrar uma escola ou creche em que as circunstâncias sejam as mais parecidas com um lar quanto possível. Deve haver os mesmos professores dia apos dia - não uma variedade de ajudantes ou auxiliares de professor. Quando a criança se apega a um professor favorito, e este se ausenta, a pequena criança experimenta uma perda de apego séria. Quando essa experiência é repetida com frequência, e por um período prolongado de tempo, muitos pequenos aprendem a não mais se apegarem a mais ninguém. Para estes, amor e confiança são artes perdidas. Foi o que aconteceu com muitas crianças após a Segunda Guerra Mundial que se tornaram os rebeldes dos anos sessenta. E com muitas das crianças de hoje que se entregam ao álcool e as drogas. Fazer e quebrar relacionamentos é muito mais prejudicial para a estabilidade emocional da criança do que muitos pais e professores imaginam.

Numa situação ideal, o professor deve ter qualidades maternas e não mais do que cinco ou seis crianças, preferencialmente de idades variadas, para dar conta. O pequeno núcleo deve ser um tanto separado do grupo escolar maior como em uma sala ou prédio afastado. Em um programa experimental que observamos em Melbourne, Austrália, a cidade estava alugando casas perto das casas das crianças para servirem de creche ao invés de construir escolas. Os quartos diferentes serviram para acomodar melhor os grupos menores e proporcionaram uma atmosfera mais familiar. O programa de atividades ideal deve se assemelhar o quanto possível a um bom programa de uma mãe em casa -  envolvimento em atividades do lar, incluindo jardinagem e outros trabalhos úteis; experiências com a natureza; descanso; e liberdade de pressões acadêmicas.
Texto extraído do livro Home-Grown Kids, "Crianças Criadas no Lar: Um manual Prático para Ensinar seus Filhos em Casa", de Raymond e Dorothy Moore, (pp. 121-125). Indicados pelo mundialmente conhecido Dr. James Dobson, os autores dedicaram suas vidas a pesquisas e publicação de livros e artigos para a defesa e proteção do Ensino Domiciliar quando este estava em sua fase inicial e enfrentava muita oposição, grandemente baseada nessa questão do "mito da socialização", que os autores se empenharam a refutar com base em inúmeras pesquisas. Hoje, os autores são aclamados como os pioneiros e fundadores do atual movimento de Educação Doméstica. Raymond Moore é um psicólogo do desenvolvimento cujas pesquisas sobre família e escola foram publicadas em praticamente toda revista acadêmica no campo da educação nos Estados Unidos e internacionalmente, além de ser conhecido na mídia por suas entrevistas e conferências. Sua esposa, Dorothy, é especialista em leitura e em aconselhamento para pais que desejam ensinar seus filhos em casa nos primeiros anos.



Nota: A minha intenção com esse artigo não é "pregar" de forma impositiva que crianças devem ser criadas em casa e que matriculá-las em escolas infantis seja algo "inerentemente mau", mas sim de tentar demonstrar que aquilo que tem sido transmitido como uma verdade absoluta (a necessidade da socialização infantil em escolinhas) é algo bastante questionável.
Os autores do segundo texto inferem algumas coisas que podem ser consideradas subjetivas (como a sugestão sobre a quantidade de convidados para um aniversário infantil, por exemplo), mesmo sendo baseadas em estudos e experiências, porém não há como desprezar e nem negar de forma coerente quase tudo o que eles afirmam aí.



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