quinta-feira, 16 de junho de 2016

Sepultamento ou Cremação?? Uma análise bíblica



Cremação é pecado??

Será que a cremação é proibida ou é incentivada pela bíblia??


A intenção desse artigo é mostrar que há fatores que podemos (e creio que devemos) considerar ao decidirmos (ou opinarmos caso consultados) sobre o que será feito com os nossos corpos, os de entes próximos ou até mesmo de conhecidos.


O julgamento sobre ser pecado ou não ficará por conta do leitor.


Relatos bíblicos

Com o suor do seu rosto você comerá o seu pão, até que volte à terra, visto que dela foi tirado; porque você é pó e ao pó voltará.
(Gênesis 3:19)

o pó volte à terra, de onde veio, e o espírito volte a Deus, que o deu.
(Eclesiastes 12:7)

Alguns podem tomar esses versículos como bases para uma ordenança de enterro (considerando que o "voltar ao pó" ou "voltar à terra" equivalha literalmente a ser enterrado), mas acredito que mesmo que fosse uma prescrição, não estaria implicando necessariamente em se enterrar o corpo de alguém morto. Isso porque nos próprios relatos bíblicos vemos a prática de sepultamento em locais isolados, mas sem que o corpo fosse necessariamente enterrado.
Alguém então poderia pensar justamente o oposto e argumentar que a cremação seria um processo de "agilizaria" a transformação do corpo em pó (pois este não passaria por decomposição gradativa), porém não é tão simples assim.

Prosseguindo a busca bíblica por possíveis bases para uma prática ou outra, encontramos facilmente uma tendência ao sepultamento, logo no livro de Gênesis.

Não é possível saber mediante os textos bíblicos a partir de quando a prática começou a ser realizada, mas a primeira menção aparece em Gênesis 15:15:
Você, porém, irá em paz a seus antepassados e será sepultado em boa velhice.
Esse versículo contém parte da promessa de DEUS a Abrão, revelando antecipadamente fatos que viriam a acontecer a ele e à sua descendência (vs. 13-21). Aqui encontramos a promessa de uma morte "em boa velhice" (ele não precisava se preocupar com uma morte violenta), de um reencontro com seus ancestrais e de um sepultamento (que é o que quero tratar).
O texto não traz uma ordenança quanto ao que deveria ser feito ao corpo de Abrão (que nessa época já seria "Abraão"), mas sim uma descrição do que viria a acontecer.
Sendo assim, apesar do texto não servir de base para um "mandamento de sepultamento", ele relata uma prática realizada já naquela época. 

Ainda antes da morte do próprio Abraão, sua esposa Sara veio a falecer, e lemos:
Sara viveu cento e vinte e sete anos e morreu em Quiriate-Arba, que é Hebrom, em Canaã; e Abraão foi lamentar e chorar por ela.Depois Abraão deixou ali o corpo de sua mulher e foi falar com os hititas:"Sou apenas um estrangeiro entre vocês. Cedam-me alguma propriedade para sepultura, para que eu tenha onde enterrar a minha mulher".

(Gênesis 23:1-4)
Nesse trecho vemos que, perante a morte de Sara, Abraão viu a necessidade de não deixar o corpo dela ao relento, e assumiu a responsabilidade de obter uma propriedade para que pudesse sepultar sua esposa.
E na sequência encontramos na resposta dos hititas a prova de que essa prática já existia naquela época e região:

"Ouça-nos, senhor; o senhor é um príncipe de Deus em nosso meio. Enterre a sua mulher numa de nossas sepulturas, na que lhe parecer melhor. Nenhum de nós recusará ceder-lhe sua sepultura para que enterre a sua mulher"
(Gênesis 23:6)
Os hititas já sepultavam seus mortos, e pressuponho que era uma tradição comum e natural para os povos antigos.
Abraão fez questão de comprar a propriedade perante testemunhas, e o texto bíblico inclusive descreve a localização e o que havia nela, para deixar claro o que passava a ser de Abraão:
Assim o campo de Efrom em Macpela, perto de Manre, o próprio campo com a caverna que nele há e todas as árvores dentro das divisas do campo, foi transferido a Abraão como sua propriedade diante de todos os hititas que tinham vindo à porta da cidadeDepois disso, Abraão sepultou sua mulher Sara na caverna do campo de Macpela, perto de Manre, que se encontra em Hebrom, na terra de Canaã. Assim o campo e a caverna que nele há foram transferidos a Abraão pelos hititas como propriedade para sepultura.
(Gênesis 23:17-20)
O texto não relata qualquer tipo de cerimônia nem fala se houve um enterro, somente menciona que Abraão sepultou Sara em uma caverna, e que toda aquela área passava a ser posse de Abraão como propriedade para sepultura.

Posteriormente lemos que essa propriedade veio a se tornar familiar, sendo que além de Abraão e Sara, também Isaque e Rebeca foram sepultados lá.
Jacó, depois deles, sepultou no mesmo local sua esposa Lia, e antes de morrer instruiu seus filhos para que o levassem para lá também:

A seguir, Jacó deu-lhes estas instruções:
"Estou para ser reunido aos meus antepassados. Sepultem-me junto aos meus pais na caverna do campo de Efrom, o hitita, na caverna do campo de Macpela, perto de Manre, em Canaã, campo que Abraão comprou de Efrom, o hitita, como propriedade para sepultura.
Ali foram sepultados Abraão e Sara, sua mulher, e Isaque e Rebeca, sua mulher; ali também sepultei Lia.
Tanto o campo como a caverna que nele está foram comprados dos hititas. 

(Gênesis 49:29-32)
E em seguida lemos que isso se concretizou:

José atirou-se sobre seu pai, chorou sobre ele e o beijou. Em seguida deu ordens aos médicos, que estavam ao seu serviço, que embalsamassem seu pai Israel. E eles o embalsamaram. Levaram quarenta dias completos, pois esse era o tempo para o embalsamamento. E os egípcios choraram sua morte setenta dias.
Então José partiu para sepultar seu pai. Com ele foram todos os conselheiros do faraó, as autoridades da sua corte e todas as autoridades do Egito, e, além deles, todos os da família de José, os seus irmãos e todos os da casa de seu pai. Somente as crianças, as ovelhas e os bois foram deixados em Gósen.Carruagens e cavaleiros também o acompanharam. A comitiva era imensa.Chegando à eira de Atade, perto do Jordão, lamentaram em alta voz, com grande amargura; e ali José guardou sete dias de pranto pela morte do seu pai.Quando os cananeus que lá habitavam viram aquele pranto na eira de Atade, disseram: "Os egípcios estão celebrando uma cerimônia de luto solene". Por essa razão, aquele lugar, próximo ao Jordão, foi chamado Abel Mizraim.Assim fizeram os filhos de Jacó o que este lhes havia ordenado:Levaram-no à terra de Canaã e o sepultaram na caverna do campo de Macpela, perto de Manre, que Abraão havia comprado de Efrom, o hitita, para que lhe servisse de propriedade para sepultura, juntamente com o campo.Depois de sepultar seu pai, José voltou ao Egito, com os seus irmãos e com todos os demais que o tinham acompanhado.
(Gênesis 50:7-14)
Podemos notar que nesse caso houve mais destaque para as ações das pessoas nesse sepultamento, sendo que pode-se supor que os egípcios e os cananeus possuíam ritos de luto pelos mortos. O próprio José ficou enlutado por 7 dias, mas o texto não revela se isso era uma tradição ou se foi um ato distinto.

Curiosamente, no caso de Jacó houve a influência do método de sepultamento dos egípcios: o embalsamamento. E se não fosse pelo uso de tal técnica, não se sabe se seria possível a eles ter conservado o corpo até o sepultamento, já que devem ter gasto cerca de 1 mês viajando até o campo de Macpela.

José passou pelo mesmo processo, mas chegou a ser mantido por séculos em um sarcófago no Egito, até que seus ossos fossem levados por Moisés até a Terra Prometida (Gênesis 50:25-26; Êxodo 12:40-41; Êxodo 13:19).
E nesse caso foram de fato enterrados, e em um local diferente daquele em que Abraão havia sido sepultado.
Os ossos de José, que os israelitas haviam trazido do Egito, foram enterrados em Siquém, no quinhão de terra que Jacó havia comprado dos filhos de Hamor, pai de Siquém, por cem peças de prata. Aquele terreno tornou-se herança dos descendentes de José.
(Josué 24:32)

Assim sendo, mais uma vez o sepultamento se realizou em uma área comprada, e que cuja posse passava de geração a geração com herança.
Ainda hoje há os jazigos familiares em que vários membros de uma família são sepultados juntos, e talvez a prática tenha se inspirado nesses relatos bíblicos.

No caso de José, vale ressaltar que ele exigiu um juramento de seus irmãos, garantindo que seus ossos fossem levados:
E José fez que os filhos de Israel lhe prestassem um juramento, dizendo-lhes: "Quando Deus intervier em favor de vocês, levem os meus ossos daqui".
(Gênesis 50:25)

O que foi lembrado e destacou José como um dos "heróis da fé":
Pela fé José, no fim da vida, fez menção do êxodo dos israelitas do Egito e deu instruções acerca dos seus próprios ossos.
(Hebreus 11:22)

Alguns podem tomar esse fato como uma prova de que haja uma ordenança direta "pró-sepultamento" (e portanto negá-la ou ignorá-la seria pecaminoso), porém fica claro que a fé de José não foi demonstrada pelo ato de querer ser enterrado, por si só, mas sim pela plena consciência de que Deus livraria os judeus do Egito durante a opressão que viria.

Dentre vários exemplos bíblicos em que o costume de sepultamento fica bastante evidente, há 2 casos que envolvem DEUS diretamente, de forma ativa e passiva.

1) Quando Moisés morreu, antes de chegar na Terra Prometida, o próprio Deus o sepultou:
Moisés, o servo do Senhor, morreu ali em Moabe, como o Senhor dissera. Ele o sepultou em Moabe, no vale que fica diante de Bete-Peor, mas até hoje ninguém sabe onde está o seu túmulo.
(Deuteronômio 34:5-6)

Esse talvez seja um dos principais argumentos a favor de uma ordenança para o sepultamento: o próprio exemplo divino.
Na minha opinião é um ótimo argumento, principalmente quando somado à simbologia do sepultamento (que tratarei depois).


2) O próprio Deus-Homem foi sepultado quando morreu:
Depois disso José de Arimatéia pediu a Pilatos o corpo de Jesus. José era discípulo de Jesus, mas o era secretamente, porque tinha medo dos judeus. Com a permissão de Pilatos, veio e levou embora o corpo.Ele estava acompanhado de Nicodemos, aquele que antes tinha visitado Jesus à noite. Nicodemos levou cerca de trinta e quatro quilos de uma mistura de mirra e aloés.Tomando o corpo de Jesus, os dois o envolveram em faixas de linho, juntamente com as especiarias, de acordo com os costumes judaicos de sepultamento. No lugar onde Jesus foi crucificado havia um jardim; e no jardim, um sepulcro novo, onde ninguém jamais fora colocado. Por ser o Dia da Preparação para os judeus e visto que o sepulcro ficava perto, colocaram Jesus ali.
(João 19:38-42)

Jesus Cristo viveu, morreu e foi sepultado antes de ressuscitar.

Antes mesmo da crucificação, Ele não somente havia dito que seria morto, mas fez referência direta ao fato de que seria sepultado (o que naturalmente ocorria aos mortos): 
Estando Jesus em Betânia, reclinado à mesa na casa de um homem conhecido como Simão, o leproso, aproximou-se dele certa mulher com um frasco de alabastro contendo um perfume muito caro, feito de nardo puro. Ela quebrou o frasco e derramou o perfume sobre a cabeça de Jesus. Alguns dos presentes começaram a dizer uns aos outros, indignados: "Por que este desperdício de perfume? Ele poderia ser vendido por trezentos denários, e o dinheiro dado aos pobres". E a repreendiam severamente. "Deixem-na em paz", disse Jesus. "Por que a estão perturbando? Ela praticou uma boa ação para comigo. Pois os pobres vocês sempre terão consigo, e poderão ajudá-los sempre que o desejarem. Mas a mim vocês nem sempre terão.Ela fez o que pôde. Derramou o perfume em meu corpo antecipadamente, preparando-o para o sepultamentoEu lhes asseguro que onde quer que o evangelho for anunciado, em todo o mundo, também o que ela fez será contado em sua memória."
(Marcos 14:3-9)

Nesse caso Jesus estava elogiando a atitude daquela mulher pela sua adoração verdadeira, e ainda previu para todos os Seus ouvintes o que viria a Lhe ocorrer. 

A descrição do que ocorreu naquele primeiro dia da semana, em que Cristo ressuscitou milagrosamente, pode ser encontrada nos 4 evangelhos (Mateus 27, Marcos 16, Lucas 24 e João 20), mas quero ressaltar algo que ocorreu ainda antes da Sua ressurreição.
No outro dia, que era o seguinte ao da Preparação, os chefes dos sacerdotes e os fariseus dirigiram-se a Pilatos e disseram: "Senhor, lembramos que, enquanto ainda estava vivo, aquele impostor disse: ‘Depois de três dias ressuscitarei’. Ordena, pois, que o sepulcro dele seja guardado até o terceiro dia, para que não venham seus discípulos e, roubando o corpo, digam ao povo que ele ressuscitou dentre os mortos. Este último engano será pior do que o primeiro"."Levem um destacamento", respondeu Pilatos. "Podem ir, e mantenham o sepulcro em segurança como acharem melhor".Eles foram e armaram um esquema de segurança no sepulcro; e além de deixarem um destacamento montando guarda, lacraram a pedra.
(Mateus 27:62-66)
Pilatos e os líderes judaicos incrédulos se preocuparam em dificultar caso houvesse uma tentativa dos discípulos de resgatar o corpo de Cristo e então pregar Sua ressurreição, mas como bem sabemos, de nada adiantou. E então lemos belas descrições de como as mulheres se depararam com o túmulo vazio, e de anjos anunciando a ressurreição de Jesus.

Como seria essa história se, ao invés de sepultado, Cristo tivesse sido cremado?? Os líderes religiosos e as autoridades romanas teriam se preocupado com o que fazer com as cinzas?? E será que o efeito surtido pelo Seu retorno teria o mesmo "peso" ou grau de veracidade, ou haveria mais chances de hereges afirmarem que o corpo glorificado era um corpo totalmente novo e que o nosso corpo mortal é descartável ??

Bom, não dá pra sabermos, e qualquer teoria não passaria de mera especulação, mas o fato é que Cristo foi sepultado, e a história da ressurreição passa por isso.


Mas a bíblia condena a cremação??

Considerando o simbolismo do fogo nas Escrituras, quase que automaticamente vamos nos deparar com a ideia de Juízo de Deus sendo aplicado. 

Assim foi com as cidades de Sodoma e Gomorra:
Então o Senhor, o próprio Senhor, fez chover do céu fogo e enxofre sobre Sodoma e Gomorra. Assim Ele destruiu aquelas cidades e toda a planície, com todos os habitantes das cidades e a vegetação.
(Gênesis 19:24,25)
E assim é descrito o próprio inferno:
Então ele dirá aos que estiverem à sua esquerda: ‘Malditos, apartem-se de mim para o fogo eterno, preparado para o diabo e os seus anjos.
(Mateus 25:41)
Mas os covardes, os incrédulos, os depravados, os assassinos, os que cometem imoralidade sexual, os que praticam feitiçaria, os idólatras e todos os mentirosos — o lugar deles será no lago de fogo que arde com enxofre. Esta é a segunda morte
(Apocalipse 21:8)


Há também situações em que o fogo é mencionado em sua função "purificadora" (aquecendo o material para retirar impurezas) (Malaquias 3:1-3; 2 Timóteo 2:20-21), mas obviamente não é o caso da cremação, - que poderia também ser chamada de incineração. O propósito desse método não é de alguma forma purificar o corpo humano, mas sim destruí-lo.

Biblicamente não há exemplos de cremação sendo realizada de forma voluntária. Há pelo menos uma citação de "cremação", em que o rei de Edom teve seus ossos queimados até virarem cinzas (Amós 2:1), e a reação de Deus quanto ao ato foi de repulsa (vs. 2-3). Há também uma passagem em que a incineração ocorre como punição, depois de um apedrejamento, devido à gravidade do ato de Acã (Josué 7:24-26)
Em 2 Reis 23:16, lemos que, no processo de combate á idolatria, o rei Josias mandou retirar os ossos dos túmulos e queimá-los no altar, e a finalidade era de contaminá-lo. (2 Reis 23:16).

Apesar dessas passagens não serem conclusivas em taxar a cremação voluntária
, em si, como algo pecaminoso, não encontramos qualquer passagem que traga uma aplicação positiva da prática.

Para quem acredita que a morte é o fim definitivo ou que somente a alma é preservada e o corpo terreno não tem recuperação, faz todo sentido escolher um método que trate o corpo humano como um lixo a ser compactado e descartado.
Por que gastar dinheiro e se preocupar em ter um local para manter um corpo em decomposição se pode-se agilizar o processo pagando-se bem menos??

Mas será que cristãos deveriam pensar assim??


A dignidade do corpo humano

Conforme as Escrituras demonstram, não somos almas que "usam corpos como cascas" e muitos menos espíritos que transitam entre corpos diferentes durante existências distintas. Somos seres que tem alma E corpo
Alguns fazem distinção entre alma e espírito e com isso afirmam que o ser humano é soma de alma, espírito e corpo, mas fugindo um pouco dessa discussão entre dicotomia e tricotomia, o que deve ser destacado é que essa soma constitui uma unidade. Essa unidade define nossa essência.

Quando morremos, o corpo perece e alma (ou espírito) volta para Deus, mas essa não é nossa condição final. As Escrituras deixam claro que futuramente nossos corpos serão ressuscitados, e essa unidade quebrada pela morte será re-estabelecida. E mais que recuperada, será aprimorada.

Religiões ou ideologias que tratam o corpo como algo inerentemente mau (em contraste com a alma) ou como se tivesse pouca importância, facilmente admitem que seja feita a incineração, mas cristãos devem valorizar seus corpos.

O apóstolo Paulo nos lembra desse valor:

Acaso não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo que habita em vocês, que lhes foi dado por Deus, e que vocês não são de si mesmos? Vocês foram comprados por alto preço. Portanto, glorifiquem a Deus com o corpo de vocês.
(1 Coríntios 6:19,20)
Esse texto mostra o valor do corpo de um cristão considerando que este é o templo do Espírito Santo, e fazendo a leitura de todo o capítulo percebemos que ele está alertando os crentes quanto à idolatria e a prostituição. Alguém poderia contra-argumentar que esse texto só se aplica a "crentes vivos", e portanto excluiria os "incrédulos vivos", porém é importante notar que foi Deus quem deu o corpo e não somente aos crentes. Se os incrédulos não reconhecem essa obra do Criador e não são habitados pelo Espírito Santo, isso não muda o fato de que seus corpos são presentes de Deus. Devem, assim como os crentes, preservá-los.

Mas esse texto não estaria se referindo a atitudes enquanto estamos vivos, e portanto não abrange a cremação (que ocorre depois da morte)??

Sim, mas sabendo que esse corpo será ressuscitado e faz parte da essência de uma ser humano, ele não deve ser tratado dignamente (ao invés de simplesmente destruído)??
Quando você semeia, não semeia o corpo que virá a ser, mas apenas uma simples semente, como de trigo ou de alguma outra coisa. Mas Deus lhe dá um corpo, como determinou, e a cada espécie de semente dá seu corpo apropriado.
Nem toda carne é a mesma: os homens têm uma espécie de carne, os animais têm outra, as aves outra, e os peixes outra.
Há corpos celestes e há também corpos terrestres; mas o esplendor dos corpos celestes é um, e o dos corpos terrestres é outro.
Um é o esplendor do sol, outro o da lua, e outro o das estrelas; e as estrelas diferem em esplendor umas das outras.
Assim será com a ressurreição dos mortos. O corpo que é semeado é perecível e ressuscita imperecível; é semeado em desonra e ressuscita em glória; é semeado em fraqueza e ressuscita em poder; é semeado um corpo natural e ressuscita um corpo espiritual. Se há corpo natural, há também corpo espiritual.
(1 Coríntios 15:37-44)

Há aí a ideia de "semear um corpo" (que pode ser entendida como uma referência direta a enterrá-lo), com a esperança é de que "se colha" o corpo transformado. O ensino bíblico é que, esse corpo, hoje vítima do pecado e que enfrenta a própria degradação física, será transformado em um corpo incorruptível. Não se trata então de um corpo totalmente novo recebido de Deus, mas sim uma transformação dos corpos que temos em vida. 


Assim como tivemos a imagem do homem terreno, teremos também a imagem do homem celestial.
(1 Coríntios 15:49)


Pois é necessário que aquilo que é corruptível se revista de incorruptibilidade, e aquilo que é mortal, se revista de imortalidade.

Quando, porém, o que é corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal, de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: "A morte foi destruída pela vitória".

(1 Coríntios 15:53,54)


O próprio exemplo de Cristo (conforme já mencionei), nos mostra que o mesmo corpo que havia sofrido a morte e foi sepultado, veio a ser transformado em Sua ressurreição. Ele teve um corpo assim como qualquer um de nós (João 1:14) e foi o primeiro a ressuscitar:
Se é somente para esta vida que temos esperança em Cristo, dentre todos os homens somos os mais dignos de compaixão. Mas de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo as primícias dentre aqueles que dormiram.
(1 Coríntios 15:19,20)

E também passaremos por isso:
Mas se Cristo está em vocês, o corpo está morto por causa do pecado, mas o espírito está vivo por causa da justiça. E, se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vocês, aquele que ressuscitou a Cristo dentre os mortos também dará vida a seus corpos mortais, por meio do seu Espírito, que habita em vocês.
(Romanos 8:10,11)
A nossa cidadania, porém, está nos céus, de onde esperamos ansiosamente um Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Pelo poder que o capacita a colocar todas as coisas debaixo do Seu domínio, Ele transformará os nossos corpos humilhados, para serem semelhantes ao Seu corpo glorioso.
(Filipenses 3:20,21)


Não somente os crentes. Todos os humanos serão ressuscitados, para a vida eterna ou para a morte eterna:
Vi também os mortos, grandes e pequenos, de pé diante do trono, e livros foram abertos. Outro livro foi aberto, o livro da vida. Os mortos foram julgados de acordo com o que tinham feito, segundo o que estava registrado nos livros. O mar entregou os mortos que nele havia, e a morte e o Hades entregaram os mortos que neles havia; e cada um foi julgado de acordo com o que tinha feitoEntão a morte e o Hades foram lançados no lago de fogo. O lago de fogo é a segunda morte.
Se o nome de alguém não foi encontrado no livro da vida, este foi lançado no lago de fogo.
(Apocalipse 20:12-15)

E o alerta de Cristo mostra que o sofrimento no inferno não é somente algo espiritual, mas também físico (o que confirma que as pessoas estarão com seus corpos):
E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo.
(Mateus 10:28)

Dormindo até a ressurreição

Tendo em mente que com a morte os corpos aguardando a transformação que virá com a ressurreição, pode-se entender com mais naturalidade o motivo do apóstolo se referir a pessoas falecidas como "os que dormem":
Eis que eu lhes digo um mistério: nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta. Pois a trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis e nós seremos transformados.
(1 Coríntios 15:51,52)

Irmãos, não queremos que vocês sejam ignorantes quanto aos que dormem, para que não se entristeçam como os outros que não têm esperança.Se cremos que Jesus morreu e ressurgiu, cremos também que Deus trará, mediante Jesus e juntamente com Ele, aqueles que nEle dormiram.
(1 Tessalonicenses 4:13,14)

A morte então é tratada como se fosse um período de "sono", até o despertar instantâneo na ressurreição. E com base nisso, os locais onde os cristãos da antiguidade enterravam seus mortos passaram a ser chamados de "cemitérios" (coemētēria em latim, κοιμητήρια em grego), cujo significado era algo como "câmaras para dormir" ou "dormitórios".

Historicamente os cristãos tem adotado esse padrão da prática de sepultamento, se baseando em todo seu simbolismo. No epitáfio de Charles Spurgeon (considerado o príncipe dos pregadores, consta:

Aqui jaz o corpo de CHARLES HADDON SPURGEON, esperando o aparecimento do seu Senhor e Salvador JESUS CRISTO.




Em São Paulo, há o Cemitério dos Protestantes, um dos principais cemitérios da cidade, localizado atrás do Cemitério da Consolação. Foi fundado em 1844, com a doação de um terreno de D. Pedro I e construído após fechamento do cemitério dos Estrangeiros.  Na época, cemitérios católicos eram para católicos, portanto protestantes (na prática, todo "cristão não-católico") não eram enterrados láDentre os protestantes mais conhecidos sepultados ali estão os Revs. Ashbel Green Simonton (fundador da Igreja Presbiteriana no Brasil) e José Manoel da Conceição (ex-padre e primeiro pastor evangélico brasileiro). Muitas lápides espelham as convicções evangélicas de seus falecidos, sua fé em Deus, a certeza da salvação em Cristo e a esperança da ressurreição.
Mais informações: http://www.mackenzie.br/10221.html



Certa ou errada, a prática de cremação tem se tornado mais comum com o passar do tempo por influência inegável do secularismo que a sociedade tem abraçado. E cristãos tem preferido realizá-la pela sua objetividade e preço mais baixo, mas muitas vezes desprezando suas implicações e seu significado.

Conclusão

Não há ordem direta sobre como devemos lidar com os corpos dos falecidos, nem apoiando e nem condenando a cremação, mas conforme tentei demonstrar há muitos fatores que podem direcionar um cristão sobre como pensar a respeito disso (cabendo a ele um julgamento), para decidir e afirmar a outros como deseja que lidem com seu corpo após a morte ou no caso em que precise tomar tal decisão em relação a um falecimento de parente, amigo ou pessoa próxima.Em casos específicos pode nem ser possível se escolher o método de sepultamento, como por exemplo nos casos de corpos desaparecidos (Apocalipse 20:13 fala do mar entregando seus mortos) ou destroçados, de problemas financeiros para se arcar com funeral ou até mesmo por restrições legais regionais. Nesse tipo de situação circunstancial que pode impedir que sigamos um padrão encontrado nas Escrituras (mesmo não tendo sido ordenado), podemos ter tranquilidade sabendo que, mediante a nossa incapacidade Deus em Sua onipotência não teria qualquer dificuldade em transformar até cinzas em um novo corpo glorificado.
E se em tudo devemos visar glorificar a Deus (I Coríntios 10:31), que reflitamos sobre como a forma de lidar com a morte aponta mais para Suas obras e para a esperança que temos em nossos corações mediante a fé que Ele nos dá.

Finalizo com uma citação de Herman Bavinck:
A cremação não deve ser rejeitada porque se supõe que ela limite a onipotência de Deus e faça com que a ressurreição seja uma impossibilidade. Contudo, ela é de origem pagã. Nunca foi um costume em Israel e nas nações cristãs e milita contra os sentimentos cristãos. O sepultamento, por outro lado, está muito mais em harmonia com a Escritura, com o credo, a história, a liturgia, com a doutrina da imagem de Deus, que também é manifesta no corpo, com a doutrina da morte como punição pelo pecado e com o respeito que é devido aos mortos na ressurreição do último dia. Os cristãos não preservam, artificialmente, os corpos, como fazem os egípcios, nem os destroem mecanicamente, como muitas pessoas desejam hoje em dia, mas os entregam ao seio da terra e os deixam descansar até o dia da ressurreição...


Obs.: Este artigo foi formulado com base em informações obtidas de outros artigos sobre o tema e na minha própria pesquisa bíblica.

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