terça-feira, 28 de novembro de 2017

Tecnologia e Teologia, de Gutemberg a Zuckerberg (por Raniere Menezes)


Tudo foi criado por Ele e para Ele.
(Colossenses 1:16)

A tecnologia, o trabalho e o domínio do homem sobre a natureza, estão interconectados; o domínio e o trabalho geram inevitavelmente tecnologias desde os primórdios. O domínio humano por meio do trabalho sob Deus é uma grande benção, promove potencialidades da vida, energia social construtiva, material e espiritual. Em Gênesis, no relato inicial da criação, no primeiro capítulo, versículo 28, destaca-se que Criador deu ao homem o poder de “sujeitar e dominar” sobre a terra. Assim nasceu a capacidade da escrita como tecnologia da comunicação e todas as outras potencialidades tecnológicas, até hoje, usadas para o bem ou para o mal.

Este “domínio” bíblico transcorre todas as gerações humanas sobre a terra e sedimenta a cosmovisão teísta sobre o trabalho. O avanço tecnológico é uma consequência do trabalho e do domínio humano.

No desenrolar do processo das reformas do século XVI, há um destaque para a tecnologia da comunicação ou da informação, através da prensa tipográfica e da libertação religiosa imposta pelo jugo papal sobre o século XVI (e pela estrutura Medieval), especialmente a partir de Martinho Lutero. O reformador alemão e outros reformadores, especialmente João Calvino, são atribuídos importantes contribuições ao nosso mundo ocidental de hoje, contribuições das mais diversas; ideias impulsionadas pelo poder do compartilhamento dos textos impressos.

A Reforma inicialmente não trouxe alguns benefícios imediatos como conhecemos hoje, mas contribuiu para a geração de valores de nossos tempos, como por exemplo, a liberdade de expressão, abertura de debates e diálogos religiosos e acadêmicos, novas ideias, resgates de ideias antigas, questionamentos sobre ensinos, ciências, cosmovisões em choques, surgimento de universidades protestantes, as quais deram início a novas ciências. 
As reformas protestantes encapsularam muitos dos valores que temos hoje. Progressos tecnológicos não são exclusividades da influência protestante, mas consequências do domínio humano sobre a natureza, porém alguns períodos se destacam como curvas ascendentes em gráficos. E certamente o legado do período protestante contribui grandemente para o formato do Ocidente, hoje.

Lutero, Calvino e outros reformadores desafiaram governos e poderes hostis, e abriram caminho para a democracia que conhecemos hoje. Os protestantes ora apoiavam, ora derrubavam monarquias, e lançaram novas bases para a futura democracia moderna, diferentemente da democracia grega, esta mais elitista.

O princípio da separação da influência estatal sobre a Igreja é uma herança protestante. Um dos legados mais famosos e distorcidos atribuído ao protestantismo foi o capitalismo, através da popularmente difundida “ética protestante do trabalho”, que contribuiu para a formação da economia moderna. O capitalismo inglês, holandês, enfim Europeu e dos EUA, moldou a economia mundial como temos hoje. -- A antiga Genebra de Calvino não era um paraíso democrático, mas é fato que aí nasceu a semente da democracia moderna, a liberdade da América deve muito aos pioneiros colonizadores protestantes calvinistas.

Efeitos econômicos e acadêmicos associados trouxeram inevitavelmente resultados tecnológicos e novas ideias nos mais diversos campos da sociedade Ocidental. Há contribuição protestante ao mundo nas áreas acadêmicas, politicas, sociais e culturais. O campo educacional, por exemplo, é bem marcante que o protestantismo rompeu com a educação medieval, a qual o acesso era para uma minoria rica. A Genebra protestante dos tempos de Calvino é uma precursora da educação pública moderna, os avanços culturais e políticos derivados são inestimáveis.

O poder de publicar ideias derivado das reformas que sucederam a Reforma Protestante, somado à tecnologia da imprensa do século XVI, ofereceram um avanço singular para a história humana. A Reforma iniciada por Lutero é um ponto convergente que lançou as bases para outras reformas. A produção literária em escala crescente após a invenção da prensa tipográfica nesses 500 anos, a abundância de pesquisas, ferramentas e tecnologias, são crescentes a cada geração. De Gutemberg a Zuckerberg, a tecnologia da informação deu grandes saltos e atualmente estamos vivendo uma era de armazenamentos em chips, fluxo de dados monstruosos e arquitetura de nuvens. Para onde nos levará esta transformação digital?

O problema da antibiblioteca


O primeiro problema que se apresenta em nosso século é filtrar o imenso volume de informação disponível, -- que um escritor da atualidade chamou de “antibiblioteca”. Este termo é usado por Nassim Taleb, que narra uma ilustração muito interessante sobre a biblioteca de Umberto Eco. É conhecido no meio acadêmico que o escritor italiano Umberto Eco tem uma biblioteca de cerca de 30 mil livros, e conta Nassim Taleb, que os visitantes da biblioteca do Umberto Eco são divididos em duas categorias: Os que reagem com “UAU! que biblioteca é esta?! Quantos livros desses o senhor já leu?” -- E outros, que entendem que uma biblioteca não é um prolongamento para elevar o próprio ego e sim uma ferramenta de pesquisa. O Nassim Taleb é muito perceptivo nesta ilustração sobre a biblioteca do Umberto Eco, e diz: “Você acumulará mais conhecimento e mais livros à medida que for envelhecendo, e o número crescente de livros não lidos nas prateleiras olhará para você ameaçadoramente. Na verdade, quanto mais você souber, maiores serão as pilhas de livros não lidos. Vamos chamar essa coleção de livros não lidos de antibiblioteca”.

Na revista Época, em entrevista em 30/12/2011, o Umberto Eco diz que "o excesso de informação provoca amnesia", ele diz que a Internet é perigosa para o ignorante e útil para o sábio, porque ela não filtra o conhecimento e congestiona a memória. Ainda segundo Eco, "a internet não seleciona informação... é um mundo selvagem e perigoso... A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. Conhecer é cortar, é selecionar”.

Sem dúvida o conhecimento está se tornando mais acessível via computadores e Internet. A alta conectividade fez o mundo se transformar numa grande cidade de regiões interligadas. Estamos todos integrados através de várias mídias. 
As maiores universidades do mundo estão oferecendo acesso aos seus bancos de dados, o que por si só é algo extraordinário. Porém, juntamente com esta maravilha, há um estrondoso volume de ruídos, de conteúdos irrelevantes, distrações e Fake News. Temos excessos de informações boas e ruins. O bom conhecimento está espalhado como garrafas de mensagens em meio à poluição marinha.

Tecnologia para o Reino de Cristo


Porque dEle e por Ele, e para Ele, são todas as coisas; glória, pois, a Ele eternamente. Amém. (Romanos 11.36). -- Todas as coisas procedem de Deus, todas as coisas são feitas ou forjadas por Ele, e todas as coisas existem para a Sua glória e para realizar os Seus fins. A tecnologia ficaria de fora?

O mundo contemporâneo é complexo em conflitos crescentes, e sem dúvida, bons conteúdos em informação são ferramentas excelentes. Podemos examinar melhor o passado e projetar melhores estratégias para o futuro. 
Precisamos reavaliar as bases que foram lançadas (ao longo da história da Igreja), e ampliar uma visão de missões, de Reino e avançar em justiça e misericórdia, precisamos resgatar a pregação do pecado, do arrependimento e da salvação, como antigos profetas e reformadores. Não precisamos de grandes reformas, mas de muitas pequenas reformas. Precisamos reformar nosso conforto, comodismo, nosso consumismo, nosso trabalho, nosso bolso, nossa mão fechada que não se estende aos pobres, necessitados, vulneráveis, oprimidos e marginalizados. Reformar a visão de missão e de Reino, e avançar; fortalecer a Igreja financeiramente para que suas agências missionárias funcionem com menos penúria. Temos bibliotecas suficientes para encher muitos estádios de futebol, precisamos colocar em prática todas as coisas boas e úteis em ação. – “Examinai tudo. Retende o bem”. (1 Tessalonicenses 5.21). Coloquemos tudo à prova, como um ourives que submete o metal ao fogo. Devemos rejeitar tudo que é falso. Deus deu a sua Igreja o discernimento da verdade. -- ...tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai. (Filipenses 4.8).

Em meio a tanta informação disponível precisamos de três coisas: Saber filtrar (discernir), compartilhar e impulsionar. Este é o desafio missionário do século 21.

Desafio missionário


Se formos compactar a linha do tempo desses últimos 500 anos de produção teológica de qualidade, teremos como resultado uma excelente mega biblioteca para equipar um exército de missionários cristãos. Mas onde estão estes missionários? Não exatamente os missionários transculturais, que são em menor número, mas os missionários do cotidiano, das famílias, dos ambientes de trabalho, acadêmico, das igrejas locais, de leigos? A Igreja nunca foi estática, mas dinâmica. Jesus e os apóstolos e discípulos eram a própria Igreja em movimento. Aspiramos os Céus, porém não podemos ser meramente contemplativos.

Precisamos reformar a nossa adoração para que ela não seja simplesmente contemplativa mas ativa, cheia de ação no mundo real, que ao adorarmos não possamos esquecer de fugir das injustiças e impiedades. Independentemente de pontos de vistas teológicos diversos, precisamos rever o passado e não repetir seus erros. 
Há muitos erros no passado que devemos não esconder, mas aprender. Erros da Igreja e cristãos individualmente, temos uma tendência de tentar evitar as biografias negativas de nossos “heróis”, mas Deus não faz isto em sua Palavra, ele mostra a fidelidade de homens como Abraão, Moisés, Davi e outros, mas também mostra e expõe suas fraquezas.

Na Reforma e reformas posteriores, temos disputas de poderes religiosos e políticos, guerras, ódios e outros aspectos negativos. Após a Reforma de 1517 temos cerca de 200 anos de guerras religiosas. Teólogos e evangelistas protestantes, que trouxeram valiosas contribuições para teologia cristã, em suas épocas apoiavam a escravidão. Os calvinistas holandeses no Caribe praticaram opressão escravagista no passado. Devemos desconstruir a história para torná-la mais positiva e palatável? Não! Devemos aprender com nossos erros e buscar redenção dos fracassos. A cada geração Deus oferece oportunidades para expansão do Seu Reino.

A grande luta dos 500 anos para frente não é produzir mais teologia, embora ela continuará sendo produzida, mas lutar contra as inconsistências que acompanham os movimentos evangélicos desde sempre; a batalha é não comprometer a pureza doutrinária com uma vida antiética. Nossa árvore está gigante, mas precisamos dar frutos de arrependimento em nossa geração. -- Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus? (Miquéias 6.8). Amar a Deus não de palavra, praticar a misericórdia e justiça. -- Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento. (Mateus 9:13).

Deus quer filhos missionários, e não pessoas como num piquenique prolongado, como escreveu Ronald J. Sider: “Para os primeiros cristãos, koinonia não era a 'comunhão' enfeitada de passeios quinzenais patrocinados pela igreja. Não era chá, biscoitos e conversas sofisticadas no salão social depois do sermão. Era um compartilhar incondicional de suas vidas com os outros membros do corpo de Cristo”. Nossa comunhão está fraca em pleno século da alta conectividade, como reverter este quadro?

Estratégias missionárias


Nada conseguiu parar a Reforma do século XVI e as reformas posteriores por causa do compartilhamento de informação. Agora, 500 anos depois estamos diante de outro salto em informação, na era dos chips e bytes infinitos. Podemos ouvir uma pregação, um estudo, um louvor, em tempo real ou no tempo que quisermos em casa e em qualquer lugar, e na palma da mão podemos ter uma biblioteca imensa. Temos condições de nos conectar por vídeo com qualquer pessoa em qualquer lugar do planeta, e isto é algo maior que a revolução da prensa tipográfica. Se há 500 anos era possível pregar sobre a graça de Deus e somente a fé em Cristo, e compartilhar o Evangelho além-mar, hoje muito mais.

O rabino Jonathan Sacks, escreveu ao The Washington Post (30/10/2017), que os jihadistas estão sabendo explorar mais as ferramentas digitais e internet do que qualquer outro grupo religioso, embora estejam usando para o mal - espalhando o medo e o terror global -, como tem feito o ISIS. E o que o cristianismo tem feito com a alta conectividade virtual?

Precisamos reformar o foco das missões cristãs, e não perder tempo com ódios banais de Internet, fofocas e fake news. O futuro não é amanhã, é hoje. Não precisamos de uma mirabolante estratégia missionária ou de grandes missionários, mas compreender a Grande Comissão dada pelo Senhor Jesus Cristo, e a partir dela coordenar todos os recursos que temos disponíveis, sejam financeiros, organizacional, obreiros etc.

Precisamos em meio ao caos e ruído de informações retornar à simplicidade do Evangelho do Senhor Jesus Cristo, estamos em alta conectividade, mas não unidos; devemos trabalhar por uma unidade mínima e razoável para uma boa convivência com a cristandade. E com isso compartilhar o Evangelho livremente. Devemos voltar para as bases da reforma; precisamos colocar Cristo no centro de toda nossa comunicação, começando em casa e na igreja.

A tecnologia da informação muda o mundo, a tecnologia de comunicação disponível hoje é uma ferramenta de benção para o crescimento do Reino do Senhor Jesus Cristo. Façamos dela benção para muitos outros. Filtrar, compartilhar e impulsionar através de diversas mídias e ações.

Temos uma grande necessidade de evangelismo hoje. 
Qual o seu ministério? Como você pode servir melhor ao reino de Deus? 
Como você pode fazer diferença neste mundo em sua geração? 
Lembremo-nos sempre das palavras do Senhor: “Se me amais, guardais os meus mandamentos”. Jo 14.15. “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele”. Jo 14.21
O mesmo Senhor que ordenou: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. Mateus 28.19. – Evangelizar é ir, avançar, conquistar em nome do Senhor Jesus Cristo. 
Ele venceu o mundo e toda autoridade é dEle.

Extraído de:


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