terça-feira, 6 de março de 2018

CARTA PASTORAL E TEOLÓGICA SOBRE A LITURGIA DA IPB (parte 01 de 04)


A Comissão Executiva do Supremo Concílio da IPB, por ocasião de sua reunião ordinária em março de 2008, entendeu que havia necessidade de um pronunciamento da denominação a seus concílios, igrejas e membros, que abordasse de maneira pastoral alguns aspectos do culto a Deus que recentemente haviam sido objeto de documentos oriundos de seus concílios.

Esses documentos expressavam o desejo dos concílios de receber uma orientação denominacional acerca da inclusão nos cultos da chamada dança litúrgica, coreografias e palmas.
Com o objetivo de elaborar uma carta pastoral que tratasse destes itens, a Comissão Executiva de 2008 constituiu uma comissão especial e lhe deu a seguinte missão:

Elaborar texto de caráter pastoral e teológico quanto à liturgia, observando inclusive: danças, coreografias, expressões fortes e palmas, seguindo os princípios já estabelecidos pelos Símbolos de Fé e das decisões do SC e da sua CE, inclusa a decisão CLXXXVII - CE-SC/IPB-2007, prestando relatório ao Supremo Concílio em sua próxima reunião ordinária.

Conforme se percebe pela decisão acima, a comissão especial para elaborar a Carta Pastoral não tem como objetivo propor ou estabelecer novos princípios ou normas litúrgicas no âmbito da IPB, uma vez que nossa denominação é confessional e sua Confissão, Catecismos e Princípios de Liturgia já tratam do culto a Deus em diversas partes. O alvo da Carta Pastoral não poderia ser outro senão, partindo dos nossos Símbolos de Fé e das decisões que a IPB já tomou sobre culto e liturgia, tratar de maneira pastoral e teológica daquelas áreas referentes ao culto determinadas pela CE-SC/IPB, nas quais os Símbolos de Fé não se pronunciam, por não terem sido motivo de preocupação na época em que foram escritos.

O objetivo da presente Carta Pastoral, portanto, uma vez aprovada pelo Supremo Concílio da IPB, é servir de orientação, instrução e direcionamento às igrejas federadas, aos oficiais e aos membros arrolados quanto às expressões físicas no culto, a saber, danças, coreografias, expressões fortes e palmas.

Um texto denominacional dessa natureza se faz necessário pela confusão atual existente em diversas igrejas e concílios no que tange a tais assuntos. A Igreja Presbiteriana do Brasil é uma federação de igrejas relacionadas entre si hierarquicamente por meio de concílios e que adota os mesmos Símbolos de Fé. Embora não se busque a uniformidade absoluta nos cultos das igrejas locais, tendo em vista que as Escrituras nos dão princípios de culto e não uma ordem litúrgica pré-estabelecida, é desejável, todavia, a busca e a manutenção da unidade tão necessária para preservar a identidade bíblica e denominacional. Além do mais, existe a necessidade de se fundamentar bíblica e teologicamente as decisões nessa direção, bem como empregar-se um tom pastoral.

É na expectativa de contribuir para um melhor entendimento destas questões e a busca constante de oferecer a Deus um culto que esteja em conformidade com sua Palavra que apresentamos esta Carta Pastoral.

A COMISSÃO

Rev. Augustus Nicodemus Gomes Lopes
Rev. Arival Dias Casimiro
Rev. Charles Melo de Oliveira
Rev. Cleômines Anacleto Figueiredo
Rev. Itamar Bezerra Santana
Rev. Jeremias Pereira da Silva
Rev. Roberto Brasileiro Silva
Rev. Sirgisberto Queiroga da Costa
Presb. Daniel Sacramento Presb. Flávio Heringer
Presb. Flávio Monteiro de Melo
Presb. Renato José Piragibe
São Paulo, 4 de janeiro de 2010


SUMÁRIO


1. CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES
Tipos de culto
Vida cristã e culto público
O templo
A igreja como comunidade social
Culto e cultura
2. O CULTO PÚBLICO
O princípio regulador do culto
Elementos de culto
As circunstâncias do culto
Mudanças históricas nos cultos
Princípios do culto aceitável a Deus
A responsabilidade pela condução do culto
3. EXPRESSÕES CORPORAIS NO CULTO
Danças litúrgicas e coreografiasFortes expressões corporais
Palmas
Aplausos
4. ORIENTAÇÕES PASTORAIS A SEREM SEGUIDAS PELAS IGREJAS LOCAIS



1. CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES


Em virtude da amplitude e complexidade dos temas propostos, se faz necessário abordar nesta parte preliminar da Carta alguns temas que provêem o fundamento para o tratamento dos pontos centrais.

TIPOS DE CULTO


Existe uma distinção entre a vida cristã como culto constante a Deus (Dt 6.6-7; Cl 3.17), o culto individual (Mt 6.6), o culto familiar (Jó 1.5) e o culto público solene (Is 56.7; Hb 10.25). A Confissão de Fé menciona que Deus deve ser adorado tanto em famílias, quanto em secreto, e mais solenemente em assembléias públicas.

1 Os Princípios de Liturgia seguem essa distinção, mencionando o culto público, em família e individual.2
1. CFW, XXI.6.
2. PL, artigos 7-10.
Em diversos aspectos estas modalidades de culto convergem. Em todas elas, buscamos servir a Deus de todo o coração, na mediação de Cristo e no poder do Espírito Santo (lTm 2.5; 1CO3.16;Jo 14.26; 1Jo2.27).

Todavia, as mesmas diferem quanto às circunstâncias, local, participantes e elementos que as compõem.

VIDA CRISTÃ E CULTO PÚBLICO


A vida cristã é um culto constante a Deus, que é oferecido individualmente, em qualquer tempo e lugar e no qual não é necessário que se exerçam os chamados elementos de culto, como por exemplo, oração, cânticos e leitura da Bíblia.

O culto público é o ajuntamento solene do povo de Deus, convocado para reunir-se em dia, hora e local estabelecidos, com o objetivo de prestar serviço espiritual a Deus sob a liderança de pessoas especialmente designadas para tal. Deste culto constam elementos que serão abordados mais adiante nesta Carta Pastoral, alguns dos quais não fazem parte da vida cristã como culto.

É preciso que se entenda claramente que existe uma diferença fundamental entre nossa vida diária como culto a Deus e o culto que a ele prestamos publicamente, juntamente com os demais irmãos em Cristo. Determinadas atividades que seriam pertinentes à nossa vida como culto não seriam próprias a este culto público.

O TEMPLO


O culto público a Deus pode ser prestado em qualquer local pelo seu povo (Jo 4.21; Ml 1.11), não havendo para isto local mais sagrado que outros, conforme ensina a Confissão:

Agora, sob o evangelho, nem a oração, nem qualquer outro ato do culto religioso é restrito a certo lugar, nem se torna mais aceito por causa do lugar em que se ofereça ou para o qual se dirija, mas, Deus deve ser adorado em todo lugar, em espírito e verdade. 3
3 CFW, XXI.6. 
Muito embora nossos PRINCÍPIOS DE LITURGIA se refiram ao templo das igrejas como a casa de Deus (PL, artigo 5), entende-se que não estão com isto emprestando à edificação física onde se reúnem as igrejas locais qualquer conotação sagrada, à semelhança do templo de Jerusalém no Antigo Testamento, local específico da revelação divina e do oferecimento dos sacrifícios.

Apesar disso, as igrejas locais podem reservar determinados espaços exclusivamente para o culto público, em nome da conveniência e da propriedade.

O que caracteriza o culto público não é sua realização num templo, mas a sua convocação, seu caráter público, a presença dos elementos que o constituem como culto, bem como sua condução por líderes para isto separados. Assim, quer seja no templo das igrejas, quer em seus salões sociais ou acampamentos, ao ar livre ou em instalações quaisquer, onde o povo de Deus, para isto convocado, se reunir com o propósito específico de cultuar publicamente a Deus, ali temos um culto público e solene, o qual deve ser realizado conforme o ensino das Escrituras.

Ao se buscar um local para o culto público a Deus, deve-se levar em consideração a conveniência, propriedade, facilidade, e outras circunstâncias que devem ser analisadas sempre pelos princípios gerais da Bíblia e pelo bom senso. 4
4 CFW, I.6.

A IGREJA COMO COMUNIDADE SOCIAL


As igrejas locais não são apenas uma expressão visível da Igreja de Cristo. Elas também são comunidades que se organizam socialmente. É admissível que atividades de cunho sociocultural façam parte da vida das igrejas locais, como festividades relativas às datas do calendário público, eventos de lazer e culturais, acampamentos, retiros, formação de grupos por interesse cultural, encontros que visam simplesmente a socialização dos membros, a discussão de temas da atualidade, ou até mesmo atividades que visam proporcionar oportunidades de melhora profissional, como cursos profissionalizantes e de línguas. Outro exemplo são as tradicionais "reuniões sociais", onde ocorrem brincadeiras, danças de roda, encenações, etc.

Assim sendo, é preciso fazer uma distinção muito clara entre atividades de natureza social e cultural das igrejas locais e aquilo que se faz no culto público a Deus. Muitas atividades que são cabíveis, pertinentes e próprias à natureza social das igrejas locais não devem ter lugar no culto, pois nem são elementos deste e nem contribuem para que os referidos elementos sejam mais bem utilizados pelo povo de Deus.

Consequentemente, é preciso que os pastores e presbíteros das igrejas locais instruam as suas igrejas acerca desta diferença, de preferência ao início das atividades sociais, evitando denominar como culto aquelas atividades que não o são de direito.

CULTO E CULTURA


Entende-se como a cultura de um povo o conjunto de crenças, valores, costumes, práticas, tradições, religiões e símbolos de determinados grupos étnicos. Como tal, a cultura não deve ser percebida como algo moralmente neutro. A queda do homem afetou profundamente todas as dimensões de sua existência. As culturas, embora preservando valores morais e éticos bons por causa da graça comum de Deus, refletem o atual estado do mundo caído e sem Deus, morto em ofensas e pecados e, por natureza, debaixo de sua santa ira e condenação. Muitos aspectos culturais são distorções da revelação natural de Deus (Rm 1.18-31).

Por esse motivo, costumes e hábitos de um povo não devem ser tomados como critérios e referenciais daquele culto que Deus revelou e que lhe é agradável, como por exemplo, as danças religiosas que alguns povos incorporaram de longa data em suas tradições e expressões religiosas. A Palavra de Deus, e ela somente, é a única regra de fé e prática do seu povo, e é nela que devemos buscar os princípios e elementos que compõem o culto que Deus busca.

A luz dos preliminares acima, voltamo-nos agora para a natureza do culto público cristão.

>>> continua..


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