Uma exposição trinitária histórica, reformada e confessional
A doutrina da Trindade não é uma construção especulativa da Igreja, mas a tentativa reverente de confessar com precisão o Deus que se revelou nas Escrituras. Ao longo da história, a Igreja precisou desenvolver linguagem técnica para preservar simultaneamente três verdades inegociáveis: (1) há um só Deus, (2) há três pessoas realmente distintas, e (3) nenhuma delas é inferior, posterior ou menos divina.
Nesse contexto surgem três temas intimamente ligados: a geração eterna do Filho, a procedência do Espírito Santo e a cláusula Filioque (Filioque = “e do Filho”; em formulação grega associada: καὶ τοῦ Υἱοῦ, e, com cuidado típico da tradição oriental, διὰ τοῦ Υἱοῦ). Este texto apresenta esses conceitos em sua ordem histórica e teológica, culminando na síntese reformada clássica.
1. A ordem histórica correta: Concílios e Credo
Qualquer discussão responsável sobre o Filioque (e suas fórmulas gregas correlatas: καὶ τοῦ Υἱοῦ / διὰ τοῦ Υἱοῦ) precisa começar antes dele, nos concílios ecumênicos que estabeleceram a doutrina trinitária básica da Igreja.
Concílio de Niceia (325)
Convocado para responder ao arianismo, o Concílio de Niceia afirmou que o Filho é:
- Deus verdadeiro de Deus verdadeiro
- gerado, não criado
- da mesma substância (ὁμοούσιος / homoousios) que o Pai
Aqui está firmemente estabelecida a geração eterna do Filho. O Espírito Santo é mencionado, mas ainda sem desenvolvimento doutrinário pleno.
Concílio de Constantinopla (381)
O Concílio de Constantinopla completa a formulação trinitária ao afirmar claramente a divindade do Espírito Santo, contra os pneumatômacos (πνευματομάχοι, “combatentes contra o Espírito”) - um grupo que negava a plena divindade do Espírito Santo, tratando-o como criatura ou poder subordinado.
Desse concílio resulta o Credo Niceno-Constantinopolitano, que confessa que o Espírito Santo:
“procede do Pai” (ἐκ τοῦ Πατρὸς ἐκπορευόμενον).
Ponto essencial: o Credo não “nega” o Filioque; ele simplesmente não o explicita, pois a controvérsia ainda não havia surgido nesses termos. A cláusula Filioque será uma formulação posterior do Ocidente, como desenvolvimento teológico, não como contradição conciliar.
2. Relações eternas de origem na Trindade
A teologia cristã clássica sempre distinguiu três níveis:
- Essência (ousia) – Deus é um
- Pessoas (hypostaseis) – Pai, Filho e Espírito Santo
- Relações de origem – o que distingue as pessoas entre si
As pessoas divinas não se distinguem por grau de poder, por tempo de existência ou por função meramente econômica, mas pelas relações eternas de origem. Essas relações são duas: geração e procedência.
3. A geração eterna do Filho
A geração eterna é a relação pela qual:
O Filho recebe eternamente do Pai a mesma essência divina, sendo Deus verdadeiro, coeterno e consubstancial.
Essa geração é:
- eterna, não temporal
- necessária, não voluntária
- pessoal, não física
- plena, comunicando toda a essência divina
Por isso a Igreja sempre confessou: o Filho é gerado, não criado. Como enfatiza João Calvino, a geração não descreve um evento no tempo, mas indica a ordem e a relação pessoal dentro da divindade. Negar a geração eterna destrói a paternidade real do Pai e conduz, inevitavelmente, a algum tipo de arianismo conceitual ou modalismo.
4. O que significa “procedência” do Espírito Santo
Definição técnica
A procedência (ἐκπόρευσις) é a relação eterna pela qual:
O Espírito Santo recebe a essência divina como Espírito, de modo distinto da geração do Filho.
Ela é eterna, necessária, pessoal e plenamente divina. O Espírito não é gerado, portanto não é Filho. Ele procede — e essa procedência é eterna, não um ato no tempo.
Procedência ≠ missão
É crucial distinguir: missão (envio do Espírito na história, por exemplo em Pentecostes) e procedência (relação eterna no ser de Deus). A missão revela aquilo que é eterno; não o produz.
5. Espiração: onde o conceito aparece
O termo espiração (spiratio) surge na teologia latina para descrever o ato relacional eterno pelo qual o Espírito Santo procede. Importante: espiração não é um evento, não é um “ato posterior” e não implica movimento ou mudança em Deus; é uma designação relacional da procedência do Espírito a partir do Pai e do Filho.
Assim, em linguagem técnica: o Pai e o Filho espiram o Espírito; e o Espírito é o espirado, não como criatura, mas como pessoa consubstancial. Essa forma de falar aparece com clareza em Agostinho e será sistematizada pela escolástica latina, sendo posteriormente assumida e refinada pela teologia reformada.
6. O Filioque: a procedência do Pai e do Filho
A cláusula Filioque (Filioque; fórmulas gregas correlatas: καὶ τοῦ Υἱοῦ ou, na linguagem grega tradicional, διὰ τοῦ Υἱοῦ) afirma que:
O Espírito Santo procede do Pai e do Filho.
A teologia reformada insiste numa precisão essencial: não são dois princípios, mas um único princípio de espiração.
- O Pai é a fonte fontal (fons divinitatis).
- O Filho recebe tudo do Pai por geração.
- O Espírito procede do Pai por meio do Filho, inseparavelmente.
Nessa linha, Francis Turretin formula: o Espírito procede do Pai como fonte primeira, e do Filho como aquele que possui a mesma essência comunicada pelo Pai. Negar a participação do Filho na procedência implica uma deficiência ontológica no Filho, incompatível com sua consubstancialidade.
7. Agostinho e os Capadócios: duas tradições, uma fé
A controvérsia do Filioque (e suas fórmulas gregas: καὶ τοῦ Υἱοῦ / διὰ τοῦ Υἱοῦ) nasce do encontro entre duas tradições legítimas.
Os Pais Capadócios
Basílio de Cesareia, Gregório de Nazianzo e Gregório de Nissa enfatizaram:
- uma essência (ousia)
- três hipóstases (hypostaseis)
- a monarquia do Pai como única fonte da divindade
Foram decisivos para evitar tanto o modalismo quanto o triteísmo.
Agostinho
Agostinho, especialmente em De Trinitate, parte da unidade da essência divina e da simplicidade de Deus. Para ele, o Espírito é o vínculo pessoal de amor e procede do Pai e do Filho sem introduzir dois princípios. Aqui está o fundamento do Filioque no Ocidente.
Onde está a tensão real
| Capadócios | Agostinho |
|---|---|
| Ênfase na fonte do Pai | Ênfase na unidade da essência |
| “Procede do Pai” | “Procede do Pai e do Filho” |
| Temor de dois princípios | Temor de subordinação do Filho |
A teologia reformada entende que ambos protegeram verdades essenciais e busca uma síntese fiel.
8. A síntese reformada clássica
A tradição reformada confessa:
- o Pai é não-gerado;
- o Filho é eternamente gerado;
- o Espírito procede do Pai e do Filho;
- como um único princípio;
- sem subordinação;
- sem confusão de pessoas.
Herman Bavinck resume de modo incisivo: sem geração eterna, o nome “Pai” perde seu significado próprio e a Trindade torna-se uma abstração. Essa posição é coerente com a Confissão de Fé de Westminster, que afirma a igualdade plena e a eternidade das três pessoas.
9. Erros modernos que negam a geração eterna (e suas consequências)
Alguns desvios contemporâneos evitam ou distorcem as relações eternas de origem (geração e procedência). O problema não é meramente terminológico: tais erros atingem a própria inteligibilidade da Trindade e tendem a reintroduzir, sob novos nomes, desvios já condenados pela Igreja antiga.
Subordinacionismo funcional eterno
Afirma uma subordinação eterna do Filho ao Pai em autoridade ou função, embora use linguagem de igualdade “ontológica”.
Status: materialmente herético (incompatível com a ortodoxia nicena), ainda que muitas vezes apareça de forma ambígua ou não intencional.Consequências:
- introduz uma hierarquia real no ser divino sob a forma de “função”, confundindo relações eternas de origem com relações de comando/obediência;
- desloca para a eternidade aquilo que é próprio da humilhação do Verbo encarnado;
- enfraquece na prática a confissão nicena de consubstancialidade, reabrindo um “Deus maior/Deus menor” em chave moderna.
Modalismo relacional
Reduz geração e procedência a metáforas funcionais (ou meros modos de operação), esvaziando distinções pessoais reais.
Status: formalmente herético (contrário à fé trinitária definida e recebida pela Igreja).Consequências:
- transforma “Pai”, “Filho” e “Espírito” em rótulos econômicos, enfraquecendo a distinção pessoal;
- aproxima-se do sabelianismo, no qual Deus apenas “aparece” de modos distintos;
- torna a Trindade imanente uma abstração sem relações reais, comprometendo a própria linguagem bíblica de paternidade e filiação.
Arianismo conceitual moderno
Evita a linguagem de geração eterna para eliminar a ideia de origem pessoal do Filho, tratando “geração” como inadequada ou desnecessária.
Status: materialmente herético, pois nega o coração da confissão nicena sobre o Filho (ainda que nem sempre declare explicitamente “o Filho é criatura”).Consequências:
- esvazia o sentido próprio de “Pai” e “Filho” (paternidade e filiação tornam-se metáforas);
- remove o fundamento ontológico das distinções pessoais, abrindo caminho para triteísmo prático (três centros independentes) ou para um monoteísmo unitário disfarçado;
- rompe com o núcleo do “gerado, não criado”, desfigurando o arcabouço niceno.
Em suma, esses erros não são meras “ênfases diferentes”: cada um, à sua maneira, desfaz o que a Igreja procurou preservar em Niceia (325) e Constantinopla (381), a saber, a unidade da essência divina, a distinção pessoal real e as relações eternas de origem.
Conclusão
A teologia reformada confessa, em continuidade com a Igreja histórica:
O Pai é a fonte eterna; o Filho é eternamente gerado; o Espírito procede eternamente do Pai e do Filho, para a glória do único Deus triúno.
O Filioque (e as fórmulas correlatas καὶ τοῦ Υἱοῦ / διὰ τοῦ Υἱοῦ), quando corretamente entendido, não contradiz Niceia nem Constantinopla, mas preserva aquilo que ambos buscavam proteger: a plena divindade, a distinção real e a comunhão perfeita do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Referências bibliográficas
- AGOSTINHO. De Trinitate (A Trindade).
- BASÍLIO DE CESAREIA. De Spiritu Sancto (Sobre o Espírito Santo).
- BAVINCK, Herman. Reformed Dogmatics, v. 2 (ou: Dogmática Reformada, v. 2).
- CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã, I.13.
- GREGÓRIO DE NAZIANZO. Orationes Theologicae (Discursos Teológicos).
- GREGÓRIO DE NISSA. Ad Ablabium: Quod non sint tres dii (A Ablábio: que não são três deuses).
- TURRETIN, Francis. Institutes of Elenctic Theology, Vol. 1 (Locus III: De Deo Uno et Trino).
- Confissão de Fé de Westminster, cap. II.
- PELIKAN, Jaroslav. The Christian Tradition: A History of the Development of Doctrine, v. 1.