sábado, 10 de janeiro de 2026

Ester: coerção, pureza, vida e martírio

Uma leitura reformada à luz da Lei Moral, dos padrões de Westminster e da tradição clássica.

A história de Ester levanta uma das questões morais mais difíceis das Escrituras: à luz da Lei Moral de Deus, Ester deveria ter se recusado a deitar-se com o rei, mesmo que isso lhe custasse a vida?

Responder a essa pergunta exige fidelidade confessional, distinções morais clássicas e leitura cuidadosa do texto bíblico. A tradição reformada nunca romantizou a narrativa do livro de Ester, nem a transformou em modelo moral simplista.


1. A Lei Moral segundo os padrões confessionais

A tradição reformada afirma de forma inequívoca a permanência da Lei Moral. A Confissão de Fé de Westminster declara:

“A Lei Moral obriga para sempre a todos, tanto os justificados quanto os demais, à obediência.”1

O Catecismo Maior de Westminster ensina que:

  • O 7º Mandamento exige castidade em corpo, mente e afeições, e proíbe toda impureza sexual.2
  • O 6º Mandamento exige todos os meios lícitos para preservar a vida humana.3

Desde o início, portanto, a tradição confessional reconhece dois bens morais reais — pureza sexual e vida — ambos protegidos pela Lei, porém aplicados com atenção às circunstâncias concretas.


2. Lei civil injusta não redefine moralidade

João Calvino insiste que leis humanas podem tolerar práticas que Deus jamais aprovou:

“Não se deve medir a justiça pelas leis dos homens, pois muitas coisas são legalmente permitidas que, diante de Deus, são perversas.”4

O sistema do harém persa era legal segundo o império, mas moralmente corrupto segundo a Lei de Deus. A providência divina, portanto, não equivale à aprovação moral do sistema.


3. O que o texto bíblico descreve: houve entrega sexual?

Antes de avançar para a discussão ética, é necessário ser exato quanto ao dado exegético: o que aconteceu com Ester, segundo a própria narrativa? O livro descreve um procedimento padrão aplicado às jovens recolhidas ao harém. O trecho-chave é a explicação do “regulamento das mulheres”:

Cada moça… entrava ao rei à tarde e pela manhã tornava… Não tornava mais ao rei, salvo se o rei a desejasse e fosse chamada pelo nome.” (Et 2.12–14)

O ponto decisivo aqui é que o texto descreve uma noite com o rei (“à tarde… pela manhã”) seguida da transferência para um setor permanente do palácio (o “segundo harém”), de onde a mulher não voltava ao rei, exceto se fosse chamada nominalmente. Esse é o modo narrativo típico de descrever a consumação do favor real no contexto do harém, sem detalhar o ato.

Em seguida, o texto insere Ester nesse mesmo fluxo, sem indicar exceção:

Foi levada Ester ao rei… E o rei amou Ester… e a fez rainha.” (Et 2.16–17)

3.1 O abuso foi inequívoco?

O livro de Ester não usa linguagem psicológica moderna, mas descreve um sistema de poder assimétrico em que jovens são recolhidas por decreto, preparadas e levadas ao rei conforme o procedimento do palácio. Nesses termos, é plenamente legítimo dizer que se trata de coerção estrutural: não se trata de “consentimento livre” no sentido moral robusto.

3.2 Há quem defenda que Ester não teve de “se entregar sexualmente”?

Existe, sim, uma leitura (geralmente devocional/apologética) que tenta afirmar que Ester teria sido poupada dessa consumação. Porém, essa leitura costuma depender de um argumento do silêncio (“o texto não descreve o ato”) e da suposição de uma exceção que o próprio texto não marca. O mesmo nível de silêncio existe para todas as demais jovens — e, portanto, não funciona como evidência de abstinência.

Em termos exegéticos, a leitura mais responsável é: a narrativa pressupõe que Ester passou pelo mesmo procedimento descrito para as demais jovens. Isso não significa que a Escritura aprove o sistema, nem que imputaria culpa moral à vítima; significa apenas que a discussão moral deve começar com o que o texto efetivamente apresenta.


4. Coerção e responsabilidade moral na ética reformada

A tradição reformada distingue cuidadosamente entre ato voluntário e ato cometido sob coerção extrema. Calvino afirma, ao tratar da vontade e da culpa moral:

“Quando a vontade é constrangida pela violência, não se pode falar propriamente de consentimento.”5

Francis Turretini, em suas Institutes of Elenctic Theology, formula de modo semelhante:

“Ações feitas sob medo extremo ou força injusta não procedem de vontade livre, e por isso não acarretam culpa moral plena.”6

Ester foi recolhida por decreto, não tinha meios legítimos de recusa e vivia sob ameaça implícita de punição severa. O texto bíblico, significativamente, não a trata como culpada moralmente.


5. Ester deveria ter escolhido o martírio?

A tradição reformada honra o martírio, mas não o impõe universalmente. Em particular, ela distingue entre sofrer um mal imposto e praticar um mal exigido.

5.1 Quando o martírio pode ser moralmente exigido

Na ética reformada clássica, o martírio torna-se moralmente exigido quando evitar a morte implicaria pecado formal — sobretudo:

  • Negação explícita da fé (apostasias formais);
  • Culto idólatra consciente (render honra religiosa a outro deus);
  • Blasfêmia deliberada contra Deus;
  • Obediência a mandamento que exige pecado ativo e intencional.

O princípio apostólico é claro:

Antes importa obedecer a Deus do que aos homens.” (At 5.29)

Calvino resume a obrigação de resistir quando o homem ordena o que Deus proíbe:

“Quando os homens nos ordenam algo que é contrário ao mandamento de Deus, devemos não apenas resistir, mas estar prontos a sofrer tudo, até mesmo a morte.”9

A Confissão de Fé de Westminster estabelece o princípio ao tratar da consciência cristã:

“Deus somente é Senhor da consciência, e deixou-a livre das doutrinas e mandamentos dos homens que sejam contrários à Sua Palavra.”10

Turretini formula a distinção de modo técnico:

“Quando o magistrado exige algo que implica pecado formal, o cristão está obrigado a resistir, ainda que disso resulte a morte; pois aqui não se trata de sofrer um mal, mas de cometer um mal.”11

5.2 Por que o caso de Ester não se enquadra nisso

Ester não foi ordenada a negar a fé, blasfemar ou praticar idolatria consciente. Ela sofreu violência sexual imposta dentro de um sistema ímpio, sem liberdade real de escolha, e sem exigência de confissão pública contrária a Deus. Calvino observa a diferença entre sofrer injustiça e consentir com impiedade:

“Há grande diferença entre suportar uma injustiça e consentir com a impiedade.”12

Tabela comparativa: quando o martírio é exigido / quando não é

Quando o martírio é exigido Quando o martírio não é exigido
  • Para não negar a fé quando a autoridade exige apostasia formal.9
  • Para não praticar idolatria (culto consciente a outro deus) mesmo sob ameaça.10
  • Para não blasfemar deliberadamente.
  • Quando a ordem exige pecado formal e ativo, isto é, “cometer um mal” para sobreviver.11
  • Quando a pessoa sofre um mal imposto sem consentimento moral pleno (coerção extrema).5, 6
  • Quando não há exigência de negação explícita da fé nem ato religioso idólatra.
  • Quando a violência é estrutural e a “escolha” é um dilema trágico entre males impostos.
  • Quando a alternativa é morrer sem que isso seja uma recusa direta a um pecado formal exigido pela autoridade.


6. Vida e pureza sexual: hierarquia de perdas, não de valores

A tradição reformada ajuda com uma distinção essencial: hierarquia de perdas, não relativização de valores. Pureza sexual e vida são bens morais reais, mas não se perdem do mesmo modo, nem produzem as mesmas consequências quando violados.

6.1 Pureza sexual

  • É um bem moral real, protegido pelo 7º Mandamento.2
  • Pode ser violada contra a vontade da pessoa, sem consentimento moral pleno.5, 6
  • Sua perda por violência não elimina dignidade, fé nem chamado; a Escritura não trata a vítima como moralmente “descartada”.

6.2 Vida

  • É protegida pelo 6º Mandamento, que exige meios lícitos de preservação.3
  • Uma vez tirada, não pode mais ser exercida no tempo, encerrando serviço, intercessão e obediência histórica.

Assim, em um mundo caído, a tradição reformada reconhece que há perdas diferentes: a perda da vida é final quanto à ação temporal; a violação da pureza, ainda que grave e irreversível em certos aspectos, não encerra o chamado nem a possibilidade de graça futura.


7. Providência divina não legitima o mal

A Confissão de Fé de Westminster, ao tratar da providência, afirma:

“Deus, em sua providência ordinária, faz uso de meios; contudo é livre para operar sem eles, acima deles e contra eles, segundo lhe apraz.”8

E, quanto à relação entre providência e pecado humano, ensina:

“A providência de Deus estende-se até o primeiro pecado e a todos os outros pecados dos anjos e dos homens; e isso não por mera permissão, mas por uma permissão a mais sábia e poderosa... todavia, de tal modo que a pecaminosidade deles procede somente da criatura, e não de Deus.”7

Aplicado a Ester: Deus não aprova o harém, não transforma violência em virtude e não imputa culpa à vítima. Ele governa a história apesar do pecado humano.


8. Onde a Escritura localiza a virtude de Ester

A Bíblia é precisa: Ester não é elogiada por entrar no harém. Ela é apresentada como virtuosa quando, livremente, decide arriscar a vida pelo povo de Deus:

Se perecer, pereci.” (Et 4.16)

Aqui há decisão voluntária, temor de Deus e fé consciente — exatamente onde a tradição reformada localiza a virtude moral.


9. Conclusão confessional

À luz da Lei Moral, dos Catecismos e dos teólogos reformados clássicos, podemos afirmar:

  • O padrão moral permanece intacto.1, 2
  • O sistema persa era pecaminoso.4
  • A coerção remove culpa moral plena da vítima.5, 6
  • O martírio é exigido quando evitar a morte implicaria pecado formal (negação da fé/ idolatria), mas não em toda violência sofrida.9, 10, 11
  • A perda da pureza por violência não remove dignidade nem chamado; a vida preservada mantém possibilidade de fidelidade no tempo.3

Em termos simples e pastorais: Deus não santifica a violência, não condena a vítima e não encerra o chamado daqueles que sofreram injustiça — porque, enquanto há vida, há possibilidade de fidelidade.


Notas de rodapé (fontes)

  1. Confissão de Fé de Westminster, cap. XIX (“Da Lei de Deus”), §5.
  2. Catecismo Maior de Westminster, Perguntas 137–139 (7º Mandamento).
  3. Catecismo Maior de Westminster, Perguntas 134–136 (6º Mandamento).
  4. João Calvino, Institutas da Religião Cristã, Livro IV, cap. 20, §14.
  5. João Calvino, Institutas, Livro II, cap. 3, §5.
  6. Francis Turretini, Institutes of Elenctic Theology, Vol. II, Locus XI, Questão 9, §6.
  7. Confissão de Fé de Westminster, cap. V (“Da Providência”), §4.
  8. Confissão de Fé de Westminster, cap. V (“Da Providência”), §3.
  9. João Calvino, Institutas, Livro IV, cap. 20, §32.
  10. Confissão de Fé de Westminster, cap. XX (“Da Liberdade Cristã e da Liberdade de Consciência”), §2.
  11. Francis Turretini, Institutes of Elenctic Theology, Vol. II, Locus XI, Questão 9, §13.
  12. João Calvino, Institutas, Livro III, cap. 8, §7.