segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Carnaval como Ritual? Uma análise reformada à luz das declarações de um carnavalesco

1. O ponto de partida: o que significam as expressões utilizadas

Em análises públicas sobre o Carnaval brasileiro, o carnavalesco e comentarista Milton Cunha tem afirmado que o desfile é expressão de matriz africana e, em tom afirmativo, já utilizou a palavra “macumba” como forma de valorizar sua herança afro-brasileira.[1] Além disso, costuma relacionar o Carnaval a ideias de ancestralidade e dimensão espiritual.

Essas afirmações, consideradas em seu núcleo, apontam para três ideias principais:

  • O Carnaval brasileiro é profundamente marcado por herança afro-brasileira;
  • Há proximidade simbólica entre o desfile e elementos da religiosidade afro-brasileira;
  • A linguagem utilizada não é apenas cultural, mas também espiritual.

A partir dessas ideias, torna-se legítimo perguntar: o que exatamente está sendo afirmado quando se usa esse tipo de linguagem?

Os tópicos a seguir não devem ser entendidos como citações literais do comentarista, mas como explicações organizadas que ajudam a compreender as implicações culturais e religiosas desse modo de interpretar o Carnaval. Em outras palavras, partimos das afirmações públicas mencionadas acima e analisamos seus possíveis significados.

Expressão de matriz africana

Significa reconhecer que o Carnaval brasileiro, especialmente no formato das escolas de samba, foi fortemente influenciado por culturas afro-brasileiras. Isso inclui música, dança, organização comunitária e estética visual.

Relação com ritmos de origem religiosa

Ao se afirmar que o samba tem raízes em ambientes historicamente ligados a terreiros, reconhece-se que certos ritmos e formas musicais também estiveram presentes em contextos religiosos afro-brasileiros. Essa constatação é histórica e cultural.

Uso afirmativo da palavra “macumba”

Quando a palavra é empregada de maneira positiva, busca-se valorizar a herança religiosa afro-brasileira. Ainda que isso não signifique declarar formalmente que o desfile seja um culto, estabelece-se uma aproximação simbólica com o universo religioso.

Ancestralidade

A referência à ancestralidade aponta para memória, identidade e resistência histórica do povo negro. A questão que surge é se essa evocação permanece no plano cultural ou se assume significado espiritual mais explícito.

Linguagem espiritual

Quando o discurso ultrapassa a descrição histórica e utiliza termos ligados à espiritualidade, abre-se espaço para leitura religiosa do evento. Esse é o ponto em que a análise teológica passa a ser necessária.

A partir desse conjunto de ideias, pode-se organizar algumas categorias explicativas que ajudam a compreender como o Carnaval é interpretado quando descrito em chave ritual ou espiritual.

O desfile como rito coletivo (categoria explicativa)

Se o Carnaval é descrito com linguagem ritual, o desfile pode ser entendido não apenas como espetáculo artístico, mas como ato coletivo com estrutura semelhante à de um rito público.

A preparação como momento simbólico

A concentração e o “esquenta” podem ser vistos, nessa leitura, como etapas preparatórias que antecedem o momento central do desfile.

O canto e a performance como expressão simbólica

Quando o samba-enredo é comparado a canto ritual, a performance assume dimensão que ultrapassa o entretenimento e passa a ser interpretada como expressão de significado mais profundo.

O espaço como investido de significado especial

Se o evento é descrito como manifestação espiritual, a própria avenida pode ser entendida, simbolicamente, como espaço investido de significado religioso temporário.

Reforça-se: esses últimos tópicos não são atribuições diretas de fala, mas desdobramentos analíticos possíveis quando se parte das afirmações públicas mencionadas no início desta seção.


2. Distinção necessária

Música africana não é pecado.
Estética africana não é pecado.
Identidade negra não é pecado.

A teologia reformada afirma a dignidade da diversidade cultural como parte da providência comum de Deus. Ritmo, expressão artística, herança histórica e identidade étnica pertencem à ordem criada e não são moralmente impuros em si mesmos.

“De um só fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra...” (Atos 17:26)

A música, enquanto forma estética, é elemento da criação. Nenhum instrumento, ritmo ou padrão cultural é intrinsecamente idólatra. O mesmo vale para expressões visuais, vestimentas, cores, narrativas históricas e celebração de ancestralidade enquanto memória cultural. A imagem de Deus está presente em todos os povos, e nenhuma identidade racial ou herança africana é, por si, espiritualmente condenável.

A tradição reformada distingue claramente entre cultura e culto. Cultura é desenvolvimento humano dentro da providência divina; culto é ato espiritual direcionado a uma realidade transcendente. A neutralidade cultural deixa de existir quando elementos culturais passam a exercer função religiosa.

O problema surge quando ocorre transição de categoria:

  • Ancestralidade deixa de ser memória histórica e passa a ser invocação espiritual. Recordar antepassados é legítimo; invocá-los como presença ativa ou mediadora entra em esfera espiritualmente concorrente à mediação exclusiva de Cristo (1Tm 2:5).
  • Espaço público deixa de ser civil e assume linguagem de sacralização. Quando avenida, concentração ou desfile são descritos como “terreiro”, “rito” ou “manifestação espiritual”, ocorre deslocamento simbólico do cultural para o cultual.
  • Estrutura performática assume forma ritual. Preparação, invocação, canto estruturado, clímax e encerramento são elementos clássicos de rito. Quando o próprio evento é descrito nesses termos, a análise teológica deve levá-los a sério.
  • Linguagem religiosa é aplicada literalmente. Termos como invocação, ponto cantado, ritual e ancestralidade espiritual não podem ser tratados como metáforas vazias se são usados com intenção afirmativa.

Assim, a questão não é etnia, estética ou música. A questão é mediação espiritual e intenção religiosa. Quando elementos culturais permanecem no campo artístico e histórico, não há violação moral. Quando passam a reivindicar função espiritual paralela ou simbologia cultual, entram na esfera regulada pelo Primeiro e Segundo Mandamentos.


3. Análise à luz dos Dez Mandamentos

Primeiro Mandamento

“Não terás outros deuses diante de mim.” (Êxodo 20:3)

Se há invocação espiritual fora da mediação de Cristo, temos violação direta do princípio monoteísta.

“Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus...” (1 Timóteo 2:5)

Segundo Mandamento

“Não farás para ti imagem...” (Êxodo 20:4)

O Segundo Mandamento proíbe formas de culto não ordenadas por Deus. A Confissão de Westminster XXI.1 afirma:

“Mas o modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por Ele mesmo...”

Terceiro Mandamento

“Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão.” (Êxxodo 20:7)

Sincretismo e banalização do sagrado violam esse mandamento.

Quarto Mandamento

“Lembra-te do dia de sábado, para o santificar.” (Êxodo 20:8)

Para a tradição reformada, o Dia do Senhor (domingo) deve ser separado para culto e descanso santo (CFW XXI.7)[2].

“Achei-me em espírito, no Dia do Senhor...” (Apocalipse 1:10)

“No primeiro dia da semana, ajuntando-nos para partir o pão...” (Atos 20:7)

“Guardai-vos das orgias, bebedices e coisas semelhantes...” (1 Pedro 4:3)


Ainda que o debate central seja cultual (1º e 2º Mandamentos), a análise reformada não ignora implicações éticas, especialmente quando certos padrões se repetem em períodos de festa pública de grande escala.

Quinto Mandamento

“Honra teu pai e tua mãe...” (Êxodo 20:12)

A dissolução simbólica de autoridade e ordem social temporariamente suspensa em festividades de êxtase coletivo pode tensionar a estrutura de honra e hierarquia que o mandamento protege, sobretudo quando a “licença” cultural da época normaliza comportamentos que, em outros períodos, seriam reconhecidos como desordem.

Sexto Mandamento

“Não matarás.” (Êxodo 20:13)

O Sexto Mandamento protege a vida e condena atitudes que expõem o próximo a risco injustificável. Em períodos de aglomeração, deslocamentos intensos e consumo de álcool, aumentam as ocasiões de violência, brigas e acidentes. Por isso, o Estado mobiliza operações especiais e frequentemente publica balanços com prisões e ocorrências. O fato de haver operação massiva e centenas de ocorrências registradas evidencia que não se trata de risco raro, mas recorrente.[6][7]

Sétimo Mandamento

“Não adulterarás.” (Êxodo 20:14)

A erotização pública, a sensualização institucionalizada e a normalização da licenciosidade entram diretamente na esfera moral deste mandamento. Além disso, é comum que estruturas de festa ampliem ocasiões de tentação, de assédio e de práticas que destroem a pureza — o que exige do cristão não apenas “limites pessoais”, mas prudência quanto ao ambiente que se escolhe frequentar.

Oitavo Mandamento

“Não furtarás.” (Êxodo 20:15)

Em contextos de multidões, é comum aumentar a ocorrência de furtos, sobretudo de celulares. Há registros públicos e balanços oficiais com milhares de ocorrências apenas em um Carnaval em grandes capitais. Por exemplo, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo divulgou números de furtos e roubos de celulares no período do Carnaval de 2025, reportados como milhares de ocorrências no intervalo de poucos dias.[8] No Rio de Janeiro, o governo estadual também publicou balanço oficial de ocorrências relacionadas ao Carnaval, indicando centenas de registros e redução em relação ao ano anterior, o que, novamente, confirma a recorrência do problema mesmo quando há queda.[7]

Nono Mandamento

“Não dirás falso testemunho...” (Êxodo 20:16)

O Nono Mandamento protege a verdade e condena representações enganosas da realidade. A tradição reformada ensina que não apenas a mentira direta, mas também a distorção, a omissão maliciosa e a construção unilateral de narrativas violam esse princípio (Catecismo Maior, Q.145).

Quando o Carnaval é promovido exclusivamente como espaço de liberdade, prazer e celebração sem consequências, enquanto se silenciam riscos recorrentes como violência, exploração, furtos, abuso de álcool e aumento de doenças sexualmente transmissíveis — fatos que o próprio poder público reconhece ao organizar campanhas preventivas e operações de segurança — cria-se uma representação parcial da realidade.

Além disso, quando a dimensão espiritual é simultaneamente evocada por intérpretes culturais e negada como irrelevante na esfera pública, estabelece-se tensão entre linguagem simbólica e narrativa de neutralidade. O Nono Mandamento exige transparência quanto à natureza real do que está sendo promovido.

Assim, a violação não se dá apenas por mentira explícita, mas por idealização que mascara custos morais, sociais e espirituais.

Décimo Mandamento

“Não cobiçarás...” (Êxodo 20:17)

A exaltação do corpo como objeto de desejo coletivo pode fomentar cultura de cobiça visual e imaginação desordenada. O Décimo Mandamento é particularmente incisivo porque confronta o pecado “interno” (desejo), não apenas o “externo” (ato).


4. Comparação com festas pagãs antigas

As Dionísias gregas, dedicadas a Dionísio, eram marcadas por:

  • Êxtase coletivo;
  • Transe induzido por música repetitiva;
  • Dissolução temporária de barreiras sociais;
  • Liberação moral ritualizada;
  • Sacralização do espaço público.

Em Roma, as Bacanais possuíam dinâmica semelhante, combinando culto, emoção coletiva e suspensão de normas ordinárias. Essas festas não eram “apenas entretenimento”: envolviam sentido religioso, inversão simbólica e, em diversos casos, prática moral dissoluta.

Do ponto de vista antropológico, isso ajuda a explicar por que certas festividades adquirem linguagem de “ritual” mesmo quando ocorrem em espaço civil: o rito sacraliza tempo e lugar, cria uma “ordem paralela”, permite catarse coletiva e forma identidade.

O Novo Testamento confronta esse tipo de cultura festiva:

“Porque basta o tempo decorrido para terdes executado a vontade dos gentios,
andando em dissoluções, concupiscências, borracheiras, orgias, bebedices
e em detestáveis idolatrias.” (1 Pedro 4:3)

Além disso:

“Não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios.” (1 Coríntios 10:21)

O apóstolo Paulo não trata tais práticas apenas como fenômenos culturais neutros, mas como eventos com implicação espiritual — especialmente quando há comunhão simbólica com estruturas religiosas paralelas. Assim, quando a própria interpretação cultural do evento passa a falar em “invocação” e “ritual”, a prudência teológica reformada aumenta.


5. Testemunho Reformado

Calvino escreveu:

“O coração humano é uma perpétua fábrica de ídolos.” (Institutas I.11.8)[3]

A idolatria pode ocorrer mesmo sem altar formal. Pode manifestar-se como:

  • Idolatria do prazer;
  • Idolatria do corpo;
  • Idolatria da identidade coletiva;
  • Religião civil estética;
  • Sacralização de espaços e narrativas culturais.

A teologia reformada entende que eventos de êxtase coletivo não são espiritualmente neutros, sobretudo quando associados a invocação, linguagem cultual e símbolos espirituais concorrentes à mediação exclusiva de Cristo.

Francis Turretini ensina que toda invocação espiritual fora da revelação bíblica constitui idolatria formal.[4]

O Catecismo Maior de Westminster (Perg. 105) inclui entre os pecados contra o Primeiro Mandamento:

“Consultar ou dar ouvidos a qualquer outro como se fosse Deus.”[5]

Conclusão

Toda esta análise parte de uma distinção simples, mas decisiva: cultura não é automaticamente culto, porém cultura pode tornar-se cultual quando assume linguagem, função e intenção de invocação espiritual.

Quando o Carnaval é descrito apenas como expressão cultural — fruto da história, da arte e da identidade afro-brasileira — a avaliação permanece no campo da prudência moral comum. Contudo, quando passa a ser apresentado com linguagem de ritual, ancestralidade espiritual ou invocação, a questão deixa de ser apenas estética e torna-se também espiritual.

Por isso, é útil considerar dois planos distintos de avaliação.

  • No plano cultual (Mandamentos 1–4): se um evento é interpretado como rito, invocação ou manifestação espiritual, o cristão não pode tratá-lo como algo neutro. A fé reformada afirma que a mediação pertence exclusivamente a Cristo, e que o culto aceitável é regulado pela Palavra de Deus.
  • No plano ético (Mandamentos 5–10): mesmo quando alguém insiste em enxergar o Carnaval apenas como cultura, permanece a responsabilidade de avaliar seus frutos: intemperança, erotização, imprudência, violência, exploração do próximo e discursos injustos. Santidade não significa apenas evitar extremos, mas escolher o que edifica e protege o próximo.

Assim, a reflexão cristã não deve começar perguntando apenas “é permitido participar?”, mas algo mais profundo:

  • O que estou endossando? Trata-se apenas de expressão cultural ou há linguagem e intenção espiritual envolvidas?
  • O que isso produz em mim? Aproxima-me de sobriedade e domínio próprio ou favorece dissipação?
  • Como isso afeta o próximo? Contribui para amor, proteção e responsabilidade ou aumenta riscos e tropeços?

Além disso, é necessário discernir a linguagem utilizada. Se um evento é descrito como invocação, rito ou “ponto” em sentido religioso, o cristão deve levá-lo a sério como questão espiritual, e não apenas estética. Ao mesmo tempo, qualquer crítica deve ser feita com verdade e caridade, evitando generalizações injustas ou ataques pessoais.

Também é prudente considerar os efeitos sociais concretos. Os próprios balanços de segurança pública indicam recorrência de furtos, roubos e ocorrências no período, o que deve pesar especialmente quando se pensa em famílias, jovens e ambientes de risco.

Em síntese, a fé reformada exige discernimento. Não se trata de demonizar cultura nem de ignorar suas raízes históricas, mas de examinar cuidadosamente linguagem, intenção e consequências. A pergunta final não é apenas “isso é cultura?”, mas: isso glorifica a Deus, preserva a santidade e promove amor responsável ao próximo?


Notas

[1] Referência geral às análises públicas recorrentes de Milton Cunha em coberturas e programas sobre Carnaval (interpretação cultural do desfile como matriz afro-brasileira, ancestralidade e ritualidade). Para rigor máximo, recomenda-se inserir aqui links e datas de entrevistas específicas (arquivo de vídeo/TV e recortes jornalísticos).

[2] Confissão de Fé de Westminster (1647), cap. XXI (especialmente XXI.7 sobre santificação do Dia do Senhor).

[3] João Calvino, Institutas da Religião Cristã, Livro I, cap. 11 (I.11.8).

[4] Francis Turretini, Institutas da Teologia Elenctica.

[5] Catecismo Maior de Westminster, Perguntas 104–110 (especialmente Q.105, pecados contra o Primeiro Mandamento).

[6] Balanços e reportagens sobre operações e prisões no período de Carnaval indicam recorrência de ocorrências e mobilização excepcional de efetivo. Exemplo (prisões e balanço em BH/Minas): O Tempo (15/02/2026).

[7] Balanço oficial do Governo do Estado do Rio de Janeiro sobre o Carnaval 2025 (ocorrências relacionadas ao Carnaval e comparativos): Governo do RJ (07/03/2025).

[8] Dados divulgados pela SSP/SP sobre furtos e roubos de celulares no Carnaval 2025 (milhares de ocorrências em poucos dias): Agência Brasil (05/03/2025). Em outras referências jornalísticas baseadas em SSP/SP, há menção a números maiores conforme recorte temporal/boletins (por exemplo, somando mais dias de operação), o que pode ser incluído se você decidir padronizar um único critério de contagem.