quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

O Aliancismo Reformado e o Pactualismo Batista

“Porque a promessa é para vós, para vossos filhos...”  — Atos 2:39

Entre cristãos que confessam a soberania de Deus na salvação, a suficiência da graça e a centralidade das Escrituras, existe uma diferença real — e pastoralmente relevante — quanto ao modo de compreender a aliança da graça. Reformados e batistas reformados (ou “pactualistas batistas”, em especial na tradição da Confissão de 1689) compartilham muitos pontos doutrinários; ainda assim, divergem de maneira significativa na estrutura pactual, na leitura da Nova Aliança e, sobretudo, no lugar dos filhos dos crentes.

Aqui não se trata apenas de “um debate sobre batismo”. A divergência alcança a própria forma de enxergar a história da redenção: se a aliança é uma realidade que Deus administra publicamente ao longo das gerações — formando lares, organizando a igreja visível e moldando a vocação do povo de Deus no mundo — ou se a aliança deve ser definida quase exclusivamente como o conjunto dos regenerados que já professam fé.

A tradição reformada clássica, expressa de modo representativo na Confissão de Westminster, afirma a unidade substancial da aliança da graça, revelada progressivamente e administrada de formas diversas em épocas distintas. Já o pactualismo batista, conforme articulado na Confissão de 1689, tende a restringir a Nova Aliança à comunidade dos regenerados e, por consequência, a restringir os sinais da aliança àqueles que já creram.

Esta postagem busca apresentar, com respeito e clareza, os principais pontos de convergência e divergência entre as duas tradições, mostrando por que o aliancismo reformado sustenta uma aliança una e contínua, enquanto o modelo batista adota uma leitura mais restritiva (e, em certos pontos, mais descontínua) da administração histórica dessa mesma graça.


1) Convergências Teológicas

Antes de tratar das diferenças, é importante reconhecer os muitos pontos de acordo. Em termos confessionais e soteriológicos, há amplo terreno comum:

  • Ambos afirmam a soberania de Deus na eleição;
  • Defendem a justificação somente pela fé, com base na justiça imputada de Cristo;
  • Rejeitam universalismo soteriológico e “universalismo pactual”;
  • Reconhecem a centralidade da Nova Aliança em Cristo;
  • Valorizam meios de graça, pregação e disciplina eclesiástica;
  • Apoiam o culto centrado na Palavra, segundo o Princípio Regulador.

Em outras palavras, estamos falando de duas tradições que se reconhecem dentro de um horizonte reformado amplo, mas que adotam estruturas pactuais distintas. E justamente por serem “estruturais”, suas consequências não são periféricas.


2) Diferenças Fundamentais

2.1) A Natureza da Aliança da Graça


Reformados (Westminster):

A aliança da graça é uma só, anunciada desde Gênesis 3:15 e revelada progressivamente. Suas administrações variam ao longo da história, mas sua substância é a mesma: Cristo e seus benefícios. Assim, Abraão, Moisés e Davi participam do mesmo evangelho em forma antecipada, tipológica e pedagógica, sem que isso anule a realidade da graça já presente.

Batistas Reformados (1689):

A aliança da graça é entendida como formalmente estabelecida na Nova Aliança. As alianças anteriores (Abraão, Moisés, Davi) são vistas como arranjos histórico-tipológicos, com função preparatória, mas sem constituírem, propriamente, a administração vigente da aliança da graça. Nesse sentido, a Nova Aliança seria a única administração plena e direta dessa graça.

Implicação:

No sistema batista, torna-se difícil falar de um “povo pactual misto” antes de Cristo ou mesmo sob a Nova Aliança. Se a Nova Aliança inclui apenas regenerados, então os sinais e a membresia devem acompanhar essa definição: filhos de crentes ficam de fora até a profissão de fé.

2.2) O Povo da Aliança


Reformados (Westminster):

A tradição reformada distingue com cuidado igreja visível e igreja invisível, sem separá-las como se fossem dois povos diferentes. A igreja visível é o povo de Deus em sua forma pública e histórica; nela há trigo e joio, crentes sinceros e membros nominais, e isso não surpreende, porque o próprio pacto, em sua administração histórica, inclui membros externos que recebem privilégios reais e responsabilidades reais, sem que isso implique regeneração automática.

Batistas Reformados (1689):

A Nova Aliança é entendida como comunidade composta somente de regenerados e professos. Portanto, a igreja visível deve, tanto quanto possível, refletir a igreja invisível. A membresia e os sinais são administrados a partir da evidência de fé, e crianças são tratadas como “de fora” até a conversão.

Implicação:

O ponto decisivo é este: o aliancismo reformado afirma que Deus governa seu povo por uma economia pactual que é visível, geracional e educativa. Ao restringir a Nova Aliança aos regenerados, o pactualismo batista tende a reduzir a função pública do pacto — e com isso enfraquece a ideia de um discipulado multigeracional “a partir do berço”, que não é mero detalhe prático, mas parte da própria forma como Deus promete operar na história.

2.3) Os Sinais da Aliança


Reformados (Westminster):

O batismo é sinal e selo da aliança, e está ligado à promessa, não ao grau de maturidade do recipiente. Assim como a circuncisão era aplicada aos filhos no Antigo Testamento, o batismo é aplicado aos filhos sob a Nova Aliança como selo da promessa e chamado à fé. O sinal não pressupõe regeneração automática; ele estabelece uma relação pactual real, com privilégios e obrigações.

Batistas Reformados (1689):

O batismo é sinal da Nova Aliança e, portanto, deve ser administrado somente a quem dá evidência de fé. Como a Nova Aliança inclui apenas regenerados, o sinal não pode ser aplicado antes da fé. Além disso, a ligação entre circuncisão e batismo é considerada inadequada para fundamentar o batismo infantil.

Implicação:

Para reformados, o batismo infantil é coerente com a lógica bíblica da promessa e da administração pactual. Para batistas reformados, trata-se de um erro hermenêutico e eclesiológico: o sinal deve acompanhar a fé professada.

 

3) Uma Diferença de Paradigma

A diferença entre os dois sistemas não é superficial: é estrutural. Ela define como lemos a unidade da Escritura, como entendemos a igreja visível e como formamos famílias sob a promessa. Por isso, a discussão não pode ser tratada como um detalhe litúrgico, mas como uma diferença de “arquitetura” teológica.

Questão

Reformado (Westminster)

Batista Reformado (1689)

Aliança da graça

Uma, revelada
desde Gênesis

Começa com a
Nova Aliança

Natureza da
Nova Aliança

Continuidade da
promessa a Abraão

Aliança inédita só
com regenerados

Inclusão dos filhos

Incluídos como
membros da aliança

Excluídos até profissão de fé

Sinal (batismo)

Selo da promessa,
antes da fé

Sinal da fé, depois da fé

Igreja visível

Corpo misto
(fiéis + nominais)

Comunidade de
crentes regenerados


4) Uma Palavra de Caridade e Clareza

Batistas reformados são irmãos legítimos na fé. Compartilhamos muito — e, em vários contextos, cooperamos com alegria. Ainda assim, as diferenças importam, especialmente quando tratamos de:

  • A visão de igreja e de membresia;
  • A educação e expectativa pastoral quanto aos filhos;
  • A administração dos sacramentos;
  • A forma de pensar discipulado, disciplina e continuidade geracional.

O aliancismo reformado entende que a Escritura apresenta uma teologia pactual mais unificada e publicamente visível, coerente com a forma como Deus reúne, governa e amadurece seu povo na história. Isso não diminui o zelo batista pela conversão; antes, coloca esse zelo dentro de uma moldura pactual que assume o discipulado do lar e da igreja como realidade contínua e geracional.


5) Implicações Escatológicas e Culturais da Teologia da Aliança

A forma como entendemos a estrutura pactual influencia diretamente nossa visão sobre o papel do povo de Deus na história. A mesma pergunta aparece em todas as tradições reformadas: como o Reino de Cristo se manifesta no tempo presente e que tipo de expectativa devemos ter quanto ao futuro da igreja visível e à relação entre fé, cultura e ordem social.

Dentro do campo reformado há diferentes perspectivas escatológicas — todas confessando o retorno de Cristo, o juízo final e a esperança da consumação — e cada uma delas molda como se espera que a aliança impacte a cultura, a sociedade e o futuro da igreja visível. Em outras palavras: escatologia não é um “anexo”; ela altera a ênfase do discipulado público e a leitura do avanço histórico do Reino.

5.1) Amilenismo reformado

No amilenismo reformado, o Reino de Cristo é entendido como real e presente, porém não identificado com um período histórico de hegemonia visível antes da consumação. Cristo reina agora, e seu governo se manifesta prioritariamente pela pregação do evangelho, pelos meios de graça e pela perseverança da igreja em meio a oposição. A missão da igreja, nesse modelo, é testemunhar com fidelidade, sofrer quando necessário e aguardar o retorno de Cristo com esperança, sem esperar uma “cristianização” definitiva do mundo antes do fim.

A aliança permanece central, mas a aplicação cultural tende a ser mais “contida”: não por negar a relevância pública da fé, mas por supor que a história seguirá marcada por conflito entre a cidade do homem e o povo de Deus até a consumação. Assim, há espaço para vocação cristã fiel na vida pública, porém com expectativas moderadas quanto a uma transformação civilizacional antes da vinda de Cristo.

5.2) Pré-milenismo histórico

Entre reformados que sustentam o pré-milenismo histórico, há a convicção de que a história caminha para uma intensificação da crise espiritual e moral antes da volta de Cristo, e que o Reino será então estabelecido de forma mais visível no futuro. Nesse quadro, a igreja é chamada a fidelidade doutrinária, coragem pastoral e perseverança em meio a tribulações, sem expectativa de uma reconstrução cultural abrangente antes da intervenção final de Deus.

A aliança forma discípulos que resistem e confessam, mais do que instituições que se reformam de modo sistêmico antes da parousia. O foco tende a recair sobre pureza da igreja, paciência na aflição e esperança escatológica, entendendo que o “pico” visível do Reino virá pela ação decisiva de Cristo ao retornar.

5.3) Pós-milenismo reconstrucionista

No pós-milenismo reconstrucionista, a aliança é vista como instrumento histórico de discipulado das nações. O Reino de Cristo, sob essa ótica, cresce progressivamente ao longo do tempo: o evangelho é crido, a vida é ordenada sob o senhorio de Cristo, e a Lei de Deus é recebida como padrão público de justiça, de modo que famílias, igrejas e instituições passam a refletir, em graus variados, a ética do Reino.

Aqui, a ênfase pactual é explicitamente multigeracional: os filhos da aliança são catequizados e formados para maturidade cristã, e isso produz, ao longo de gerações, comunidades doutrinariamente robustas e culturas mais conformadas à justiça bíblica. Essa visão sustenta a possibilidade — e o dever moral — de reformar instituições, leis e costumes com base na fidelidade pactual perseverante, sem confundir isso com utopia e sem prometer perfeição antes da consumação.

5.4) E o pactualismo batista?

O pactualismo batista, ao definir a aliança de modo mais estrito como o conjunto dos regenerados e ao excluir os filhos dos crentes da membresia pactual até a profissão de fé, tende a restringir a dimensão visível, social e histórica da aliança. Ainda que alguns batistas reformados adotem escatologias mais otimistas, sua própria estrutura eclesiológica e pactual reduz a base teológica para uma cultura pactual multigeracional, porque retira da aliança visível justamente o eixo geracional: a formação pública de filhos “como pertencentes” à promessa.

Assim, mesmo quando há desejo sincero de transformação cultural, a própria lógica interna do sistema dificulta o avanço visível e orgânico do Reino em termos de continuidade histórica: a igreja se torna uma comunidade definida sobretudo por entrada individual após experiência consciente, o que, na prática, enfraquece a linguagem de promessa e responsabilidade herdada ao longo das gerações. Em contraste, o aliancismo reformado clássico sempre entendeu que o discipulado das nações envolve também o discipulado dos lares e a formação de sucessão geracional (Mt 28:19–20).

É inegável que igrejas batistas, tanto tradicionais quanto reformadas, têm demonstrado zelo evangelístico, vigor missional e capacidade de expansão. Muitas plantam igrejas com seriedade, promovem discipulado bíblico e defendem verdades centrais da Reforma. Ainda assim, o aliancismo reformado aponta uma tensão estrutural nessas comunidades: ao mesmo tempo em que ensinam uma cosmovisão cristã abrangente e discipulam famílias com rigor, negam que os filhos dos crentes pertençam à aliança e tratam como “de fora” aqueles que foram criados desde cedo sob a Palavra, o culto e a oração.

Essa tensão fica ainda mais visível quando tais igrejas adotam práticas educativas e catequéticas muito semelhantes às das igrejas aliancistas — às vezes com a mesma linguagem de “criação no evangelho” e de responsabilidade espiritual — mas sem reconhecer formalmente o estatuto pactual da criança. Na prática, não é incomum que pastores batistas reformados discipulem seus filhos como se fossem membros da aliança, embora sua teologia os impeça de reconhecê-los como tais.

Por outro lado, também é verdade que parte expressiva do movimento batista contemporâneo (no Brasil e fora) tornou-se marcada por pragmatismo, superficialidade teológica e fragmentação geracional, falhando em construir raízes confessionais e estruturas duradouras. Isso não é um problema “exclusivo” de batistas, mas costuma ser agravado onde a vida pactual é pensada quase somente como evento de conversão individual, e não como economia de promessa, disciplina e amadurecimento ao longo do tempo.

O aliancismo reformado não mede o avanço do Reino apenas por crescimento numérico, mas pela formação de famílias pactuais, comunidades doutrinariamente robustas e testemunho público fiel à Lei de Deus. O discipulado que transforma uma cultura começa no lar, é consolidado no púlpito e alcança gerações e instituições. Onde a aliança é compreendida como fundamento da vida,o impacto se expande além do culto — moldando inclusive os alicerces de uma civilização mais justa.

Conclusão

A divergência entre o modelo reformado e o pactualismo batista não é sobre se Deus salva pela graça — ambos confessam que a salvação é do Senhor — mas sobre como Deus forma, governa e conduz seu povo na história, por meio de uma economia pactual visível, ordenada e duradoura.

No aliancismo reformado, a aliança é uma realidade espiritual, familiar e cultural: ela estrutura lares, disciplina igrejas e orienta a vocação cristã no mundo. No pactualismo batista, a aliança tende a ser definida de forma mais estrita e individualizada, o que frequentemente limita sua aplicação à esfera eclesiástica e à experiência pessoal de fé.

Por isso, as consequências aparecem na prática: na maneira de tratar filhos de crentes, na compreensão da igreja visível, na expectativa de continuidade geracional e na forma de imaginar o alcance do discipulado cristão na sociedade. Em última análise, a questão é se a promessa divina — “para vós e para vossos filhos” — deve ser recebida como moldura pública de vida, ou apenas como realidade que se torna “pactual” depois de um ato individual de fé.

Referências Bibliográficas (para aprofundamento)

A bibliografia abaixo reúne (a) obras que defendem a leitura reformada clássica (Westminster) e o batismo infantil, (b) obras que defendem o pactualismo batista confessional (1689) e o batismo de professos, e (c) estudos que explicam e comparam os dois modelos, incluindo história e teologia pactual.

A) Reformado (Westminster) — teologia da aliança e batismo infantil

  • Calvino, João. As Institutas da Religião Cristã. (Ver especialmente as seções sobre sacramentos e batismo.)
  • Olevianus, Caspar. Sobre a Substância da Aliança da Graça (ou edições em inglês: On the Substance of the Covenant of Grace).
  • Witsius, Herman. A Economia dos Pactos entre Deus e o Homem (ed. inglês: The Economy of the Covenants).
  • Bavinck, Herman. Dogmática Reformada. (Trechos sobre aliança, igreja e sacramentos.)
  • Ridderbos, Herman. Paulo: o Esboço de sua Teologia. (Útil para continuidade/estrutura redentivo-histórica.)
  • Meredith G. Kline. Kingdom Prologue / By Oath Consigned. (Aliança, sinais e estrutura pactual na história bíblica.)
  • Robertson, O. Palmer. The Christ of the Covenants. (Apresentação clássica e acessível do pacto em unidade.)
  • Hodge, Charles. Systematic Theology. (Discussões clássicas sobre igreja, sacramentos e pacto.)

B) Batista Reformado (1689) — pactualismo batista confessional e batismo de professos

  • Nehemiah Coxe & John Owen (ou Coxe em edições modernas). Textos clássicos batistas sobre aliança, frequentemente usados como base do “1689 federalism”.
  • Pascal Denault. The Distinctiveness of Baptist Covenant Theology. (Apresenta e defende o pactualismo batista em contraste com Westminster.)
  • Samuel Renihan. Obras sobre “1689 Federalism” e história da teologia pactual batista. (Útil para entender a lógica interna do modelo.)
  • John Gill. A Body of Doctrinal Divinity. (Referência batista reformada clássica; discussão de pacto e ordenanças.)
  • Paul K. Jewett. Infant Baptism and the Covenant of Grace. (Crítico do pedobatismo; útil para ver argumentos do lado credobatista, ainda que não seja “1689” típico.)

C) Comparativas e históricas — explicam ambos os lados e o desenvolvimento do debate

  • Horton, Michael. God of Promise. (Amplo panorama reformado; ajuda a localizar onde batistas divergem.)
  • Gentry, Peter & Wellum, Stephen. Kingdom through Covenant. (Comparações de modelos; leitura “progressiva”/tipológica, útil para mapear debates modernos.)
  • Schreiner, Thomas & Wright, Shawn (eds.). Believer’s Baptism: Sign of the New Covenant in Christ. (Coleção de ensaios credobatistas; ajuda a entender a argumentação contemporânea.)
  • Beasley-Murray, G. R. Baptism in the New Testament. (Estudo amplo, histórico-exegético, frequentemente citado em debates.)
  • Fesko, J. V. Word, Water, and Spirit. (Defesa reformada do batismo e crítica a leituras restritivas da Nova Aliança.)
  • R. Scott Clark. Obras e ensaios sobre teologia pactual e batismo (úteis como introdução reformada popular, com referências históricas).

Dica editorial: se você quiser deixar a bibliografia ainda mais “confessional” e direta, pode encerrar com as duas confissões como fontes primárias: Confissão de Fé de Westminster (cap. 7; 25–28) e Confissão Batista de 1689 (cap. 7; 26; 28–30), como o “mapa oficial” de cada lado.