quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Sobre a Inerrância da Bíblia (Augustus Nicodemus Lopes)

EXTRAÍDO DE:


Num post anterior mencionei a inerrância da Bíblia. Por ser um conceito muito mal entendido e muito atacado, acredito que mereça um post explicativo. Como eu sei que não tenho procuração de todos que acreditam na inerrância da Bíblia para falar por eles, vou falar por mim somente.

Creio que a Bíblia foi escrita por autores sobrenaturalmente inspirados por Deus a ponto de ser verdadeira em tudo o que afirma, e isto não somente em matérias de fé e história da salvação. Ela é livre de erros, fraude e enganos. A Escritura não pode errar por ser em sua inteireza a revelação do Deus verdadeiro. Ela não é somente uma testemunha da revelação e nem se torna revelação num encontro existencial. Ela permanece a inerrante Palavra de Deus independentemente da resposta humana.

Estou persuadido de que o sentido básico desse conceito não foi inventado pelo escolasticismo protestante pós Reforma e nem pelos fundamentalistas históricos do início do séc. XX em reação ao liberalismo teológico. Sei que o termo “inerrante” só apareceu na Igreja a partir dessa última controvérsia. Contudo, para mim, é evidente que o conceito está presente na fé da Igreja desde o seu início. Apesar disso, não acredito que abraçar a inerrância é essencial para a salvação. Negá-la, todavia, pode eventualmente trazer prejuízos para a vida espiritual da igreja, abrindo a porta para males morais e espirituais.

Ao dizer que a Bíblia é inerrante, não estou negando que erros de copistas se introduziram no longo processo de transmissão da mesma. A inerrância é um atributo somente dos autógrafos, ou seja, do texto como originalmente produzido pelos autores inspirados por Deus. Muito embora hoje não tenhamos mais os autógrafos, pela providência divina podemos recuperar seu conteúdo, preservado nas cópias, quase que totalmente, através da ajuda de ferramentas como a baixa crítica ou a manuscritologia bíblica. A ausência dos autógrafos não torna a inerrância bíblica irrelevante, como dizem alguns. Se não temos os autógrafos para provar que eles não contêm erros, eles também não os têm para provar que contêm. Lembro que o ônus da prova é deles.

Quando digo que a Bíblia é inerrante, não ignoro estudos recentes na área de linguagemque apontam para os ruídos inerentes na comunicação, como o desconstrucionismo. Tais dificuldades, contudo, não impedem que o Deus que nos fez à sua imagem e semelhança, e que criou a linguagem, a use como meio claro de sua revelação inerrante, a ponto de nem a cultura e nem a pecaminosidade humana distorcerem o que ele quis de fato nos dizer.

Também não estou dizendo que os autores bíblicos receberam conhecimento pleno e onisciente acerca do mundo, quando escreveram. Não creio em inspiração mecânica ou em ditado divino que anulou a humanidade dos autores. Eles se expressaram nos termos e dentro do conhecimento disponível em sua época. Assim, eles descrevem que o sol nasce num lado do céu e se põe no outro, ou ainda mencionam que o sol parou no céu (Josué). No livro de Levítico se diz que a lebre rumina e que o morcego é uma ave. Sabemos que pelas convenções técnicas atuais lebres não ruminam e morcegos não são aves. Os autores bíblicos, entretanto, estavam se expressando em linguagem coloquial, fenomenológica, como observadores. E do ponto de vista do observador, o sol de fato se move no céu. E na Antigüidade, todos os animais que mexiam com a boca após comer pareciam ruminantes e tudo que tinha asas e voava era ave!

Sei também que não posso explicar todas as dificuldades da Bíblia em termos absolutamente satisfatórios. Por exemplo, a harmonia dos Evangelhos continua sendo em parte um desafio para autores comprometidos com a inerrância bíblica, pois nem sempre se consegue achar uma explicação plena (ainda) para alguns dos problemas levantados pelas aparentes discrepâncias entre os Evangelhos e entre Crônicas e Reis. Sei, no entanto, que não posso aceitar soluções que impliquem numa diminuição da autoridade das Escrituras, sugerindo contradições ou erros. Prefiro aguardar até que mais informações nos ajudem a achar soluções compatíveis com a natureza da Escritura e sua divina origem.

Ao afirmar a inerrância da Bíblia não estou ignorando que, com freqüência, as teorias científicas sobre a história da terra têm sido usadas para desacreditar o relato bíblico da criação, do dilúvio e sua cosmovisão geocêntrica. Entendo, contudo, que não é correto avaliar a veracidade da Bíblia mediante padrões de verdade que são distintos do seu propósito e que se baseiam em conclusões provisórias, efêmeras e freqüentemente desmentidas a posteriori por outros estudiosos e cientistas. A Bíblia não é um livro científico, nos padrões modernos, e frequentemente se refere aos fenômenos naturais usando a linguagem descritiva do observador, como já mencionei, a qual não é cientificamente analítica.

Por fim, estou consciente de que às vezes ocorre na Bíblia o que estudiosos modernos chamariam de erros de gramática com base no que se conhece hoje do grego, hebraico e aramaico. Sei que autores bíblicos citam outras partes da Bíblia de maneira livre, que eles usam números arredondados e que relatam os mesmos eventos de diferentes perspectivas, como no caso dos Evangelhos. Essas coisas, todavia, em nada prejudicam a inerrância da Bíblia. Ela permanece plenamente confiável em tudo que afirma, uma vez que a tomemos em seus próprios termos, sem impor-lhe a camisa de força da visão de mundo moderna, moldada por pressupostos secularizados e anticristãos.

A negação da inerrância da Bíblia é típica da esquerda teológica protestante e católica(*), afetada por uma cosmovisão oriunda das filosofias e ideologias que emergiram do Iluminismo, trazidas ao Brasil por cursos de teologia oferecidos em instituições de ensino públicas ou de denominações não mais comprometidas com os itens da fé cristã histórica. Junto com a negação da inerrância geralmente vem uma postura liberal quanto a casamento, divórcio, aborto, eutanásia, sexo antes do casamento, homossexualismo, etc. Há exceções e quero deixar isso claro, para não fazer generalizações injustas.

Ao terminar esse post, perguntei a mim mesmo se não é teimosia continuar a acreditar na inerrância da Bíblia depois de ter listado tantas dificuldades e feito tantas ressalvas. Quando penso, por outro lado, em todas as dificuldades e ressalvas que a esquerda teológica tem que enfrentar para defender a validade e a relevância para hoje de uma Bíblia que é cheia de erros e contradições, não sendo mais que um mero registro humano da fé de Israel e dos primeiros cristãos eivado de mitos e fábulas, vejo que é mais coerente continuar crendo na inerrância. Aqui permaneço.

NOTA: (*) “Esquerda teológica protestante e católica” é uma expressão que estou testando para ver se pode ser usada adequadamente para descrever os protestantes e católicos neoliberais. Tenho em mente os adeptos da teologia da libertação, que defendem o ecumenismo, aceitam a alta crítica bíblica e se vêm como comissionados a reinventar a Igreja e a teologia para os dias de hoje. Uso o termo “esquerda” emprestado da política, sem querer identificar os esquerdistas teológicos com esquerdistas políticos, em que pese a agenda e a credenda comum a ambos.




Jorge Fernandes Isah disse...

Oi, Frezza!

Você voltou ao tema de um post no facebook, e procurou um texto que é contraditório em si mesmo. Pois se a Bíblia é inerrante, somente em seus autógrafos [como o autor disse, ninguém os vê mais, pois já há muito não existem] mas há erros eventuais de copistas, podemos afirmar duas coisas:
a) Deus não preservou a sua palavra;
b) Não tenho certeza de nada quanto à Escritura, pois, se não há os autógrafos para compará-los às cópias, o que é certo e o que é errado? Tudo pode estar certo, tudo pode estar errado, e mesmo alguma coisa certa e outro tanto errada. Fato é que, simplesmente, não sabemos e nem podemos saber.

Até mesmo a ideia de eventuais erros é uma falácia e uma inferência absurda, pois não há como avaliar e tipificar quais seriam esses erros, visto não haver os autógrafos que os evidenciem.

Quanto à salvação de quem não crê na inerrância da Escritura, não sei, sinceramente. Apenas fico pensando que exatamente as questões da expiação e justificação, parte da obra do nosso Senhor Jesus Cristo, pode ser tudo um erro copista. Como saber, não é? Este é o resultado que posições incoerentes como a do Dr. Nicodemus podem proporcionar.

Como pressuposicionalista, a Bíblia é a palavra de Deus, inerrante, infalível, divinamente inspirada, e preservada pelo Espírito Santo mesmo dos erros dos copistas. Os "intelectuais de plantão" torcerão o nariz; na verdade, estou pouco me lixando!

Grande abraço!

Cristo o abençoe!

Barrabás disse...

Jorge, obrigado por comentar!!

Eu achei o texto dele realmente bom, até por ele ser moderado, e no momento é também minha opinião sobre o assunto..

Sobre os "errinhos" que possivelmente a bíblia contenha eu diria que:

a) Deus preservou a essência de sua Palavra até hoje, e através da bíblia temos tudo o que precisamos saber sobre a salvação e como viver;

b) Não é necessário questionar a veracidade da bíblia perante possíveis erros relativos a fatos secundários.. O julgamento que o autor faz (e eu tb) não é sobre o que a bíblia relata sobre qualquer característica de Deus (ou da Trindade), sobre salvação ou qualquer outra coisa realmente essencial, mas sobre pequenos detalhes que são imprecisos..

Mesmo assim, o autor diz que não tem certeza disso (e eu tb não), mas aparentemente são falhas..

Jorge, se tiver orkut, peço que procure pela comunidade "Amigos Monergistas", na qual estamos prestes a começar um estudo sobre as supostas "Contradições bíblicas"..

A idéia é reunir o máximo possível de textos que são acusados principalmente por ateus de conterem "inconsistências" (às vezes quando comparados a outros) e então podermos buscar as respostas que desvendem o "enigma"..

Fica o convite!!

Abraço!!!

Valeu!!

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