quinta-feira, 20 de junho de 2013

A Perpetuidade da Lei de Deus (C. H. Spurgeon) - Parte 04 de 05


Tem sido falado que a inabilidade moral do homem em guardar a Lei perfeita o isenta do dever de guardá-la. Isto é muito especioso, mas totalmente falso! A falta de habilidade do homem não é do tipo que tira a responsabilidade – é moral, não física! Nunca creia que esta será uma desculpa para o pecado! O que? Se um homem se transforma em um mentiroso a ponto de não conseguir dizer a verdade, então ele está, por isso, dispensado da obrigação de ser honesto? Se seu servo lhe deve um dia de trabalho, fica livre da dívida porque se embebedou tanto a ponto de não poder servi-lo? Um homem fica livre de uma dívida pelo fato de haver desperdiçado o dinheiro e, portanto, não pode honrá-la? Um homem lascivo está livre para entregar-se as suas paixões porque não consegue entender a beleza da castidade? Eis uma doutrina perigosa! A Lei é justa e o homem tem um compromisso com ela, embora seu pecado o tenha tornado incapaz de agir de acordo.
Além disso, a Lei não exige nada além do que é bom para nós. Não existe nenhum Mandamento da Lei de Deus que não signifique um sinal de perigo, como aquele colocado sobre o gelo fino. Cada um, por assim dizer, afirma com segurança: “Perigo!” Fazer o que Deus proíbe nunca resulta em bem para o homem! Deixar uma ordem de Deus incompleta nunca resulta na sua felicidade última e verdadeira. As orientações mais sábias para a saúde espiritual e para se evitar o mal são aquelas providas pela Lei de Deus sobre o certo e o errado! Então, ela não pode sofrer nenhuma modificação, pois nos prejudicaria.
Gostaria de fazer esta pergunta a qualquer irmão que afirme que o Senhor nos colocou sob um mandamento alterado: que parte específica da Lei Deus afrouxou? Qual preceito você se sente livre para quebrar? Está liberado o mandamento que proíbe roubar? Meu caro, o senhor pode ser um magnífico teólogo, mas esconderia minhas colheres assim que me fizesse uma visita! Você acredita que foi removido o Mandamento sobre o adultério? Então não recomendaria sua admissão em nenhuma sociedade decente! A Lei sobre o assassinato foi abrandada? Então é melhor que eu esteja em seu lugar do que em sua companhia. De qual lei mesmo Deus o isentou? Da lei de adorar somente a Ele? Você propõe termos outro Deus? Você tem a intenção de fazer imagens de escultura? A verdade é que, quando vislumbramos os detalhes, não podemos permitir que nenhum elo desta maravilhosa cadeia de ouro se perca, a qual é perfeita tanto nas pequenas partes como no todo! A Lei é absolutamente completa e não podemos nem adicionar nem tirar nada dela. “Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos. Porquanto, aquele que disse: Não adulterarás também ordenou: Não matarás. Ora, se não adulteras, porém matas, vens a ser transgressor da lei.” Se, deste modo, nenhuma parte pode ser removida, deve permanecer para todo o sempre!
Uma terceira razão que darei sobre por que a Lei deve ser perpétua é que imaginá-la modificada é muitíssimo perigoso. Remover dela sua perpetuidade é, em primeiro lugar, remover seu poder de convencer do pecado. É verdade que não se espera que uma criatura imperfeita como eu guarde a perfeita Lei? Surge então que não peco quando transgrido a Lei! E se a aspiração a meu respeito é que eu aja de acordo com o melhor do meu entendimento e capacidade, tenho então uma regra um tanto conveniente – e a maioria dos homens cuidará de adaptá-la para desfrutar da maior liberdade possível! Ao remover a Lei você aboliu o pecado, pois este é a transgressão da Lei! E onde não há Lei, não há transgressão!
Na medida em que você excluiu o pecado, pode igualmente ter excluído o Salvador e a salvação – pois são absolutamente necessários! Na medida em que se minimizou o pecado, qual a necessidade daquela grande e gloriosa salvação que Jesus veio trazer ao mundo? Irmãos e irmãs, nada disto deve ter relação conosco! É um claro caminho de enganos. Ao rebaixar a Lei, você enfraquece seu poder nas mãos de Deus como uma Convencedora do pecado. “Pela Lei vem o pleno conhecimento do pecado.” É o espelho que reflete nossas manchas – fato este proveitosíssimo – embora nada, a não ser o Evangelho, pode removê-las -
“Minhas esperanças dos Céus eram firmes e radiantes,
Mas desde que veio o mandamento
Com poder convincente e luz,
Descobri o quão desprezível sou.
Minha culpa parecia pequena então,
Até que terrivelmente enxerguei
O quão perfeita, santa, justa e pura era sua eterna Lei.
Então minha alma sentiu o peso,
Meus pecados reviveram,
Provocara um Deus terrível,
E todas as minhas esperanças desvaneceram.”
O Espírito Santo pode lançar mão somente de uma Lei pura e perfeita para nos mostrar nossa depravação e iniquidade. Diminua a lei e você ofuscará o caminho do homem para reconhecer sua culpa!  Ao contrário do que possa parecer, esta é uma perda grave para o pecador, porque diminui a probabilidade do seu convencimento e conversão.
Você também reduz o poder da Lei de nos guardar para a fé de Cristo. Para que serve a Lei de Deus? Para ser guardada e por consequência sermos salvos por ela? De jeito nenhum! Ela foi dada para nos mostrar que não podemos ser salvos pelas obras e nos guardar para sermos salvos pela Graça! Mas se você entender que a Lei é alterada para que o homem possa guardá-la, o terá deixado com sua velha esperança legalista, à qual ele provavelmente se apegará! Você precisa de uma Lei perfeita que prenda o homem à desesperança de viver à parte de Jesus, o coloque em uma gaiola de ferro, aí o tranque, e que não lhe ofereça nenhum escape diferente da fé Nele! Então começará a clamar: “Senhor, salve-me por sua Graça, pois entendo que não consigo ser salvo pelas minhas próprias obras”.
É como Paulo expõe aos Gálatas – “mas a Escritura encerrou tudo sob o pecado, para que, mediante a fé em Jesus Cristo, fosse a promessa concedida aos que creem.  Mas, antes que viesse a fé, estávamos sob a tutela da lei e nela encerrados, para essa fé que, de futuro, haveria de revelar-se. De maneira que a Lei nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados por fé”. Afirmo que você privou o Evangelho do seu ajudante mais hábil quando desprezou a Lei! Tirou dela o aio que leva os homens a Cristo. Não, ela deve permanecer junto com todos os seus terrores para levar os homens para longe da justiça própria e os compelir a voar para Jesus! Os homens nunca aceitarão a Graça até que tremam ante uma Lei santa e justa! Portanto, a lei atende a um propósito útil e abençoado e não deve ser removida.
Alterá-la significa deixar-nos sem nenhuma Lei. Uma escala regressiva de obrigações é uma invenção imoral, fatal aos princípios dessa lei. Se cada homem deve ser aceito porque faz o seu melhor, todos nós estamos fazendo nosso melhor. Existe alguém que não está? Se crermos nestas palavras, todos os nossos semelhantes estão fazendo o melhor que podem, haja vista suas naturezas imperfeitas. Até mesmo a meretriz das ruas possui alguma virtude -  ela não foi tão longe como outros. Já ouviu falar do bandido que cometeu muitos assassinatos, mas que sentiu que estava fazendo seu melhor porque nunca havia matado ninguém numa sexta? A justiça própria constrói seu próprio ninho, mesmo do pior caráter! Esta é a fala do ser humano: “Se você me conhecesse realmente, diria que tenho sido uma boa pessoa por causa das minhas boas ações. Leve em conta a pobre criatura caída que sou! Considere que fortes paixões foram geradas em mim! Considere as tentações que me acossam com afinco e não me culpará muito! Afinal de contas, ouso afirmar que Deus está tão satisfeito comigo quanto está com muitos que são bem melhores, porque tive tão poucos benefícios”.



Sim, você alterou a norma e agora todo homem agirá de acordo com sua própria consciência e reivindicará estar fazendo seu melhor! Se você mudar o padrão de peso da libra ou da medida do alqueire, certamente nunca obterá um peso ou medida completos de novo! Não existirá nenhum padrão para nossa orientação e cada homem fará seu melhor com suas próprias libras e alqueires. Se a norma é adulterada, você removeu o fundamento sobre o qual negócios são realizados, e o mesmo acontece com os assuntos da alma; cancele a melhor regra que pode existir, até mesmo a própria Lei de Deus, e não restará nenhuma regra digna desse nome! Quão sutil abertura para a altivez! Não é de se estranhar que homens falem da perfeita santificação como se a lei tivesse sido rebaixada! Não existe nada extraordinário em alcançarmos a regra se esta é convenientemente diminuída para nós! Creio que devo ser santificado de modo perfeito quando guardo a Lei de Deus sem omissão ou transgressão, mas até então não!
Se qualquer homem afirma ser perfeitamente santificado porque se aproximou de uma lei própria alterada, fico feliz em saber o que quer dizer, pois não tenho mais nenhum debate com ele! Não vejo nada de maravilhoso nesta conquista. O pecado é minha necessidade de me submeter à Lei de Deus; e até que estejamos em completa conformidade com ela em toda a sua extensão e amplitude espirituais é fútil falarmos sobre santificação perfeita! Nenhum homem fica totalmente limpo até que aceite a pureza absoluta como o padrão pelo qual há de ser julgado. Enquanto existir em nós alguma insuficiência em relação à perfeita Lei, não somos perfeitos! Quão humilhante é esta Verdade de Deus! A Lei não deve extinguir-se, mas deve ser cumprida! Esta verdade deve ser mantida, pois do contrário, relaxaremos em nossa luta; não podemos reforçar o mastro satisfatoriamente; o navio quebra-se em pedaços; restarão só as ruínas! O próprio Evangelho seria destruído se você pudesse destruir a Lei de Deus! Alterar a Lei é brincar com o Evangelho. “Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra.”


>>> continua..


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